Com amor, Titi

Sumário

 

Sumário

 

Biografia

Prólogo                                                                3

Infância                                                                6

Namoro                                                                17

Casamento                                                          26

Filhos                                                                  34

Jajá                                                                      41

Família                                                                50

Legado                                                                60

 

Causos

Filhos Pequenos                                                  65

Filhos Crescidos                                                  94

Netos e Bisnetos                                                123

Morte de Pedrinho                                             149

Lembrança de um Neto                                     152

Nota do Autor                                                    158

 

 

Prólogo

Eu cheguei na igreja do Colégio Maria Auxiliadora no banco de trás do Ford 1928, que meu esposo Pedrinho mesmo restaurou muitos anos atrás. Era um calhambeque antigo de cor azulada e capota preta. Tinha uma buzina do lado de fora e só ligava depois de rodar a manivela na frente. Era um carro com quase setenta anos de idade assim como eu.

Era meu esposo Pedrinho mesmo quem estava dirigindo o Ford 28. Ele parou na igreja e nós descemos juntos. Ele vestia um elegante paletó de cor azul escuro e uma gravata preta. Eu vestia uma roupa em tecido crepe, de cor rosa seco. Era liso na parte superior, mas com bordados dourados na parte mais baixa da manga e abaixo do umbigo até a barra da saia.

Era a comemoração das minhas bodas de ouro com Pedrinho. Era o dia 21 de abril de 1996, que comemorava os cinquenta anos desde que trocamos as alianças pela primeira vez.

Eu entrei na igreja ouvindo minha prima Tula cantar outra vez em meu casamento. Cinquenta anos atrás era apenas uma menina-moça, hoje era uma mulher que manteve o tom afinado do seu canto. Ela cantou a mesma Ave-Maria do meu primeiro casamento. Chorei ao ouvir aquela música. Ela marcou muito a minha vida, tanto por Pedrinho, quanto por Jajá.

O padre Nunes nos recebeu no altar. Ele estava belíssimo, vestindo a mesma batina comemorativa com golas fechadas que eu fiz questão que usasse. Assim, o padre se vestiu no meu casamento de cinquenta anos antes. No fim, trocamos alianças outra vez e, em seguida, saímos para a festa na casa do meu filho Pedrito, no prédio chamado “Leonardo da Vinci”, em frente à Cidade da Criança.

Juntos, eu e Pedrinho recebemos os convidados ao lado dos meus quatro filhos: Manoel Neto, Nininha, Aba e Pedrito.

Em seguida, o fotógrafo chamou meus dez netos para imortalizar esse dia. Primeiro tirei a foto com Manoel Neto, que a gente chama simplesmente de “Neto”, sua esposa Gracinha e seus dois filhos: Victor e Érika. Depois, veio a minha filha Jardna, chamada “Nininha”, com o esposo e Jucá seus dois filhos: Lauro e Marcelo. Em seguida foi a vez de Jarbas, que chamamos de “Aba”, com sua esposa Tânia e seus três filhos: Daniela, Jarbinhas e Daniel. Por fim, vieram Pedro, chamado de “Pedrito”, com sua esposa Valéria e seus três filhos: Pedro, Paulo e a menor da família Priscylla, que tinha quatro anos de idade apenas.

A festa estava linda! Rosas brancas e velas foram colocadas em barquinhos para flutuar na piscina. Fotos da família em porta-retratos ficaram à mostra para os convidados. Girassóis foram espalhados por vários locais do salão de festa. E logo no meio desse salão, em destaque, estava um grande bolo branco e liso com três níveis de altura e detalhes dourados em cima e nas laterais.

Eu e Pedrinho bebemos champanhe juntos, com os braços entrelaçados, para simbolizar nossa união e felicidade.

Estava tudo tão maravilhoso que veio a vontade de reviver tudo aquilo e já me organizar para a festa dos sessenta anos de casado. Eu disse ao meu esposo: “Velho…” –, que era como eu chamava Pedrinho desde os tempos de Jajá, ainda recém-casados. – “Só não invente de morrer nem tão cedo, que eu ainda quero comemorar as bodas de diamante!”

Houve apenas um momento de tristeza. A canção da Ave Maria e as fotos que mostravam Jajá fizeram minha cabeça cair cabisbaixa. Meu filho Jarbas costumava dizer que Jajá era única lembrança que fazia meu semblante mudar.

Afinal, essa é a lembrança de um filho morto. Para uma mãe, ver seu filho partir para a vida eterna, ainda mais em idade tão inocente quanto aos dois anos de nascido, é a pior dor que o ser humano pode passar.

As bodas de ouro não foram apenas a celebração de um casamento, mas a memória de toda uma vida. E creio que esta é uma história que deve ser contada desde o início!

 

 

 

 

 

Capítulo 1

Infância

A vida nos meus tempos de criança era bem mais simples, principalmente, na pequena cidade de Carnaúba dos Dantas. Lá, morei na mesma casa onde nasci, onde adorava quando me chamavam de “Branca-flor”, que era um apelido que meu avô me colocou em razão de minha cor da pele bem branquinha.

Lembro do meu pai sempre com suas roupas simples no sítio Maribondo que herdou do meu avô. Ele estava sempre com um chapéu na cabeça e com sua calça e camisa de botão branca. Ele era um homem rico para os padrões de Carnaúba. Fez sua fortuna modesta com a venda de algodão. Por outro lado, era famoso por ser calmo e caridoso. Sempre que alguém pedia algo, dificilmente negava se estivesse dentro das suas capacidades.

Minha mãe se chamava Maria do Carmo, mas todos a conheciam como Nanan. Ela também era de uma boa família. Viviam de um bom sítio chamado Xique-xique, que era administrado por meu avô, o patriarca José Alberto. Diferente de papai, Nanan era o tipo de mãe dura. Botava a disciplina na família com sua chinela. Queria que todos os filhos estudassem, por isso, me colocou na escola logo cedo. Era diferente do meu pai que, embora acreditasse que mulher não precisasse estudar, achava muito bonito ver as filhas lendo. Por isso, aceitou que eu estudasse como mamãe desejava.

Além de trabalhar em casa, minha mãe Nanan era famosa na cidade por ser uma excelente costureira e tinha um trabalho como agente dos correios local, onde encaminhava as cartas que chegavam para o endereço certo. No entanto, de todas essas coisas, ela era mais conhecida por seu talento como modista e por sua religiosidade. Era famosa pela decoração que fazia nas festas de coroação da Nossa Senhora das Vitórias. Eu mesmo cantei muitas vezes nessas festas em homenagem à santa.

Carnaúba dos Dantas era simples. Não havia telefone, só o da agência dos correios. Todo mundo se conhecia. As cartas eram enviadas e recebidas semanalmente por Acari. As ruas eram de terra. Havia uma rua principal, bem larga, mas de calçadas curtas, com um canteiro de árvores dividindo aqueles que iam para um lado e dos que iam para o outro. As casas eram pequenas. Para ir ao banheiro, todos tinham que dividir a casinha do lado de fora onde ficava uma latrina para fazer as necessidades de cócoras e, para urinar, tinha que ser no urinol.

Mesmo assim, a casa do meu pai era uma das melhores. Era bem grande. Tinha liquidificador de manivela e grande forno a lenha que ficava no meio da cozinha. Foi a primeira da cidade a ter um rádio. Assim, era comum as pessoas ficarem num dos janelões lá de casa, do lado de fora, na calçada, para escutar as notícias no meio da chiadeira em troca de debulhar o feijão que papai plantava.

Era uma verdadeira cidade do interior. Ficava a dois quilômetros do pé do Monte do Galo, que fica dentro da fazenda Xique-xique de nossa família, onde muitas pessoas peregrinam até hoje por motivo do meu tio-avô Pedro Alberto. Quando teve uma febre terrível na Amazônia, que o deixou entre a vida e a morte, este meu tio sonhou com uma imagem de Nossa Senhora. Tio Pedro Alberto passou muitos anos procurando a imagem em todo canto onde ia, pois só ela seria capaz de curar as dores que a doença lhe causou. Certo dia, retornando para sua terra natal, passando pelas ruas de Belém do Pará, tio Pedro Alberto viu uma santa numa pequena lojinha da cidade. Jurou que era a mesma do seu sonho. Ele então comprou a estátua e a levou para sua casa, que ficou sendo visitada por muitas pessoas. A Santa foi colocada depois no alto do Monte do Galo por uma comissão de carnaubenses e hoje recebe visitação de pessoas diariamente.

Na rua principal da cidade, tenho lembrança dos meses de junho quando havia o São Pedro. Lembro que era meu pai quem organizava a festa. Ele colocava as tábuas na rua da cidade em frente à Capela São José e participava da banda de música na cidade. Afinal, Carnaúba dos Dantas tinha fama de ser uma cidade de músicos e de pessoas com problema de cabeça.

Havia uma simpatia na época. Diziam que, sempre que nascesse uma criança na cidade, os pais deveriam jogar uma bola de barro na parede. Se o barro grudasse na parede o menino seria um grande músico. Se caísse no chão, o menino seria doido ou “vexado”, como se dizia na época. Felizmente, meu pai era do primeiro tipo. De doido, não tinha nada. Era um grande tocador e costumava tocar instrumentos metálicos de sopro por horas, em especial, o Bombardino, com sua banda nessas comemorações de São Pedro.

Carnaúba dos Dantas se dividia em duas bandas, que viviam brigando uma com a outra porque cada uma representavam um partido político da cidade. Havia os PRPistas e os Liberais.

Os meus pais se conheceram nos ensaios de uma dessas bandas. Meu pai Miguel Arcanjo saía do sítio dele no Maribondo, perto da Serra da Rajada, que ficava a uma légua de um lado da cidade, para ir até o sítio Xique-xique, que ficava a uma légua do lado oposto. Era muito longe, mas ele não fazia esse percurso só para ensaiar na banda, mas também para ver mamãe Nanan, que era a filha mais velha de José Alberto Dantas, dono do sítio e maestro da banda. Ela tinha dezoito anos de idade e era muito bonita.

Meus pais se conheceram pouco após mamãe voltar de Natal. Segundo meu irmão Milton, ambos estavam dançando num desses ensaios quando minha mãe Nanan escorregou. Ela quase caiu no chão, mas meu pai Miguel Arcanjo conseguiu a segurar e a levantar muito rapidamente. Muitos dos que viram, pensaram se tratar de um novo passo de dança que mamãe aprendeu na capital. E mamãe, para não admitir seu escorrego, confirmou a história e todos começaram a imitá-la.

Carnaúba dos Dantas era assim uma cidade muito simples e festiva. Eu mesmo nunca toquei instrumento embora gostasse de aperrear meu primo Mamebe o imitando tocar a rebeca, como a gente chama o violino. Mas eu sempre gostei mesmo de cantar.

A gente acendia fogueira. Lançava os foguetões para estourar no céu, sempre no clima tranquilo de cidade de interior.

 

Tempos de escola

Quando eu tinha quinze anos de idade, meus pais me avisaram que eu deveria estudar na capital. A cidade de Natal logo se tornaria minha nova casa. Eu já havia viajado algumas vezes até lá com meu pai. Lembro dele sempre bem arrumado nessas viagens, porque ele não gostava de ostentar em Carnaúba dos Dantas.

No sítio em especial, não tinha quem dissesse que ele era rico. Mas na capital era diferente. Ele fazia a questão de se vestir bem. Uma das primeiras coisas que fazia quando chegava em Natal era visitar a Casa Rubi, no Centro, pois era famosa pela qualidade dos tecidos. Deixava de usar a calça de mescla azul do sítio para usar a calça de linho branco sob medida na cidade. Só o chapéu que ele não tirava.

Minha mãe Nanan sempre se preocupou muito com os meus estudos. Ela fez questão que eu fizesse a alfabetização na cidade de Carnaúba, no grupo escolar Caetano Dantas Correia, nome do fundador da cidade. Depois, me enviou para Acari para que eu pudesse terminar o ensino primário no grupo escolar Tomaz de Araújo.  Afinal, Carnaúba dos Dantas era muito limitada na época. Na verdade, nem era um município, porque fazia parte do distrito de Acari, que também englobava muitos outros municípios como Cruzeta e Jardim do Seridó.

Lembro que ela me botava para ficar a noite toda na mesa com o livro na mão enquanto os pés ficavam numa bacia de água fria que era para que eu não dormisse. Lá eu ficava a noite toda me preparando para fazer a avaliação na escola. Não sei se ainda fazem isso hoje, mas na época era assim.

Eu era muito inteligente, mas também era muito esperta. Quando o professor da escola de Acari me fazia uma pergunta difícil, eu dizia que só tinha desorientado e esqueci o que responder, mas que sabia a resposta. Era mentira, eu não sabia mesmo, mas na hora dava certo e o professor me dava um desconto. Mesmo porque eu era muito boa na escola e costumava dar cola aos meus colegas.

Lá em Acari havia apenas o ensino primário, assim eu fiquei animada de ir a Natal para terminar os estudos. Toda vez que eu ia para a capital com meu pai ele me levava para ver uma apresentação de uns homens cantadores lá no Centro, que ele gostava muito, e eu também achava muito bom.

Meus pais decidiram que eu iria estudar no Colégio Atheneu para meninas, que ficava na rua da Cruz [atual Junqueira Aires, na Praça do Estudante, no mesmo quarteirão da prefeitura]. Havia também um Colégio Atheneu só para meninos, que ficava lá na descida para a Ribeira, porque, naquela época, meninos e meninas estudavam separados. [O colégio como hoje está organizado, sem divisão de gênero, na rua Campos Sales, só foi inaugurado em dez anos depois, em 1954].

Nanan já era mais durona, sempre queria saber tudo o que eu fazia e com quem andava, Era muito disciplinadora. Levei uma surra dela com quinze anos de idade por alguma desobediência que eu fiz, mas eu também era danada. Eu segurava o choro e ficava dizendo que a surra nem tinha doído, pois não deixava baixar minha cabeça para ninguém. Até mesmo na preparação da minha festa de quinze anos, minha mãe disse que eu poderia convidar meus amigos. Eu convidei uma amiga de pele pretinha, que ela não gostava.

Naquela época tinha ela e outro tio que não gostava que eu andasse do lado de gente de cor negra. Era outro tempo. Mas eu convidei a menina negrinha para a coroação e, em muitas outras apresentações, marchei ao lado dela. Uma vez levei uma surra por causa disso, mas depois de muitos anos perguntei para Mamãe se ela lembrava dessa surra. E disse que era muita besteira dela.

Minha mãe queria mesmo que eu estudasse o ginásio no Colégio Sete de Setembro, que era famoso por ser um colégio de internato. Então, eu iria morar nos alojamentos do próprio colégio, mas eu fiz as provas para o Atheneu e fui uma das primeiras colocadas. Foi quando meu padrinho Alberto, que morava em Natal, fez questão que eu morasse com ele, com madrinha Mariinha e com meus primos Mariberto, Glorinha e Albaniza, que hoje considero irmãos.

Assim, chegou o dia em que levei todas as minhas coisas para começar os estudos no Atheneu e morar com o “Padim Beta”, que era como eu chamava meu padrinho, na casa dele na capital.

 

Morada na capital

A cidade de Natal era a capital do estado. Não era grande, mas era bem maior que a cidade de Carnaúba dos Dantas. Meu Padim Beta tinha uma casa boa no bairro do Alecrim, mas era bem menor que a minha casa de Carnaúba dos Dantas. Ele foi um pai para mim. E era ele quem contava para minha mãe tudo o que acontecia comigo na capital. Foi ideia dele que eu estudasse no Atheneu e não no Colégio Sete de Setembro porque era mais perto da sua casa e ele conhecia melhor o lugar.

Todo dia de semana eu subia a ladeira da Rio Branco para chegar na escola. Eu ia a pé mesmo que era para não gastar dinheiro com os transportes da época, que eram os bondinhos elétricos que atravessavam a cidade nos trilhos. Minhas melhores amigas da escola todas se chamavam Francisca: Francisca Adélia, que sou eu; mas também havia Francisca Costa e Francisca Maria. Eu quem as ajudava nas aulas, lhes passando a cola por já saber da matéria. Depois da aula, eu voltava para almoçar com a família de Padim Beta, da qual eu já fazia parte.

Nos dias de domingo, as pessoas se encontravam na praça em frente a catedral da cidade, após a missa. Todos se reuniam para conversar nessa praça, chamada André de Albuquerque, e sob a luz dos postes antigos que a iluminava.

As minhas amigas diziam que as outras meninas tinham muita raiva de mim porque eu andava sempre muito bem arrumada. Minha mãe Nanan não era considerada só uma costureira. Ela era uma modista [esse era o nome que se utilizava para as estilistas de moda na época, pois Nanan tinha uma equipe de costureiras para executar os seus desenhos] e assim ela adorava fazer os vestidos para mim. Dizia que eu era a boneca dela. Ela viajava para Recife e Campina para ver as roupas que as artistas da época usavam. Ela fazia os chapéus grandes decorados e os vestidos com o corte da moda. Até minhas amigas me abandonavam quando eu estava toda embonecada porque diziam que os homens só olhavam para mim e não olhavam para elas.

O primeiro galanteio que recebi em Natal foi de um menino que morava na rua de trás à casa de Padim Beta. Era um rapaz que trabalhava num armazém, mas não consigo me lembrar do nome. Também porque não foi importante. Só lembro de receber muitos presentes dele: chocolates, frutas, doces… Esse tipo de coisa. Eu perguntava: “Você está querendo me dar esse presente para eu namorar com você? Se for por isso, não quero”. Ele respondia: “Titi, quero namorar com você, mas mesmo que você não queira namorar comigo, eu quero dar esse presente porque gosto de você”. Aí, ele me dava o presente, mas eu nunca quis ter nada com ele e nunca tive.

Eu não queria nada de namoro. Não estava interessado em arranjar um homem. Estava em Natal pelos meus estudos. Assim, eu pensava. Até o dia em que voltando da escola, que preferi ir para casa pelo bondinho da cidade, vi um rapaz todo alinhado no meio da rua numa motocicleta muito bonita. [Era uma moto da marca Indian. Era de cor escura, tendo o mesmo estilo que consagrou a Harley-Davidson com seus guidões altos e banco inclinado para trás].

Eu não sabia quem era o rapaz, mas estava muito bonito. Vestia um paletó branco e calçados bicolor, como era a moda da época. Ele chamou logo a minha atenção e das minhas amigas.

No banco de trás do bondinho que fazia seu percurso pelo trilho, eu olhava aquele rapaz alinhado. Então falei com minha amiga chamada Enói: “Aquele menino está olhando muito para mim.” Enói contou para minhas outras amigas e todas começaram a brincar comigo. Foi quando eu disse em tom de brincadeira: “Se ele acenar, eu vou acenar de volta.”

Como estávamos prevendo, o rapaz acenou para mim. E, cumprindo o que eu havia dito às minhas amigas, eu dei um tchauzinho de volta. Eu só não podia imaginar que o menino acompanhasse o bondinho em sua motocicleta para descobrir onde eu morava.

Essa foi a primeira vez que eu vi Pedrinho. Nunca poderia imaginar que essa brincadeira terminaria em casamento.

 

Capítulo 2

Namoro

A primeira vez que vi Pedrinho ele estava muito alinhado. Ele vinha de paletó e cabelo bem arrumado. Era bonito e depois fiquei sabendo que era muito namorador também. O pai dele era dono de uma oficina que ficava no Oitão do Cemitério. Era o mestre Nezinho, que era conhecido por ser muito bom de forja. [Ele tinha uma ventoinha grande que aquecia as chamas até o metal ficar rubro e derreter. Esse metal derretido podia se transformar em qualquer peça depois de colocada numa forma de argila desenhada, que chamavam de Tabatinga].

Pedrinho era o segundo filho de cinco homens e três mulheres. Todos os homens ajudavam na oficina. Era uma época em que a regra era trabalhar desde cedo, ninguém estudava, principalmente da família de mestre Nezinho que era pessoa muito patriarcal e machista, mas com um grande senso de humor.

Pedrinho não tinha muito estudo. Só ficou na escola até a quarta série. Mas era muito habilidoso na oficina. Lá, ele e seus irmãos faziam todo tipo de trabalho com ferro: peças de máquinas, ferramentas, automóveis e outras coisas. Pedrinho trabalhava de torneiro e soldador, mas era muito bom com carros. Tinha um grande amor pelas motocicletas. Só com as peças que conseguiu juntar na oficina, ele montou uma moto só para ele. Era nela que ele andava quando lhe acenei. E assim, muito novo, passeava com um grupo de amigos motoqueiros para fazer suas peripécias.

Depois do dia do aceno, Pedrinho descobriu onde eu morava. E não demorou para ele ir atrás de mim, até me encontrar na rua um dia. Ele me chamou para conversar. Depois, fomos passear.

Um dia ele passou com sua motocicleta lá pela casa de Padim Beta logo querendo se amostrar. Achei muito estranho, pois, quando o vi a primeira vez, estava todo alinhado. Agora ele aparecia com uma roupa cheia de graxa e com cheiro de fumaça. Eu nem o reconheci. Tiveram que me dizer depois que era o mesmo rapaz do aceno. Tinha mulher que achava bonito esse estilo, mas eu não gostei muito.

Ele também era atrevido. Queria logo me beijar, mas eu respondia: “Nem venha, que minha boca não é escarradeira”. Deixei claro que ele não ia se aproveitar, que eu não era esse tipo de mulher. Depois ainda descobri que, antes de me conhecer, ele tinha uma namorada no fim da mesma rua onde eu morava. Era uma galega chamada Alice. Na verdade, eram até noivos e Pedrinho acabou o noivado para namorar comigo. Só lembro dela ter muita raiva de mim.

Eu não ligava para ela. Sei que comecei a passear muito com Pedrinho e a gente começou a namorar.

Pouco antes do namoro, todos os jornais anunciaram o início da guerra de 1943. [Era assim que se chamava a 2ª Guerra Mundial, porque foi nesse ano que o Brasil entrou nela]. Não demorou para toda a cidade viver em função da guerra.

Meu irmão mais velho José, que era militar, teve que embarcar num navio e passou muitos anos no mar na base de Fernando de Noronha e em outros lugares. Pedrinho e seu irmão Paulo também trabalharam na cidade como voluntários para ver se havia algum submarino no horizonte ou para ver se todos fechavam suas janelas quando as sirenes tocavam.

[Mesmo antes do Brasil entrar na guerra, já havia se detectado submarinos alemães que afundavam navios na costa. E depois que a base Parnamirim Field foi entregue aos americanos, havia o medo permanente de uma invasão e bombardeio. Por isso, os americanos instalaram sirenes em toda cidade. E, embora nunca tenha havido um ataque, se fazia treinos constantes de blecaute. Pedrinho era exatamente um dos voluntários, que nesses treinos de blecaute saíam de casa em casa com sua motocicleta, para ver se havia alguma luz acesa saindo das janelas. Se tivesse, ele tinha que fechar a janela com o papel preto, garantir que não houvesse frestas ou mandar o dono da casa desligar as luzes].

Também chegaram os americanos na base de Parnamirim que faziam muitas festas. Muitas amigas da minha escola iam para lá. Muitas iam escondidas dos pais. Tive até algumas amigas que acabaram se casando com os americanos e foram morar dos Estados Unidos.

[Essa era a razão pela qual os homens da cidade de Natal odiavam os pilotos e marinheiros que chegavam. Mas também houve vantagens para os natalenses. Por exemplo, asfaltaram a estrada de Natal até Parnamirim, sendo a primeira estrada pavimentada do estado. O irmão de Pedrinho, chamado Paulo, conseguiu trabalhar na base de Parnamirim porque tinha como ir para lá na motocicleta. Lá, ele conseguia peças de motos e reutilizar o combustível americano na oficina. Era muito querido entre os americanos por ser boêmio, tocar o violão e por ser melhor em acrobacias na pequena motocicleta que os americanos nas suas Harley-Davidson. No entanto, mesmo com tudo isso, Pedrinho nunca gostou de militares, principalmente, dos marinheiros que desciam no porto de Natal para querer namorar com as meninas da cidade].

Eu nunca fui para as festas dos americanos, nem dos pilotos em Parnamirim, nem dos marinheiros do Porto. Eu estava namorando com Pedrinho. A verdade era que a guerra não era a minha maior preocupação. Estava mais preocupada com o recado de mamãe Nanan para o Padim Beta.

Ela queria saber quem era esse rapaz que eu estava namorando.

 

Namoro tumultuado

O Padim Beta não conhecia Pedrinho nem os seus pais, mas recebeu muitas boas informações de tio Nicandro, seu irmão, que também morava em Natal e costumava fazer serviços na oficina.  Ele tentou descrever Pedrinho da melhor forma possível para mamãe. Disse que era de uma família humilde, mas bastante trabalhadora.

O mestre Nezinho nem apresentava, nem possuía riquezas. Na verdade, ele não tinha mais que a oficina no oitão do Cemitério do Alecrim, na rua América, onde morava na casa vizinha, e duas casas que ficavam na rua Borborema, logo atrás, onde trouxe sua mãe e suas tias para morar. Fora isso, sua última posse era um carro popular que, de tão pouco utilizado e de tão pouco valor, anos depois o mestre Nezinho o doaria para um amigo que passava dificuldade.

A tentativa de Padim Beta de descrever a família de Pedrinho como algo que agradasse minha mãe Nanan não teve sucesso. Minha mãe logo disse que o namoro deveria acabar e que eu só poderia ter algum namoro sério quando terminasse os estudos. Tinha que pelo menos terminar o ginásio para isso.

Além disso, minha mãe desejava um homem que tivesse mais condições de me sustentar. [Afinal, a oficina sustentava o mestre Nezinho, mas havia ao todo sete filhos. Todos dependiam do trabalho na oficina para sobreviver e, quando estes se casassem, a mesma oficina não teria condições de sustentar oito famílias diferentes]. As palavras de Padim Beta, por mais lisonjeiras que fossem a favor de Pedrinho, não agradaram nem um pouco a rígida Nanan.

