Guerra de Pernambuco

O romance a seguir escrito por Pedro Cavalcanti narra os eventos ocorridos entre os anos de 1629 à 1632 em especial a invasão holandeses na capitania de Pernambuco que sofreu forte retaliação das forças locais. A leitura pode ser dividida em três narrativas que contam o ponto de vista dos Holandeses, dos Brasileiros e dos Europeus com histórias que se enlaçam num emaranhado de atos de coragem, intriga e amor.

 

Parte I

 

 

Porto de Amsterdã no Inverno por Hendrick Dubbels (1621–1707)

A Companhia Holandesa

Holandeses

1

21 de Maio de 1629

– Proost! – O grito conjunto de dois jovens rapazes foi ouvido por toda uma humilde taverna no centro de Amsterdã.

Estas altas vozes fizeram um inebriado senhor de barbas sujas e olhar cansado levantar a cabeça e arquear a sobrancelha com todos os músculos da fronte, tal era a dificuldade em abri-los. Ele ainda observou o tilintar das canecas de cerveja, mas, quando percebeu não passar de um furor pueril, recostou a face novamente na fria madeira da mesa. Voltou a dormir.

Os dois amigos continuaram o festejo. No auge da imprudência de seus dezessete anos de idade, nem percebiam quanto barulho faziam. Apenas desceram a cerveja goela abaixo lambendo em seguida a espuma que ficara nos lábios.

– Um brinde ao Novo Mundo! À Terra do Açúcar! – Gritou um. – Onde o verão dura o ano todo, as bebidas são mais fortes e as mulheres andam nuas!

Seu nome era Richshoffer. Era loiro, de longos cabelos ao ombro e rosto imberbe. Estava mais elegantemente trajado, com casaco de couro de botões fechados desde a cintura ao peito, onde a gola branca da blusa abaixo ficava a mostra. Já sentindo o álcool nublar seus pensamentos, ele alcançou um pedaço do belo arenque da mesa que dividia espaço com vistosos queijos e pães. Com este saboroso peixe em sua língua, atiçando seu paladar, ele ouviu as palavras do camarada.

– Ainda mais ganhando oito florins por mês, sendo dois soldos adiantados – disse o outro jovem – É bom demais para ser verdade.

Este detinha cabelos acastanhados e face de menino bobo, com proeminentes bochechas e inocentes olhos. O seu nome era Philipp van Haussen, que, de Richshoffer, era amigo de infância. Grande camarada. Parceiro de farra. E companheiro de aventura.

Esses valores de soldo, no entanto, não significavam muito para Richshoffer. A espada presa em sua cintura, que seu pai lhe comprara há poucos meses, na comemoração de suas dezessete primaveras, valia mais do que todo um ano acumulado deste valor. No entanto, ele continuou as mesmas gargalhadas. Abriu a boca tão largamente, que teve que colocar sua mão à frente para esconder o saboroso Arenque que mastigava. Por um momento, lembrou de sua mãe, que certamente lhe daria um belo sermão se o visse descuidar tanto na etiqueta.

– Esse soldo é o mínimo, dizem que vale a pena embarcar só pelo butim da pilhagem – então desconversou.

O amigo Haus abriu mais o sorriso. Encheu a boca com mais cerveja. Por fim, continuou.

– Só fico feliz de tê-lo convencido a me acompanhar nesta aventura. Nem acredito que queria ir para a Ásia e as Moluscas.

– Eu tinha meus motivos  – Richshoffer argumentou.

– Eu sei – Haus retomou. – Escutei essa história sobre o seu avô mais de mil vezes desde a Feira da Páscoa de Frankfurt até aqui.

Ambrosius Richshoffer relembrava o avô materno, de quem herdara o primeiro nome. Pois este avô também fugira de casa, abandonando seus pais, para ingressar na marinha veneziana e combater os mouros islâmicos no oriente. Agora, era a vez do neto seguir seus passos.

– É uma motivo melhor do que a paixãozinha que arranjasse quando chegou aqui – Richshoffer retrucou com o mesmo divertido esnobamento. – Já está dominado por uma mulher que só conheceu há um punhado de meses. Meu Deus!

Um sorriso abriu no semblante de Philipe van Haussen.

– Amália é a mulher da minha vida! – ele encheu a boca de orgulho e alegria.

– Ainda bem que ela não viu seu pífio exercício e revista do recrutamento ou teria se desencantado – Richshoffer lançou uma gargalhada.

Haus gargalhou ainda mais alto ao revidar o comentário.

– Admito, Admito. Mas se bem me lembro, Richie, sua apresentação foi ainda pior.

As gargalhadas ainda persistiram por um bom tempo, até Richshoffer interromper novamente a amistosa discussão.

– O importante é que deu tudo certo. Brindemos ao coronel Waerdenburch por nos ter aceito em suas forças.

– Ao Coronel Waerdenburch! – Haus elevou a voz.

E ambos tilintaram suas canecas de cerveja ao bradar em uníssono.

 

***

 

Cinco dias depois, tendo já gasto os dois soldos que receberam adiantado para os preparativos da viagem, os dois amigos deveriam se apresentar diante do Coronel Waerdenburch. Era o dia do embarque. Numa das ruas escuras de Amsterdã, próximo de um dos canais que cortava a cidade, Haus estava abraçado com uma bela garota de dezesseis anos de idade, cabelos loiros e olhos azuis. Com seu nariz arrebitado e feições delicadas, era linda e maravilhosa de se ver.

