Sociedade

Nos tempos da colonização, a capitania de Pernambuco foi uma das poucas capitanias cuja economia vingou graças à produção de açúcar. Essa economia fulgurante acendeu a ambição holandesa, que desejou tomar toda essa riqueza para si. Uma frota de 64 navios de guerra e 7 mil homens de terra e mar desembarcou nas praias de Olinda, conquistando a cidade no mesmo dia. Seus habitantes resistiram o quanto puderam no porto do Recife, mas não demorou para serem expulsos. Tanto a vila de Olinda quanto o porto do Recife ficaram sob o poder dos holandeses, que é mantido até hoje.

Passados quase dez anos desde esses eventos, não foi fácil para os holandeses sustentarem o controle da capitania. O então capitão-mor, Matias de Albuquerque, organizou uma resistência aos invasores holandeses. Ofereceu uma boa luta. Apertou os holandeses de tal forma que estes tiveram que incendiar a cidade de Olinda até que sobrasse apenas ruínas para que ela não caísse em mãos ibéricas. Enfim, os holandeses sob o comando de ambos comandantes d’Artischau e Von Sckoppe conseguiram retomar o mando do campo com a ajuda do mestiço Domingos Calabar.

Juntos, os três expulsaram Matias de Albuquerque das terras pernambucanas até o controle completo das capitanias de Pernambuco, Itamaracá, Rio Grande, Paraíba, Alagoas e Ceará. Enfim, com a chegada do governador holandês trazendo mais colonos, se espera que o governador Nassau continue sua expansão.

 

O Governo

O Brasil Holandês é presidido por Johan Mauritz van Nassau-Siegen, que chegou nestas terras há três anos. Ele assumiu o cargo de Governador, se tornando assim o administrador, general e almirante de todos o território holandês no Novo Mundo. Ele também preside o Alto e Secreto Conselho, que trata de todos os assuntos civis e da guerra. Esse conselho hoje é constituído por cincos membros:

Mauritz van Nassau, presidente,

Adriaen van Ballestrate

Johan Ghijselin,

Hendrick Hamel,

Dirck Codd van der Burg.

Esses cinco membros do Alto e Secreto Conselho residem e atuam na cidade de Mauritstadt. Esta era a cidade que os portugueses chamavam de Recife, que se tornou a capital do Brasil Holandês desde a destruição de Olinda. Esses conselheiros respondem apenas às ordens dos Diretores da Companhia das Índias Ocidentais que vem da Europa.

Abaixo do Alto e Supremo Conselho, estão as Jurisdições locais. Estas são sediadas nas principais cidades do governo holandês. Cada jurisdição possui seu próprio Diretor e um conselho local de moradores chamado de Câmara dos Escabinos. Esta câmara é constituída por seis membros, sendo dois escabinos, que são os escolhidos pelo governo holandês e quatros representantes do povo que são determinados pelos próprios moradores. Atualmente, existem as seguintes jurisdições: 1) Pernambuco, 2) Serinhaém, 3) Porto Calvo, 4) Igarassu, 5) Itamaracá, 6) Goiana, 7) Paraíba, e 8) Rio Grande.

 

A Lei

A lei para os crimes comuns, como roubo, má prestação de serviços, violência doméstica, invasão de propriedade, disputas de terras e outros delitos menores, é julgada pela Câmara dos Escabinos de cada jurisdição. Essa câmara detém o poder de analisar e condenar conforme sua decisão, com penas que podem variar de multas, calabouço, castigos físicos e até a morte, conforme a gravidade e percepção dos seus membros.

Esses crimes podem ser referenciados para uma estância superior, seja por desejo do governo central, por pedido dos escabinos ou pelo tipo de crime. Essa estância superior é chamada de Conselho de Justiça, sendo formado por nove membros de nacionalidade holandesa. Esses membros atualmente são: Elias Herckmans, Nono Olpherdi, Balthazar van der Voorde, Pieter Morthamer, Gijsbert de With, Pieter Jansz Bas e Daniel Alberti. Faltam ainda dois membros, visto que recentemente um faleceu e outro retornou à Holanda, mas estas vagas devem ser preenchidas em breve.