As coisas não estavam muito tranquilas em Carnaúba dos Dantas. Os adversários políticos de papai atacaram seu armazém de algodão. Ele perdeu toda uma colheita que venderia ao seu costumeiro comprador Chico Seráfico. Foi um grande prejuízo. Além disso, eram minhas férias da escola. Assim, eu decidi retornar à Carnaúba dos Dantas para convencer mamãe sobre Pedrinho. E ela também queria falar comigo. Mas nem precisou ela começar a reclamar, pois seria Pedrinho quem criaria problemas no nosso namoro.

Ele era muito namorador e eu fui descobrindo coisas até mesmo depois de nos casarmos. Por exemplo, certa vez, quando estava na casa de uma vizinha Maílde, ela começou a me mostrar umas fotos de família. De repente, a foto de Pedrinho estava entre elas. Eu logo perguntei: “Onde você conhece o rapaz dessa foto?”

Ela me respondeu dando um sorriso: “Ah! Esse foi um rapaz que certa vez conheci num ônibus para Caicó. Passamos o caminho todo conversando e, no fim, quando desceu do ônibus, ele me deu essa foto para eu me lembrar dele.”

Eu fiquei muito surpresa quando vi aquela foto. Nem em segurei, já fui dizendo: “Esse é o meu Pedrinho!”

Foi muita coincidência eu ter encontrado aquela foto ali, pois Maílde nem sabia que era Pedrinho, nem o reconheceu quando o reviu. Mas ali descobri que Pedrinho galanteou outras meninas enquanto namorou comigo. De início, eu nem conseguia acreditar, mas, conversando com Maílde descobri que esse galanteio ocorreu no caminho para Carnaúba dos Dantas, numa das viagens para me visitar.

Eu não fiquei com raiva de Maílde. Na verdade, ela era muito simpática e inteligente. Fiquei amiga dela depois nos anos que moramos vizinhas. Fiquei com raiva de Pedrinho.

Já sabendo de coisas assim, nesse tempo do namoro, eu fiquei mais tempo em Carnaúba dos Dantas que o esperado. Não queria nem olhar na cara de Pedrinho.

Por várias vezes, Pedrinho me escreveu cartas pedindo desculpas. Eram muito bonitas. Tinham muita poesia. Mas eu não vi essas cartas em Carnaúba. Só fui ver depois, porque minha mãe Nanan trabalhava nos correios e, toda vez que chegavam as cartas com o nome de Pedrinho para o endereço dela, ela colocava o carimbo: “Destinatário Não Encontrado”.

Só fui falar com Pedrinho muito depois. Só quando acabaram as férias da escola e eu voltei para Natal.

 

Confusões do noivado

Quando cheguei em Natal, Pedrinho foi logo lá em casa para se explicar. Falou aquelas coisas sobre se arrepender. Pediu desculpas. Mas eu não o queria mais. Ele perguntou das cartas que havia me mandado e eu disse que não havia recebido nada. Não tinha chegado nenhuma carta dele para mim lá em Carnaúba. Quando me ouviu dizer isso, Pedrinho saiu muito nervoso.

Só voltou lá em casa para me encontrar depois de muitos dias. Ele me levou uma aliança de casamento. Disse que já tinha falado com a família dele e com Padim Beta para avisar que ia me pedir em casamento. Disse também que o padrinho havia me dado a benção e que ele podia noivar comigo. Depois, mostrou as cartas que me enviou em Carnaúba dos Dantas e que eu nunca tinha visto.

Como minha mãe carimbava “Destinatário Não Encontrado”, as cartas voltaram todas para Natal pelo correio. Ele então me mostrou as cartas e eu as li. E elas eram muito bonitas mesmo.

Pedrinho preparou tudo para que eu não pudesse recusar o pedido. Desde a benção de Padim Beta até as alianças e as cartas. A gente noivou, colocando as alianças no dedo e marcando o casamento para dia 21 de abril de 1946, dia do feriado de Tiradentes. Mas eu ainda não tinha perdoado Pedrinho. Não estava convencida do casamento.

Eu decidi me casar com ele de verdade quando voltei para Carnaúba dos Dantas para os preparativos. Cheguei lá e descobri que fui escolhida para ser a “Rainha da Festa de São José” nas comemorações do padroeiro da cidade, no dia 19 de março de 1946.

Foi outra festa muito bonita como só Carnaúba dos Dantas sabe fazer. Teve muita comida, bebida e música. E naquela época a gente tinha que ficar bem perto dos músicos para escutar os instrumentos. Também teve uma dança no meio da praça com todo mundo olhando. E eu dancei muito nesse dia com meus primos.

Na festa também estava Severo e Chico Lino, que eram muito amigos de Pedrinho e foram logo me enredar. Pedrinho ficou cheio de besteira e depois foi lá reclamar. Veio todo com raiva para cima de mim: “Severo me disse que você estava muito animada dançando na festa. Por isso, quero saber se você dançou na festa com homem ou com mulher?”

Como eu gosto de dar resposta mesmo, fui logo dizendo para ele: “E eu ia dançar com mulher, Pedrinho? Claro que dancei com homem! Deixe de besteira, que não tem nada!”.

Pedrinho ficou mais nervoso com minha resposta. Quis avançar para cima de mim. Aí, eu respondi: “Eu danço com quem quiser. Agora, se você vier para cima de mim, eu bato em você!”.

Quando Pedrinho viu que eu estava ficando mais brava que ele, se afastou de mim. E, para não sair perdendo, falou todo indignado: “Pois acabou o noivado, não vou mais usar essa aliança!” – e já foi tirando o anel do dedo.

Como eu não fico calada, eu respondi na mesma hora: “Pedrinho, você pode acabar o noivado se quiser, mas eu não vou acabar com você! Vou continuar usando a aliança!”.

Pedrinho deu as costas e foi embora da festa todo nervoso, mas eu não tirei a aliança. Nem ia tirar, pois agora eu estava decidida a me casar. Também não demorou para Pedrinho ir lá em casa pedir desculpas, já com a aliança de volta ao dedo. Nem precisei mandar ele botar de volta.

Só faltava mais um problema para resolver. Eu já sabia que Padim Beta deu a benção para Pedrinho me pedir em noivado tendo só falado com papai, mas mamãe só soube dessa história depois. Por isso, antes mesmo de encontrar com Nanan em Carnaúba, eu já sabia que ela não estava contente com o meu noivado. Eu queria que ela costurasse o meu vestido de casamento, mas ela logo se negou.

Minha mãe Nanan foi logo falando que não ia deixar eu me casar com Pedrinho.

 

 

 

Capítulo 3

Casamento

Nunca pensei em me casar em outro lugar que não fosse na minha terra natal de Carnaúba dos Dantas. A Capela São José era exatamente em frente à casa onde nasci, que ficava na rua principal. Eu e Pedrinho faríamos a cerimônia na capela com todos os convidados e todo mundo só atravessaria a rua para comemorar em frente lá de casa.

Meu pai estava animado com a união. Ele bancaria tudo. Pagaria por todos os comes e bebes; e a decoração também. O lugar era perfeito. A rua era larga. Tinha árvores no canteiro que ficava entre as duas pistas para que todo mundo ficasse protegido e a gente pudesse colocar as lâmpadas para iluminar melhor.

Pedrinho chegou bem depois, faltando apenas alguns dias. Ele saiu de Natal e desceu na Serra da Rajada porque os ônibus não chegavam até Carnaúba. Na verdade, nem era ônibus era um misto. [O misto era um caminhão pequeno com duas ou três fileiras de banco que ficavam numa carroceria chamada “Bicho”. Era o único meio de transporte coletivo além do pequeno ônibus na época chamado de “Sopa”]. Era tão lento que de Natal para a Serra da Rajada eram quase doze horas de viagem. Pedrinho saiu de quatro horas da madrugada de Natal e só chegou ao seu destino de quatro horas da tarde.

Além disso, para ir da Serra da Rajada até a cidade de Carnaúba dos Dantas tinha que ser a pé ou com algum animal para fazer ligação. Ele conta que veio assoviando a música “Capricho do Destino” pelo caminho até que parou numa casa porque estava com muita sede. Ele se aproximou do morador, chamado Joel, e pediu uma água. E este logo se prontificou em ajudar.

Ele disse: “Vá no pote!”, que era uma frase muito comum da época para dizer que ele podia entrar na casa e pegar a água direto da jarra que ficava na sala. Pedrinho só não gostou quando Joel, o observando muito bem arrumado e de branco, lhe perguntou: “Você é marinheiro?”

Pedrinho tinha muita raiva de militar, mas tinha uma raiva especial de marinheiros. [Afinal, a guerra levou muitos homens jovens à cidade de Natal, praticamente, dobrando o tamanho dela, que era de cinquenta mil pessoas, com milhares de soldados jovens e atléticos para competir com os moços natalenses.]. Por isso, Pedrinho não gostou da pergunta. Disse que quase voltava dali com esse comentário.

Enquanto isso, eu, que havia chegado em Carnaúba antes, fui falar com mamãe. Cheguei logo lhe perguntando: “Que história era essa das cartas de Pedrinho terem voltado com ‘Destinatário Não encontrado’?”. Afinal, ela quem trabalhava nos correios se era o endereço da casa dela nas cartas. Ela disse logo: “Eu escondi mesmo! Não queria que você se casasse!”.

Eu respondi: “Você não podia ter feito isso!” – E completei – “Você podia ser presa se Pedrinho quisesse chamar a polícia.”

Mamãe não se arrependeu do que fez em nenhum momento. Nanan sempre foi braba comigo e com meus irmãos. Mas eu nunca ficava calada. Sempre fui muito respondona. Quando era pequena que ela me batia com sua chinela, eu dizia que não doía só para ela ficar com raiva. Nesse dia, eu também respondi no mesmo tom: “Quando você quis se casar, você se casou com meu pai. Agora que eu escolhi meu marido, você não quer que eu me case?”

E ainda disse mais: “Pois eu vou me casar mesmo sem você querer.”

 

Cerimônia de Casamento

Mamãe não recuou da decisão. Quem fez o meu vestido branco de noiva foi minha tia Olívia, que também era modista como mamãe. E ficou muito bonito. Era todo rendado, até nas suas longas mangas e nas ombreiras altas. O véu descia desde a flor que prendia meus cabelos do lado esquerdo da cabeça. E, com o corselete branco apertado, minha cintura fina era exaltada. Minha mãe apareceu na casa de tia Olívia só uma vez quando já estava fazendo os ajustes do vestido. Foi lá só para tentar me convencer de desistir.

Mamãe viu logo que não ia me convencer e a conversa voltou a virar discussão. Ela começou a fingir que orientava minha tia no ajuste do vestido só para me dar “muxicão”, que era como a gente dizia no interior quando a agulha da costureira machucava a gente. No fim, mamãe foi embora dizendo que não iria no casamento.

Diferente de mamãe, papai estava muito feliz. Ele preparou toda a festa. Acendeu a fogueira. Colocou as lâmpadas na rua. Chamou os músicos amigos. Estava tudo muito alegre no domingo 21 de abril de 1946, o dia do meu casamento. Depois, Pedrinho costumava brincar que esse dia homenageava dois mártires. Tiradentes e ele, que que se casou nesse dia. Antes eu ficava com raiva dessa frase, mas hoje rio toda vez que lembro dele dizendo isso.

Ele chegou de surpresa, antes do esperado, em Carnaúba dos Dantas. Todos já o conheciam e o adoravam, Só mamãe sempre se negou a conhecê-lo. Ele ficou hospedado na casa de tia Olívia enquanto eu continuei na casa de papai, que ficava em frente à igreja.

A cerimônia ocorreu na igreja, na época Capela São José, em frente à casa onde nasci como eu planejei desde o começo.

Meu pai me levou ao altar sozinho até Pedrinho. Eu entrei ao som de “Ave Maria” que cantada por uma menina-moça chamada Tula, que, como toda boa Carnaubense cuja bola de barro ficou na parede, era uma grande cantora. Cinquenta anos depois, quando comemorei as bodas de ouro com Pedrinho, ela iria cantar a “Ave Maria” para minha entrada na igreja outra vez.

As flores da decoração estavam lindas. O padre estava bem arrumado com a gola bem fechada. Todos os meus familiares estavam lá. Meu irmão mais velho José Alberto, o “Dedé”, que era militar; meus irmãos mais novos: Manuelito, Milton e Rubens; e minhas irmãs Elisabete, “Tatá”, e Maria Aparecida, “Tilda”, que eram as caçulas da família Dantas. Também estava lá Antônia que entrou na casa de papai para cuidar de mim como uma babá, mas que mamãe acabou a adotando como filha. Todos estavam muito alegres. Foi tudo muito bonito.

Só minha mãe não estava lá comigo. Nanan fez o que prometeu. Ficou em casa sozinha enquanto todos estavam na cerimônia.

Bastava atravessar a rua que já estaria na igreja, mas ela não quis. Ela era muito famosa pelo seu bordado e por sua decoração, pois era acostumada a fazer a festa de coroação de Nossa Senhora. Eu queria que ela tivesse costurado o meu vestido de casamento e feito a decoração da festa. Tenho certeza que teria ficado muito bonito com sua mão. Mas ela nem foi para a igreja, nem para a festa.

Depois, meu filho Neto a perguntaria: “Você não deu nem dado uma espiada na igreja para ver a filha se casando?” Afinal, a janela da igreja era larga, de um metro e meio de largura, o que permitia para quem estava do lado de fora ver todo o altar. E mamãe p respondeu: “Dei sim. Fiquei só no canto da janela lá de casa, mas não fui para o altar porque não queria o casamento”.

A festa também foi muito animada, mas no fim eu voltei para a casa de papai e Pedrinho voltou para a casa de tia Olívia. Naquela época, não havia essa coisa de lua de mel como se faz hoje. Na verdade, na mesma semana, Pedrinho já teria que voltar à oficina para trabalhar. Por isso, fomos a Acari no dia seguinte para poder pegar o Misto de volta a Natal.

Só em Natal a gente poderia viver nossa vida de casado.

 

Vida de casada

A família de Pedrinho nunca teve posses, nem propriedades, mas mestre Nezinho ofereceu uma das casas que possuía no mesmo quarteirão de onde ele morava, na rua Borborema. Essa era a casa que a mãe de Nezinho, chamada Beatriz, morou até seu falecimento. Era fundo com fundo da oficina. Tinha até um conjugado que permitia passar de uma para a outra.

Essa foi nossa primeira casa. Era de taipa, bem simples e era muito baixa. Um homem muito alto não conseguia entrar nela sem arrastar a cabeça no teto. Era tão estranho no começo que, sempre quando recebia alguém nela, eu acabava falando da casa do meu pai em Carnaúba que era grande e bonita para saberem que eu era de uma boa família.

Era tudo muito diferente. Na primeira semana, quando Pedrinho voltou do trabalho na oficina, ele me encontrou aos prantos, chorando. Ele ficou muito aperreado. Pediu logo perdão por não conseguir me dar uma vida melhor. Pensou que eu tinha me arrependido de me casar com ele. Eu nem conseguia falar de tão desesperada, o que deixou ele mais nervoso. Só depois de eu me acalmar, eu disse a ele que estava triste porque não era uma boa esposa. Não sabia nem acender a lenha do forno para fazer o jantar dele.

A mãe dele, dona Nenzinha, teve que ir lá em casa para me ensinar como usar o fogão. E quem disse que eu aprendi fácil? Passei a semana toda de olho nele para não acabar a lenha com medo do fogo se apagar e eu não conseguir mais acender. Foi uma semana com o fogo aceso de manhã, tarde, noite e madrugada.

Pedrinho gostava de me presentear com perfumes e meu sogro, mestre Nezinho, que por morar próximo, vivia lá em casa. Quase todo dia, ele entrava lá em casa para pegar os extratos franceses que eu usava para me perfumar. Muitas vezes, entrava em casa até quando eu não estava e sempre sem avisar. Ele fazia isso para colocar no seu “Rapé”, que era um tipo de fumo muito usado na época. O rapé causava uma ardência no nariz que dava um espirro bom e abria a respiração. Ele gostava muito do Rapé dele.

Eu tive que ir lá em mestre Nezinho para perguntar: “Ô, Nezinho, você está indo na minha prateleira para pegar meus extratos sem me avisar?”. Só depois disso, ele me confirmou e revelou: “É que o Rapé fica muito melhor com esse extrato francês!”

No início eu comecei a esconder meus extratos, mas depois eu mesma fiquei comprando os extratos para ele. Ele me dava o dinheiro. Eu escolhia as que ele gostava para colocar na maleta que ele carregava com o rapé e os extratos de diferentes cheiros.

A mudança em nossas vidas também não foi fácil para Pedrinho. Lembro que ele ficou assustado com os gastos de casa. Feira. Produtos de Limpeza. Roupas. Consertos. E outras coisas. Uma vez ele veio me dizer: “Titi, você é muito gastadeira!”

Claro que eu não ia o deixar sem resposta. Então eu disse logo: “Então quem mandou se casar? Só tem mulher quem pode. Mulher é luxo! Você não sabia, não?”

 

 

Capítulo 4

Filhos

A família de Pedrinho tinha uma ideia muito diferente da minha família sobre a educação de suas mulheres. Meus pais sempre me incentivaram a estudar. Por isso, apesar de Pedrinho ter concluído apenas a quarta série, sempre que escrevia algo, ele me mostrava antes para corrigir os erros de português. Para se ter ideia, até mesmo meu casamento com Pedrinho ocorreu contra os conselhos de mestre Nezinho aos filhos.

Certo dia, o mestre Nezinho juntou primeiro suas filhas Beatriz e Arlete para dizer que elas deveriam estudar para não serem dependentes do marido, porque depois o marido podia fazer o que quiser com elas. Dizia para elas terem sua profissão para não serem humilhadas e controladas. Logo depois, chamou os filhos homens Paulo, Pedrinho, Toinho, Jack e Janser para dizer: “Não case com mulher independente senão você não vai mandar na sua casa!” Ou seja, era uma rega para as filhas e outra totalmente diferente para os filhos.

Por motivo dos conselhos de mestre Nezinho e a pedido de Pedrinho que os seguiu, eu abandonei os estudos e nunca trabalhei depois do casamento. Sempre vivi para meus filhos. Era dever do homem pagar as contas de casa. Até mesmo o dinheiro que meu pai Miguel Arcanjo sempre me enviava de tempos em tempos, era uma afronta para meu esposo. Eu em comentava sobre esse dinheiro que usava para comprar coisas para mim e meus filhos.

Pedrinho também era muito ciumento. Um amigo de Pedrinho uma vez conversando, estando eu, ele e Pedrinho, juntos, falando sobre uma coisa e outra, o amigo tocou de forma inocente no meu ombro. Só foi o amigo sair, Pedrinho disse logo para mim: “Eu não gostei desse negócio dele botar a mão no seu ombro”. Aí, eu respondi: “E eu tenho culpa? Eu não botei meu ombro para ele pegar!”.

Nesse mesmo dia, quando o amigo fez a mesma coisa, não deixei nem Pedrinho reclamar. Disse para esse amigo: “Está vendo Pedrinho aí?” – então apontei para meu esposo, – “Pois tire a mão do meu ombro que ele é meu marido e não gosta que ninguém pegue no meu ombro”. Assim, o problema foi resolvido.

Pedrinho reclamou que ficou com vergonha por eu ter falado assim na frente do amigo, mas também ele nunca mais colocou sua mão no meu ombro. E sempre que acontecia, eu fazia a mesma coisa, porque eu também não gosto desse tipo de intimidade.

Eu fui criada numa família muito católica. Tive uma educação muito rígida. Fui ensinada que o papel da mulher era para criar uma família. Mas a obrigação de ter relação sexual nunca me agradou. Sempre achei os movimentos muito bruscos. Nem mesmo conversei sobre isso com minha mãe antes de me casar. Na verdade, como ela era contra meu casamento, nem tivemos oportunidade de conversar sobre isso ou qualquer outra coisa.

Meu marido Pedrinho sempre reclamou de eu não o procurar e muitas vezes de eu me negar a ter alguma coisa com ele. Mesmo assim, éramos recém-casados e não demorou para chegarem nossos primeiros filhos.

Eu e Pedrinho nos casamos em abril de 1946. No mês seguinte já estava sentido os enjoos da gravidez.

 

Nascimento dos Filhos

Meu primeiro filho tinha o nome do mestre Nezinho. A gente o chamou de Manoel Neto. Nasceu em janeiro de 1947. Meu filho Manoel Neto brincava com Pedrinho dizendo que essa história de nosso filho ter nascido oito meses era conversa. Dizia que eu e Pedrinho dormimos juntos antes do casamento e por isso ele nasceu em janeiro. Só que quando falava isso Pedrinho ficava logo com raiva.

Ele dizia: “Então o filho é de outro, porque eu e Titi não tivemos nada até nos casarmos!”

E era besteira do meu filho porque eu e Pedrinho só dormimos juntos muitos dias depois do casamento. Nem quando a gente ficou em Carnaúba dos Dantas a gente ficou junto lá, porque Pedrinho ficou na casa de minha tia Olívia e eu fiquei na casa dos meus pais.

Nós só ficamos na mesma cama já em Natal e ainda assim minhas amigas curiosas iam de vez em quando perguntar se eu já tinha dormido com Pedrinho e eu passei muitos dias dizendo: “Ainda não!”, até porque fomos primeiro para a casa de Mestre Nezinho e dormíamos num quarto que só era separado do resto da casa por meia parede. Só depois fomos para a casa de Taipa na rua de trás.

Eu tive Manoel Neto com a ajuda de uma parteira chamada dona Nuca. Ele nasceu na mesma casa de taipa onde morávamos, na rua Borborema. Dona Nuca já tinha sua maleta pronta na sua casa. Bastava a mulher grávida sentir as dores que já era chamada. E não demorou para a gente chamar ela de novo.

Um ano depois que nasceu Manoel Neto, que chamávamos só de Neto, veio o segundo filho. Demos o nome de Jarbas, que chamávamos Jajá.

Eu e Pedrinho nem completamos dois anos de casamento e já estávamos com dois filhos para criar. Não há dúvidas que a situação era apertada só com o salário que Pedrinho ganhava na oficina de Mestre Nezinho com sua profissão de torneiro e soldador. Ele ficava até tarde da noite fazendo roletas de jogo para parques de diversão para completar a renda. Mas Pedrinho era muito inteligente e começou a investir na oficina do pai para conseguir ganhar mais.

As máquinas da oficina eram muito antigas. Por isso, Pedrinho comprou uma meia dúzia de equipamentos novos. Era um torno, uma fresa, uma furadeira e outras coisas. Ele achou que Mestre Nezinho ia ficar feliz de ver o filho colocando dinheiro no ofício do pai, pois ele acreditava mesmo que podia fazer a oficina crescer. Ao contrário do que ele esperava, o pai o chamou para conversar.

Meu marido Pedrinho disse que foi um dos momentos mais tristes de sua vida quando o pai disse que ele deveria deixar a oficina.

Mestre Nezinho disse que a oficina já sustentava Paulo, ele e Toinho; e logo os irmãos mais novos Jack e Janser precisariam entrar na oficina também. Disse que com a chegada das noras: eu, casada com Pedrinho, e Lurdinha, casada com Paulo, logo a oficina não ia conseguir sustentar todo mundo.

Essas palavras deixaram Pedrinho muito triste. Pareceu que seu pai não o queria mais por perto. Ele sentiu como se estivesse sendo expulso da oficina.

Só depois de muito tempo, Pedrinho entendeu que seu pai percebeu que ele era uma pessoa com mais discernimento que os irmãos. Sabia que era o filho com mais capacidade de crescer sozinho. Tinha medo que se Pedrinho ficasse preso aos irmãos acabaria sendo prejudicado.

Só que era o momento que eu e Pedrinho mais precisávamos daquele trabalho para sustentar nossos filhos.

 

Doença na família

Foi uma situação difícil. Pedrinho ainda passou um tempo na oficina, pois o pai não ia deixá-lo ficar sem um trabalho para sustentar sua família. Aos poucos Pedrinho começou a buscar outros empregos. Ele começou a vender e comprar carros usados, depois chegando a fazer treinamento e trabalhar para a loja Marpas de carros novos.

Chegou o momento em que Pedrinho teve que pedir dinheiro emprestado ao sogro Miguel Arcanjo. Afinal, meu pai tinha dinheiro, era dono de terras e vendedor de algodão. Era um empréstimo de algo em torno de sete mil cruzeiros, os quais meu pai se prontificou a lhe dar, sem a necessidade de devolver. Ele foi resoluto em dizer: “O que é de Titi é seu!”

Com o dinheiro, Pedrinho comprou alguns carros para transporte de pessoas. Era uma Perua, que tinha as portas de madeira [uma Stationwagon] para fazer lotação e mais tarde comprou dois carros bonitos [um Hilmann e um Austin] para fazer de carros de praça, que era como se chamava os taxis na época, fazendo ponto na rua Princesa Isabel.

As coisas pareceram melhorar um pouco, pelo menos na parte do dinheiro, mas esse período de tranquilidade durou pouco. Logo após completar dois anos de idade, meu segundo filho Jajá começou a se sentir muito doente.

Jajá já falava muita coisa. Gostava de correr pela casa. Era muito esperto e engraçado. Na época, eu tinha vinte e poucos anos, mas ele chamava eu e Pedrinho de “Velho” e “Velha”. Não sei onde ele aprendeu isso, mas eu achava muita graça. Ele me fazia rir demais com as coisas dele. Por isso, eu fiquei muito triste quando ele começou a sentir umas coisas estranhas na barriga.