Os dois se beijavam calorosamente de forma a ignorar o vento frio que bafejava do norte europeu. As coxas se entrelaçavam, fazendo a demonstração de desejo na calça do rapaz roçar com a parte mais íntima da bela garota.

– Odeio despedidas – ela dizia.

– É apenas por alguns meses – o rapaz murmurava enquanto mantinha beijos ardentes descendo seu pescoço. – Logo nos encontraremos. Estaremos juntos na Terra do Açúcar, fazendo amor no Novo Mundo.

– Mal posso esperar, meu querido Haus.

A garota olhava seu namorado e tocava suas bochechas largas. Parecia até que ambos nunca mais se encontrariam. Haus levantou a face. Fitou os olhos da sua amada. Um novo beijo ardente teve início. Estavam dominados pelo furor adolescente. A primeira grande paixão. O calor imenso entre as virilhas. Incontrolável. Que lhes subia a cabeça. Os lábios se molhavam. As línguas gesticulavam atos obscenos que desejavam ser imitados em outros lugares e por outros órgãos. No entanto, tudo se encerrou com um grito vindo da rua principal.

– Todos os batalhões! Formação de combate!

O grito vinha do trombeta da Companhia, que tocou seu instrumento, antes destas palavras. Era o sinal para se apresentar ao coronel Waerdenburch.

– Tenho que ir – Haus disse, sem interromper o gostoso beijo.

A resposta veio numa voz melodiosa, em meio a gemidos, que insinuavam desejar fazer algo mais.

– Só mais um pouquinho…

– Não posso. Sabe bem disso. Além do mais, seu pai já deve estar à sua procura. Imagina se ele nos encontra aqui.

A moça fez uma face de quem não gostou da resposta. Mas teve que aceitar. Afinal, era por causa dela que o jovem rapaz estava embarcando.

E assim os dois se separaram. Não sem antes a bela garota lhe falar.

– Hou van je! Eu te amo, Philipp van Haussen.

E ele respondeu.

– Também te amo, Amália.

 

***

 

Logo mais, Haus tomava seu lugar no batalhão. Ao seu redor, numa das praças de Amsterdã, estavam outros milhares de soldados enfileirados, ombro a ombro, gritando numa só voz.

– Eu prometo cumprir rigorosamente as ordens dos meus superiores militares, respeitar meus companheiros de batalha, e, mesmo em caso de abordagem e de preferência a render-me ao inimigo, lançar fogo à pólvora no paiol, afim de ambos os navios voarem pelos ares, defendendo assim os interesses das Companhia das Índias Ocidentais com o sacrifício da minha própria vida.

Todos estendiam seus braços com as armas no punho. Eles repetiam as palavras do coronel Waerdenburch ao prestar este juramento de honra. O coronel, com seus cabelos escuros longos, vestindo uma armadura de guerra sobre seu musculoso corpo e segurando um longo estandarte, exortava novas palavras nos seus soldados. Ele explicava a situação da guerra.

– Escutem, soldados! Estamos em guerra há mais de cinqüenta anos com o maldito Rei da Espanha, que hoje governa não apenas a própria Espanha mas também Portugal, Catalunha, Nápoles, Milão, Sicília, a África, o Oriente e a América. Assim como também já governou todas as dezessete Províncias Unidas da Holanda até o dia em que dissemos: Basta! É contra este reino que combatemos. O maior da Europa e ainda detentor, sob seu maligno jugo, de dez de nossas províncias. É contra este inimigo que todos aqui prometem morrer em batalha. Assim pergunto a cada um: Se entendem e aceitam o sacrifício neste juramento?

Todos os soldados bradaram juntos.

– Sim, senhor!

– Aceitam lutar para conquistar as terras espanholas no novo continente? Construir uma nova província? Erguer uma nova sociedade? E assim fundar uma Nova Holanda?

– Sim, senhor!

Uma corneta tocou.

– Ótimo! Então vamos, vamos juntos, meus soldados, tomar a América dos bastardos espanhóis!

Gritos belicosos da multidão de soldados ecoaram com a bravata do coronel! Em seguida, um tambor tocou. Começou a ditar o passo da marcha destes soldados. Todos eram guiados por seus respectivos capitães. Estava assim iniciado o desfile através das ruas de Amsterdã que fora programado para esta tarde.

Os soldados avistavam a população da cidade, de ambos os lados da rua, aguardando o início da marcha, contemplando-a com sentimentos alegres. E logo na primeira fileira de um grupamento estavam os recrutas Haus e Richshoffer. Ambos vestiam suas melhores roupas para a ocasião. Levavam na cintura sua espada prateada. Tinham, no chapéu, belas plumas com as cores holandesas: laranja, branca e azul.

Nesse momento escutaram um comentário do recruta ao lado. Mais tarde, descobririam que seu nome era Hans Carol Spiessen. Ele disse:

– Olha ali! Que coisa mais linda!

Richshoffer olhou um pouco a frente, vendo uma bela garota de cabelos loiros, olhos azuis e nariz arrebitado.

– Parece que ela acompanhará o desfile no carro dos conselheiros da Companhia – o tal Spiessen comentou. – Deve ser filha de algum figurão.

A visão fez um sorriso abrir na face de Richshoffer. Era a mesma garota que seu amigo Haus se despedia tão calorosamente poucas horas antes.

– É Amália Strausskicher – ele respondeu. – É a filha de um dos maiores investidores da Companhia. No entanto, certamente, quem melhor a conhece é meu amigo Haus ao lado.