 

O Exército

Os soldados que protegem os territórios conquistados no Brasil Holandês são na sua grande maioria mercenários que receberão o equivalente a oito floris de outro por mês ao fim do seu contrato de três anos. Depois disso, retornarão para a Europa sem terem construído e erguido nada de importante nas terras do Novo Mundo. É um dinheiro cujo retorno à Companhia é muito pouco do ponto de vista de colonização, mas infelizmente é extremamente necessário para que se mantenha a conquista.

Neste momento, há exatos 6.181 soldados que em sua grande maioria vivem em guarnições e fortalezas distribuída por toda a conquista. Eles estão divididos em 65 companhias de infantaria sob a seguinte hierarquia: 1 general (Mauritz van Nassau); 1 coronel (Hans van Koin); 6 majores (Van den Brande, Carey, Mansvelt, Picaert, Bayert e Pierre Le Grand); e capitães para as demais companhias.

Por estarem sempre em suas guarnições e serem sustentados pela companhia, estes soldados participam muito pouco da vida cotidiana e da atividade comercial do Brasil Holandês. Além disso, a maioria é de mercenários mal pagos, que antes de se alistarem representavam o que havia de pior na população europeia. Desta forma, o verdadeiro coração do Brasil Holandês está em sua população civil de holandeses que cresce a cada dia.

 

A População

A população civil holandesa pode ser dividida em dois grupos: os prestadores de serviço e os independentes. Os primeiros vieram de sua pátria já com salários da Companhia das Índias Ocidentais para assumir funções de trabalho. Eles são oficiais do governo, conselheiros, tesoureiros, diretores, contadores, alfandegários e muitos outros. Os holandeses independentes, por sua vez, não recebem salários da Companhia das Índias Ocidentais, estando no Novo Mundo por conta própria. Muitos até vieram sob os auspícios da Companhia, mas não desejaram renovar seu contrato e passaram a viver de outras atividades.

Os holandeses independentes que vieram ao Novo Mundo em caráter particular, através de financiamento próprio, são na maioria comerciantes, empregados destes ou aventureiros em busca de oportunidade. Alguns se tornaram taverneiros. Outros se entregaram a pequenos negócios. Os mais abastados experimentaram comprar engenhos ou arrendar canaviais para lavrar a terra. Assim, todos contribuíram também para aumentar as construções do Recife, pois já não há terreno vago na cidade Maurícia, de forma que o foco agora é a venda de lotes de terra na ilha de Antônio Vaz.

 

Os Portugueses

Os portugueses são facilmente distinguidos dos holandeses por sua pele mais escura e por vestirem roupas mais simples. Não são tão afeitos a arte e a pintura, de forma que suas casas possuem uma decoração bem simplória. Trazem suas mulheres mais comedidas e fechadas, não tão ágeis e extrovertidas quanto as mulheres de Amsterdã. Eles são, na sua grande maioria, antigos moradores da terra que ficaram ou retornaram após a recente trégua com o rei de Portugal.

Antes, residiam também na capitania bastante espanhóis, mas temendo retaliações de seu rei, que continua em guerra com a Holanda, acabaram por abandonar estas terras. As exceções ficam em sua maioria entre os judeus emigrados que buscam a liberdade religiosa que o governador Nassau prega em seus domínios. Estes, poucos se ocupam do cultivo açúcar ou da agricultura. Preferem o comércio no porto do Recife, onde souberam dominar todo movimento de negócios.

Os portugueses são os verdadeiros donos de engenhos. Muitos restauraram a posse de suas terras. Outros compraram engenhos confiscados. E há ainda muitos lavradores que arrendam terras para cultivar a cana e refinar o açúcar. Essa população se tornou essencial para a economia da conquista. Afinal, embora sejam muitos os holandeses que são donos de engenho, poucos possuem o conhecimento para lavrar a terra e principalmente purgar o açúcar em seu refino.