Eu nem lembro mais como era, porque já faz muito tempo e eu não gosto nem de lembrar. Sei que ele ficava com a barriga estufada e sentia muitas dores. Chorei muito sem saber o que fazer.

Eu levei Jajá para o pediatra da família, que sempre cuidou dele e de Neto. Era o doutor Creso Bezerra de Mello. Sei que as coisas de Deus a gente não pode se revoltar, mas a situação foi horrível dentro do consultório. Doutor Creso conversou comigo. Palpou a barriga de Jájá. Perguntou mais outras coisas. Ficou com a cara bem séria.

Foram muitas consultas para ele chegar à conclusão de qual doença Jajá tinha e as dores só pioravam. Os exames também só ficavam cada vez piores. Um dia, doutor Creso sentou comigo. O rosto dele estava mais sério e preocupado do que nas outras consultas.

Foi quando ele disse: – “Seu filho está com uma doença muito grave no fígado!”

 

 

 

 

 

Capítulo 5

Jajá

O mestre Nezinho nunca confiou em médico. Ele tinha um cortiço no quintal de sua casa para atrair abelhas. Assim, era comum as mães do bairro chegarem lhe pedindo mel quando seus filhos estavam encatarrados, pois Nezinho propalava que era um santo remédio. Era tanta mãe pedindo que mal sobrava para fazer sobremesa. Ele teve que começar a dizer que as abelhas vinham direto das flores do cemitério na frente de sua casa. Só assim ele conseguia fazer as mães desistirem de lhe pedir mais mel para que sobrasse algum para ele comer.

Além disso, ele só acreditava em reza e cuidado, por isso, havia uma música que ele aprendeu quando era moço e depois ensinou aos filhos. Era uma música que fazia ridículo dos médicos.

Quando o povo acelerado

Com horror à palmatória

Por causa dessa ameaça

Da vacina obrigatória.

 

Indignados da ciência

Estão tramando outra vez

Enfiar o ferro à pulso

Bem no braço do freguês

 

Quando o ferro ia entrando

A velha fez uma careta

Doutor quase deu um desmaio

E eu vi a coisa ficar preta.

 

Foi quando eu disse ao doutor

Que enfiasse até o cabo

Que a velha é minha sogra

E é levada dos diabos!

 

[A música faz referência à Revolta da Vacina de 1904].

 

Por causa do seu pai Mestre Nezinho, o meu marido Pedrinho no início também não confiava tanto nos médicos. Ele não acreditava que a doença de nosso filho pudesse ser tão perigosa.

Infelizmente, por mais que eu tentasse o remédio dos médicos e os chás que me passavam, Jajá continuava piorando.

Pedrinho sempre perguntava sobre as explicações do médico quando eu voltava do consultório, mas, como nunca eram boas notícias, ele nem queria escutar mais. [Vale lembrar que era o fim da década de quarenta quando os antibióticos não tinham nem vinte anos desde descobertos, nem havia medicamentos com padronização segura, nem técnicas apropriadas de assepsia nas cirurgias, muitos médicos até diziam que cigarro podia fazer bem aos pulmões, por isso, muitas pessoas preferiam acreditar nas curas religiosas que na medicina. Muitas pessoas até acreditavam que os médicos podiam fazer mais mal à saúde que bem, o que em muitas situações acabava sendo verdade].

Eu continuei levando Jajá para o médico, sem muita resposta. Ele piorava mais a cada dia. Finalmente, o médico ficou sem ter mais o que fazer. Ele chegou enfim à mais uma terrível conclusão.

Ele disse para mim e para Pedrinho que: “Jajá vai precisar de uma cirurgia para a doença no fígado. É uma cirurgia que ninguém aqui em Natal tem condições de fazer. Ele vai ter que ir para Recife”

O médico foi ainda mais duro. – “Ele tem grande chance de morrer na cirurgia, mas também é sua única chance. Se não fizer nada, ele vai morrer!”

Era uma situação realmente triste. Pedrinho ficou muito nervoso como estado de Jajá. A gente não sabia o que fazer. Não tinha nenhum médico em Natal que podia o operar. Nossa única chance era esse médico de Recife. Por isso, a gente começou a arrumar as coisas para ir até lá e escutar o que ele tinha para dizer.

Nessa época, meu marido Pedrinho já tinha ido para Carnaúba dos Dantas mais de uma vez. Ele conheceu meu tio Pedro Alberto e sabia da história de como ele curou suas dores graças à Santa do Monte do Galo.

Pedrinho decidiu que a melhora chance de nosso filho Jajá se salvar da doença seria com a graça de Nossa Senhora das Vitórias.

 

Negociação com Nossa Senhora

Tio Pedro Alberto era conhecido na cidade de Carnaúba porque o que ele tinha de religioso, ele também tinha de bruto. Ele tinha um comércio na cidade, mas um dia teve de fechar o comércio mais cedo para ir à igreja pedir por sua saúde, pois sofria de muitas dores por causa de um Malária que o deixou entre a vida e a morte enquanto trabalhava ri Tapajós no Amazonas, pois era soldado da borracha lá.

Quando estava fechando o comércio nesse dia, um rapaz perguntou ao meu tio “Vai fechar o comércio para quê?”. E meu tio respondeu: “Vou para igreja orar pela minha saúde”. O rapaz não satisfeito tentou convencer meu tio a não fechar o comércio: “Você vai só perder tempo, pois eu nunca fui para igreja e tenho uma ótima saúde.” Meu tio, tão religioso, respondeu logo com sua delicadeza: “Isso não é parâmetro, porque eu tenho um jumento lá no sítio que nunca foi numa igreja e também tem uma ótima saúde!”. Era assim que ele tratava quem o contradissesse.

A história do monte do galo começou com um sonho do meu tio Pedro Alberto. Ele já ardia em febre por três dias e três noites, dormindo e acordando, até que no seu delírio febril a Santa apareceu. Ela lhe disse: “Volte a sua terra com uma imagem minha se quiser ser curado!”. Tio Pedro Alberto então indagou: “E quem é a senhora que veio me salvar?”, o que a santa prontamente respondeu: “Sou Nossa Senhora das Vitórias, sua protetora.”

Cessada a febre e revigorada suas forças, Tio Pedro Alberto tinha a certeza de que a Nossa Senhora seria a única capaz de curar as fortes dores que continuaram a lhe acometer. Após esse sonho, meu tio tentou descrever a aparência da Santa para todo mundo que ele conhecia. Fazia desenhos. E ninguém sabia que Santa era aquela.

Pouco depois, quando estava voltando para sua terra de origem, passando pela cidade de Belém do Pará, esse meu tio passou por uma loja com várias santas. Ele viu uma que estava na prateleira mais baixa, bem escondida, porque o vendedor tinha apreço pessoal por ela. Ele jurou de pé junto que era exatamente a santa do seu sonho. Era a santa de Nossa Senhora das Vitórias. Tio Pedro Alberto não pensou duas vezes. Depois de implorar ao vendedor para vender essa Santa, ele a trouxe no navio Loide desde Belém até Natal e depois para Carnaúba dos Dantas na cangalha de um jumento. Essa Santa ficou sendo visitada por muitas pessoas na sua casa, até que ele organizou uma comissão de carnaubenses para a levar até o alto do Monte do Galo, onde até hoje ocorre sua visitação.

Meu tio Pedro Alberto gostava muito de meu marido Pedrinho. Gostava tanto que quebrava suas próprias regras por ele. Meu tio costumava dizer que ninguém nunca deveria chamar alguém que passa pela janela de sua casa para entrar, pois havia o risco dessa pessoa pular a janela e isso seria uma desmoralização. Mas Pedrinho ele confiava e chamava sempre que o via passar.

Foi numa dessas visitas de Pedrinho que ele contou sobre a história de como se curou das suas dores quando levou a Nossa Senhora das Vitórias ao topo do Monte do Galo.

Assim, meu marido Pedrinho fez uma promessa à Santa.

Hoje, o Monte do Galo tem um caminho todo em calçamento que leva ao seu topo. É uma estrada dividida em doze estações que mostram monumentos de arte com as situações da Paixão de Cristo. Centenas de pessoas peregrinam até lá todos os anos para buscar a graça de Nossa Senhora das Vitórias, principalmente, na época da Semana Santa quando há a encenação da Paixão de Cristo. Na época era diferente. Havia apenas umas trilhas escondidas na mata que levavam até o topo.

Pedrinho prometeu que, para Jajá ficar bom da doença, ele iria subir o monte pelas trilhas na mata e iria passar a noite inteira lá em cima para pedir a graça de Nossa Senhora das Vitórias. Levou apenas uma lanterna e alguma comida na sua mochila.

Era uma promessa perigosa porque ele poderia se machucar no percurso ou cair em algum barranco, o que era algo que acontecia com frequência entre aqueles que tentavam subir por essas trilhas. Por isso ficou combinado que Pedrinho acenderia sua lanterna uma vez a cada hora para dizer que estava bem. Como tudo era muito escuro em Carnaúba à noite, a gente conseguia ver a luz da lanterna lá da minha casa. E, se Pedrinho precisasse de ajuda, ele acenderia a lanterna várias vezes com um sinal.

Quando acendeu a lanterna pela primeira vez, os amigos Severo e Chico Lino se compadeceram da sua luta e se preocuparam dele ficar sozinho lá em cima. Por isso, eles pegaram aquela mesma trilha à noite para se encontrar com Pedrinho lá em cima em frente à Santa e ao Cruzeiro.

Lá, eles passaram a noite rezando para a saúde de Jajá e só voltaram quando o dia raiou.

 

Estágio da Aceitação

Depois da promessa à Nossa Senhora e da chance de uma cirurgia em Recife, nós tínhamos muita esperança de salvar Jajá apesar da saúde dele estar piorando a cada dia. Nós então o levamos para Recife num médico chamado Costa Barros, que foi recomendado por doutor Creso.

Chegamos em Recife e fomos atendidos. O doutor Costa Barros examinou Jajá, que estava com a barriga muita inchada. Viu os exames que doutor Creso havia pedido nos últimos meses. E só então deu a notícia para a gente.

Ele se sentou de frente a mim e a Pedrinho e disse “Olha, devo dizer uma coisa…” – ele parou por um segundo antes de continuar. – “Voltem para Natal e deem todo o conforto possível para o seu filho, pois nem o leão, doutor João Tavares, com toda sua formação na Alemanha seria capaz de operar a doença do seu filho.”

No dia seguinte, nós voltamos para Natal sem esperança e com a sentença de morte de Jajá assinada pelos médicos.

Eu passei os últimos meses de vida de Jajá vivendo só para ele. Tudo para o confortar e fazer com que se sentisse feliz. Nós nos aproximamos muito. Criamos um laço muito forte, tanto dele comigo quanto dele com Pedrinho. Até minha sogra Nenzinha, tentava se aproximar dele com pena, mas não conseguia. Nem para balançar sua rede, Jajá a deixava. Ficava chorando quando ela ou outra pessoa se aproximava, porque só queria eu ou Pedrinho, o “velho” e a “velha” como ele chamava.

A gente fez tudo para deixar nosso filho confortável para morrer em paz, mas a doença o fez sofrer demais. Tinha muitas dores. E cada dia ele ficava mais fraco.

Ficou cada vez mais comum eu acordar Pedrinho no meio da madrugada para passearmos na motocicleta com Jajá no colo, pois era uma das poucas coisas que aliviava suas dores e o fazia parar de chorar.

Numa manhã, eu tive um sentimento ruim ao acordar. Jajá estava muito fraco. Estava tão desfalecido que eu disse para meu marido: “Vá comprar o caixão, Pedrinho, que nosso filho vai morrer hoje”.

Ele passou o dia todo na rede. Eu fiquei pastorando e orando, vendo a respiração dele ficar cada vez mais devagar e diminuída. Eram seis horas da noite, a hora do Ângelo, quando eu percebi que seu peito parou de se mover e eu tive que fechar suas pálpebras porque já não havia vida nos seus olhos. Nesse momento, a Ave Maria tocou no rádio.

Até hoje, sempre que escuto a Ave Maria, tenho vontade de chorar por causa dessa lembrança.

Eu pedi para Pedrinho trazer o caixão. Era bem pequenininho, do tamanho de Jajá, que tinha só dois anos de idade quando morreu. A gente colocou o corpo dele em seu interior e marcou o funeral. Meu primeiro filho Neto tinha só três anos nessa época, mas ele disse que tem a lembrança até hoje de Jajá deitado, morto dentro de nossa casa. Ele era muito novo, mas ele disse que essa imagem ficou na mente dele até os dias atuais.

Nós enterramos Jajá no cemitério do Alecrim, quase em frente à casa onde morávamos.

 

 

 

Capítulo 6

Família

A morte de Jajá foi muito triste. Ela me abalou muito mais do que alguém poderia imaginar. Acredito que por esse motivo acabei me afastando de Pedrinho. Ele me escolheu para ser a mulher de seus filhos, mas eu nunca quis fazer as coisas de homem e mulher na cama com ele. Sempre achei tudo aquilo muito brusco e de movimentos grosseiros. Nunca senti vontade de me aproximar de Pedrinho ou de qualquer homem dessa forma.

Se já não tentava me aproximar dele antes, após a morte de Jajá, comecei a rejeitar toda vez que ele vinha me procurar.

Passamos um ano inteiro lutando para dar conforto ao nosso filho doente. Agora, Jajá estava morto. Já não havia uma razão especial para nos mantermos unidos num objetivo comum. Começamos a prestar mais atenção nos defeitos um do outro. Eu o rejeitava mais quando vinha até mim na cama e eu ficava cada vez mais sem paciência com ele não me deixar fazer as coisas sozinha.

A situação financeira havia melhorado. Chegamos a nos mudar para uma nova casa, que Pedrinho alugou, bem melhor que a casa de taipa na Borborema. O endereço na rua Jundiaí, 370, em frente à praça Pio X onde hoje está construída a Catedral Nova de Natal. Fomos todos para lá. Eu, meu esposo Pedrinho e nossos filhos Manoel Neto e Jardna. No entanto, nossa situação conjugal estava cada vez pior.

Pedrinho achava que mulher não podia ganhar dinheiro. Era tão convencido disso que, anos depois, já na nossa casa na praia do Artistas, fui convidada a ensinar na alfabetização de crianças do grupo escolar Olda Marinho, rua 25 de dezembro, por trás do hotel Reis Magos [onde hoje funciona um anexo da Escola Laura Maia], mas Pedrinho me proibiu de aceitar. Eu assim deixei os estudos e a ideia de trabalhar por sua causa. Isso o abalava como homem da casa. Ele nem podia pensar na sua mulher ser outra coisa além de dona de casa. Ele dizia: “Não quero ser o esposo da professora”. [A ideia de sua posição como provedor da casa ser questionada era demais para a mentalidade que lhe foi ensinada por mestre Nezinho].

Por esse mesmo motivo, ele não aceitou colocar o nome da minha família “Dantas” no nome dos nossos filhos. Quando nosso primeiro filho nasceu, não fiz confusão porque colocamos o nome do mestre Nezinho nele: Manoel de Oliveira Cavalcanti Neto. Mas depois veio Jajá, que fiz uma grande confusão para colocar o nome “Dantas”, mas Pedrinho ainda se negou a aceitar. O nome ficou Jarbas de Oliveira Cavalcanti. Era a prova que não colocaria o nome Dantas por causa das besteiras dele [de não querer mostrar sua esposa tendo qualquer protagonismo]. Mas o que me deixou com mais raiva foi ele não deixar colocar o nome “Dantas” nem na nossa filha, que nasceu dois anos depois da morte de Jajá. O nome dela ficou: Jardna de Oliveira Cavalcanti.

Nós já estávamos brigando muito nessa época. Era comum nessas discussões eu dizer: “E você! Que nem me deixou colocar o nome da minha família nos meus filhos!”.

Houve um momento que apenas dividíamos a mesma casa. Estávamos separados, vivendo juntos só de corpo presente. Outra coisa que nos afastou muito foi a decisão de Pedrinho de investir numa nova empresa. Ele decidiu comprar um ponto de padaria na esquina rua Jundiaí com a Hermes da Fonseca. Era a padaria São Miguel. Assim, Pedrinho começou a acordar de madrugada. Precisava estar na padaria de quatro horas da manhã para começar a assar os pães, pois antes das cinco horas da manhã já chegavam os primeiros clientes. Não demorou para a padaria ficar cheia de gente, entre as cinco e as sete da manhã, todos atrás do pão do desjejum. A gente mal se encontrava em casa com esses horários.

A situação do nosso casamento estava muito ruim. Foi nessa época que o descuido de uma amiga da família ela me revelou que Pedrinho estava com outra mulher.

Não sei se chegamos a falar sobre divórcio, mas acredito que sim, pois numa dessas discussões chegou a se falar de eu sair de casa.

Eu não tinha trabalho. Não ganhava dinheiro. Dependia totalmente de Pedrinho. Além disso, havia brigado com mamãe para me casar e por isso seria complicado voltar para sua casa. Eu lembro de dizer: “Pedrinho, você pode até me deixar, mas eu não saio dessa casa! Nem que eu tenha que morar num quartinho nos fundos, como uma empregada, eu vou ficar aqui para cuidar dos meus filhos!”

Pedrinho nunca me deixou, nem me separou dos meus filhos. Certo dia, eu estava caminhando entre a rua João Pessoa e a rua Isabel. Estava com meu filho Neto, já um rapazinho, e minha filha Nininha, tão pequena que a conduzia segurando sua mão, quando uma mulher se aproximou. Ela me fazia umas perguntas estranhas, sobre minha família e sobre meu esposo. Percebi logo que era a fulana, amante de Pedrinho. Ela veio até mim para se justificar daquela situação, mas acabou expondo coisas que eu não queria saber.

Foi uma situação muito constrangedora. Lembro que mandei Neto ficar do outro lado da rua com a sua irmã, já que não queria que eles escutassem a conversa. Nesse meio tempo, algum amigo avisou a Pedrinho: “Olhe quem está falando com Titi?”. E assim ele correu até onde a gente estava.

Quando Pedrinho chegou, nem falou nada. Só deu um tapa na cara dela tão forte que a derrubou no chão. Então gritou: “Vá embora daqui!”

Pedrinho me puxou junto com nossos filhos para sair dali, mas eu não consegui ficar calada. Também gritei na direção dela: “É isso que acontece quando alguém quer destruir uma família. Agora você sabe seu lugar! Pedrinho meteu a mão na sua cara, mas nunca levantou um dedo para mim!”

Depois desse dia, nunca mais soube de nenhuma outra mulher com Pedrinho.

 

Tempo de Recomeço

A morte de Jajá foi muito triste. Ele sofreu muito no fim de sua vida, mas eu só tenho a agradecer por todos os que ajudaram a gente nesse tempo difícil. Sempre agradeci a Severo e Chico Lino por subirem no monte do Galo com Pedrinho. Tenho um carinho muito grande por minha sogra que tentava ficar com nosso filho embora ele a rejeitasse. Tenho até pena dela porque nosso filho não queria a avó nem que fosse para balançar sua rede.

Um ano depois da morte de Jajá descobri que estava grávida outra vez. A parteira dona Nuca quem trouxe minha primeira filha ao mundo como trouxe também Neto e Jajá. Eu dei o nome dela de Jardna em homenagem ao doutor Creso que tinha uma filha chamada Edna. O nome Jardna foi criado exatamente ao juntar os nomes de Jarbas e Edna.

Quando tinha cinco anos de idade, eu mesmo ensinei o meu filho mais velho Neto a ler e escrever. Ensinei tão bem que, quando ele começou na escola, já entrou na segunda série porque não precisava mais fazer a alfabetização. E Neto sempre foi muito estudioso. Era muito bom de matemática, por isso, quando mais velho, Pedrinho sempre o levava à padaria para que ele ficasse no caixa.

Ambos pai e filho saiam todos os dias antes das quatro horas da manhã. E Neto ficava na padaria até às sete horas, às vezes, até às oito da manhã quando o movimento da padaria estava grande.

Quando terminava o trabalho, Neto pegava o ônibus para o colégio Sete de Setembro, onde estudava. Ele saía da padaria faltando quinze minutos para a aula começar, mas, às vezes, chegava atrasado quando a padaria estava lotada. O diretor já sabia do trabalho dele na padaria e por isso não o colocava de castigo.

A família ficou completa depois que nasceram meus dois outros filhos. Por causa da memória de Jajá, que fazia cinco anos de sua morte, eu dei ao novo filho o nome de “Jarbas” também. Ele já nasceu na rua Jundiaí, numa nova casa, vizinha à anterior, número 368, na esquina com a rua Fontes Galvão, conhecida como beco do Camboim. O parto foi feito por dona Nuca, mas minha sogra reclamou até o último momento: “Não coloque o nome Jarbas senão ele vai morrer também!” Eu respondia: “Ele vai morrer sim, mas não vai ser por causa disso e vai viver mais do que eu”. Hoje estou com 93 anos de idade e Jarbas está muito bem. O próprio Jarbas hoje gosta de dizer: “Por enquanto está dando certo!”

Quando Jarbas nasceu, meu mais velho neto tinha oito anos de idade e Jardna tinha três anos. Eu já tinha decidido ter só três filhos. Estava muito feliz com Neto, Nininha e Jarbas quando no ano seguinte descobri que estava grávida novamente. Meu caçula recebeu o nome do pai, Pedro, mas sempre chamei ele de Pedrito.

A família estava assim completa.

 

Novo Lar

A padaria de Pedrinho estava funcionando muito bem, mas não era o que ele desejava para sua vida. Ele sempre falava para nossos filhos: “Meninos, existem três profissões que não desejo a vocês: Advogado, que defende todo tipo de gente; Soldado, que sob ordens prende até o próprio pai; e Padeiro, que tem que acordar todo os dias às três da manhã para começar a assar o pão.”

Depois de cinco anos assando e vendendo pão, Pedrinho decidiu vender a padaria.

Além disso, a empresa de transporte coletivo sempre funcionou muito bem. Desde que começou com a Perua e dos taxis, o negócio sempre cresceu. Ele chegou a ter três ônibus novos, começando assim a “Viação Cacique” [que tinham a mesma logomarca da motocicleta Indian de sua juventude com o desenho do índio americano apache de cocar]. A empresa durou mais de dez anos até que a concorrência e as tarifas aumentaram, o que fez ele vender os ônibus.

Ele pegou o dinheiro dessas vendas e colocou em dois negócios. Um deles era a loja de peças para automóveis, que ele abriu com os irmãos. O outro era a compra de caminhões-tanques para o transporte de combustível.

A loja de ferramentas se chamava a “Casa das Peças”. Ele abriu esse negócio porque a oficina de mestre Nezinho já não estava tão bem. Já não conseguia sustentar todos os filhos que lá ficaram trabalhando. Meu esposo Pedrinho entendeu ali por que, embora fosse o mais habilidoso dos irmãos, mestre Nezinho decidiu que era ele quem deveria sair da oficina. Mestre Nezinho percebeu que Pedrinho era o filho que tinha mais condições de viver sem a oficina e assim se provou. Por isso, com o dinheiro da venda da padaria, Pedrinho decidiu abrir a Casa das Peças. Era um negócio muito mais para ajudar os irmãos que a ele próprio.

No fim, a Casa das Peças foi um fracasso. Praticamente, o dinheiro ficou só para ajudar os irmãos que não conseguiram tocar o serviço.

Ainda bem que a outra parte do dinheiro, que foi investida na compra dos caminhões-tanques, deu mais certo. Foi ela quem sustentou a nossa família e pagou a educação dos meus quatro filhos até todos se emanciparem.

A decisão da compra dos caminhões-tanques e transportes coletivos ocorreu por sugestão do amigo Camilo de Paula, [que era revendedor da Mercedes-Benz no Rio Grande do Norte, assim como era também das empresas de veículos agrícolas Vemag e Tobata]. Ele disse que era um bom negócio, [pois a petroleira americana Esso precisava de empresas para terceirizar o transporte de combustível]. Como o amigo disse que seria um bom negócio, Pedrinho decidiu entrar de cabeça e comprou o primeiro caminhão de sua empresa. Assim começou a Gasdiesel,

As coisas em nossa vida melhoraram muito com a transportadora de combustível e com os transportes coletivos. Em pouco tempo, já nos mudamos para uma nova casa. Não havia mais sentido morar na Jundiaí depois que vendemos a padaria. A nova casa era na Praia dos Artistas, de frente ao mar. Era grande. Começava na rua da praia e ia até a Rua do Motor logo atrás, com um grande quintal.

Nunca fomos uma das famílias ricas de Natal, mas vivíamos confortáveis nessa boa casa, que continuou crescendo com as muitas reformas que fizemos nela. Todos os nossos filhos tiveram educação e se formaram sem precisar trabalhar para complementar a renda da casa.

Eu vivi os anos seguintes da minha vida nessa casa e só saí aos oitenta anos de idade, depois que Pedrinho morreu, para morar na casa dos meus filhos.

 

Conclusão

Legado 

Certo dia, quando Jarbas e Pedrito eram crianças, deviam ter uns cinco ou seis anos de idade, uma mulher passou em frente lá de casa. Assim que Jarbas viu essa mulher ele gritou: “Mamãe, que mulher feia!”. Eu mandei logo Jarbas ficar calado para a mulher não escutar, mas já era tarde.

Quando a mulher ouviu esse grito de Jarbas, ficou com muita raiva dele. Veio querer me dar uma lição: “A senhora vá educar os seus filhos, que é muito feio menino mal-educado!”

Eu fiquei muito chateada quando ouvi aquela mulher falar mal do meu filho. Não podia deixar que ela falasse daquele jeito com ele, por isso, não fiquei calada. Eu a respondi: “Olhe, minha senhora, saiba que eu educo meus filhos, mas o problema é que a senhora não é feia não. É horrível!”. Assim, a mulher nunca mais passou em frente lá de casa e aprendeu a nunca mais falar mal de um filho à sua mãe.