– Pode tirar o olho, amigo. Essa aí já é minha – Haus interrompeu, com um certo orgulho nas palavras.

Richshoffer estava prestes a lançar alguma piadinha. No entanto, algo o impediu. Uma voz ecoou ao longe na sua direção.

– Hey, jij daar. Tu aí com chapéu de plumas.

As pernas de Richshoffer tremeram. A palidez tomou conta. Os olhos se abriram largamente. Era a voz do coronel Waerdenburch! O alemão loiro apontava para si mesmo com dúvidas nos olhos por não acreditar que estava sendo chamado pelo grande comandante de tão poderoso exército. Já imaginava que a conversa entre os amigos o irritou.

– Tu mesmo, soldado. Vem aqui! Agora – O coronel Waerdenburch confirmou enquanto Richshoffer, em seus passos hesitantes, caminhava na sua direção. Ele já esperava uma punição.

Quando já próximo, o áspero comandante lhe falou.

– Tome, garoto – ele entregou o estandarte que segurava. – Marche à frente, guiando os soldados.

Richshoffer ergueu o olhar ao alto do estandarte. Lá estava uma bandeira negra com um símbolo em cores brancas, formado por um grande W, tendo em cada perna as letras G e C. Era a sigla para Geoctroyeerde West-Indische Compagnie que significava em holandês: – Prestadora Companhia das Índias Ocidentais.

– Obrigado, senhor coronel, fico muito honrado com a tarefa – Richshoffer respondeu.

O coronel convergiu as sobrancelhas, impugnando suas palavras. Em seguida proferiu frases que prenunciavam a severidade característica deste homem.

– Não exaspera, soldado. Foi Escolhido apenas por ser o mais vistosamente trajado entre todos aqui. A única honra que conta é aquela adquirida pela palavra inabalável e pelo valor no campo de batalha.

– Sim, Senhor!

Richshoffer começou a marcha. Era seguido, logo atrás, por todos os milhares de soldados. Em frente, contemplava toda a multidão de pessoas, homens, mulheres e crianças de Amsterdã, batendo palmas alegremente e flamulando bandeiras com as listras laranja, branca e azul. Estavam nas calçadas, nas janelas e nas portas arremessando papéis multicoloridos, fazendo sinais positivos nas mãos e gritando frases de amor à Holanda.

Richshoffer era de origem germânica, da cidade de Strasburgo. Foi contratado como mercenário para lutar pelos holandeses. Mesmo assim, um bom sentimento tomou conta do seu coração.

Durante todo o percurso, nem conseguiu conter o sorriso.

 

***

 

A marcha durou mais algumas horas. Salvas de tiros foram dadas ao alto. Marcavam o fim da apresentação, que terminou de frente à baía da cidade. Era o local onde todos os soldados alistados foram conduzidos em pequenas embarcações de transporte para o Porto de Texel. Neste porto, a companhia germânica de Richshoffer, Haus e Spiessen ficou de frente a um tão bela visão. Era uma construção flutuante com dezenas de pés de comprimento e mastros tão altos que nem conseguiam observar seu ponto mais alto sem o sol arder-lhes os olhos.

Era um belo galeão inteiramente coberto com três toldas, na média e na inferior, das quais estavam postadas trinta e oito peças de artilharia. Ele ficou ancorado por mais alguns dias, sendo provido de víveres e munições, que diariamente eram enviados de Amsterdã pelos transportes. Ambos Haus e Richshoffer foram conduzidos ao seu interior, que ainda reluzia a verniz novo e velas impecáveis, limpas, enquanto seu capitão proferia aos soldados.

– Sejam bem-vindos ao De Salamander! Embarquemos todas as coisas, pois está para começar sua aventura ao Novo Mundo!

 

 

Real Alcazar de Madrid por Autor Desconhecido (1600s)

 

El Alcázar Real

Nobreza

1

10 de Junho de 1629

Era mais uma jubilosa noite de festa em El Alcázar, o grande palácio de El Rey Filipe da Espanha. Os jovens fidalgos bailavam com belas damas de alva tez e sangue azul. As cordas dos instrumentos titubeavam aos dedos dos melhores músicos da cidade. Os bufões deliciavam o melhor vinho espanhol. E os comensais duques, marqueses e condes discutiam o melhor para o Reino ao degustar da melhor comida do continente europeu. Um soberano transfere sua personalidade à corte. Isto não era diferente a El Rey Filipe da Espanha. Com seus vinte e cinco anos, fazia a jovialidade transbordar em todos os cantos da majestosa morada.

El Alcázar emanava a riqueza do mais poderoso reino do mundo. Pinturas magníficas. Murais minuciosos. Esculturas perfeitas. Tapetes vermelhos. Cortinas de seda. Cristais de extrema pureza. A melhor prataria sobre as mesas. O ouro estava em todos os detalhes. O interior do palácio era fantástico, mas o exterior era inacreditável. Construído sobre uma larga serra, atrás, detinha a bela paisagem campestre das terras castelhanas e, à frente, um largo pátio levava à cidade de Madrid. Toda estrutura foi erguida sobre pedra nobre. Desta, saltavam belas torres cujas pontas dissipavam-se nas cores celestiais, incluindo a mais importante delas: a Torre Dourada.

El Alcázar! Se suas paredes pudessem falar, descreveriam todo um século de libertinagem e aventuras sexuais de seus transeuntes: os homens mais poderosos do Reino. E, como era habitual, nesta noite, diferente das melodias musicais nos grandes salões, eram os gemidos de prazer que ecoavam entre as torres.