Os portugueses perderam muitos dos seus bens durante a guerra. Ficaram assim empobrecidos e incapacitados de reparar os seus engenhos. Por este motivo, é de extrema importância disponibilizar os créditos facilitados pelos mercadores holandeses. Esses empréstimos serão capazes de acelerar e aumentar a produção do açúcar com muita rapidez. Além disso, essa é uma ação que também melhorará a relação com os portugueses, que de modo geral são pouco favoráveis à presença do governo holandês. Afinal, quando encontram qualquer pequena ocasião, já demonstram sua inclinação negativa aos seus conquistadores.

 

Os Índios

Os índios não vivem nas cidades junto aos colonizadores, mas separados em suas aldeias de casa de palha ou madeira. Eles não possuem objetos domésticos, a não ser as redes onde dormem e algumas cabaças onde cozinham. Em volta de suas casas, plantam suas roças de mandioca e favas nativas, das quais se alimentam junto com o muito que conseguem caçar. Além disso, são muito dados a bebedeiras e o fazem com o vinho do caju.

Eles não se mostram interessados em reunir riquezas ou outros bens, por isso nem trabalham para si próprios nem para outros a fim de ganhar dinheiro. Por alguma garrafa de aguardente, podem até realizar alguns serviços nos engenhos, mas o fazem de muita má vontade. Ainda assim, sempre pedem o pagamento adiantado e não raro fogem antes de completar o serviço. A verdade é que os nativos só estão realmente satisfeitos quando vão à guerra.

Hoje, existem quase dois mil guerreiros indígenas com condições de combate. O índio Pedro Poti, que viveu na Holanda por muitos anos, vive hoje na aldeia Mussurepe na Paraíba e consegue arregimentar muitas tropas nativas. No entanto, nunca foi possível manter a disciplina desses povos. Quando é preciso marchar, eles se esquivam de um canto para o outro da tropa. E, se ficam muito entediados, acabam retornando para suas casas sem completar seus objetivos. No entanto, eles sempre são muito temidos em batalha por serem cruéis, violentos e nunca aceitarem rendições.

Espera-se que o pregador David Doorenslaer, da igreja reformada e que tem se dedicado a aprender a língua nativa, seja capaz de melhor discipliná-los.

 

Os Negros

Hoje, há uma reclamação geral de todos os senhores de engenho sobre a falta de escravos. Muitos dos negros trazidos da África fugiram junto com seus senhores a medida que as forças holandesas avançaram. No entanto, eles acabaram se apartando e se separando deles pelos caminhos da mata. A grande maioria acabou fugindo e erguendo comunidades ilegais chamadas de Quilombos. No interior de Alagoas, em especial, há uma dessas comunidades numa floresta de palmeiras, chamada Palmares. Acredita-se que há milhares de negros fugitivos no local, sob o comando de uma rainha negra chamada Aqualtune.

Os holandeses têm tentado aumentar a compra de escravos dos países africanos para tentar suprir a necessidade deste recurso. Há uma especial preferência pelos negros de Angola por serem mais trabalhadores e obedientes, sendo assim os melhores para as tarefas nos engenhos de açúcar. As mulheres de Soyo, no país do Congo, também são bastante desejadas por serem ótimas nos trabalhos domésticos. Por outro lado, os negros nigerianos de Calabar e os daómenos de Ardras são considerados mais desobedientes e resistentes ao trabalho nos engenhos.

 

A Economia

Existem muitas riquezas a serem extraídas das terras do Brasil. O gado, as cabras e os porcos crescem em abundância nos campos. Os peixes e os mariscos nunca se acabam nos mares. Não faltam melões, pepinos, jerimum e legumes de todos os tipos no solo, assim como limões, toranjas e laranjas para serem colhidas. As plantações de arroz, milho e mandioca, algodão, pimenta e tabaco se dão muito bem. Madeiras são infinitas, incluindo o pau brasil com sua valiosa tintura vermelha. O sal para salgar a carne. O âmbar-gris. Resina. Cerâmica. E muitas outras. No entanto, nenhuma atividade econômica é capaz de enriquecer tantos como fez o açúcar.