Eu sempre protegi os meus filhos, mas eles também tiveram toda a educação que podiam. Eu era rígida. Por isso, não concordo quando meu filho Neto diz: “Quando a gente fazia traquinagem, mamãe sempre dava uma surra, mas depois se arrependia e vinha nos adular”. Sempre que ele vem com essa história, eu respondo: “Ô, mentira”. Nunca me arrependi de ter que educar eles, mesmo que fosse na chinelada. Até quando eles vinham malcriados e fechavam a mão para não apanhar, eu batia nos pés.

Hoje, o meu maior orgulho é ter meus filhos adultos e bem-criados. Todos completaram seus estudos e me deram netos e bisnetos.

Meu filho mais velho Manoel Neto, eu mesma o ensinei a ler e escrever e depois meu esposo Pedrinho o levava para ajudar na padaria. Ele estudou no Jardim de Infância Padre Miguelinho e terminou o primário e o ginásio no Colégio Sete de Setembro. O científico terminou no Colégio Atheneu, tendo passado para “Engenharia Civil” na UFRN. Trabalhou os primeiros anos de sua carreira na construtora EIT e foi chefe de obras na construção da Transamazônica. Depois, fundou a empresa Enteco Ltda com o irmão Jarbas, onde trabalhou até se aposentar. Ele se casou com Gracinha, com quem teve dois filhos: os meus netos Érika e Victor.

Minha filha Nininha, eu também ensinei a ler e escrever em casa, como fiz com neto. Ela fez o Jardim de Infância Modelo, depois entrou no ensino primário na segunda série no Instituto Nossa Senhora de Fátima [atual colégio de mesmo nome]. Fez o ginásio no Colégio Sete de Setembro; e terminou o científico na Escola Doméstica. Ela se formou no curso de “Administração de Empresas” pelo Centro Integrado para Formação de Executivos (C.I.F.E.), para trabalhar no INSS, que, depois de desmembrado, passou para o INAMPS. Ela se casou com Jucá, com quem teve dois filhos: os meus netos Lauro e Marcelo.

Meu filho Jarbas, como os outros, ensinei a ler e a escrever, mesmo ele tendo regredido sua fala aos três para quatro anos de idade. Ele fez o ensino primário no Jardim de Infância Modelo e na Escola de Aplicação Primária. Depois, fez o ginásio no Sete de Setembro; e terminou o científico na Escola Técnica. Ele se formou em “Engenharia Civil” na UFRN com louvor, sendo a maior nota de sua turma. Depois fundou a empresa Enteco com o irmão Manoel Neto e depois a TCPAV com seu filho Jarbinhas. Ele se casou com a educadora Tânia com quem teve três filhos: os meus netos Daniela, Jarbinhas e Daniel.

Meu caçula Pedrito também aprendeu a ler comigo, como todos os outros, depois estudou o ensino primário no Jardim de Infância Modelo e na Escola de Aplicação. Fez metade do ginásio no Sete de Setembro e a outra metade na Escola Técnica. Enfim, fez o científico no colégio Atheneu e fez vestibular para “Medicina” na UFRN. Passou e foi fazer residência médica no Rio de Janeiro. Hoje, a Clínica Pedro Cavalcanti, que ele nomeou em homenagem ao pai, é considerada a melhor do Rio Grande do Norte. Ele se casou com Valéria, com quem teve três filhos: os meus netos Pedro, Paulo e Priscylla.

Eu nunca pude terminar meus estudos porque no mês seguinte ao meu casamento já descobri que estava grávida. Eu me casei em abril e em janeiro do ano seguinte já estava com um filho no colo. Já com certa idade, fiz o cursinho supletivo do Colégio Paula Francinete quando meus filhos estavam maiores. Cheguei a terminar o ginásio, mas quando estava terminando o científico, logo vieram os netos, bisnetos e outras coisas mais.

O principal motivo das discussões com minha mãe Nanan sempre foram os estudos. Felizmente, pude me realizar nesse sentido através dos meus filhos. Eu mesma ensinei cada um deles a ler e a escrever. Eles já entraram em classes avançadas quando começaram na escola e fiz questão que entrassem na idade mínima de cada série escolar. Depois fiz questão de que todos se formassem e tivessem ensino superior, como de fato tiveram.

Tenho certeza que minha mãe Nanan ficaria para sempre orgulhosa de mim, assim como eu tenho orgulho dos meus filhos.

 

 

Causos de Mamãe

  

 

Década de 50 e 60

Filhos Pequenos

Dificilmente, os quatro filhos de dona Titi se referem a si mesmo pelo nome de batismo. Eles usam apelidos, que remetem aos tempos de criança: Neto, Nininha, Aba e Pedrito.

Se a primeira parte deste livro biográfico conta a história dessa grande mulher do seu próprio ponto de vista, desde sua origem em Carnaúba dos Dantas até o nascimento de todos os seus quatro filhos, nada mais natural que contar os eventos posteriores através dos filhos. Respectivamente, eles são registrados no cartório como Manoel, Jardna, Jarbas e Pedro, que usaremos aqui para pontuar o autor de cada história.

 

Sentimentos por Mamãe

[contada pelo filho Jarbas]

Ao longo da vida, eu tive muitas discordâncias com mamãe. Discutíamos até por suas fotos de criança, por exemplo, a que ela está sentada num banquinho com o cabelo escorrido e o corpo tão torto que parece até ter um problema de coluna, mas mamãe acha essa foto a coisa mais linda do mundo. Apesar dessas discordâncias, sei reconhecer todo o amor que recebi dela.

Sempre tive minha parte emocional mais delicada, mesmo aos três anos de idade, quando regredi na minha linguagem. Antes, eu falava “água”, que depois comecei a chamar de “ajá”; e falava “biscoito”, que se tornou “cuí”. Também quando íamos à praia em frente lá de casa, eu tinha pavor quando vinha alguma onda. Eu corria assustado e ficava chorando.

Mamãe me ensinou a reaprender as palavras e, na praia, fazia questão de se sentar ao meu lado e aos poucos me levar ao mar.

Posso dizer, por experiência, que mamãe é uma pessoa autêntica. Não tem arrodeio. Fala o que pensa sem medir consequências. Ela sempre lutou, insistiu e persistiu por minha felicidade. Foi uma educadora, orientadora e professora. Foi enfermeira, médica e motorista. Foi psicóloga nos meus traumas.

Mamãe chorou por mim. Sorriu por mim. Vibrou com minhas conquistas. Sempre acreditou nos meus sonhos e me gerou não só no seu ventre, mas também em seu coração. Mamãe foi a minha primeira paixão.

 

Dona Titi no Mercado

[contada pelo filho Manoel Neto]

Nos dez primeiros anos de casada, Mamãe precisava ir ao mercado diariamente. Era assim para todo mundo porque não havia geladeira. A primeira geladeira na nossa casa já foi próximo da década de sessenta quando papai comprou uma da marca “Glória”. Fazia um barulho danado, mas gelava bem.

Assim, naqueles fins de 1940 e início de 1950, era preciso comprar tudo fresco no mercado da cidade, que ficava onde hoje é o Banco do Brasil da rua Rio Branco.

Eu gostava de ir com ela, porque no fim, quando sobrava algum dinheiro ela me comprava uma bola ou um carrinho. Mas quem conviveu com mamãe nesse tempo dizia que todo dia no mercado era uma discussão.

Numa dessas, ela viu uma barraca que vendia um quilo do tomate por 1,50 cruzeiros. Mamãe quis pechinchar, mas se confundiu toda. Perguntou se fazia o quilo do tomate por 2 cruzeiros e o vendedor muito esperto disse que fazia sim.

Quando ela pagou os 2 cruzeiros e o vendedor entregou apenas um quilo de tomate e não os dois quilos como estava fazendo a conta na cabeça, ela tomou ar. E pegue briga; chamando o vendedor de safado e ladrão.

Afinal, se dona Titi até hoje já gosta de discutir sem ter razão, imagine quando ela está certa! Papai dizia: “A feira de sua mãe é só para comprar briga.”

 

Mulher Feia

[contada pelo filho Jarbas]

Como toda criança, eu era um menino muito sincero. Eu devia ter uns cinco ou seis anos quando vi passar uma mulher em frente a nossa casa, que ficava na esquina do Beco do Cambuí com a rua Jundiaí. Assim que vi a mulher um tanto desprovida de beleza, eu fiz o comentário: “mamãe, que mulher feia!”.

O problema foi que a mulher escutou minhas palavras e claro ficou ofendida. Ela então parou, voltou até o portão da nossa casa e se dirigiu à mamãe para tomar satisfação.

Ela reclamou toda cheia de razão: “A senhora vá educar os seus filhos, que é muito feio menino mal-educado!”

Não sei para que a mulher falou isso. Só fez o sangue subir para a cabeça de mamãe. Ela olhou para a mulher já com raiva. Respondeu em tom mais alto: “Saiba que eu educo meus filhos, mas o problema é que a senhora não é só feia. É horrível!”

Depois, desse dia a mulher feia evitou passar em frente a nossa casa com medo de se repetir a situação. Passou a andar pela rua Açu, que era paralela a Jundiaí.

Sei que certo dia mamãe viu a mulher evitando a nossa casa. E mamãe, que não consegue ficar calada, acho até que querendo se desculpar, questionou: “E a senhora não passa mais em frente lá de casa, não?”

A mulher achou ruim mamãe vir falar com ela. Fez logo um resmungado para dizer que fosse embora. E mamãe, que não gostou do resmungado, nem consegue ficar calada, não deixou barato.

Ela respondeu: “Se não quiser, não precisa mais passar em frente lá de casa, mas quero dizer que a senhora ainda continua horrível!” Assim, era mamãe.

 

Chá de Lagartixa

[contada pelo filho Pedro]

Lá em casa, minha irmã Nininha já tinha sido operada das amígdalas por um amigo da família: o Doutor Sylos Guerreiro Carvalho. Depois de passar por esse sofrimento com minha irmã, dona Titi não estava querendo que eu e meu irmão Jarbas passasse pela mesma cirurgia. Foi quando a ensinaram o melhor remédio para acabar com as crises: o Chá de Lagartixa.

Era preciso pegar uma lagartixa e tratar ela. Assim, se tirava os fatos e órgãos internos; cortava o rabo e botava o corpo dentro de uma água fervendo até toda a lagartixa se transformar em chá.

O primeiro passo para mamãe era conseguir pegar a tal da lagartixa. Não é uma coisa fácil. Por isso, ela chamou duas meninas gêmeas de pele bem negrinha que moravam na rua de trás, na rua do motor. Uma das meninas era até afilhada de Nininha minha irmã.

Mamãe disse para as duas meninas: “Eu estou querendo uma lagartixa grande e gorda porque eu estou precisando fazer uma simpatia. Vocês podem conseguir uma para mim que eu lhes dou uma moeda.” E assim elas saíram.

Não demorou muito para elas trazerem a lagartixa grande e gorda do jeito que mamãe desejava. E mamãe não contou conversa. Ela tratou a lagartixa, tirou o fato e cortou o rabo, do jeito que a ensinaram.

Quando eu e Jarbas chegamos do colégio, mamãe mandou a gente ir lá para a parte detrás da casa. Disse que a gente fechasse os olhos, levantasse a cabeça e olhasse para cima. Ela começou com Jarbas que era muito bem-mandado, mas eu abri logo o olho para ver o que ela estava fazendo.

Ela veio logo com aquele negócio marrom parecendo um suco fedorento. Era a lagartixa derretida. Depois, veio com a mão toda cheia de sangue e com o rabo da lagartixa na ponta dos dedos.

Jarbas estava lá de olhos fechados, sem ver nada, e eu só de olho na arrumação. Ela então pegou esse rabo da lagartixa e fez um sinal da cruz na parte anterior do pescoço. Fazia parte da simpatia. Ela veio fazer a mesma coisa comigo. Eu fiquei meio cismado, mas, como ela segurou minha cabeça, eu deixei fazer o sinal da cruz.

Em seguida chegou com dois copos daquela água fedorenta e de coloração meia escura e entregou um copo para cada filho. Jarbas mais obediente foi logo emborcando o copo, fez o gargarejo e engoliu o líquido todo conforme mamãe mandou. Eu, que estava vendo tudo aquilo, disse logo que não ia beber aquele troço.

Perguntei logo “O que é isso?”. Ela respondeu “Você não precisa saber!”. Eu corri logo dali enquanto Jarbas gargarejava.

Moral da história: Jarbas não precisou fazer a cirurgia de amígdala. E eu tive que me operar anos depois com doutor Jair Navarro. Hoje, como médico otorrino, me pergunto se esse chá da lagartixa curou Jarbas ou não.

Agora, o problema maior foi que as gêmeas negrinhas chegaram na rua do motor dizendo para os amigos: “Dona Titi está comprando lagartixa!” No outro dia, era só chegando os meninos da rua do motor cada um com sacos e sacos cheios de lagartixa.

Até tia Célia chegou lá em mamãe perguntado que história era essa e mamãe tendo que se explicar para que ela queria tanta lagartixa.

 

Eleição em Carnaúba

[contada pelo filho Manoel Neto]

A cidade de Carnaúba dos Dantas era parte do distrito de Acari até o ano de 1954 quando nesse ano foi eleito o primeiro prefeito da cidade: Anatólio Cândido. Nessa primeira eleição, o pai de Dona Titi, meu avô Miguel Arcanjo, se candidatou a vereador. Assim, toda a família ficou engajada para o eleger.

Não precisava de muita coisa. A cidade era pequena. Bastava o voto de oitenta pessoas para entrar na câmara dos vereadores.

Papai tinha uma van que fazia lotação aqui em Natal na época para completar a renda. Ele mesmo dirigia, levando as pessoas de ponto a ponto da cidade por alguns cruzeiros. Mas, claro, durante o período da eleição ele e mamãe foram para Carnaúba com a van para ajudar na campanha de vovô.

Na mesma eleição, o pediatra da família, que cuidou de mim e de Jajá durante a doença dele, também se candidatou. Doutor Creso Bezerra de Mello se lançou à deputado federal e naturalmente meus pais decidiram o apoiar, sem pedir nada em troca. Só pela gratidão que tinham.

Chegou à véspera da votação e a van foi um sucesso. Papai passou o dia fazendo boca de urna, que naquele tempo não era proibido. Entregou os santinhos. Carregou o povo de suas casas para as urnas, que mamãe já recebia na porta do local de votação para garantir o voto. E claro também já pedia os votos de deputado federal para doutor Creso.

Quando a eleição acabou, papai voltou à Natal e, assim que se encontrou com doutor Creso, ele foi logo perguntando à papai: “Pedrinho, como foi a campanha lá em Carnaúba?”.

Papai, sempre muito honesto, disse logo: “Foi muito desarrumada, doutor Creso. Teve muita fraude!”.

Quando terminou de falar, doutor Creso já foi se levantando indignado: “Não pode isso, Pedrinho. Vamos recorrer!”, mas papai já colocou a mão no ombro dele e o acalmou: “Mas pode ficar tranquilo que a fraude foi para o nosso lado!”

Acontece que minha avó Nanan, esposa de Miguel Arcanjo, trabalhava nos correios e, por isso, foi ela quem imprimiu as cédulas de votação. Ela não contou conversa. Marcou as cédulas e entregou aos conhecidos já avisando que ia saber se alguém traísse vovô.

O resultado não podia ser outro. Vovô foi o vereador mais votado da cidade, meu tio Alberto foi eleito vice-prefeito e doutor Creso recebeu quase todos os votos de Carnaúba para deputado federal, por ser o único que fez boca de urna lá.

Assim, a campanha só podia ser um sucesso.

 

Garrafada Malsucedida

[contada pelo filho Pedro]

Jarbas havia nascido e estava ainda com oito meses de idade quando mamãe descobre que engravidou de mim. E isso se tornou um problema porque Jarbas ainda era muito novo. Era um bebê ainda amamentando numa época que não havia babá, nem empregada.

Mamãe realmente não estava pretendendo ter mais filhos. Ainda mais um novo recém-nascido enquanto ainda estava cuidando de um bebê. Assim, ensinaram a ela que para interromper a gravidez era preciso fazer a chamada “Garrafada”.

A Garrafada era um abortivo caseiro em que você mistura uns ingredientes fortes. Depois, deixava enterrada por sete dias para fermentar.  Então, era só beber que o menino “não pegava”.

Era uma mistura de cachaça, erva, raiz, tudo no mundo que mandaram, ela botou nessa garrafa. Passados os setes dias que ficou enterrada, mamãe disse que nunca bebeu um negócio para amargar tanto em toda sua vida. Tinha certeza que o menino não ia vulnerar de jeito nenhum.

Só sei que a garrafada fez foi ajudar na gravidez. Eu nasci foi cheio de saúde. Nunca fui de gripar. Jogava muita bola. Sempre fui muito bom na escola.

Eu sempre soube dessa história. E nunca entendi essas pessoas que dizem ficar com depressão quando descobrem que não foram planejadas ou desejadas pelos pais; ou que condenam os pais por terem tentado algum aborto. Afinal, eu entendi os motivos dela.

Na verdade, sempre achei boa essa história, porque, quando estava na faculdade, eu gostava muito de beber com os amigos. Aí, quando mamãe vinha reclamar de que eu estava bebendo muito ou queria me dar lição de moral sobre isso, eu dizia logo. “Você não pode reclamar, mamãe. Afinal, meu primeiro porre quem me deu foi a senhora quando eu estava na sua barriga.”

E continuava: “E se já bebia dentro do útero, imagine depois de nascer!”

Com esse argumento, ela nunca conseguiu impedir minhas farras no fim de semana.

 

Céu na Escola

[contada pela filha Jardna]

Mamãe sempre se preocupou muito com a educação da gente. Foi algo que ela aprendeu com a mãe dela e sempre foi uma das prioridades na sua vida. Ela era tanto assim que ia na escola para ver as notas da gente e falar com os professores.

De todas as matérias, eu era péssima em matemática. Teve uma vez no meu ginásio que eu tirei uma nota baixa numa prova e a escondi atrás da cobertura de madeira que a gente usava para proteger a capa do livro. Não queria que mamãe visse aquela nota, mas no outro dia ela perguntou: “Cadê a prova de matemática?”

Eu respondi: “O professor não entregou”, mas como ela era muito engajada em nossas atividades escolares e já sabendo toda a programação da escola, ela sabia que eu estava mentindo. Assim foi até o meu professor Josafá Cordeiro. No fim, ela descobriu que eu estava escondendo as provas e eu tive que mostrar a nota.

Era o interesse que ela tinha na questão da educação. E ainda queria que a gente entrasse em toda série na idade mínima. Se pudesse sempre nos adiantava na escola.

Anos depois, querendo que eu entrasse no ginásio na idade mínima, ela foi na minha escola do ensino primário, o Instituto Nossa Senhora de Fátima, para adiantar minha série porque eu estava atrasada. Ela foi falar com a Madre Superiora para me dar um atestado de meus estudos para minha admissão na quinta série do Colégio Sete de Setembro.

A Madre se negou a dar esse atestado, pior, ainda comentou em tom de ironia: “Dona Titi, assim você está querendo entrar no céu à força”.

Mamãe tomou aquilo como uma afronta e, por isso, contratou uma professora para me dar aulas particulares. Como não tinha o atestado do Instituto Nossa Senhora de Fátima da minha capacidade de cursar o ginásio, ela me colocou para prestar um teste de admissão no Sete de Setembro.

Depois de me botar para estudar muito para essa prova, eu passei no teste de admissão e entrei no ginásio.

Não satisfeita, mamãe pegou o resultado e foi bater na porta da Madre Superiora: “Olhe, madre!”, disse quando entrou na sala: “Você não disse que eu queria entrar no céu à força, pois vim aqui só para dizer que eu entrei no céu sim!”.

E assim botou o resultado da minha prova na cara dela para mostrar que havia passado para o ginásio.

 

Mãe de Fogueira

[contada pelo filho Pedro]

Houve uma disputa muito acirrada entre Aluísio Alves e Djalma Marinho para governador do Rio Grande do Norte no ano de 1960. Mamãe já havia resolvido votar em Aluísio Alves, até chegou a colocar uma bandeira verde em cima da nossa casa.

As nossas vizinhas Severina e Estela Brandão apoiavam o outro lado, de Djalma Marinho, porque eram ligadas ao deputado Roberto Furtado. Lembro bem delas porque dividiam a casa vizinha e andavam num carro de luxo Sinca Chambord, talvez o melhor carro que havia em Natal na época.

Só que eu, menino, com quatro anos de idade, comecei a dizer que ia votar em Djalma Marinho contra a vontade de mamãe. E, na brincadeira, a nossa vizinha Severina começou a dizer que eu seria filho dela agora, por votar no candidato dela e não no de mamãe.

Papai até brincava com essa história. Ele dizia: “Bem, eu não sei quem é a mãe, mas tenho certeza que o pai sou eu!”

Essa história de Severina ser a minha mãe veio se concretizar algum tempo depois, no São João do ano seguinte. Colocou-se fogo na fogueira para iniciar as celebrações e existia uma tradição na época de criar padrinhos e madrinhas para a festa. Era os chamados “Pai e Mãe de Fogueira”.

Então, Severina pulou a fogueira comigo, segurando a minha mão. Ela solicitava antes: “São João disse. São Pedro confirmou. Você será meu filho porque Jesus Cristo mandou.” Do outro lado da fogueira, após pularmos juntos, era minha vez de dizer uma variação da frase: “São João disse. São Pedro confirmou. Você agora é minha mãe porque Jesus Cristo mandou.”

Desde esse dia, toda vez que eu encontrava Severina, eu sempre lhe peço a benção e a chamo de mãe.

 

Veia Musical da Família

[contada pela filha Jardna]

Mamãe queria que eu fizesse tudo aquilo que ela própria não fez. Era uma forma dela se realizar, por isso, me colocou na aula de balé e de piano. Ela nunca desenvolveu o dom musical de sua família, como todo bom carnaubense, mas cismou que eu deveria aprender piano e dança.

As aulas de balé não duraram muito tempo. Quando eu tinha sete anos, o governador Aluísio Alves trouxe uma professora de balé do Rio de Janeiro para dar aula para crianças e mães no Teatro Alberto Maranhão. Ainda tentei fazer, mas era muito desajeitada.

Já para as aulas de piano, ela me matriculou no Instituto de Música que ficava na rua Jundiaí, próximo de onde a gente morava. Entrei com sete anos. Mas eu odiava aquilo. Fiquei fazendo a força. Até quando o Instituto de Música se mudou para rua Floriano Peixoto e depois para a rua Potengi atrás do palácio dos esportes, ela ainda me obrigava a ir.

Eu estudei piano até os catorze anos de idade, indo para as aulas. Ela chegou a comprar um piano para mim, mas ele só vivia desafinando. Eu acabei foi com pavor das músicas.

Hoje, quando escuto as músicas que eu tocava na época no piano, percebo logo que são melodias belíssimas. Só percebo isso agora porque tive que ir me acostumando a ouvi-las aos poucos porque a lembrança que eu tenho de adolescente era delas serem horríveis.

Era um verdadeiro horror às músicas. Quando hoje escuto os pianistas famosos, lembro de ter as tocado no piano, mas achava todas péssimas.

Até hoje meus irmãos brincam que eu fiz sete anos de piano para aprender a tocar apenas “Três Velhinos”, que é a música mais básica que me ensinavam. Mas nem essa música eu guardei. Só que eles falam, mas também nenhum tinha o dom da música. Nunca aprenderam a tocar nenhum instrumento musical. E, pelo jeito, nenhum dos netos e bisnetos também não conseguem. Só meu filho Marcelo que ainda dedilha o violão, mas acredito que veio da genética do pai que era baterista nos seus tempos de juventude.

Da raiz musical carnaubense de mamãe, nem os “Três Velhinhos” ficou na nossa família.

 

Apresentação de Balé

[contada pelo filho Pedro]

Mamãe achava muito bonito ficar olhando quem sabia dançar. Os pais dela, Miguel Arcanjo e Nanan, eram conhecidos como grandes dançarinos nos tempos de juventude. Também havia o irmão de papai, chamado Paulo, que era muito boêmio e um excelente dançarino.

Os dois sempre me contaram que eles nunca viram alguém dançar como tio Paulo. Diziam que dançava um Tango maravilhosamente. Falaram isso a minha vida toda. A única vez que eles reconheceram alguém dançar mais que tio Paulo foi numa viagem que fiz com eles à Argentina. Fomos até a casa Tango Madero para assistir ao espetáculo, com papai dizendo por todo o caminho: “Você precisava ver seu tio Paulo dançar! Não tinha igual!”

Quando a apresentação começou com aqueles profissionais, que são mais acrobatas que dançarinos, jogando as mulheres para cima e para baixo, com piruetas e saltos, papai reconheceu: “Coitado de Paulo… Morreu achando que sabia dançar!”

Não preciso dizer então que, na década de sessenta, quando Aluísio Alves trouxe para Natal uma renomada professora de balé, mamãe ficou muito empolgado. Matriculou nossa irmã Nininha nas aulas que eram feitas no Teatro Alberto Maranhão.

A gente chegava em casa tinha que escutar os mil elogios ao talento de Nininha. Disse que tinha herdado o dom de vovô Miguel e vovó Nanan. E a gente só escutando aquilo, até que chegou o dia em que a gente pode comprovar. Anunciaram uma apresentação no próprio Teatro Alberto Maranhão pelo grupo de Balé Infantil.

Mamãe enchia a boca para dizer que Nininha foi uma das escolhidas para participar da apresentação. Ela seria o personagem chamado: “A Boneca!”

Mamãe estava muito empolgada. Passou a semana falando na tal apresentação. Chamou toda a família. Distribuiu convites. Fez aquela festa.