– Oh, Leonor!

Em um dos quartos do palácio destinados aos visitantes, um jovem rapaz de cabelos castanhos, fronte larga e olhos azuis, acolhia-se nos braços de uma bela mulher. Com beijos, percorria seu corpo. Causava formigamentos na macia tez onde roçava o bem cuidado cavanhaque. Deliciosas cócegas arrancavam na moça sorrisos involuntários.

– Oh, João! Meu João! Veio de Portugal só para me ver?

Era a vez da bela moça suspirar. O formigar também estava entre suas pernas, roubando-lhe mais suspiros de prazer. Sensações ímpares que lhe nublavam os pensamentos, deixavam-lhe apenas uma avidez por mais.

– Por este corpo, minha amada, atravessaria até o grande Oceano.

A mulher se deitou de bruços no conforto do luxuoso leito. Colocou a cabeça no travesseiro. Apreciou a desejo do homem lhe arrancar mais sensações. Sentiu a luxúria penetrá-la. O mais puro libido entrou em seu corpo. O jovem a beijava no dorso esguio, caminhando lentamente à sua nuca. O toque delicioso explorava seu corpo regozijante, naquele cantinho, onde este homem sabia bem enlouquecer sua mulher.

Os suspiros se intensificaram. Cabelos revoavam para frente e para trás. Os corpos suavam delírios. Logo, não eram mais gemidos de prazer que ecoavam pelas torres de El Alcázar. Era um deleitável grito de paixão.

Os corpos desabaram na cama, sem forças, roubadas pelo prazer. Ainda se controlando para não adormecer, a mulher se aninhou na gostosa cama. Procurava descansar seu corpo de uma mente exaurida.

Ela quem primeiro falou ao jovem rapaz.

– Precisa ir embora, João.

– Mas já?

– Sabe que sim. Meu marido pode chegar a qualquer momento.

O rapaz espreguiçou as costas sonolentas. Recostou à beira da cama. Sentou-se. Colhia suas roupas, espalhadas pelo chão, quando perguntou.

– Por falar nisto, Leonor, como estão as coisas para ele?

– Estão ótimo. Nossos negócios em Borba nunca estiveram melhores. Estamos muito bem.

– Ótimo. Fico muito feliz.

– Obrigada, João – disse a mulher aninhando-se ainda mais na cama. – Mas não quero lhe pedir de novo para ir embora.

Exatamente neste momento, um bater na porta do quarto se iniciou frenético. Era voz do seu bom amigo Antônio Mascarenhas.

– João! Vamos! Mendes Lobo está vindo!

O chamado fez o rapaz se apressar, vestindo rapidamente suas roupas. E a mulher, antes tão sonolenta, se levantou em sobressalto ao ouvir o nome do marido.

O jovem João beijou a mulher.

– Vamos! Rápido! – A mulher o apressou enquanto procurava esconder qualquer indício do amante no quarto.

João deixou os aposentos. Encontrou o amigo Mascarenhas, de cabelos louros curtos, pele bem alva e cavanhaque tão em moda nesta época.

– Por aqui! Conheço bem os caminhos de El Alcázar! – Disse Mascarenhas levando o amigo para fora do palácio. Pois como prometera ao pai, sempre protegeria o jovem João de Bragança.

Afinal, era o herdeiro da mais poderosa Casa Ducal de Portugal.

 

***

 

Enquanto João percorria em passos apressados os corredores de El Alcázar, outros sons ecoavam do interior da Torre Dourada. Estes, em nada se assemelhavam aos alegres festejos no andar abaixo, nem aos libidinosos suspiros na ala destinada aos hóspedes. Eram bem diferentes. Ali, atravessando um corredor decorado com quadros de loucos e bufões, recordação da vaidade e loucura dos poderosos, chegava-se num luxuoso escritório. Era o local onde três homens discutiam o futuro do Reino Ibérico.

Ali, destacava-se um belo quadro que emoldurava a imagem do grande El Rey Filipe da Espanha. Abaixo dele, um dos três homens se sentava numa ampla cadeira. Era tão obeso que poderia facilmente ser tão largo quanto duas pessoas. Os olhos eram negros, profundos, capazes de tragar todos que o fitavam. Os cabelos possuíam a mesma cor negra. Eram longos, escondendo as orelhas, mas com calvas entradas de ambos lados. Era o Conde-Duque de Olivares, o administrador do Reino, braço direito de El Rey, o seu homem de maior valor. O seu Valido. Era o escolhido por Sua Majestade para tomar todas as decisões políticas, econômicas e militares em seu nome.

Os outros dois homens, sentados em frente ao Conde-Duque, eram seus grandes generais atuantes fora das fronteiras do Reino. Um liderava a infantaria. O outro, a marinha. E era ao primeiro general que o Conde-Duque respondia exaltado, avermelhando a face raivosamente, sem acreditar nas palavras que acabara de escutar.

– Noventa mil soldados?

Eram palavras que faziam o Conde-Duque se levantar da poltrona, colocando as mãos sobre a mesa que os separava. Estava tomado pelo desejo de saltar, ali mesmo, com seu pesado corpo, no pescoço deste general enquanto proferia brados inconformados.

– Isso mesmo – o general, com calma, respondeu.