A primeira etapa na produção de açúcar é o “Plantio” que na maioria das vezes não é feito pelos senhores de engenho. Estes arrendam a terra à lavradores que montam equipes de escravos para esse objetivo e para enfim, cortar a cana no período da colheita. A segunda etapa o da produção é “Moenda”. Essa sim é feitas pelos senhores de engenho que possuem maquinários impulsionados por água ou por bois. A cana colhida é assim esmagada até se tornar um líquido chamado de garapa que é fervido em grandes caldeirões. A terceira etapa é a “Purga” quando o sobrenadante que se resulta da fervura é retirado. Ele é colocado em canaletas no próprio engenho junto com substâncias químicas que ao longo de dias transformam essa garapa no próprio açúcar ao secar.

O açúcar é então transportado até o porto do Recife, onde será armazenado e controlado pelo diretor de mercadorias. Atualmente, esta função está a cargo de Jan alewijns. Por fim, quando a medida que os navios chegam ao porto, eles são carregados com essa rica mercadoria e seguem seu caminho para a Europa, onde são vendidos a preços exorbitantes.

 

A Religião

A chegada no Novo Mundo de padres protestantes causou um grande choque aos habitantes de origem ibérica. Hoje, são onze pregadores chamados de dominus que vieram ensinar os preceitos da igreja reformada. No entanto, parecem estar no Novo Mundo mais para pregar aos próprios holandeses que para propagar sua religião. Afinal, há muito pouca esperança de se conseguir novos convertidos, pois os portugueses foram doutrinados pelos padres católicos de que esta era uma seita herética. Eles nem sequer podem a escutar, sem lhes incorrer um pecado mortal.

Por outro lado, aos eclesiásticos católicos, lhes foi permitido continuar vivendo e pregando nas cidades que agora pertencem aos holandeses. Os clérigos continuam a ministrar missas e visitar os doentes, se mantendo bem ativos na comunidade portuguesa. Também os frades continuam a viver em seus mosteiros, sejam eles Franciscano, Carmelitas ou Beneditinos. Só os jesuítas que são dificilmente encontrados. Mais adeptos a reação que a oração, maior parte deles abandonou Pernambuco com o capitão-mor Matias de Albuquerque.

Só a população dos Judeus pareceu aumentar no período holandês. Grande parte veio com o governador Nassau, mas a presença destes estimulou os judeus que escondiam sua crença nestas terras. Antes, proibidos pelo rei ibérico de manifestar sua religião, eles fingiam ser católicos. Agora, com a liberdade religiosa em voga, passaram a se revelar, professando sua religião tão publicamente que causam problemas com reformados e católicos.

 

Os Revoltosos

O Reino de Portugal e a República da Holanda assinaram uma aliança contra seu inimigo comum na Espanha. Nos termos deste tratado, as hostilidades contra o governo holandês no Novo Mundo foram proibidas. As capitanias de Pernambuco, Itamaracá, Paraíba, Rio Grande e Ceará passaram a ser reconhecidas como território holandês. No entanto, nem todos concordam com essa decisão. Após dez anos de guerra, é difícil convencer aos portugueses a aceitar o controle dos seus antigos inimigos. E, mesmo os que aceitam essa proposição, não conseguem se sentir confortáveis.

Um grande encontro pode mudar toda essa situação. O maior comandante português durante guerra contra os holandeses, chamado de André Vidal de Negreiros aceitou conhecer pessoalmente o Governador Nassau. Embora anos antes, Nassau tenha oferecido uma recompensa pela cabeça de André Vidal e este em resposta tenha oferecido uma recompensa pela cabeça de Nassau, ambos decidiram deixar de lado suas diferenças para firmar uma trégua.

Na verdade, ninguém acredita que André Vidal de Negreiros aceite essa trégua. O próprio senhor de engenho João Fernandes Vieira revelou ao governador Nassau que o comandante português entrou em contato com ele para organizar uma insurreição contra os holandeses. Essa posição beligerante está de acordo com a biografia de André Vidal de Negreiros, de forma que muitos portugueses acreditam que ele será o líder de uma resistência contra os holandeses que agirá também contra as ordens do Rei de Portugal. O governador Nassau, por outro lado, acredita que poderá convencer o comandante português a aceitar o governo holandês. Acredita que mudará de ideia após perceber as vantagens que a Holanda oferece aos seus súditos. Só resta esperar para saber o que vai acontecer