Fomos todos ao Teatro Alberto Maranhão esperando ver o balé de Nininha. A apresentação começou e nada dela aparecer. Mais de meia-hora depois e nada: “Mamãe, cadê Nininha?”, a gente perguntava. Ela respondia: “Ela aparece já!”.

Uma hora de apresentação aparece aquela figura meio escondida na lateral do palco. Era Nininha! A gente só a viu passar de um lado para o outro do palco de ponta de pé, nem dançava. Era só um andar meio estilizado. Sei que do outro lado do palco mesmo ela saiu. E não voltou mais. Essa era a grande participação da personagem “A Boneca” de Nininha.

Parece que em um ano de aula de balé descobriram que ela era meio desajeitada para a coisa, por isso, deram só aquela participação para ela. Mas se perguntar a mamãe, ela vai dizer: “Nininha era muito talentosa!”

 

Motorista (parte 1): Ladeira do Sol

[contada pela filha Jardna]

Mamãe sempre dirigiu todo tipo de carro. Como papai trabalhou primeiro com transporte de pessoas em coletivos e depois com caminhões-tanque, ela teve a oportunidade de dirigir de tudo, desde taxis e caminhonetes até mesmo os caminhões.

Até os oitenta anos de idade, ela ainda queria pegar o carro contra a vontade dos filhos. Só parou quando percebeu suas limitações graças ao neto Jarbinhas que sempre lhe aperreava: “O que foi esse arranhão novo no carro, vó? Já encostaram na senhora de novo?”

Na nossa infância, certo dia, ela estava dirigindo a caminhonete que papai fazia lotação com todos os filhos. Quando estava descendo a ladeira do sol, que nem era asfaltada ainda, era calçada com as pedras da praia, o freio do carro parou de funcionar. Ela veio descendo essa ladeira do sol sem conseguir parar e só não teve um acidente sério porque ela foi jogando o carro contra a mureta da calçada para ir diminuindo a velocidade. Ainda assim, na velocidade que vinha, mamãe conseguiu chegar até a nossa casa, poucos mais à frente, na Praia dos Artistas.

Papai diz que ela já chegou gritando: “Pedrinho, venha! Que o carro está sem freio!” Só que quando chegou na garagem lá de casa, que botou o pé no freio, o carro parou na mesma hora. Até hoje, papai ainda não entendeu essa história!

 

Motorista (Parte 2): Guarda de Trânsito

[contada pelo filho Jarbas]

Certo dia, mamãe estava dirigindo a caminhonete de papai pela avenida Rio Branco. Mas, na hora de fazer uma curva para a rua Ulisses Calcas, fez um cálculo errado, o que deixou o carro de frente para a calçada. Assim, para consertar o erro, era preciso dar a marcha ré e refazer o caminho.

Mamãe tentou dar essa marcha ré de todo jeito, mas não acertava o encaixe. Não demorou para um guarda de trânsito chegar ao local. Ele começou a reclamar: “Minha senhora, você tem de tirar o carro daí!”

Ela logo se explicou aos gritos: “Não consigo! A marcha ré não quer entrar!”

O guarda começou a ficar com raiva. Repetiu a ordem, mas mamãe não conseguia sair dali. Ela então sugeriu: “Então venha o senhor tirar esse carro!”, disse já saindo do veículo e lhe entregando as chaves da ignição.

Sem opção, pois não poderia deixar o carro ali no meio da rua, o guarda de trânsito pegou a chave com mamãe e se aprestou em entrar no carro. No entanto, quando virou a chave e tentou mover o câmbio, percebeu que também não conseguia passar a marcha ré.

Vendo que o guarda de trânsito estava mais enrolado que ela, mamãe não poderia deixar de comentar: “Como você quer que eu tire o carro, se nem você consegue!”, disse já para desmoralizar o guarda.

Felizmente, um motorista de ônibus amigo de papai estava passando por ali e colocou a marcha ré para ela. E assim ela conseguiu ir embora.

 

Umbuzada para Padim Beta

[contada pelo filho Jarbas]

Um dia, mamãe recebeu a visita de Padim Beta, que ela tinha quase como um pai, na sua casa em Natal. Ela preparou uma umbuzada por ser uma das comidas preferidas do padrinho. O problema era que a quantidade de ingredientes na casa dela estava limitada, por isso, a quantidade de umbuzada ficou muito pouca.

Para não fazer uma desfeita com Padim Beta, ela chamou todos os filhos no quarto para nos dizer: “Olhe! Quando vocês estiverem na mesa e eu lhes oferecer a umbuzada, vocês digam que não querem!”

Nós sabíamos que desobedecer a mamãe era chinelada na certa. Assim, quando nos sentamos à mesa, junto com Padim Beta e madrinha Mariinha, mamãe começou: “Hoje tem Umbuzada, viu, Padim Beta? Está servido?”

Padim Beta abriu logo um sorriso: “Oba! Gosto demais!”

Em seguida, cumpriu-se o que mamãe obedeceu. Mesmo com todo mundo salivando com vontade de comer aquela umbuzada, quando mamãe ofereceu a minha irmã Nininha, ela respondeu: “Eu não gosto de Umbuzada!”. Depois, ofereceu a mim e eu respondi: “Quero não!”. Por fim, ofereceu a Pedrito que também cumpriu o mando: “Tenho ódio de Umbuzada!!

Padim Beta respondeu todo satisfeito: “Eita! Vai sobrar mais para mim!” e começou a colocar a umbuzada no prato. Era a gente babando de inveja e ele comendo tudo sozinho.

 

Pimenta de Tio Manuelito

[contada pelo filho Jarbas]

Meu tio Manuelito foi uma vez para a nossa casa. Era o irmão que nasceu logo após mamãe. Era assim o terceiro filho legítimo de Miguel Arcanjo e Nanan. Assim, quando ele avisou que passaria lá em casa, mamãe preparou um jantar especial. Era uma sopa muito gostosa que só ela sabia fazer.

Tio Manuelito chegou e se sentou à mesa. Mamãe o serviu. Só que antes de começar a comer, ele viu uma pimenta em cima da mesa. Assim, foi logo pedindo: “Titi, pode me passar essa pimenta?”

Mamãe foi logo avisando: “Essa é uma pimenta muito forte, Lilito. Acho que é melhor você não colocar!”

Por algum motivo, as palavras de mamãe mexeram com o brio de tio Manuelito que foi logo querendo dar uma de forte: “Que é isso, Titi? Eu aguento. Sou muito bom de comer pimenta.”

Assim, para mostrar sua resistência, tio Manuelito caprichou na quantidade de pimenta que colocou na sopa.

Quando botou a colher na boca, tio Manuelito se desesperou. Saiu fumaça pela boca, pelo nariz, pelas orelhas. Emborcou logo o suco na garganta e empurrou o prato para longe, já com medo.

Quando mamãe viu essa arrumação, ficou brava: “E você não vai mais comer da minha sopa?”, ela questionou.

Quando tio Manuelito disse que não aguentava mais, que havia ficado muito apimentado, mamãe não contou conversa. Ela disse: “Agora, você vai comer tudo! Eu fiz para você!”. No fim, tio Manuelito teve que tomar a sopa toda.

Acho que até hoje deve estar sem sentir gosto de nada de tanto que aquela pimenta queimou sua língua.

 

Doces de Laís

[contada pelo filho Jarbas]

Como nós morávamos na Praia do Meio quando éramos crianças, nossos amigos eram os meninos da rua do Motor que ficava logo atrás. Eram crianças com menos condições, por isso mamãe sempre teve o cuidado de que, quando estivéssemos com eles, tudo o que fosse oferecido para nós também deveria ser oferecido a eles.

Se nós tivéssemos com dez meninos e ela nos desse uma banana, ela tinha que ter mais dez bananas para oferecer aos outros meninos. Ela não queria nos ensinar que não tínhamos privilégios sobre as outras pessoas.

O problema era que o contrário não era verdadeiro. Ela fazia de tudo para que não exagerássemos na comida fora de casa. Tínhamos que comer pouco na casa dos outros.

Só lembro das festas infantis na casa de dona Laís, que morava nas casas da Marinha. Ela veio do Rio de Janeiro para Natal por causa do esposo capitão de corveta e parece que trouxe umas receitas especiais de sobremesa. Tinha umas gelatinas e coberturas de bolos de todas as cores que eram uma delícia. Acredito que os doces dela não tinham essa história de massa americana. Eram de açúcar mesmo. A gente adorava.

Mamãe sabia que a gente não resistiria aos doces de Laís. Por isso, antes das festas, ela enchia a gente de vitamina de banana com leite até a barriga ficar inchada. A gente não conseguia comer mais nada lá. E ainda era dramática: “Vocês não vão fazer nossa família passar vergonha!”.

E o pior era que mamãe não deixava nem a gente levar a lancheira de aniversário. Depois, morrendo de vontade, a gente ficava em casa só pensando nos doces de Laís que não comemos.

Anos depois, quando Laís descobriu isso, ela brigou muito com mamãe por não deixar a gente comer os doces dela.

 

Caçadas de Papai

[contada pela filha Jardna]

Quando a gente morava na rua Jundiaí, papai costumava caçar todo o domingo com os amigos do “Clube dos Caçadores”, que ficava no Alecrim, por trás de onde hoje fica o camelódromo. Ele tinha um cachorro perdigueiro chamado Toy. Era a raça que melhor consegue encontrar pássaros silvestres para se caçar. Era grande e tinha o pelo branco malhado com cores marrons escuras.

Dizem que papai era muito bom no tiro, mas quem causava inveja mesmo era Toy que era muito bem treinado para encontrar a presa e apontar com seu focinho. Depois, ao abater uma ave, conseguia encontrar o lugar exato onde ela caía.

Lembro que mamãe esperava ansiosa toda vez que papai saía para caçar nos domingos. Ela já deixava o forno aceso para, quando papai chegasse com os patos selvagens, as arribaçãs e as avoantes na hora do almoço, já se colocasse para assar.

Havia vezes que papai demorava a chegar e a gente ficava morrendo de fome. Mas mamãe nem ia no mercado nesse dia. Mandava a gente esperar papai chegar. E, se ele começasse a demorar muito, chamava todos os filhos para se deitar na cama com ela, dizendo: “Vamos todos se deitar e dormir para a fome passar.”

Era as coisas de mamãe, mas ela só fazia isso porque sabia que papai e Toy sempre traziam algum pássaro para a gente comer.

Essa rotina de domingo durou até o dia que Toy estava na rua em frente à nossa casa e foi atingido por um carro. Ele morreu ali mesmo, atropelado.

Papai ficou triste demais com a morte de Toy. Todos choramos muito. Ele cavou uma cova e enterrou a espingarda de caça com seu perdigueiro. E nunca mais caçou depois desse dia.

 

Caridade a Formigão

[contada pelo filho Pedro]

Mamãe sempre foi uma mulher muito caridosa, que participava do “Clube de Mães do padre João Perestrello” que ajudava as comunidades pobres no Morro de Mãe Luíza. Da mesma forma, papai era considerado muito generoso e humano, em quem todos podiam confiar. Essas eram características de ambos que foram comprovadas pela forma como ajudaram o motorista Formigão no seu momento de maior dificuldade.

Papai tinha um grande apreço a todos os motoristas que trabalhavam para ele na empresa Gasdiesel de distribuição de combustível. Ele, que começou com um único caminhão, chegou a ter seis caminhões e me dizia: “Meu filho, considero cada um dos meus caminhões como uma loja própria com o motorista sendo o gerente”. Por isso, ele pagava já naquela época o décimo quarto salário e gratificações extras.

Uma das principais coisas que ele se preocupava com os motoristas era que eles descarregassem todo o combustível nos postos de gasolina. Afinal, alguns motoristas, por malandragem, deixavam o carro muito inclinado para ficar resíduo de gasolina nos cantos do tanque. Essa gasolina depois eles retiravam para vender aos taxistas e no interior com preço mais baixo.

Um desses motoristas, moreno, muito alto e magro, que os amigos chamavam de Formigão, havia retirado alguma dessa gasolina escusa. Colocou-a em galões e guardou-a em sua casa para depois vender.

Formigão tinha uma família grande, de cinco ou seis filhos, mas, para sua infelicidade, certa noite, ele foi acender um candeeiro e uma centelha caiu sobre um dos galões. Essa centelha fez a combustão da gasolina que explodiu os galões e incendiou toda a casa.

Formigão e sua família moravam onde a gente chamava de Carrasco e onde, até hoje, ocorre a Feira do Carrasco. Era um local considerado longe de Natal naquela época. E, naquele momento, com todo socorro de bombeiros e polícia muito longe, Formigão se viu obrigado a correr para dentro do fogo para tirar um filho de sua cama. Depois, voltava para salvar o segundo. Fez isso várias vezes, pois eram muitos filhos.

Assim que telefonaram para papai, ele foi ao auxílio de Formigão, encontrando-o com os filhos, todos com muitas queimaduras. E assim acompanhou todos até o hospital, abandonando a casa que foi sendo toda destruída pelo incêndio.

No outro dia, papai foi até a nossa casa e mandou chamar todos os filhos. Como nossa casa tinha três quartos, ele disse que todos os seus quatro filhos agora dormiriam num único quarto. Disse que passaria a dormir no quarto pequeno com Mamãe, pois o quarto deles, que era maior, iria acomodar a família de Formigão.

Logo que Formigão teve alta do hospital com sua família foi direto lá para casa. Eles dormiam todos em colchões no quarto que era de papai enquanto Mamãe ajudava a trocar os curativos deles, que tinham que ser trocados diariamente para não infeccionar.

Além disso, papai reconstruiu a casa de Formigão desde o chão, que estava muito destruída. Pagou por tudo, pois Formigão não tinha o dinheiro, confiando nele para que pagasse com seu trabalho.

Formigão ainda trabalhou muitos anos com papai, sempre lembrando que não tinha como compensar e pagar a gratidão que tinha por tudo o que mamãe e papai fizeram por ele.

 

  Viagens de Escola

[contada pela filha Jardna]

Eu estudava no Sete de Setembro quando terminei o ginásio nas vésperas dos meus quinze anos de idade. Foi quando decidiram fazer uma excursão da minha escola para Fortaleza. Mas essa viagem só foi para frente graças à mamãe que organizou tudo.

E claro mamãe foi comigo. Ela não ia deixar eu ficar os cinco dias lá sem sua vigia, nem ia perder a oportunidade de viajar.

Também foi graças a ela que outra excursão, ao fim do Científico, deu certo. Minha turma saiu de Recife no navio transatlântico Princesa Leopoldina até a cidade de Manaus. Foi outra viagem que a organização foi esmorecendo sem gente para completar o pacote. Se mamãe não tomasse à frente para conseguir mais gente não teria ocorrido. Completei meus dezoito anos no navio.

Mamãe assim sempre esteve muito presente em minha vida, em especial, nas minhas atividades da escola. Minhas amigas a adoravam por ela participar de tudo. Mamãe adorava ir também porque sempre foi muito festeira.

Mas também ela viajava comigo porque não me deixava só nenhum minuto. Não dava liberdade para nada. Estava sempre presente.

Ela não proibia a gente de namorar. É tanto que uma das minhas melhores amigas Marília namorava com o primo dela Francisquinho, mas o pai dela não a deixava namorar de jeito nenhum. Mamãe quem a levava lá para nossa casa para que ela pudesse se encontrar com o namorado. Também levava a gente para as festas do América e facilitava tudo para as minhas amigas.

Marília adora mamãe de coração e, até hoje, está casada com Francisquinho. Tenho certeza que, se não fosse pela mãozinha dela, os dois não teriam se casado.

Assim, apesar de papai ser muito ciumento, ao ponto de não deixar nem eu levantar os braços para que o vestido não subisse, mamãe era muito alcoviteira. Ela quem me orientava a andar toda dura na frente de papai para ele não perceber o tamanho curto dos meus vestidos, depois dizia para me soltar quando ele saía. Papai sempre dizia que achava mulher de biquini muito bonito, mas na filha dos outros, nunca na dele. Por isso, só usava os biquini quando mamãe comprava para mim escondido dele. Ela sempre me acobertava.

Agora, quando eu comecei com meu primeiro namorado, aí as regras foram muitas.

 

 

Década de 60 e 70

Filhos Crescidos

As histórias de dona Titi são tantas que não cabem num único capítulo. Teve que ser dividido em vários. Se no capítulo anterior seguimos a história da infância e adolescência dos filhos de Titi, o objetivo agora é contar a história deles quando jovens adultos nos tempos de solteiro.

Esse é o momento de contar a histórias de faculdade, de farras, de namoradas e de como começaram suas vidas. Certamente, dona Titi não mudou sua forma de ser. É possível assim imaginar as situações inusitadas conforme seus filhos vão adquirindo sua própria independência. E nada melhor do que continuar lendo sobre essas situações conforme a visão de seus filhos. Afinal, se fosse dona Titi as contando, ela diria que estava sempre certa.

 

Dona de Casa

[contada pelo filho Jarbas]

Mamãe se tornou a senhora do lar desde o casamento. Teve que aprender como fazer o fogo à lenha, que demorou para conseguir sozinha. Papai quem acendia o fogo todo dia de manhã e mamãe ia só colocando mais lenha para o manter aceso.

Até para escrever uma lista de compras, foi um aprendizado. Um dia deu uma lista de compras para levar para o mercado para papai comprar no caminho: Diarreia, Fermento e Café. Papai não entendeu nada. Na verdade, era o remédio para diarreia do filho Neto, que estava doente, o fermento do bolo e o café para beber.

Costurava nossas roupas, pois comprava as calças longas e ia só fazendo o abainhado das calças à medida que a gente crescia. Só era mais preocupada com a praticidade que com a beleza da roupa. Era comum a gente ter uma calça de costura branca ou azul; e termos nossos abainhado com costuras com linhas de diferentes cores. Era um lado vermelho; o outro amarelo; tudo misturado.

Mesmo com a melhora de nossas condições de vida, ainda teve problemas de adaptação. Ela tinha um medo grande de acender o novo forno a gás lá da nossa casa na Jundiaí. Tinha medo de explodir a casa toda.

Até mesmo quando teve condições de contratar pessoa para lhe ajudar na cozinha e na limpeza, foi um problema.

A empregada Zefa fazia tudo de casa, mas odiava limpar banheiros. Passou uns vinte anos lá em casa. Era analfabeta. Mesmo assim, toda semana ela enrolava mamãe. Ela fazia uma limpeza bem fraquinha no banheiro. Assim, quando mamãe reclamava, sempre dizia: “Ô, Zefa, você ainda não aprendeu como limpar o banheiro”.

Zefa então dava uma desculpa, mas sabia que mamãe sempre falava depois: “Pois eu vou mostrar como se faz pela última vez”. E assim mamãe limpava o banheiro todo para mostrar a forma correta de limpar. Sei que, por todo tempo que Zefa trabalhou lá em casa, não teve uma semana que não fosse mamãe que limpasse os banheiros.

Realmente, mamãe era uma excelente dona de casa, mas teve coisas que nunca conseguiu aprender.

 

Foto de Sinh’Ana

[contada pela filha Jardna]

A professora Dona Noilde Ramalho era diretora da Escola Doméstica no tempo em que eu terminei o ensino médio. Lá na escola, todos sabiam que dona Noilde tinha um grande carinho pela mulher que cuidou dela quando criança. Era uma senhorinha pequena, já de idade, de pele bem escura, chamada Sinh’Ana.

Assim Dona Noilde tinha um grande desejo que era tirar uma foto profissional de Sinh’Ana para fazer um quadro, pois queria colocar a esse quadro no mural da escola.

Todas as alunas conheciam Sinh’Ana por ela morar dentro da escola e participar de algumas atividades. Todas a adoravam. Quando a gente dizia que estava com fome, ela nos fazia um lanche prontamente e, durante todo o tempo que esteve viva, fez parte da vida de todas as meninas que passaram pela Escola Doméstica.

Um dia, conversando com mamãe, dona Noilde contou desse desejo sobre uma fotografia de Sinh’Ana. Numa das raras vezes que eu vi mamãe ser discreta, ela chegou até Sinh’Ana e fez o pedido: “Ô, Sinh’Ana, tenho maior desejo de você tirar uma fotografia com minha filha Nininha. Tenho um primo Rodrigues, que é fotógrafo e pode trazer a câmera.”

Quando Sinh’Ana autorizou aquilo que há anos negava, dona Noilde ficou muito feliz.

As fotos ficaram muito lindas. Sinh’Ana tirou fotos comigo, com mamãe e com Noilde. Além disso, tirou uma foto sozinha que acabou virando um quadro e que até pouco tempo estava exposto na Escola Doméstica.

Ter conseguido essa foto profissional de Sinh’Ana foi uma das coisas que dona Noilde mais agradeceu a mamãe.

 

Exemplo da Família

[contada pelo filho Pedro]

Toda família possui os filhos que são melhores na escola e outros que são mais trabalhosos. Dos filhos de dona Titi, havia o primogênito Neto que era bem mais velho que os demais e mamãe o colocava como o exemplo na família porque era o mais estudioso e foi a segunda maior nota de toda sua turma no curso de Engenharia Civil.

Também havia eu, que mamãe sempre disse ter facilidade muito grande de aprender. Diz ela que eu via um assunto numa aula ou lia algo num livro uma única vez e aquilo já ficava na minha memória.

E havia Jarbas e Nininha, que eram os mais trabalhosos. Mamãe sempre pegava no pé deles para estudar. Jarbas, em especial, teve uma dificuldade de linguagem na infância e depois só passava de ano na escola com muita dificuldade, “se arrastando”, como a gente dizia.

Ele também prestou o vestibular para Engenharia Civil, assim como nosso irmão Neto, mas não conseguiu passar na primeira tentativa. Teve que estudar para o ano seguinte. E isso mamãe dizendo que a gente deveria seguir o exemplo de nosso irmão mais velho, que era muito estudioso e havia sido a segunda melhor nota da turma de faculdade dele.

Hoje, não tenho dúvidas que Jarbas reprovou no primeiro vestibular por um erro na marcação do cartão de inscrição. Afinal, é quase impossível uma pessoa, numa prova de cinquenta questões de múltipla escolha, errar todas as questões. E, nessa época, ele já tirava notas muito boas porque já havia descoberto sua paixão pelas matérias de Ciências Exatas na Escola Técnica onde fez o científico.

Na época, os alunos tinham que perfurar cada um dos catorze números do cartão de inscrição na prova. Tenho certeza que Jarbas deve ter perfurado um desses números errado e por isso zerou a prova por ter sido considerado uma “Falta” e não por ter errado todas as cinquenta questões, o que estatisticamente não faz sentido.

No ano seguinte, ele fez o vestibular junto comigo por eu ser apenas um ano mais novo. Ele estava muito nervoso, por isso, foi até a praia em frente lá de casa para esperar o resultado, sozinho, sentado na areia. Primeiro, saíam os resultados para os aprovados em Medicina, o que papai estourou logo um foguetão quando viu meu nome ali. Depois, veio o resultado de Engenharia Civil.

Descemos todos juntos até a praia, eu, papai, mamãe, Nininha e Jucá, para avisar qual tinha sido o resultado: “Parabéns, Jarbas! Você passou!”.

Jarbas começou na faculdade de Engenharia Civil, entrando de cabeça no curso e até pagando matérias antecipadas no tempo livre sempre com ótimas notas. Ele foi o primeiro aluno do curso a terminar em apenas quatro anos. Só lembro dele receber meu diploma e ir até mamãe para dizer: “Bem que eu tentei ser igual a Neto, que foi o segundo lugar da turma dele, mas não consegui. Acabei ficando em primeiro lugar na minha!”

 

Futebol (Parte 1): o Frasqueirão!

[contada pelo filho Pedro]

Desde 1946 que minha mãe, dona Titi, frequentava o estádio Juvenal Lamartine na Hermes da Fonseca. Essa era uma época que mulher não entrava em jogo de futebol. Havia as cadeiras especiais que papai gostava muito de ir por ser coberto e com mais espaço. Só que mamãe gostava mesmo era de ir para o meio das arquibancadas, que a gente chamava de Frasqueirão, e vestida de preta, que era a cor do seu time de coração: o ABC.

Papai conta que deixou de levar ela para o estádio porque ela ficava discutindo com os outros torcedores. Além disso, era um ambiente de muito palavrão, o que constrangia papai por estar lá com sua esposa. E quando papai tentava argumentar: “Vamos embora, Titi, que estão gritando muitos palavrões”, ela argumentava de volta: “Quem está gritando palavrão? Não estou escutando nada!”. Assim, ela ficava até o fim do jogo.

Mamãe voltou a frequentar o estádio quando eu e meus irmãos já estávamos com idade o bastante para ir aos jogos. E papai tinha razão quanto a mamãe.

Lembro de um jogo do clássico ABC contra o América em que o jogador Alberi acabara de sair do ABC para jogar a no América. Mamãe então escutou um dos torcedores, indignado com a troca de times do jogador, gritar bem alto para toda a frasqueira escutar: “Quebra aperna desse negro traidor!”

Quando escutou o xingamento, lá vai mamãe se virar par discutir com esse homem: “Não fale assim de Alberi! Ele é um profissional e está só fazendo o trabalho dele!”

Discussão vai e discussão vem, eu tentando levar mamãe embora e ela batendo o pé. Sobrava era para mim: “Ô, Pedrito, não está vendo que eu estou dizendo umas verdades para esse homem!”.

Realmente não dava para levar mamãe para a Frasqueira!

 

Futebol (Parte 2): ABC e América!

[contada pelo filho Pedro]

No ano de 1972, o time ABC passou por um período de muita dificuldade, porque, num jogo do campeonato brasileiro do ano anterior, ele venceu do Botafogo-RJ, de virada, com o placar de 2×1. Depois do jogo, descobriu-se que o ABC tinha um jogador irregular e por isso foi punido num arrumadinho dos cartolas com o banimento por dois anos do campeonato brasileiro.