Era o renomado general Spinola. O homem responsável por liderar as forças de El Rey contra as sete províncias rebeldes da Holanda. Era uma guerra que já durava cinqüenta anos, iniciada quando estas províncias se revoltaram contra o jugo do Reino Ibérico, que as dominou por séculos. A experiência do general Spinola se revelava no grisalho dos seus cabelos e barba. Possuía sessenta anos de idade, mas o corpo ainda era invejado por muitos jovens, sendo esguio e ágil, de modo a ressaltar a armadura dourada que cobria seu corpo e a nobre espada na sua cintura.

– Eu preciso de mais noventa mil soldados na Holanda.

O general continuou a dar seu parecer. Ninguém conhecia melhor as províncias holandesas do que ele. Passou metade de sua vida atuando na região, tanto como diplomata ao negociar com este inimigo a Trégua dos Doze Anos, quanto como seu algoz ao reconquistar muito dos seus territórios nestes últimos sete anos em que se reavivou o combate. Ninguém seria capaz de contrariá-lo nesta matéria, ou melhor, quase ninguém, pois o Conde-Duque sempre era a exceção em todos os assuntos.

– Mas este é um número de soldados igual ao que temos lá atualmente.

– Então entende bem minha preocupação – o general respondeu de imediato. – Por isso, eu voltei ao Reino! Pela primeira vez desde que essa guerra começou, as sete Províncias Unidas da Holanda detém números maiores do que os nossos.

A exaltação do Conde-Duque crescia. Nem parecia escutar o general.

– O que me solicita é impossível – Elevou ainda mais a voz. – Sabe o quanto terei que elevar os impostos, ainda mais agora que perdemos a Frota da Prata em Cuba e que o Reino da França nos atacou covardemente em Mantova.

– Este é o preço a pagar – o general Spinola manteve o olhar calmo, defletor. – Se continuarmos com o atual contingente, não apenas deixaremos de avançar na guerra, como a perderemos. E, com ela, todas as dez províncias que temos hoje. Uma por uma. Nossa praça de Den Bosch sofre um sítio neste minuto. Já não basta termos perdido a cidade de Grol no ano passado.

O Conde-Duque estreitou os olhos sobre o general. Um olhar que congelaria de medo alguém com menos bravura.

– Volte à Holanda imediatamente, general – o Conde-Duque transbordava indignação. – Convocarei o máximo de nobres com seus exércitos e aumentarei os impostos. Creio que posso conseguir algo próximo de sessenta mil homens.

O general não se conteve mais. O rosto, antes calmo, se contraiu. Foi sua vez de se levantar e bradar nervosamente.

– Isto é uma guerra, Conde-Duque. Não uma barganha! – Os dois se entreolharam, com o impasse levando o general a propor outra solução. – Se não tivermos pelos menos setenta mil homens para manter o que já temos, sugiro então um novo tratado de paz com as sete Províncias Unidas. Conseguiremos termos melhores do que obtivemos na Trégua dos Doze Anos.

– Não! – o Conde-Duque interrompeu. –  Há um ano que repete esta mesma cantiga. Estamos em guerra há meio século. Antes mesmo de eu nascer. E nós a encerraremos! Pois o único tratado que aceitarei será um que diga que: Todas as dezessete províncias da Holanda reconhecem e ajoelham-se perante El Rey Filipe, seu absoluto soberano e protetor!

– Não voltarei à Holanda nestas condições – o general respondeu. – É minha cabeça e dos meus homens que está em jogo lá!

O Conde-Duque colocou o corpo sobre a escrivaninha com um olhar maléfico sobre o general.

– Se não voltar, sua cabeça estará em jogo aqui mesmo no Reino – o tom de voz era calmo, mas a ameaça implícita era assustadora..

 

***

 

O silêncio tomou conta. Persistiu por um segundo. O general Spinola era incapaz de acreditar na insolência destas palavras. Mal terminou de as escutar, nem se dignou a responder. Tomou a saída do escritório. Bateu a porta fortemente. O novo silêncio só foi interrompido pelo terceiro homem na sala, o general do mar, Fadrique de Toledo. A face arredondada e o corpo acima do peso não faziam jus a fama deste homem cujo renome era tão imenso quanto do outro general. Era intitulado como El Capitán General del Mar Oceano, principalmente, por seus sucesso na guerra contra os holandeses nos campos de batalha marítimos.

– Esta conversa terminou bem – ele falou com notória ironia.

O Valido retomou suas palavras.

– Eu realmente espero que esta termine melhor, Fadrique, pois preciso de seus talentos outra vez – o Conde-Duque continuou com severidade no olhar. – Nossos espiões revelaram que os holandeses preparam uma invasão ao Novo Mundo.

– Outra vez?

– Outra vez! E como o grande Fadrique de Toledo impediu a primeira invasão, expulsando os malditos invasores da Bahia de Todos os Santos, quero que faça o mesmo nesta nova invasão. Desta vez, nem permita que desembarquem. Quero-os destruídos ainda no grande Oceano!

– Mas o Novo Mundo vale todo esse esforço, Excelência? – o general perguntou. – Será tamanho o custo. E, até onde sei, ainda não foram encontrados ouro ou prata nestas terras. Nem em Pernambuco. Nem em São Salvador. Nem em qualquer outra capitania deste lado do novo continente.

– É uma questão de reputação, Fadrique. E devo dizer que o açúcar produzido lá nos tem trazidos bons rendimentos.

O descontentamento de Fadrique pareceu aumentar.

– Não quero ser desrespeitoso, Excelência. Mas logo completarei meus cinqüenta anos de idade. Estava para lhe solicitar minha aposentadoria.