Sem poder participar de jogos oficiais por dois anos, seria muito difícil fazer a renda necessária para pagar os jogadores. Ainda mais que era um grande time. Tinha Alberi, que tinha sido bola de prata; Danilo Menezes, que jogou na seleção uruguaia; Maranhão, que jogou no Vasco; Jorge Demolidor, que chegou à seleção brasileira; e muitos outros.

Os sócios beneméritos da época fizeram uma reunião para encontrar novas fontes de renda. Então, se formou uma comitiva para ir à África e Europa, na busca de jogos amistosos. Era jogos caça-níqueis, porque ninguém sabia nem qual era o jogo do mês seguinte ou mesmo se iria jogar. Era a comitiva que ia negociando com os empresários dos times estrangeiros até conseguir alguma coisa.

Felizmente, a ideia foi um sucesso e assim se teve uma campanha sensacional.

Durante os três meses que o ABC passou fora do Brasil nessa turnê, mamãe costurou uma bandeira de três metros de altura por quatro metros de comprimento. Ela colocou em cima de nossa casa na Praia dos Artistas para ficar tremulando. Quando a bandeira se rasgava após duas ou três semanas, ela já preparava outra para colocar no lugar.

Todos que viam a bandeira lá em casa pensaram que era alguma sede do clube e assim ficou com a bandeira tremulando pelos três meses em que o ABC fez sua campanha no exterior. Era bom demais torcer para o alvinegro e reunir os amigos para assistir os jogos lá em casa.

Com o tempo, o ABC voltou a jogar no campeonato brasileiro e a rivalidade com o seu maior adversário América foi aumentando. Mamãe sempre discutia muito com os torcedores americanos. Não aguentava que fizessem brincadeira com o ABC. Até que chegou que o amor pelo ABC começou a perder lugar para raiva do América.

A raiva de mamãe pelo América se estendeu para a vida pessoal. Ficou tão grande que, quando um grande amigo da família chamado Gustavo Carvalho se candidatou para Deputado Federal, ele foi pedir voto a mamãe. Ela disse logo: “Não voto, porque você é presidente do América!” e realmente não votou nele.

Outro grande amigo Eduardo Patrício, que era empresário, dono da empresa Nutriday, resolveu patrocinar o América. Era considerado um amigo-irmão, mas, no dia que contei à mamãe que ele estava patrocinando o adversário, ela ficou indignada: “Como Eduardo pode fazer isso, Pedrinho? E ainda diz que é seu amigo!”

Chegou ao ponto de que, quando tinha clássico ABC e América, e o alvinegro fosse vitorioso mamãe ficava feliz demais. Mas se perguntasse para ela: “Titi, você está assim tão feliz por que o ABC ganhou?”, ela responderia: “Não, estou feliz porque o América perdeu!”

Essa era a alegria de mamãe.

 

Mulheres do Ford 28

[contada pelo filho Pedro]

O primeiro carro de papai foi um calhambeque Ford 28, que ele comprou e restaurou com as peças que conseguia. Afinal, como trabalhava com lotação, levando pessoas de canto a canto em Natal, ele conhecia muitos donos sucata e de lojas para automóveis. Aos poucos o carro foi tomando forma, muito disso, graças ao amigo Astrogildo Segundo cujo filho viria a ser dono da Helisom. Ele possuía um carro semelhante: o “Ford 28 Modelo A”. Assim papai começou a visitá-lo com frequência para ter uma referência durante a restauração do seu próprio carro.

Astrogildo adquiriu esse carro no ano de 1938 de um usineiro rico da cidade. Ele ficou muito contente e orgulhoso, mas não imaginou o quanto sua esposa ficaria chateada com a aquisição. Afinal, essa situação com as esposas é bem conhecida por todos os colecionadores de carro antigo.

A reação da esposa foi tão dramática que Astrogildo jogou uma lona em cima do carro e nunca mais tirou por todas as três décadas que o possuiu.

Como papai estava toda semana lá para ver o Ford 28 na sua garagem, o amigo Astrolgido perguntou: “Pedrinho, por trinta anos que eu tive esse carro, nenhum dos meus filhos teve o interesse de sequer tirar a lona dele e você vem aqui toda a semana. Eu ficaria muito feliz se visse alguém usufruindo dele. Você não quer o comprar?” E assim papai comprou o carro no ano de 1968.

Pasmen, as pessoas que maus usufruíram desse carro foi mamãe e minha irmã Nininha. Era um carro que funcionava perfeitamente, assim, papai permitia que Nininha passeasse nele. Fico só lembrando da cena de minha irmã com suas amigas naquele calhambeque. Quando passavam os homens eram só olhando como gaviões para aquele bando de mulher num carro tão estiloso. E claro mamãe achando tudo muito bom.

Anos depois, a entrada de Nininha em seu casamento foi exatamente nesse carro.

 

Proposta pelo Ford 28

[contada pelo filho Manoel Neto]

Meu avô Miguel Arcanjo, pai da minha mãe Titi, teve um Ford na década de 1930 que, quando o cangaceiro Antônio Silvino passou por Carnaúba dos Dantas, ele roubou o carro para fugir da polícia. Para a sorte de vovô, faltou gasolina e eles tiveram que deixar o carro na estrada intacto, que depois conseguiram reaver sem danos.

Por ter convivido com esse carro do pai dela, mamãe gostava muito da relíquia automobilista que era o Ford 29 que papai restaurou.

Quando eu ia para João Pessoa visitar minha namorada na época e atual esposa Gracinha, ele mandava eu parar numa loja de peças perto da estação ferroviária. A loja era uma bagunça. Era um porão profundo. Devia ter uns cinco metros de largura por uns cinquentas de profundidade. Era um lugar escuro, empoeirado. Tinha uma lâmpada fraca com poucos volts que era horrível. Mas eu ia lá, saltava antes da estação para procurar as peças que papai precisava. Às vezes tinha que passar a tarde toda lá.

Papai chegou a comprar outro Ford 28, do amigo Astrogildo Segundo, para escolher as melhores peças de ambos e fazer o melhor carro possível. Esse carro ficou tão bom que, poucos anos depois de pronto, um sujeito chegou para papai oferecendo uma motocicleta linda, de origem alemã BMW, completa, que fez os olhos de papai brilharem.

O sujeito queria trocar a motocicleta BMW pelo Ford 28, o que deixou papai muito balançado. Só que como ele costumava dizer: “formiga sabe a roça que come”; antes, ele foi perguntar a mamãe o que ela achava dessa troca.

Mamãe foi bem clara: “Olhe, Pedrinho, você pode vender sim. O carro é seu. Mas se você vender eu saio por essa porta na mesma hora e não volto mais.”

Sei que o Ford 28 até hoje está na família.

 

Motocicletas (Parte 1): Aulas na Lambreta

[contada pelo filho Manoel Neto]

A grande paixão de papai sempre foi motocicletas. Desde a primeira moto dele que foi a Indian 125 até a Honda mais esportiva que ele comprou depois, ele adorava tanto andar quanto à parte mecânica. Ele sempre desmontava e montava as motos dele, até sua Harley-Davidson Electra Glide de 1200 cilindradas.

Mamãe sempre quis acompanhar ele nessa paixão. Bastava papai subir na moto que ela pulava na garupa atrás.

Só que papai sempre disse que mamãe sempre foi uma garupeira muito ruim. E depois de certa idade ele começou a ficar preocupado de não estar mais conseguindo compensar a moto com mamãe em cima, porque toda curva mamãe botava o peso para o lado errado e assim o desequilibrava.

Pela década de 1960, quando mamãe viu que papai não queria mais andar com ela na garupa, ela não contou conversa. Decidiu que ia aprender a andar de moto.

Eu estava com dezesseis anos de idade quando mamãe me pediu para a ensinar, porque papai não concordava com isso. Eu andava numa lambreta na época e lá foi eu a ensinar a andar de moto.

Até que ela aprendeu a andar bem na lambreta quando eu ia atrás dela. Só não dava certo quando estava sozinha.

Quando eu saltava da moto para correr do lado dela na lambreta, bastava eu dizer: “Mamãe, você está sozinha agora!”, aí ela desonerava. Já gritava “Ai, meu Deus!” e balançava a moto. Desequilibrava tanto que eu tinha que correr para segurar atrás e pegar os guidões.

Conclusão: Mamãe aprendeu a andar na lambreta, mas só quando havia alguém na garupa. E papai com certeza não ia nessa arrumação.

 

Motocicletas (Parte 2): Leilão das Harley

[contada pelo filho Manoel Neto]

Papai era muito habilidoso na motocicleta. De empinar a cavalo-de-pau, ele fazia todo tipo de pirueta. Nos tempos da guerra, ele ia à Parnamirim Field onde o irmão dele trabalhava só para desmoralizar os americanos. Fazia na Indian 125 dele o que os americanos não conseguiam fazer nas Harley-Davidson de última geração que traziam para a base aérea de Parnamirim Field.

Só tinha uma peripécia na motocicleta que ele achava muito difícil de fazer. Era andar com mamãe na garupa.

Quanto mais a idade chegava, menos confiança ele tinha de levá-la na garupa. Só lembro dele dizer que mamãe era uma garupeira muito ruim.

Mamãe foi ficando muitos anos desgostosa com isso. Gerou um problema no casamento que só foi se resolver anos depois, já no ano de 1990, no governo Collor, quando papai me mandou junto com Jarbas para um leilão de Harley-Davidson que estava ocorrendo na Esplanada Silva Jardim, na Ribeira, em frente à Delegacia da Fazenda Nacional e o Banco do Brasil, que estava oferecendo duas motos Harley-Davidson. O lance mínimo era de 90 mil cruzeiros em cada moto.

Quando papai soube desse leilão, ele avisou aos amigos motociclistas. Disse que tinha interesse em uma das motos e perguntou se alguém tinha interesse na outra. Assim perguntou para não haver nenhuma disputa no dia e ninguém achar que ele estava escondendo o leilão.

Ninguém teve interesse, mas um dos motociclistas avisou do leilão a um vendedor de motos de São Paulo.

Nem vou dizer que “amigo” foi esse, só digo que papai ficou muito chateado com essa atitude, pois o tal paulista queria comprar as motos aqui para revender na cidade dele.

Exatamente por isso enviou eu e Jarbas para fazer o lance. Quando a gente começou a dar os lances na moto, o paulista levantava a mão e dava um lance maior. Sei que a moto que começou por 90 mil cruzeiros, acabou nos custando 321 mil.

Até aí tudo bem, faz parte do leilão. O problema foi que o paulista veio contar vantagem quando eu estava assinando o cheque para pagar a moto. Ele disse: “Compraram a primeira motocicleta cara, agora vou comprar a segunda bem baratinha.”

Meu irmão Jarbas ficou com muita raiva desse comentário. Quando o leilão da segunda Harley-Davidson começou, que o paulista deu o lance mínimo para levar a moto mais barato: “noventa mil”, Jarbas não se aguentou. Não conseguiu engolir aquele paulista contando vantagem.

Jarbas se aproximou dele, levantou a mão e deu o novo lance: “322 mil!”. E ainda completou no ouvido do paulista, só para ele escutar. “Só leva a moto agora se pagar mais caro que a primeira!”

Resultado: O paulista não teve coragem de enfrentar Jarbas no leilão e a gente ficou com as duas motos.

Quando a gente falou para papai que pagou 321 mil cruzeiros numa moto e 322 mil na outra, ele já começou o sermão. Ainda bem que, quando a gente contou o que tinha acontecido, ele ficou do nosso lado e ainda disse que se fosse ele pagava quatrocentos.

No fim deus tudo certo. Papai desmontou as motos para fazer uma moto com as melhores peças. A outra, mesmo com as peças não tão boas quanto da primeira, ele conseguiu vender até mais caro que o lance de Jarbas. E o melhor que depois adquiriu um Side-car, que podia levar mamãe. Não precisava mais levar ela na garupa e assim se resolveu um problema no casamento.

Até hoje essa Harley-Davidson está na família.

 

Visita de tia Beatriz

[contada pelo filho Pedro]

Papai tinha uma prima Beatriz que gostava muito dele desde criança. Ela era a prima mais velha, que era como se fosse aquela irmã protetora.

Eu já estava acabando minha adolescência e já morávamos em frente à Praia dos Artistas quando a família recebeu a notícia que tia Beatriz havia sofrido um AVC. Ela ficou muito debilitada. Teve a face paralisada; as pernas frágeis sem conseguir andar; dificuldade de se alimentar; entre outras coisas.

Quando soube da notícia, Mamãe chamou meu pai: “Pedrinho, vamos visitar sua prima Beatriz que ela está muito sequelada depois do AVC”.

Papai era muito pragmático para essas coisas. Tentava se esquivar dessas obrigações, logo se explicando: “Ô Titi, eu não vou. Não quero ver minha prima nessa situação. Prefiro lembrar dela do jeito que era.”

Assim, papai nunca foi a visitar.

Certo dia, a gente estava em casa, aqui na praia do Artistas. Era o Dia das Mães. Estavam todos no terraço: eu, meu irmão, as noras, papai e mamãe. De repente, um carro vai parando em frente lá de casa.

Reconhecendo o condutor do carro, mamãe concluiu bem alto: “É o filho de Beatriz quem está dirigindo”. E, já olhando para papai, continuou “Ela veio nos visitar porque você não quis a visitar”.

Nisso, mamãe já se levanta para correr na direção da senhorinha no banco de trás que, de tão baixinha, só aparecia na porta a parte de cima da cabeça com seus cabelos brancos. Papai reconhecendo ser mesmo sua prima Beatriz e já sabendo como mamãe era, se levantou na mesma hora.

Bem que papai tentou chegar primeiro, mas mamãe foi mais rápida e não alisou. Revelou logo: “Ô, Beatriz, chamei muito Pedrinho para ir te visitar e ele não quis.”

Já era uma situação embaraçosa para Papai, mas mamãe não se controlava. Ela terminou dizendo: “Ele disse que se for para ver você do jeito que está aí agora, prefere nem ver!”

Papai quase teve um infarto. A prima que mais gostava dele, escutando isso. Aí é demais, né?

 

Junior Amostrado

[contada pelo filho Jarbas]

Em 1977 ocorreu em Natal o JUBs, os jogos universitários brasileiros. Toda cidade se mobilizou para que se ganhasse o maior número de medalhas. E o time de voleibol da cidade tinha muitos amigos nossos: Júnior Medeiros; Dadau; Igor, Magy; e outros. Era uma equipe que frequentava muito lá em casa por causa do meu irmão Pedro, pois todos gostavam muito de farrear como ele. E assim eu tinha amizade com todos eles.

O melhor jogador de Voleibol do Rio Grande do Norte nesse tempo, com certeza, era Junior Medeiros que chamávamos de “Titela”. Era nosso atacante enquanto o outro grande jogador era Dadau, que era o levantador.

A principal estratégia de jogo na época era de subir de três ou quatro atacantes ao mesmo tempo para o bloqueio não saber quem realmente ia realizar o ataque. Era o levantador quem escolhia na hora quem estava mais livre para cortar a bola na quadra adversária. Por isso, a importância de Dadau no time.

Esse time do Rio Grande do Norte era realmente muito bom e assim conseguiram chegar nas semifinais do campeonato. Mamãe logo se prontificou a assistir. Afinal, Junior Titela frequentava muito lá em casa e ela nunca tinha assistido um jogo de voleibol, estava curiosa para ver. Queria saber se Junior estava jogando muito mesmo.

O jogo começou, mas, como todos sabiam que Junior era o melhor jogador, ele foi muito marcado nesse dia. Quando ele subia à rede já tinham dois ou três para bloqueá-lo. Assim, Dadau era obrigado a levantar a bola para outro cortar. Claro que isso não tira a importância de Junior, que mantinha a jogada e subia à rede como se fosse o atacante para enganar o bloqueio adversário. Era o que a gente chamava “fazer a finta”.

O jogo foi um sucesso. Com Junior ludibriando o bloqueio, se deixava livre os outros atacantes para fazer o ponto. O Rio Grande do Norte ganhou a medalha no voleibol do JUBs desse ano.

Ao fim de tudo, no meio daquela comemoração, meu irmão Pedrito perguntou a mamãe o que ela tinha achado do jogo. Muito honesta e sem entender como a finta funcionava, ela comentou: “Gostei muito. Foi muito animado. Só não gostei de Junior. A bola nem era para ele, mas ele ficava só fazendo pose. Eu não sabia que ele era tão o amostrado!”

Se eu não explicasse que aquela era a estratégia que fez o Rio Grande do Norte ganhar a medalha, mamãe estaria até agora chamando Junior de amostrado.

 

Vigia da Filha

[contada pela filha Jardna]

Mamãe sempre quis que todos os seus filhos falassem inglês, por isso, matriculou todos nós na escola de inglês da Sociedade Brasil Estados Unidos, que ficava na rua Getúlio Vargas. Assim, já nessa época, eu estudava inglês e fazia o cursinho vestibular na rua Felipe Camarão. Era exatamente em frente ao cursinho que meu atual esposo Jucá ensaiava na sua banda como baterista. Era a banda “Impacto Cinco”, que era bem famosa aqui em Natal.

Jucá disse que já tinha me visto outras vezes com mamãe. Ele, que trabalhou desde novo, era contador do Banco Português. Disse que me viu lá no banco algumas vezes quando mamãe ia sacar o dinheiro da aposentadoria de vózinha Nanan.

Quando descobriu que um dos seus colegas da banda estudava inglês na mesma sala que eu, Jucá pediu a esse amigo que nos apresentasse. Essa ponte deu certo. Assim, eu e Jucá começamos a namorar. Quando eu saía da aula, ele deixava o ensaio para se encontrar comigo.

Só que papai era muito ciumento. Não deixava que fossemos ao cinema juntos. Mesmo para ir à praia só podia em frente lá de casa e com mamãe me pastorando lá da varanda. E ainda havia a regra de que eu e Jucá não podia entrar no mar ao mesmo tempo. Então, com mamãe pastorando, eu entrava primeiro no mar. Só depois que eu saía é que Jucá podia entrar. Papai não admitia diferente.

Era um regime de autoridade que até meu irmão mais velho, Neto, se revoltava, dizendo que aquilo não podia.

Quando Jucá ia lá para casa à noite, papai mandava mamãe ficar olhando a gente no terraço para ver se estávamos fazendo alguma coisa errada. Até papai ficava me vigiando também. Ele saía para se encontrar com os amigos, mas, ao saber que a gente ia se encontrar em certo horário, ele pedia o carro emprestado dos amigos para passar escondido em frente lá de casa.

Às vezes, quando mamãe estava com sono e não aguentava mais ficar pastorando, ela pagava um dos meninos da rua chamado Irã para que pudesse dormir.

Aí, é que era engraçado, pois ficava eu e Jucá conversando e de instante em instante aparecia aquela cabeça de menino por trás do muro. Era engraçado, pois quando Jucá percebia aquilo dava logo um grito e o menino corria.

E a gente não fazia nada demais. Era tudo muito inocente. Mas era assim que a gente namorava.

 

Vigia das Noras

[contada pelo filho Pedro]

A casa dos meus pais sempre foi uma casa para os meus amigos. Magy, Junior e outros grandes amigos frequentavam muita lá. Era chamada de “O Clube”. Muitas vezes, iam lá só para conversar com papai ou com mamãe, mesmo eu não estando em casa.

Na Semana Santa de 1978, eu tinha ganha até o meu Maverick. Assim, nós marcamos uma viagem com nossas namoradas até Carnaúba dos Dantas para a gente conhecer as origens de mamãe. A cidade era até conhecida pelas inscrições rupestres que lá foram encontradas, que levou muitos da UFRN e até da USP para gravar essas inscrições no plástico transparente.

Nós chegamos lá e nos hospedamos na fazenda Xique-xique, que era da parte materna de mamãe. Era uma área de sítio na época, que nosso primo Humberto nos levou. Assim, subimos uma serra caminhando até chegar numa gruta grande onde tinha as inscrições rupestres.

Foi um passeio interessante porque o guia contratado levou um óleo que, quando passava na rocha, deixava bem vivo o tom vermelho das inscrições. Quando voltamos, fomos assistir à encenação da Paixão de Cristo por ser a Sexta-feira de páscoa cuja tradição fará quarenta anos agora.

A própria encenação da Paixão de Cristo me deixou admirado pelo realismo. Nunca vi um Jesus apanhar tanto em minha vida. Dava até para ouvir o soldado de chamar o Jesus de “filho da p…” enquanto baixava a chibatada de verdade nele.

Depois, fiquei sabendo que o único da peça que recebia salário era esse Jesus sofredor. O resto do elenco era de voluntários. Nós só não sabíamos se esse Jesus era o único que recebia dinheiro por apanhar tanto, já que depois teria que tratar os ferimentos, pois dizem que passava dois meses sem conseguir trabalhar de tão machucado. Ou se apanhava tanto por ser o único que recebia dinheiro, já que os outros descontavam nele raiva de não receber nada.

Essa discussão com meus amigos continuou noite adentro. Eu lembro porque foi a primeira vez que bebi Catuaba na minha vida, pois o amigo de papai Severo mandou três litros do comércio dele para a gente.

No fim, enquanto a gente bebia na festa, mamãe já havia preparado tudo lá no sítio. Como nós éramos namorados, tanto Magy e Lise, Júnior e Célia, e eu e Valéria, mamãe mandou logo dizer que ia ter um quarto para os homens e que ela ia dormir no mesmo quarto das namoradas. Até Neto meu irmão, que já era casado com Gracinha, teve que dormir separado dela.

Pior, mamãe organizou cada lugar onde as meninas iam dormir. Botou as redes para caber todo mundo. E ainda escolheu o lugar dela na parede onde ficava a porta do quarto já para dormir com o corpo todo encostado nela.

Não tinha jeito da gente entrar ou das meninas saírem sem passar por ela. Assim não tinha risco de ninguém sair escondido para namorar.

No entanto, devo dizer que nem precisava desse cuidado todo. Nesse dia, a gente bebeu catuaba até o sol raiar. Nem me lembro como a gente chegou no quarto de tão embriagado.

Ficou todo mundo apagado. Era dormindo de boca aberta e roncando. Não tínhamos a menor condição nem de se levantar para ir ao banheiro quanto mais para namorar!

 

Genro Jucá (Parte 1): Noivado

[contada pela filha Jardna]

Meu esposo Jucá sofreu muito com mamãe. Ele decidiu noivar comigo depois de uma apresentação da banda em que ele era baterista, a “Impacto Cinco”, que era muito famosa em Natal. Antes mesmo de o namorar, quando o vi primeira vez, ele estava tocando no Festival de Bandas que aconteceu no Palácio dos Esportes. Era um monte de mulheres em cima deles.

Lembro de ter dito a uma amiga: “Eu nunca namoraria um homem de banda com esse bando de mulheres que não os deixam sossegados!”

Mesmo depois de namorarmos, aquele assédio feminino me chocava tanto que chegou no limite. Um ano de namoro depois, eu tive de dizer: “Não dá, Jucá, você vai ter de escolher: eu ou a banda”.

Eu tinha dezenove anos de idade e gostava muito de Jucá, mas pensei até que ele ia escolher ficar com a banda que gostava tanto. Fiquei surpresa quando ele disse “Quero ficar com você!”. Nesse dia, a gente resolveu se casar.

Depois de nos casarmos, por causa de um motivo ou outro, só faltava Jucá assinar os papéis do casamento para entregar ao cartório. Como a coisa toda começou a demorar, mamãe foi no Banco Português que ele trabalhava para tirar satisfação.

Mamãe chegou chateada no banco. Entrou que ninguém segurava, furando a fila e entrando na sala de Jucá. Deu logo um gritou da porta mesmo em alto e bom tom: “Ô Jucá! Não vai assinar os papéis do casamento?”

Todo mundo que estava dentro do banco virou o pescoço para olhar quem estava gritando. Jucá já ficou logo envergonhado e com medo, sabia como mamãe era. Nem os amigos do banco sabiam o que responder. Começou um silêncio constrangedor, mas mamãe não ficou nem um pouco envergonhada e continuou: “Vá assinar logo, porque senão eu cancelo tudo e coloco nos jornais que foi você quem não quis mais se casar!”

Já dá para imaginar como não devem ter ficado os amigos de Jucá. “Rapaz…” – todos comentaram chocados: – “Se sua sogra já é assim antes de você se casar, imagine como será depois!”

 

Genro Jucá (Parte 2): Casamento

[contada pela filha Jardna]

O meu casamento com Jucá teve uma grande festa. Tudo foi organizado por papai e mamãe nesse dia. Era para tudo sair perfeito, mas mamãe tinha que fazer alguma confusão. Parece que nesse dia quis imitar a mãe dela, dona Nanan, que não apareceu para a festa do seu casamento.

Era praxe os noivos receberem os convidados na entrada da recepção na companhia dos seus pais. Mas mamãe veio com a conversa de que só iria quando eu a chamasse. Não tinha o menor cabimento mamãe ter feito essa confusão. Eu era a noiva, mas toda a festa é oferecida pelos pais da noiva. Eu respondi: “Mamãe, eu não preciso chamar porque quem está dando a festa é você!”

Nessa história, mamãe ficou sentida e desapareceu. Ficou escondida enquanto a mãe de Jucá e papai ficaram com a gente para receber os convidados que vinham da igreja.

Até hoje, quando o assunto surge numa conversa a gente briga. Ela diz que eu não a chamei e eu digo que era obrigação dela estar lá.

O pior ela fez depois. Com seis meses que estávamos casados, Jucá foi transferido para o Banespa Brasília, mas com pouco tempo conseguiu uma nova transferência para Recife.

Mamãe ia sempre para Recife para me ajudar. Tinha até a chave lá de casa. Só que ela começou a abusar com essa liberdade, pois estava sempre lá em Recife e já chegava sem avisar. Entrava de vez toda vida e, quando eu nem esperava, ela estava já dentro de casa.