– Aposentadoria? – O Conde-Duque arregalou os olhos. – Nem completou trinta anos de serviços na marinha de El Rey, como pode pensar em aposentadoria?

– Acabei de me casar. Elvira é o nome dela. É quase trinta anos mais jovem do que eu. Acabei de descobrir que está grávida. Esperando uma criança minha. Meu primeiro filho. Não quero me ausentar agora.

– Entendo.

– E uma missão como esta significa pelo menos seis meses longe de casa, talvez um ano.

– Ou mais… – completou o Conde-Duque.

– Além disso, foram tantas batalhas em minha carreira, tantas guerras…

– E todas vitoriosas, sem dúvida.

– Exatamente.

O Conde-Duque recostou em sua poltrona, observando seu general do mar. Colocou-se a pensar por um segundo, tamborilando os dedos na mesa. O general Fadrique nada falou. Estava a mercê do Valido de El Rey. Até que, em certo momento, o obeso homem voltou a debruçar em sua mesa. Pegou uma pena em sua mão. Mergulhou-a no tinteiro. Colocou-se a escrever algo.

– Façamos o seguinte. Consiga mais essa vitória e, não apenas darei sua aposentadoria, como também um boa pensão. Assim poderá cuidar bem de sua família pelo resto da sua vida.

Com um simples gesto, o Conde-Duque colocou dois dedos sobre o papel onde escrevera. Deslizou-o sobre a mesa até bem próximo de Fadrique. Este general tomou o papel nas mãos. Observou o número que ali estava. Arregalou os olhos. Respondeu, com as palavras que o Valido tanto desejava ouvir.

– Vossa Excelência não deve se preocupar com as ameaças que possam surgir no mar. Fique certo que farei o meu melhor!

Um sorriso de satisfação abriu na face do Conde-Duque.

 

Matias de Albuquerque na Galeria Degli’Uffizi em Florença por Autor Desconhecido

 

O Infeliz Anúncio

Brasilianos

1

12 de Agosto de 1629

Um homem grande e gordo se sentava numa majestosa cadeira. Ele tomava a palavra. Este era seu escritório no majestoso palácio de El Rey Filipe da Espanha, que foi construído com os mesmos ares de superioridade exalados por seu dono. Era o Valido de El Rey. O grande administrador do Reino Ibérico. O poderoso Conde-Duque de Olivares.

– Acredito que já deva saber porque o chamei aqui, Dom Matias.

O outro homem, sentado do lado oposto da mesa, era um dos muitos governantes das capitanias do Novo Mundo. Magro e baixo, os seus olhos cansados, sempre semi-cerrados, contrastavam com o brilho experiente na sua pupila negra. Era o capitão-mor de Pernambuco: Matias de Albuquerque.

– Sim, Excelência. Desde que nos tomaram a Frota da Prata tenho aguardado o seu chamado – o capitão-mor completou.

As palavras de Dom Matias remetiam ao ano anterior quando o Reino sofreu um dos maiores revezes na guerra contra os holandeses. A Frota da Prata era o carregamento anual de prata e ouro proveniente do Novo Mundo. E ela fora saqueada no ano anterior. Vinte e um navios, sob o comando do general Bazán, carregados com o enquivalente a doze milhões de ducados venezianos caíram em mãos holandesas e o capitão-mor sabia que os inimigos usariam esses recursos contra o próprio Reino.

– Rumores chegaram por nossos espiões em Amsterdã de que os holandeses planejam uma nova invasão em nossas terras no Novo Mundo.

– Tão grande quanto a anterior?

– Talvez maior.

Estas palavras, apesar de assustadoras, não fizeram transparecer nenhum sentimento de medo no capitão-mor. Se houve algum, ficou bem escondido dentro dele. Apenas perguntou.

– O alvo será a capital de Salvador novamente?

– Não sabemos ainda. Chamam o local do desembarque de Zuikerland: a Terra do Açúcar. Considerando as capitanias com grande número de engenhos de cana, pode ser São Salvador, São Vicente ou…

– … Ou Pernambuco – Matias completou.

– Exatamente.

A única expressão do capitão-mor foi um suspiro, daqueles emitidos quando se acerta uma pergunta óbvia.

– De uma coisa pode ficar certo, Excelência. Se esta corja de bastardos hereges colocar os pés em minha capitania serão recebidos à bala!

O Conde-Duque se alegrou com a resposta.

– Ótimo – esboçou um expressivo sorriso. – Vossa mercê serviu bem nos últimos nove anos em que esteve de capitão-mor de Pernambuco no lugar de seu irmão. E no ano em que serviu de Governador-Geral das terras do Novo Mundo durante a crise da primeira invasão.

– Fiz apenas o necessário. Só não expulsei os holandeses antes por ordem de El Rey que me mandou esperar o socorro do Reino.

– No fim, a empreitada foi um sucesso. Isso é que importa.

O Conde-Duque apoiou o braço em sua poltrona. Girou o corpo para trás. Fitou o retrato de El Rey Filipe, emoldurado atrás. Esperou Matias de Albuquerque fazer o mesmo. Este sentiu como que as palavras do Valido fossem proferidas pelo próprio Rei Filipe.

– Já enviei o capitão general Fadrique para impedir a chegada do inimigo no Novo Mundo. No entanto, caso o pior ocorra, lhe nomeio, Dom Matias, o Defensor Supremo das Capitanias do Norte. Quero que comande a defesa não apenas de Pernambuco, mas também de Itamaracá, Paraíba e Rio Grande.

Com estas palavras, o orgulho encheu o peito do capitão-mor. Os olhos de El Rey Filipe no retrato pareciam fitá-lo de volta. Penetraram em sua alma.

– Para esta missão, solicito homens e recursos – o capitão-mor de Pernambuco falou em seu desejo de fazer seu rei se orgulhar dele outra vez. – Nunca possuí em Pernambuco mais do que algumas dezenas de soldados e alguns milicianos recrutados da população. Tenho que estar preparados caso enviem um exército tão gigantesco quanto os mil e setecentos homens que enviaram a São Salvador cinco anos atrás.

O Conde-Duque lhe respondeu.

– Todo o necessário para se opor ao inimigo estará a sua disposição no Porto de Lisboa.

 

***

 

A conversa entre Matias de Albuquerque e Conde-Duque de Olivares ocorreu algumas semanas atrás. As palavras do Valido soaram reconfortantes ao ouvido do capitão-mor. Enfim chegou o grande dia. Depois de dois anos longe da sua capitania, ele retornava às belas praias de Pernambuco. No entanto, se as palavras do Conde-Duque foram reconfortantes semanas atrás, neste dia, a exclamação com o que encontrou no Porto de Lisboa nem sequer expressava uma centésima parte de sua preocupação.

– Apenas vinte e sete soldados?

Matias estava de frente ao monumental encontro das águas do rio Tejo com infinito Oceano. Havia um número incontável de navios, que postos lado a lado, suas velas formavam uma grande floresta cuja visão não alcançava fim. Milhares de pessoas percorriam seus caminhos: trabalhadores, soldados, mercadores, administradores e outras tantas profissões de todas as origens e nacionalidades. Também haviam cargas de ouro, prata, pimenta, açúcar, algodão, vinho, seda, tabaco e tantas outras especiarias de todos os quatro cantos do mundo.

E lá estava o capitão-mor de Pernambuco, com apenas uma caravela com menos de trinta soldados e outras duas com alguma munição para proteger um território tão imenso quanto cinco vezes o tamanho de todas as dezessete províncias da Holanda juntas.

– Calma, irmão. O Conde-Duque falou que mais tropas seriam enviadas depois por São Salvador.

Duarte de Albuquerque Coelho era o nome do homem que tentava acalmar o capitão-mor. Era o seu irmão, que na infância eram como unha e carne. Separaram-se quando Matias seguiu a carreira militar enquanto Duarte seguiu a vida na corte, usufruindo dos rendimentos de sua herança. Como primogênito da família Albuquerque, Duarte era o real herdeiro da capitania fundada por seu avô. Embora nunca tenha pisado antes nas terras herdadas, era conhecido pelo pomposo título de Senhor de Pernambuco.

– Pernambuco é sua capitania, Duarte – o capitão-mor se exaltou. – É sua herança. São seus, os rendimentos do açúcar que lhe fizeram um homem rico. Deveria ser a pessoa mais preocupada com tudo isso?

– Eu sei, Paulo.

– Maldição, Duarte – Matias se exaltou ainda mais ao ser chamado por este nome. – Ninguém me chama assim desde os meus quatorze anos de idade. É Matias agora. Quantas vezes preciso repetir?

Apesar de não gostar do nome Paulo, este foi o nome que o capitão-mor recebeu ao nascer. A mudança ocorreu porque o pai desses dois irmãos faleceu quando ainda eram crianças. Ambos foram assim criados pelo tio cujo nome, Matias de Albuquerque, o capitão-mor assumiu em homenagem.

Enquanto Duarte herdou, de seu pai, o título de Senhor de Pernambuco, junto com esta capitania, este tio Matias de Albuquerque, renomado 15o vice-rei da Índia, estimava tanto seu sobrinho Paulo que, sem filhos herdeiros, lhe deixou toda sua herança.

– Parece que nunca me acostumarei a chamá-lo assim, mas entendo sua preocupação, Matias. A questão é que o Conde-Duque está apostando tudo na Armada de Fadrique. Precisamos confiar nele.

Matias escutou o irmão, mas respondeu com voz desapontada.

– Só gostaria que ele apostasse mais em mim.

 

***

 

Exatos dois meses e seis dias depois de deixar o porto de Lisboa, navegando pelo mar circundante e trilhando rumo ao desconhecido, tendo como guia os quartantes dos navios, Matias de Albuquerque enxergou a cor negra dos arrecifes costeiros quebrando o azul oceânico. Em seguida, a flora verdejante no horizonte saltou sobre o céus púrpuras da alvorada. As gaivotas pareciam trombetas anunciando a tão esperada chegada.

– Seja bem vindo de volta, Matias.

O capitão-mor desembarcou numa estreita língua de terra que adentrava os mares costeiros com seus muitos armazéns em madeira. Era o Porto do Recife. E sobre um monte mais ao norte, no mesmo campo de visão, estava a Vila de Olinda, fundada por seu avô, quase um século atrás. Para um recém-chegado da corte espanhola, era de se estranhar os ares provincianos de seus pouco mais de três mil moradores, bem menor do que os cem mil habitantes de Lisboa.

Toda a população se alegrou com a chegada do capitão-mor. Duas pessoas em especial estavam lá para recebê-lo.

– Calabar – o capitão-mor cumprimentou um.