Um dia, meus irmãos foram tentar a aconselhar: “Mamãe, não entre de vez assim na casa de Nininha! Você não sabe o que pode acontecer. Vai que Jucá não lhe reconhece e dá um tiro em você!”

Mamãe não deixou sem resposta: “Nem meu esposo Pedrinho deu um tiro em mim, quanto mais Jucá que nem revolver tem!”. E assim ela continuou entrando com sua chavezinha sempre que quis.

 

Gravidez em Segredo

[contada pela filha Jardna]

Eu passei muito tempo sem ver mamãe, porque meu esposo Jucá foi transferido para o banco Banespa na cidade de Brasília. De lá, ele conseguiu uma permuta com um amigo para Recife até enfim voltarmos para Natal. Assim, se passou mais de um ano sem eu ver Dona Titi e, quando a reencontrei, fui logo percebendo algo estranho “Mamãe, por que você está gorda e andando tão desarrumada?”

Eu achei estranho porque mamãe sempre se preocupou tanto com suas roupas. Sempre andava tão arrumada. Mas ela, com as roupas folgadas, me respondia: “Seu pai também. Olhe como ele está gordo!”

A verdade era que ela estava grávida e não disse a nenhum dos filhos. Só falou para papai e o ameaçou se ele contasse algo. Até doutora Francisca Rocha, que era ginecologista minha e dela só ficou sabendo um mês antes. Ainda disse que se doutora Francisca me contasse dessa gravidez, não falava mais com ela.

Só fui saber a verdade durante a passagem de Ano Novo de 1973. Estava todo mundo lá em casa se preparando para ver a queima de fogos na Praia dos Artistas quando vi a roupa de mamãe toda molhada. Eu perguntei onde ela se molhou e ela me disse que estava aguando as plantas. Só mais tarde da noite que eu fiquei sabendo que era a bolsa que estourou. Ela e papai colocaram a mala escondida no carro e foram para a maternidade da Casa de Saúde Petrópolis sem avisar a ninguém. Imagine o susto que eu tive quando papai me ligou: “Ô, minha filha, venha aqui na maternidade que sua mãe acabou de ter menino!”

Aí, lá fui eu sair no dia de Ano Novo, antes da meia noite, com a casa cheia de gente, para me encontrar com mamãe e entender o que estava acontecido. Tive que inventar uma mentira para tio Jack, irmão de papai, me deixar lá. Pedi para esposa dele fechar minha casa, dizendo que ia me encontrar minha amiga Delma.

Quando cheguei na maternidade, tive a notícia que a criança de mamãe nasceu morta. Doutora Francisca disse que teve de escolher. Era mamãe ou a criança.

Era uma menina. Tinha nascida pequenininha. Não tinha nem dois quilos de peso, eu acho.

Por causa do parto e de tudo que aconteceu, mamãe ainda produziu leite. Isso acabou sendo uma benção, porque, nesse mesmo dia, nasceu Alexandre, o filho de Tuslene, que se tornou uma grande amiga da família. Exatamente por Tuslene não ter leite, foi mamãe quem o amamentou.

Meu filho Lauro que nasceu no ano seguinte ficou muito amigo de Alexandre. Quando eram moços, saiam juntos para as festas; A gente tinha muito contanto com ele, pois mamãe era a madrinha, que podia muito bem ser considerada sua segunda mãe.

 

 

 

Após a década de 80

Netos e Bisnetos

O nascimento dos netos cria toda uma nova dinâmica na família. A opinião da matriarca não mais é a lei, passa a ser uma orientação. Perde-se a necessidade de autoridade, o que permite a liberdade de expressar sentimentos. As pessoas já não dependem tanto de você. De locomotiva familiar, você se torna um vagão acessório. Mas é um vagão de puro amor que só é visitado por quem realmente importa.

Dona Titi teve dez netos: Érika, Victor, Lauro, Marcelo, Daniela, Jarbinhas, Daniel, Pedro, Paulo e Priscylla.

 

Nascimento de Lauro

[contada pela filha Jardna]

Toda mulher precisa da família para ter tranquilidade num momento tão difícil como é um parto, principalmente, quando é o do primeiro filho. Então, imagina como foi ter dona Titi comigo, com toda sua brabeza.

Era o ano de 1974 quando minha bolsa estourou. Eu ainda não estava sentindo nada, por isso, tomei um suco e depois fui até doutora Francisca Rocha, que era minha ginecologista e atendia no Inamps, na descida da Ribeira. Eu estava com mamãe quando a doutora me examinou e disse “Vá imediatamente para o hospital que sua dilatação já está quase completa!”

Saímos eu e mamãe. Mandamos aviso para Jucá que estava no banco trabalhando e chegamos na Casa de Saúde Petrópolis. Eu estava muito aperreada quando me sentei na cadeira de parto com as dores já começando.

Em pouco tempo, eu lembro de já estar apertando minhas costas com força e de segurar a mão de mamãe a cada contração, esperando que ela me acalentasse: “Ai, Mãe, não estou aguentando!”

Quando eu pensei que mamãe fosse me acalentar, ela já vinha com lição de moral: “Eu não avisei? Quem mandou querer ter filho? Eu não disse quem doía, agora aguente!”

Lauro nasceu muito depois do prazo. Era muito grande. Pesava mais de quatro quilos. Então, é possível imaginar a dor que eu tive e mamãe só açoitando. Mas até aí tudo bem.

O pior foi alguns dias depois que chegamos em casa. Mamãe foi dar um banho em Lauro e notou um inchaço no ombro. Imagine como eu reagi quando ela chegou me avisando “Lauro nasceu com um aleijo no braço!” Veio logo aquele desespero de mãe. Fiquei muito nervosa, por isso, levei logo Lauro para o pediatra José Marques, que sempre cuidou dele.

Felizmente, doutor José Marques rapidamente me acalmou. Os médicos e as enfermeiras do hospital não notaram que Lauro havia fraturado a clavícula quando desceu o canal do parto. Ele disse “Não se preocupe que é uma fratura, mas já está consolidada. Não trará nenhum problema.”

Depois que ele falou isso, eu aproveitei. Corri até mamãe dando minha lição de moral nela: “Está vendo, mamãe! Você fica só querendo me apavorar, mas Lauro não tem nenhum Aleijo!” Foi a minha chance de descontar!

 

Nascimento de Daniela

[contada pelo filho Jarbas]

A gravidez de Daniela foi difícil. Minha esposa teve uma pré-eclâmpsia. E ela nasceu prematura. Era pequenina e magrinha, com o rosto chupado e aqueles olhos sem cílios, meio esbugalhados, como é comum a todos os prematuros.

Só que as afirmações de mamãe sempre foram muito ingênuas e honestas. Ela simplesmente não consegue polir nenhuma de suas palavras. Então quando viu Daniela pela primeira vez, pensou que a medicina ainda estava no mesmo nível da de carnaúba dos anos cinquenta.

Ela disse: “Lá em Carnaúba, quando uma criança nasce com os olhos grandes assim, ela não se cria!”

Para dois pais de primeira viagem, dizer isso era o mesmo que nos matar. Mas era mamãe! A gente aprende a não relevar. Pode ter certeza que, no outro dia, já estava falando suas palavras sinceras até demais para outra pessoa.

 

Pergunta à Madrinha Mariinha

[contada pela filha Jardna]

Mamãe morou em Natal, ainda adolescente, na casa de Padim Beta e madrinha Mariinha, que ela considerava quase como os pais de criação. Muitos anos depois, madrinha ficou doente de um câncer considerado inoperável.

Visto o prognóstico muito ruim, ela voltou para Acari onde só fazia tratamentos paliativos. Ela foi ficando cada vez mais doente, assim, os filhos começaram a discutir sobre o enterro dela. A maior dúvida era saber se madrinha Mariinha desejava se enterrar em Acari, Carnaúba ou Natal; mas claro ninguém tinha coragem de perguntar. Sempre é um assunto delicado falar sobre a morte com alguém em fase terminal.

Quando mamãe soube do problema, foi logo dizendo: “Pode deixar comigo. Eu conheço demais minha madrinha e sei como perguntar isso de forma discreta. Ela vai me responder sem nem notar que eu perguntei.”

No outro dia, mamãe foi na casa de madrinha Mariinha para conversar sobre o assunto. Os filhos foram lá para ouvir a resposta que mamãe ia conseguir com sua discrição. Assim, eles logo ouviram mamãe começa: “Ô madrinha”, ela disse com toda a delicadeza que possuía, que na verdade não havia: “Todo mundo sabe que a senhora não vai morrer, mas, se fosse, onde a senhora gostaria de ser enterrada?”

Os filhos tiveram logo um susto com a franqueza de mamãe. Madrinha chega baixou a tristeza quando disse “Acari…”. Mas mamãe pensou que tinha sido perfeito.

Ainda chegou aos filhos dela se gabando de sua ‘discrição’: “Viram! Ela nem notou!”.

 

Tranquilizando a prima Glorinha

[contada pelo filho Pedro]

Na adolescência, mamãe morou na casa de Padim Beta em Natal para continuar seus estudos. Assim, ela considerava seu padrinho como um pai e os primos Mariberto, Glorinha e Albaniza como seus irmãos. Infelizmente, quando mamãe já estava idosa, a prima Glorinha apresentou um câncer e começou a definhar muito rapidamente.

Ela ficou muito triste com a notícia, por isso, telefonou para mamãe em busca de apoio e palavras de conforto. Quando mamãe atendeu, a prima Glorinha já desabou no choro: “Titi, estou muito triste. O médico disse que eu estou com um câncer!”

Mamãe até começou bem ao tentar tranquilizar a prima: “Calma, Glorinha, você vai começar o tratamento para ficar boa e vencer essa doença!”

Glorinha desconsolada interrompeu: “Mas o médico disse que é um câncer difícil, Titi. Estou telefonando já porque não sei nem se vou conseguir te ver de novo.”

Bem que mamãe tentou tranquilizar a prima do jeito dela, mas como se sabe sua sinceridade às vezes passa do ponto, como se constatou com as palavras seguintes: “Deixe de falar besteira, Glorinha. Câncer também não mata assim ligeiro. Dá tempo ainda de a gente se ver.”

Sei que a pobre de Glorinha, que queria conforto, acabou indo dormir mais triste. Mas, pelo menos, mamãe estava certa e as duas ainda se encontraram muitas vezes antes da prima falecer.

 

Presente aos Netos     

[contada pela filha Jardna]

Mamãe sempre fez tudo para não ser injusta com ninguém. Até os presentes que dava às suas noras era o mesmo que dava para mim que era sua filha. No máximo, eu tinha o direito de escolher a cor, mas o presente era sempre o mesmo. E com os netos era do mesmo jeito. O mesmo presente que dava a um neto era o mesmo que dava ao outro.

Certo dia, mamãe comprou duas cadeiras de balanço para dar a cada um dos seus dois netos: Érika, filha de Manoel Neto, e Lauro, meu filho.

Como não queria sair da loja com aquelas cadeirinhas enormes debaixo do braço, mamãe fez uma solicitação à loja que entregasse o presente na casa do filho Manoel Neto e na casa dela, pois nessa época morávamos lá. Dias depois, quando soube que o entregador da loja deixou o presente na casa de Érica, ela foi até lá para perguntar: “Então, Érika, gostou da cadeirinha de balanço que vovó lhe deu?”

Muito inocente, a neta respondeu: “Não foi vovó que deu. Foi o homem!”, claramente se referindo ao entregador.

Mamãe ficou com muita raiva da resposta. Ela ficou dois dias sem sair de casa, não saía nem para ir ao mercado, esperando a cadeirinha chegar. E ainda dizia mais: “Lauro só recebe a cadeirinha agora se for da minha mão!”. Certamente, ela não mais deixaria o entregador levar o crédito outra vez!

 

Cobrança dos Cascos Vazios

[contada pelo filho Jarbas]

Mamãe sempre teve muito ciúme das coisas dela e sempre odiava quando alguém não lhe devolvia algo. Por volta da década de oitenta, nosso amigo José Magy caiu na besteira de pedir emprestado uma grade com cascos de cerveja. Naquela época, a gente levava os cascos até a distribuidora e recebia uma grade nova com as garrafas cheias.

Magy trocou os cascos por mais cerveja e tomou tudo até os esvaziar novamente, mas esqueceu de devolver os novos cascos vazios para mamãe. Na verdade, ele não deve fazer ideia de onde os botou até hoje, mas mamãe não esquece nada, nem perdoa ninguém.

Só sei que isso deve fazer uns trinta anos, mas até pouco tempo mamãe estava lhe cobrando esses cascos vazios.

 

Trabalho de Nininha

[contada pelo filho Manoel Neto]

O conflito de gerações é algo que sempre aconteceu na história do mundo, inclusive na família do meu avô mestre Nezinho. Em certo momento da vida, o seu filho Toinho começou a fazer muitos filhos com sua esposa. No fim, tiveram uns 26 filhos.

Papai, que era mais velho que Toinho e o mais responsável dentre todos os irmãos, começou a se preocupar. Assim, quando Toinho já estava lá pelo filho número dezesseis, papai foi conversar com o patriarca da família, o mestre Nezinho: “Papai, nós temos que conversar com Toinho. Uma pessoa que não tem condições financeiras e fazendo tanto filho, isso está errado. Tem que haver um limite!”

No entanto, o mestre Nezinho foi categórico na sua resposta: “Pedrinho… E o que você tem a ver com os filhos dos outros?”, disse já proibindo papai se meter na história.

Anos depois, Papai se deparou com outra situação que não concordava. Ele era convicto de que as mulheres não deveriam trabalhar em hipótese alguma, nem mesmo que fosse sua filha. Um dia, ele chegou lá na minha casa com mamãe ao seu lado. Os dois já vinham discutindo por alguma razão. Quando eu perguntei o motivo, ele me explicou: “É sobre esse negócio de Nininha trabalhar. Isso não é certo!”

Eu então questionei “Por que, papai?”

Ele respondeu: “Ela tem os filhos dela: Lauro e Marcelo. Vai ficar o dia todo trabalhando e deixar os outros criarem? Fico ainda mais contrariado se ela contratar uma pessoa que deixará de cuidar dos próprios filhos para cuidar dos filhos dos outros, correndo o risco de deixá-los soltos na rua para alguém fazer bandido deles. Não concordo com isso! Mulher tem que ficar em casa para dar educação! Saber onde o filho está e cuidar dele!”

Como eu não concordava com papai nisso e sabia que não mudaria sua cabeça, evoquei logo o Mestre Nezinho para encerrar aquele assunto: “Papai… E o que você tem a ver com os filhos dos outros?”

Na mesma hora, papai entendeu a referência e olhou para mamãe. “Titi, vamos! Que Neto hoje está impossível”, ele disse já dando a meia volta.

Com ele já saindo, já escutei mamãe no seu ouvido: “Está vendo, Pedrinho? Neto concorda comigo. Deixe Nininha trabalhar. Ela não quer? Então pronto!”

 

Morte do Irmão Preferido

[contada pelo filho Jarbas]

Se mamãe já fazia confusão por pouco motivo, às vezes, até sem motivo, imagine como ela deve ter ficado quando emprestou um dinheiro ao irmão Rubens e ele nunca o devolveu. Até hoje, mamãe guarda um cheque dele que ela tentou descontar no banco, mas que não deu certo.

Quando tio Milton morreu no Ceará, ela ficou muito abalada. Era o irmão que mamãe tinha mais afinidade e que sempre fazia ações de caridade para tirar pessoas das drogas. Mamãe chorava muito no enterro. E tio Rubens, mesmo sabendo que mamãe ainda estava chateada com ele, tentou a abraçar mamãe para dar algum conforto.

Mamãe, sempre muito verdadeira, lhe disse: “Ô Rubens, eu não quero questionar as coisas de Deus. Mas não consigo entender como Ele pode levar um irmão tão bom quanto Milton e deixar você aqui comigo.”

Rubens ainda respondeu “Que é isso, mana?”, mas também nem continuou seu argumento, pois sabia a irmã que tinha.

 

Lauro (Parte 1): Estudos do Vestibular

[contada pela filha Jardna]

Quando meu filho Lauro estava estudando na Escola Técnica aqui em Natal, meu esposo Jucá foi transferido pelo banco em que ele trabalhava novamente para Recife. Ainda faltava seis meses para Lauro terminar o ensino médio e fazer o vestibular, por isso, ficou resolvido dele ficar em Natal morando com mamãe.

A preocupação com os estudos de Lauro começou a preocupar a gente. Por um lado, meu esposo Jucá, perguntava a papai: “Ô, Seu Pedro, você acha que Lauro passa no vestibular?”, o que papai respondia, sinalizando que Lauro só fazia dormir: “Se acordar, passa!”. Do outro lado, mamãe vinha me aperrear: “Lauro não está estudando. Lauro só fica escutando música. Lauro só pensa em sair com os amigos. Lauro isso. Lauro aquilo.”

No fim, era tudo um exagero. Lauro passou no vestibular em Engenharia Civil tanto na universidade federal de Recife quanto na de Natal.

 

Lauro (Parte 2): Namorada de Pontual

[contada pela filha Jardna]

Lauro não ficou longe da casa de mamãe por muito tempo. Ele entrou Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR) em Recife e depois foi chamado para participar de um estágio do Núcleo de Preparação dos Oficiais da Reserva (NPOR) que, dentre várias cidades, ele escolheu fazer na cidade de Natal.

Lauro assim voltou para casa de mamãe. E, de quebra, após fazer todo um elogio ao tempo que morou com mamãe, ele convidou alguns amigos para fazer o estágio junto com ele em Natal.

Esses amigos de Lauro deram muito trabalho à mamãe. Eles deixaram as namoradas em Recife e se viram livres para curtir a cidade de Natal como solteiros. Eles saíam para beber e, quando voltavam, para ninguém saber que chegaram muito tarde, escalavam a varanda de mamãe. Depois, apareciam com umas meninas que ninguém sabia quem eram.

Sei que esse bando de marmanjo do exército vivia levando sermão de mamãe, mas todos adoraram morar na casa dela. Só o amigo chamado Pontual foi quem mais sofreu com sua sinceridade.

Um dia, o telefone tocou na casa de mamãe e ela atendeu: “Quem é?”. Era a voz de uma moça que perguntou: “Quero falar com Pontual. É a namorada dele”.

Tenho certeza que mamãe não fez por mal. O problema é que as palavras saem da boca dela sem qualquer filtro. Sei que ela perguntou para moça, com toda seriedade: “Qual namorada? A de Recife? Ou a de Natal?

Dizem que até hoje o pobre do Pontual está se explicando!

 

Lauro (Parte 3): Amigas de Vovó

[contada pelo filho Pedro]

Após certa idade, papai começou a se sentir cada vez mais confortável com sua casa e por isso já perdia a paciência quando se falava em viagens. Ele costumava dizer que: “Se o melhor da viagem é voltar para casa, não vou mais sair daqui”.

Mamãe, que sempre foi muito animada e festiva, o contrário foi ocorrendo. Quanto mais idade, mais vontade ela tinha de viajar e conhecer lugares novos. Ela estava com setenta anos de idade e conhecendo o Sul do país, a Europa e muitos outros lugares. Assim, ficou acertado de que papai deixaria mamãe de viajar em excursões enquanto ele ficava em casa.

Era comum a gente encontrar papai sozinho na casa dele enquanto mamãe viajava o mundo. Eu perguntava a papai como ele estava só para o ouvir responder: “Estou quase latindo, por só faço vigiar a casa agora!”

Depois sabíamos que ela era a alegria dessas excursões e sempre a participante mais animada e prestativa. Numa dessas excursões, ela fez amizade com duas moças catarinenses de dezesseis anos de idade, muito bonitas. Ela claro convidou as moças para vir à Natal. Disse que as receberia na casa dela que tinha muitos quartos e era de frente para a praia.

As moças de fato vieram até a casa de mamãe, pois programaram uma viagem pelo Nordeste e incluíram Natal no roteiro. Mamãe ficou muito feliz com a visita. Acolheu as moças muito bem, que ficaram muito agradecidas. E, como a cidade seguinte do roteiro era Recife, ela lembrou logo do neto dela Lauro, que era apenas um ou dois anos mais velho que as moças. Fez logo a propaganda: “Vocês vão adorar Laurinho. É muito educado e inteligente. Vai mostrar a cidade de Recife toda para vocês.”

No dia seguinte, mamãe telefonou para Lauro: “Ô Lauro, estou enviando duas amigas minhas para Recife e quero que você mostre a cidade para elas, as leve num barzinho e numa boate, que elas gostam muito.” No entanto, mamãe esqueceu de dizer a idade das moças e quando Lauro pensou em “amigas de vovó” imaginou que seriam duas senhoras septuagenárias também.

Ela falou logo para Nininha, mãe dele: “Não dá certo eu sair com duas idosas aqui em Recife”. E assim ele preparou tudo para sabotar essa noite.

Tomou logo um porre no churrasco com os amigos. Bebeu tanto o dia inteiro, que chegou em casa já de noite, embriagado, como a gente dizia: “de levar surra com lenço”.

Na hora que Lauro chegou em casa, não passou cinco minutos a campainha toca. Eram as amigas de vovó. Para sua surpresa, quando a porta se abriu lá chegam as duas jovens, lindas, altas, catarinenses, de olhos azuis e pele branquinha.

Só se ouviu o grito de Lauro, ainda enrolando a língua por causa do álcool: “Essas são as amigas de vovó?”

O arrependimento de Lauro era grande. Ele estava tão embriagado que mal conseguia ficar de pé e a mãe dele Nininha ainda o colocou debaixo do chuveiro. Mas Lauro não aguentou. Arriou na cama e só acordou no outro dia, já telefonando para dona Titi: “Vovó, por que você não me disse que suas amigas eram duas moças bonitas? Eu pensei que eram duas velhas. Se soubesse não tinha exagerado tanto na bebida nesse dia!”

Mamãe deu logo a lição de moral: “E por acaso, você pensa que sua avó não pode ter amiga jovem e bonita?”

 

Confronto com o Juiz

[contada pelo filho Pedro]

Dona Titi sempre teve uma boa relação com minha esposa Valéria. Assim, logo que Valéria se candidatou a vereadora de Santo Antônio do Salto da Onça, mamãe fez questão de transferir o voto para lá. Ela foi no tribunal eleitoral da região para fazer uma entrevista com o juiz local.

Mal chegou em Santo Antônio, os adversários já foram avisar para o juiz de que mamãe não era natural da cidade. O juiz muito educado e cauteloso perguntou: “A senhora por acaso mora em Santo Antônio?”.

Mamãe respondeu: “Morar em Santo Antônio, eu não moro. Eu moro com meu filho que tem uma fazenda aqui e a esposa está candidata à vereadora, por isso, sempre passo alguns períodos nessa cidade.”

O juiz então lançou o problema: “É que eu tive a notícia que há um pessoal já de olho, porque quando a pessoa não mora na cidade eles tentam impugnar o título. Tem certeza que a senhora ainda quer tentar a transferência?”

Mamãe não recuou: “Pois o senhor deixe impugnar. Se eu moro com meu filho e meu filho tem casa aqui, eu não tenho medo de impugnação.”

O juiz, vendo que mamãe não ia arredar, tentou contra-argumentar: “Minha senhora, é que isso só vai dar mais trabalho para nós que somos da justiça!”

Tenho certeza de que quando falou isso, o juiz nunca esperaria a resposta de dona Titi: “E o senhor não é pago para trabalhar, não?”, ela disse com uma voz firme e sua sinceridade desmedida.

Não sei como o juiz fez vista grossa para a resposta de mamãe, mas no fim deu tudo certo. Mamãe assim sempre votou com Valéria lá em Santo Antônio do Salto da Onça.

 

Banco (Parte 1): Rede com Magi

[contada pelo filho Pedro]

Quando dona Titi precisava ir ao banco, ela sempre tinha preferência para o Banco do Brasil da rua Rio Branco, onde o meu grande amigo de farras José Magy trabalhava. Afinal, ele eventualmente ajudava mamãe a resolver ou orientar em qualquer dificuldade que ela tivesse lá.

Nesse dia, em especial, mamãe foi ao banco logo após um veraneio em que esse amigo Magy alugou uma casa na praia de Búzios, bem perto da minha casa de veraneio. E minha relação com Magy sempre foi de muita alegria. Ele ia sempre na minha casa, onde mamãe recebia meus amigos para assistir aos jogos do ABC ou mesmo curar alguma ressaca. Meus amigos já conheciam a casa de mamãe como “O Clube”, sempre considerando ali como um segundo lar.

Quem nasceu em Natal sabe que todo veraneio é aquela festa, com as casas sempre abertas a todos. Ainda hoje há o ditado que “Casa de Veraneio é como coração de mãe, que sempre cabe mais um”. Mas, claro, cada convidado deve levar seu colchão ou sua rede para ter onde dormir, seja num quarto designado pelo anfitrião ou mesmo na varanda.

Meu sobrinho Lauro, filho de Jardna, que na época estava morando com mamãe e não podia perder a oportunidade, passou o veraneio na casa de Magi. Mas, o fim do verão, ele voltou para a casa de mamãe e esqueceu a rede dela lá.

Por várias vezes, mamãe cobrava a rede para Magi toda vida que ele ia lá em casa após as farras. Magi, claro, sempre esquecia: “próxima semana eu trago”, ele dizia. Afinal, indo para uma farra, ele ia lá lembrar de levar uma rede. E mamãe muito impaciente foi ao banco nesse dia exatamente para cobrar a rede dela que Lauro havia esquecido.

Só que mamãe entrou no banco e viu logo aquelas filas longas. Era dia de pagar os aposentados e o banco estava lotado.

Como ela não tinha nada para resolver no banco nesse dia, não contou conversa. Atravessou as filas todo até chegar atrás do balcão onde Magy estava de caixa. O erro de Magy foi dar um aceno para dizer que estava a vendo.

Ela não contou conversa. Deu logo um grito: “Ô, Magy, você não vai devolver minha rede, não?”

O grito foi tão alto e mandão, do jeito dona Titi de ser, que todo mundo no banco escutou. Era um tempo no banco em que todos que lá trabalhavam eram bem amigos e todos se reuniam lá em casa, no “Clube”. Era Chico Piúba, Dodó, Paulinho Chacon e outros

Todos começaram a fazer gozação: “Devolva a rede da mulher, Magy”, “Você não tem vergonha”, “Vai ficar com a rede de dona Titi, é?” e outras brincadeiras.

Magy, que estava atendendo um cliente, começou a ficar encabulado com as brincadeiras.

Mamãe, percebendo que causou um constrangimento, resolveu defender Magy: “Ó, pessoal, vocês parem com isso! Vocês estão só fazendo essas piadas, mas Magi é muito amigo do meu filho caçula Pedrito. É como um filho para mim!”, até então a defesa de mamãe estava boa. Pelo menos, até a última palavra: “Ele inclusive já dormiu muitas vezes lá em casa, bêbado!”

Nesse momento, Magy não se aguentou. Ele se levantou já sem saber se ria ou se se escondia: “Não precisa me defender mais não, Dona Titi”. Pode deixar que é melhor eu me defendo só!”

No outro dia, Magy foi lá na casa de mamãe e devolveu a rede.

 

Banco (Parte 2): Em Defesa de Iara

[contada pelo filho Pedro]

Um dia mamãe entrou na fila do Banco do Brasil da rua Rio Branco para sacar algum dinheiro e comprar as coisas de casa. Ela só ia nessa agência porque era onde tinha algumas pessoas conhecidas que poderiam a ajudar em caso de alguma necessidade burocrática.

Nesse dia, quem estava no caixa era sua prima legítima Iara Dantas, que ela tinha um grande apreço.

Como sempre fazia, Mamãe escolheu entrar na fila para ser atendida pela prima Iara, pois naquele tempo cada caixa tinha sua fila e o cliente quem escolhia em que fila entrar. Só que Iara estava atendendo um cliente mais complicado, o que atrasou muito a sua fila.

A cliente que estava em frente à mamãe começou a reclamar: “Que caixa demorada! Olha aquela mulher ali! Entrou na fila dela junto comigo e já está sendo atendida!”

Mamãe calada, só escutando.

A cliente que estava atrás de mamãe ouviu a reclamação da primeira e continuou: “Nunca vi caixa mais enrolada!” E nisso começou as duas a reclamar de Iara uma com a outra.

E mamãe, entre as duas, só calada.

A fila continuou lenta. Cada cliente que vinha era mais complicado que o anterior. Demorou, mas enfim chegou a vez da que primeiro reclamou. Ela foi logo colocando o documento que tinha para pagar em cima da mesa.

Para a infelicidade da mulher, Iara começou a dar a má notícia: “Minha senhora, peço desculpas, mas esse documento só pode ser pago no segundo andar. Olhe a placa ali na parede avisando isso.”

A mulher olhou a placa ao lado da escada; logo percebeu o seu erro; e começou a se desesperar: “Não, moça, pelo amor de Deus. Eu não vi a placa e já estou a tanto tempo na fila. Não há como você me ajudar?”

A prima Iara, sempre muito solícita e educada, abriu um sorriso: “Claro, nossa orientação é não fazer isso, mas eu posso quebrar seu galho dessa vez.”

Quando mamãe escutou isso, começou: “Olhe, Iara…”, já deu um passo à frente: “Você quebre o galho dessa mulher se quiser, mas ela passou a fila todinha falando mal de você!”. Em seguida, olhou para trás, apontando para a outra mulher que vinha atrás: “Era essa daqui e essa outra!”

As duas mulheres arregalaram os olhos, sem saber o que fazer. Mamãe só completou: “Não sei como é que eu ainda fiquei calada por tanto tempo!”

 

Banana Especial de Arthur

[contada pelo filho Pedro]

Já na década de noventa, quando mamãe morava na praia dos artistas, ela foi ao mercado num dia de sábado para comprar umas bananas-leite especiais para o bisneto dela Arthur. Comprou, levou para sua casa e as deixou em cima da mesa. Muito orgulhosa, chamou o bisneto para a visitar.

Só que um menino pobre, com fome, apareceu em frente à casa dela pedindo uma esmola. Mamãe devia estar fazendo algo dentro da casa, porque quem atendeu o menino no portão foi o neto Marcelo, filho de minha irmã Nininha.

Marcelo disse que não tinha dinheiro, mas que ia dar uma banana para ele comer. O problema é que Marcelo pegou logo uma das bananas-leite especiais da palma de Arthur. Sei que esse menino pobrezinho saiu feliz demais com aquela banana bonita e vistosa!

Quando mamãe voltou para a cozinha que percebeu a falta da banana especial de Arthur, não contou conversa. Ela pegou uma banana anã, pequena e já escura de tão velha, que estava em cima da geladeira, abriu a porta e correu pela rua.

Quando encontrou esse menino, que estava todo feliz na rua com a banana-leite especial, ela o pegou no braço e disse: “Ei, essa banana é do meu bisneto Arthur”. Ela então, entregou a banana anã e completou: “A sua banana é essa!”

Sei que o menino ficou na rua, muito triste, com aquela banana anã já preta na mão, mas mamãe não podia deixar faltar a banana especial que prometeu ao bisneto.

 

Filha de Lucinha

[contada pelo filho Pedro]

O casal Marconi e Lucinha são grandes amigos nossos. Marconi terminou a faculdade comigo, fomos colegas de sala e hoje ele é um ortopedista muito famoso. Lucinha era amiga da minha esposa Valéria desde a infância, nos veraneios da Redinha.

Um dia, Lucinha foi lá na minha casa levando uma foto da filha dela. Hoje, uma médica e realmente uma menina muito bonita.

Ela mostrou a foto mamãe e disse toda orgulhosa: “Olhe essa foto, dona Titi. É minha filha Nicole. Olhe como ela é bonita. Não sei a quem puxou!”.

Aí, mamãe, na sua inocência, respondeu: “Besteira, Lucinha, conheço muita mulher feia que tem filha bonita!”

Só sei que, desde essa resposta de mamãe, até o ano seguinte, Lucinha já havia feito duas cirurgias plásticas e vários tratamentos estéticos.

 

Vovó Super-Herói

[contada pelo filho Manoel Neto]

Quando o bisneto Arthur chegou na idade de gostar dos super-heróis, ele gostava de brincar fingindo que era os personagens de quadrinhos. Ele dizia: “Eu sou o Homem-Aranha!”, num dia; “Eu sou o Super-homem!”, no outro. Todo dia era um herói diferente.

Nós, claro, entravamos na brincadeira. “E quem é papai?”, só para ouvir ele dizer que o primeiro super-herói que vinha na cabeça: “É o Batman”. Nós continuávamos: “E quem é mamãe”, para ouvir ele dizer: “É a Mulher-Gato”. Vovô era o Hulk enquanto vovó era a Mulher-Maravilha; e assim a brincadeira continuava.

Em certo momento, a gente perguntou: “E quem é bivó Titi?”, e a resposta de Arthur foi a melhor possível: “Não sei, mas ela ganha de todo mundo!”

 

Amor de Nora (42 horas!)

[contada pelo filho Pedro]

No dia de finados, minha esposa Valéria sempre tem o hábito de ir à cidade de Santo Antônio do Salto da Onça. Só que houve um ano em que os formandos de Medicina de Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) resolveram aproveitar o feriado para comemorar sua formatura no dia seguinte. Era exatamente a turma de Raquel, filha de nosso compadre Aldo Stamm.

Valéria não quis deixar de ir à Santo Antônio, como sempre fazia, por isso, ficou resolvido de eu ir sozinho para a formatura. Peguei o avião no dia anterior ao feriado e fui até São Paulo.

Após visitar o túmulo da família e prestar as homenagens aos seus parentes falecidos, Valéria voltou para Natal, mas começou a sentir a cidade muito vazia e se sentir muito sozinha em nossa casa. Eu só não poderia imaginar que, ao acordar no dia seguinte, que era o dia da formatura, ela telefonasse para a agência de viagem. E, como ela tem muito medo de avião, ao ponto de nunca viajar sozinha, resolveu telefonar para mamãe, que na época já tinha mais de oitenta anos de idade: “Alô, dona Titi, a senhora tem alguma programação para hoje? Queria saber se gostaria passear comigo?”

Quando mamãe perguntou: “Passear aonde?”, Valéria falou com a cara mais lisa do mundo: “Bem ali, em São Paulo!”

Mamãe, que não perde a oportunidade, já respondeu: “Vou arrumar a mala agora!”

Imaginem mamãe e Valéria pegando o avião, chegando de cinco horas da tarde em São Paulo e já indo direto ao salão de beleza para arrumar os cabelos. Elas já saíram do salão direto para a formatura, ficando até cinco horas da manhã na festa, com mamãe sempre muito animada.

Pior foi que mamãe não conseguiu mais dormir quando chegou da festa e quando pegamos o avião de volta, já tarde da noite no outro dia, nós nos encontramos com um grande amigo da família Paulo Melo, que nos chamou para jantar na casa dele. Mamãe era a primeira a lhe responder: “Vamos!”

No fim, dona Titi chegou na casa para dormir de duas horas da manhã. Ou seja, passou quarenta e duas horas acordada. No outro dia, já começou o comentário dos meus irmãos: “Bem que dizem que nora não gosta de sogra, porque Valéria só pode estar querendo matar mamãe!”

 

Aulas de Inglês

[contada pelo filho Pedro]

Quando completou 84 anos de idade, mamãe achou que estava com muito tempo livre e resolveu se matricular no curso de inglês do Senac. Mais tarde descobri que ela estava na mesma turma de Lucinha, que era amiga de infância da minha esposa Valéria e casada com contemporâneo de faculdade Marconi.

Graças a comunicação entre Valéria e Lucinha, toda semana eu escutava uma novidade que acontecia nessas aulas. Imagino que devia ser uma turma muito animada, pois diziam que mamãe fazia a festa. Um vendedor de brigadeiro sempre aparecia no intervalo porque mamãe sempre comprava todos os seus brigadeiros para distribuir com os colegas de turma.

Sei também que Lucinha fazia questão de passar lá em casa para levar mamãe ao curso de inglês. Tenho certeza que ela assim o fazia em razão do grande amor que sempre demonstrou a mamãe desde nossos tempos de juventude. Mas claro também soube que ela adorava estacionar na vaga de idosos e evitar as escadas com o elevador de necessidades especiais.

Mamãe só não gostava de fazer as provas. Quando a professora dava as datas das avaliações para os alunos estudarem, ela já se esquivava: “Não vou fazer essa prova, não estou estudando para fazer concurso”.

Felizmente, ela também tinha uma amiga que eram só uns dez anos mais nova do que ela para a ajudar. Era Clotilde, eu conhecia desde os tempos de Colégio Hipócrates na minha juventude. Quando mamãe desabafava que estava com muita dificuldade no inglês, ela dava as melhores dicas. “Inglês é muito fácil, Titi”, ela dizia ao oferecer um chiclete à mamãe: “O segredo é mascar muito chiclete para a língua ficar mais solta!”

Só acreditei que esse inglês estava dando certo quando recebei um grande médico-professor americano Larry Lundy no Congresso Brasileiro de Otorrinolaringologia que organizei aqui em Natal no ano de 2010. Estava com ele em minha casa, conversando sobre assuntos da área médica em inglês quando mamãe veio até a gente com várias xícaras numa bandeja.

Ela então colocou todo seu inglês em prática: “Coffee?”, ela perguntou toda orgulhosa. Todos nós fizemos uma grande festa com a demonstração em idiomas embora eu não lembre dela nunca mais tenha falado outra palavra de inglês em sua vida.

 

Morte de Pedrinho

Quando meu esposo Pedrinho disse a um dos filhos que há alguns meses não estava tendo prazer nem nas coisas que gostava, ele foi levado para fazer uns exames. “Estou me sentindo preguiçoso. Não estou indo mais na oficina lá de casa, nem tenho vontade de dar comida aos meus passarinhos…”, ninguém nunca poderia imaginar que essa frase o levaria ao diagnóstico de um câncer de fígado já com metástase para outros órgãos.

Pedrinho fez uma quimioterapia horrível. Ficou muito debilitado. Enjoava. Às vezes, nem se levantava. Três meses muito sofridos depois, o novo exame mostrou que o tumor havia crescido mesmo com o tratamento.

Ele foi definhando nos meses seguintes. Perdeu muito peso. Estava muito magro. Mal conseguia andar pela casa. Lembro da poesia que ele fez nesse período:

Vivendo e achando bom
Morrendo e achando ruim
Mas infelizmente para todos
Um dia terá que ser assim

Pedrinho ficou de tal forma que um enfermeiro vinha dar o banho nele, de tão fraco que estava. Enfim, chegou o triste dia de domingo de manhã, quando estavam na mesa do café da manhã eu, ele e alguns dos nossos filhos e noras. Em certo momento, Pedrinho tentou se levantar da cadeira sozinho, mas se desequilibrou.

Ele estava tão debilitado que nem conseguiu se segurar, nem sequer conseguiu usar os braços para aparar a queda. Por mais que meus filhos tenham se levantado muito rápido para o segurar, não conseguiram chegar a tempo. Ele caiu para trás. Só foi possível ver sua cabeça batendo a nuca no piso da casa. O barulho foi horrível. Meu filho Pedrito diz que era o mesmo som de um coco se quebrando ao cair no chão.

Nesse dia, Pedrinho entrou num coma e nunca mais acordou. Eu o visitei por todos cinquenta e três dias que ele esteve na UTI. Eu fiz questão disso, mas Pedrinho, que sempre gostava de me contrariar, inventou de morrer exatamente na hora que eu havia saído para tomar o café.

Era o dia 15 de janeiro de 2004 quando Pedrinho me deixou. É um dia que nunca vou esquecer.

Os anos se passaram. Pedrinho deixou muita saudade. Minha vida nunca foi a mesma desde sua morte. Lembrei dele, num dia em especial, quando nós colocamos o Ford 28 para uma exposição. A ocasião era uma comemoração do clube de Roberto Carlos de Natal. Pois, como havia aquela música: “meu calhambeque”, eles pediram o carro emprestado para colocar no local. Disseram que ia ilustrar bem os tempos de Roberto Carlos da Jovem Guarda.

Eu estava lá na exposição quando chegou um rapaz, acredito até que era de outro estado, que achou o carro interessante e perguntou para a mulher na recepção: “Quem é o dono do carro?”

Por coincidência, eu estava no salão da exposição nessa hora e a moça respondeu: “É aquela senhora ali”. E assim o rapaz veio até mim.

Ele elogiou o carro. Foi muito educado. Em seguida me fez uma proposta pelo Ford 28. Não lembro bem quanto dinheiro ele me ofereceu, mas não faria diferença. Para mim, foi como se tivesse feito uma proposta para a memória do meu esposo. Então, respondi da única forma que sabia responder.

Eu disse: “Você que deu tantas voltas ao redor desse carro, por acaso, em algum momento viu uma placa de ‘Vende-se’!”

Ele arregalou os olhos; ficou sem graça; e saiu devagar sem falar mais nada. A conversa estava encerrada. Afinal, décadas antes Pedrinho pensou em trocar esse carro por uma motocicleta BMW. Na época, eu disse que se ele trocasse esse carro eu sairia pela porta de casa e nunca mais voltaria.

Hoje, com todo o peso da lembrança de Pedrinho que esse carro carrega, eu não mudaria de ideia. Esse carro ficará na família até eu morrer.

 

Lembrança de um Neto

Lembro de ir à casa dos meus avós na Praia dos Artistas. Dois portões de madeira, um para cada lado, que eram de correr e fenestrados na horizontal por toda sua extensão, davam entrada para um terraço bem grande. Era possível estacionar quatro carros ali: dois carros na largura e dois carros no comprimento, como de fato vovô estacionava o carro da família e a Harley-Davidson, que era seu orgulho, que dividiam o espaço ali com algumas poltronas.

Deste terraço, havia duas portas. Uma porta menor levava direto para a cozinha, que com a sala de jantar fazia um ambiente único. A outra porta levava direto para a sala de estar, que era pequena, mas decorada com muitos porta-retratos num estilo bem clássico.

De qualquer lugar do terraço, era possível ver tudo o que ocorria na calçada através das fenestras do portão. Era um ambiente bem ventilado por causa dessas mesmas fenestras, mas também deixava a maresia vinda da praia entrar. Assim, quando eu brincava com meus primos no terraço, sempre descalço, como era a norma na época, nossos pés ficavam pretos de tão sujos pela poeira que a maresia trazia da rua em frente.

Uma das minhas maiores lembranças é de minha vovó Titi e do meu vovô Pepê sentados naquele terraço, numas poltronas simples de madeira com um acolchoado por cima. Creio que era um acolchoado marrom claro, mas minha memória pode estar me pregando uma peça. Enquanto a gente brincava e corria pela casa, meus pais ficavam nesse terraço com meus avós, sentados, conversando. Às vezes também na companhia dos meus tios, às vezes, na companhia de alguns de seus amigos.

A casa era grande. Atravessando a porta que dava para cozinha, havia uma mesa de jantar de madeira escura com cantos bem trabalhados. Sempre tinha sobre ela uma cesta de frutas e um depósito com pão francês, que eu adorava comer com manteiga ou arrancando só o seu miolo. Ao fundo, no azulejo da parede, havia um brasão da família Dantas: uma anta-comum brasileira sobre escudo vermelho que tinha uma cruz de losangos no interior. Eu não fazia ideia do quanto a imagem significava para vovó.

Caminhando alguns passos através da sala de jantar, havia três quartos ao fundo. Um dos quartos possuía uma espingarda de caça na parede e vários porta-retratos antigos no criado mudo. Era o antigo quarto dos filhos, mas as várias redes de dormir montadas e uma televisão de tubo numa estante, o transformaram no quarto de televisão. Era ali que todos se deitavam após o almoço. Lembro que para nós crianças era um desafio atravessar o quarto por entre as pessoas deitadas nessas redes quando dava esse horário.

O outro quarto, mais bem arrumado e com uma janela de cortinas brancas que dava para o terraço, era onde meus avós dormiam, mas a gente não podia entrar nele. Era ali que vovó guardava suas coisas mais valiosas dentro dos móveis sempre num estilo colonialista em madeira.

Já o terceiro e último aposento tinha tanta tralha nos seus armários abarrotados que mais parecia um depósito. Entre as coisas jogadas ali, estava uma máquina de costura, onde vovó Titi disse fazer as roupas dos filhos conforme lhe foi ensinada por sua mãe Nanan.

Bem na sala de estar, uma escada levava ao andar superior, mas logo na sua lateral havia o que chamávamos de “passagem secreta” que dava para a oficina de vovô.

Subindo a escada, havia no andar superior uma versão bem menos mobiliada do pavimento abaixo. A sala tinha móveis mais simples e a cozinha panelas e copos de segunda mão. Havia sobre o terraço uma varanda de frente para o mar e ao fundo mais três quartos, como no pavimento inferior. Meu pai disse que ali era o “Clube”, onde ele e seus amigos se reuniam nos tempos de faculdade. Conta a lenda que ali havia uma mesa de sinuca, mas esta foi retirada antes de eu nascer. Lembro só de uma caveira mórbida que meu pai colocara lá no tempo que ele chegou de sua residência médica e montou seu primeiro consultório na casa dos seus pais.

O local que eu e meus primos mais gostávamos de brincar, no entanto, era no quintal da casa que, de tão comprido, atravessava o quarteirão até chegar na rua de trás, a rua do Motor.

Como a rua do Motor era bem mais alta que a rua da praia, o quintal tinha vários níveis, cada um separado do próximo por um lance de escadas.

O primeiro nível do quintal era o mesmo da casa. Por uma porta na lateral do terreno, junto ao muro, estava a oficina de vovô. Não havia janelas. Era bem escuro, até assustador para crianças. Havia peças de carro, pneus, ferramentas e parafusos espalhadas por todos os cantos. A ferrugem era a cor que dominava o ambiente. Parecia que algum inseto poderia sair de qualquer umas das várias pilhas de objetos enferrujados que ali se amontoavam. Só a bancada bege de três metros de largura e meio metro de comprimento, encostado na parede e iluminado por lâmpadas incandescentes, tinha algum resquício de organização. O torno e a prensa sobre essa bancada chamavam logo a atenção. Era ali onde vovô exercia o ofício de mecânico que aprendeu com o Mestre Nezinho, seu pai, e por um tempo pensou que seria seu ganha-pão pelo resto da vida.

O segundo nível do quintal mais parecia um zoológico. Com um terreno mais inclinado, bem poderia ser dividido em vários subníveis. Havia uma área para a cadela chamada Fê correr num trilho. Tínhamos que correr dela para atravessar para a parte seguinte do quintal. Não mais que meia dúzia de degraus acima, havia uma área de terra, onde lembro de pelo menos três tartarugas andando livremente em sua vagareza. Lá havia uma grande árvore de longo tronco e densa copa sobre a qual subíamos nos galhos para ouvir o tagarelar dos papagaios. A parte seguinte era fechada por um portão baixo e de metal para prender os gansos que meu avô gostava de criar. Eles tinham bastante espaço para correr, um tanque de água para tomar banho e árvores que faziam sombra. Era animais ainda mais bravos que a cadela Fê. Lembro de ter que correr dela e de seus latidos, mas eram os gansos abrindo suas asas e grasnando com seus bicos abertos que metiam medo quando avançavam sobre a gente.

Por fim, havia um o terceiro e último nível que só podia ser alcançado após um longo lance de escadas. Pelo menos, vinte ou trinta degraus escuros e bolorentos. Talvez mais. Ali, um muro escondia o que estava por trás numa área que não podia ser acessada por outro caminho senão por uma porta bem velha e carcomida. Ela mais parecia esconder uma parte mal-assombrada da casa, mas, na verdade, era ali que vovô guardava o Ford 28 numa área calçada cujo único outro acesso era pelo portão elétrico que dava direto para a rua do Motor. Era uma área grande, onde papai disse quase tomou um Chá de Lagartixa que vovó lhe deu para curar suas crises de amigdalite.

Conheci vovô e vovó juntos naquela casa. Só hoje tenho a dimensão que cada canto daquele lugar tinha uma história. Ainda mais incrível, não fazia ideia que cada canto também faria parte da minha própria história. Das brigas bestas com meus primos (Ah, como eu odiava ser chamado de café Petinho!) ao pão francês com manteiga que eu roubava de cima da mesa; dos pés pretos de tão sujos por causa do terraço às quedas que levei ao tentar imitar Tarzan nos galhos das árvores na área dos gansos; tudo me traz uma boa lembrança e uma sensação de um tempo feliz.

Hoje, sendo pai de dois filhos pequenos, espero que a vida deles seja marcada com a mesma alegria que carrego e sempre carregarei no coração com a lembrança da casa dos meus avós. Sou grato à minha família, a tudo o que vivi, a tudo o que tenho hoje. Escrevo essa história com lágrimas nos olhos. Mas são lágrimas de felicidade.

Sei que tudo na vida passa. Pessoas deixam nosso convívio. Gerações vão embora para a chegada de uma nova. Mas a memória deles continua em nós. A vida é um ciclo e ninguém pode evitar o chamado de Deus, nem dona Titi, mesmo com toda sua brabeza! Nem meu pai, nem eu, nem meu filho, nem meus futuros netos. Por isso, fico feliz de homenagear essa grande mulher e imortalizá-la em nossas mentes e corações ao recontar suas histórias.

Obrigado por tudo vovó, do seu neto Pedro.

 

Nota do Autor

Minha avó Titi estava prestes a completar 93 anos de idade quando tive a ideia de escrever um livro sobre sua vida. Não foi uma ideia tão extraordinária. Afinal, sempre escutei inúmeras histórias de vovó por toda minha vida. Havia histórias contadas por meu pai, por meus tios, por amigos da família e, claro, por minha própria avó que sempre teve uma mente lúcida mesmo em sua idade avançada.

Eram muitas histórias! Eu pensei que bastava catalogar e transcrevê-las para o papel. “Como as histórias já estão prontas na mente das pessoas, basta um gravador e alguma disposição para fazer esse livro!”, eu pensei. Eu não podia estar mais enganado.

Eu percebi a dificuldade de colocar essas histórias numa forma narrativa, pois elas eram contadas em pílulas e passar da história “A” para a história “B” não era algo tão simples. Afinal, havia muito contexto no meio que deveria ser preenchido.

Eu percebi que o tom de uma mesma história poderia mudar do cômico ao trágico dependendo da pessoa que a conta. Era preciso saber que nuances destacar para manter a fidelidade da história. Afinal, havia muitos sentimentos envolvidos em seus participantes.

Eu percebi que os próprios acontecimentos também poderiam se modificar. Não há dúvidas que a tradição oral é incapaz de ser totalmente fidedigna. Havia muitas lembranças e interpretações diferentes para cada situação.

No fim, me vi escrevendo uma história que não sei ser a “Verdade”, a “Versão da Verdade” ou uma “Nova Verdade”. Eu me senti indissociável de minha avó como Sócrates é de Platão. Comecei a sentir a angústia pela decisão de escrever os primeiros anos de vovó em primeira pessoa. “São palavras minhas ou dela?”, esse foi um grande conflito. “Estou sendo totalmente fiel aos fatos?”, essa foi minha maior preocupação.

Nunca vou saber as respostas dessas perguntas. Até aguardo ser criticado por uns e elogiado por outros. Felizmente, a experiência foi extremamente positiva para minha pessoa, que nunca me senti tão próximo de minha ilustre avó! Só espero que gostem dos relatos transcritos nesse livro, pois foram feitos realmente com o coração.

Do neto Pedro.