Este tinha uma pele escura, cabelo retinto, barba fechada e nariz largo, que não escondiam sua origem mulata pela ascedência africana de sua mãe. O corpo era largo, tanto no forte peitoral quanto na barriga proeminente, que combinados com os grossos braços faziam uma imponente figura. Seu nome era Domingos Calabar. Era também um dos bons amigos do capitão-mor, com quem passava horas conversando. Afinal, o mulato era um dos homens mais inteligentes que conhecia. Era dono de três engenhos de açúcar na comarca de Alagoas e tinha um conhecimento das terras pernambucanas como ninguém.

– Pedro – depois, cumprimentou o outro.

Este era uma caboclo de ascendência indígena. Tinha nele o sangue dos Albuquerques. No entanto, enquanto o avô do capitão-mor retornou à Europa, o avô de Pedro de Albuquerque Melo preferiu ficar no Novo Mundo para se casar com uma princesa indígena. Atualmente, o neto era dono do seu próprio engenho de açúcar em Serinhaém e era comandante da guarda pernambucana. Estava acostumado a combater nativos hostis e piratas invasores.

– Quem bom revê-lo, Dom Matias – o cabloco cumprimentou.

– Está bem mais gordo do que quando partiu – o mulato brincou.

Matias sorriu.

– É o esperado depois de dois anos na corte de El Rey.

– Só espero que tenha sobrado espaço na barriga para comemorar com seus amigos, pois preparamos uma excelente recepção.

Apesar das alegres boas-vindas, ambos os amigos perceberam os ares de preocupação no capitão-mor. Eles nem tiveram tempo de questionar sobre o cenho fechado, pois este lhes dirigiu a voz enquanto o olhar analisava o porto do Recife e a vila de Olinda.

– Infelizmente, o tempo para comemorações será curto – ele suspirou. – Temos uma nova guerra se aproximando!

 

 

Planisfério de Alberto Cantino por autor desconhecido (1502)

 

A Bordo do Salamander

Holandeses

2

24 de Agosto de 1629

Em nome de Deus, o navio De Salamander levantou âncoras. Abriu as velas. Deixou o porto de Texel carregado pelos gélidos ventos do norte europeu. Deslizou mar afora em direção ao horizonte sem fim. A brisa suave quis garantir célere viagem dando lugar aos fortes ventos e o mar calmo se agitou em frenesi com a partida. Eram treze imponentes galeões que repousavam dezenas de alvas velas desfraldadas sobre o esmeralda marinho, rumo ao novo mundo, à desejada Zuikerland.

O agitar das vagas, resvalando salgada espuma, ainda conturbou o início da jornada balançando fortemente estes navios. Era de tal forma que a maioria da tripulação, tanto marinheiros como soldados, ficaram vários dias enjoados, não podendo muitos ingerir, nem conservar no estômago, alimento algum. No dia seguinte outros quatro navios juntaram-se à esta bela esquadra. Aqueles navegantes de primeira viagem que imaginavam o oceano como uma plenitude tranqüila circundada por água de todos os lados, não puderam ficar mais surpresos com o vaivém de navios através do estreito entre a Inglaterra e a Holanda, entre os portos de Dover e Calais.

Eram tantas. O galeão aliado Hollandia juntou a esta esquadra trazendo Thomas Sickle, o novo capitão do De Salamander. Caravelas da Companhia das Índias Orientais transportavam especiarias após nove meses de viagem pela Ásia. Corsários rondavam os mares do temido porto de Dunquerque. Galeões ingleses, ao avistá-los, faziam honras militares amainando as velas da sua gávea. Esquadras da defesa costeira holandesa disparavam seus canhões como forma de saudação. Belonaves mercantes destinavam-se à São Cristovão e outras ilhas no caribe. Outras chegavam do mesmo destino totalmente carregadas.

Não havia nada de estéril ou silencioso nestes mares. As redes de pescaria traziam peixes Espadas e Cavalas. Os Golfinhos perseguiam a espuma branca formada pelas quilhas dos navios, junto com o assovio concertado pela brisa nas velas. Ninguém desejava a calmaria. A falta de vento deixava as velas lânguidas e inertes no enfado da deriva. Houve assim grande felicidade quando, após dias de bons ventos, o mar azulou vividamente se tornando cor de turquesa. A pesada âncora arremessada, que, dias atrás, ao bordejarem a Inglaterra, afundou setenta braças de cordas até tocar nas areias oceânicas, neste dia não alcançava seu fim. O fundo do mar estava insondável. Estavam agora no mar aberto do grande Oceano!

– Richie, olhe ali! Meu Deus! O que é aquilo? – Haus exclamou.

Em meio ao forte azulado marinho, uma montanha se ergueu na superfície aquosa. Era gigantesca, maior que muitas das embarcações da flotilha. No centro do avistamento, como um vulcão, um jato bastante grosso de água começou a ser expelido a alturas consideráveis, superiores aos mastros do navios.

– É um monstro marinho! – Richshoffer exclamou ao perceber os olhos e a bocarra de uma criatura.

O vilusmbre admirado sobre o animal foi interrompido pela chegada de um soldado de origem estrangeira. Era um franco-holandês, que ouviu o espanto dos dois amigos, divertindo-se com suas faces de surpresa.

– É uma baleia – ele disse aos risos.

Richshoffer respondeu.

– Disseram que elas eram grandes. Eu já vi algumas gravuras, mas nunca imaginei que fossem tão gigantescas.

– Acostume-se, meu amigo! – disse o recém chegado franco-holandês, continuando em seguida. – Todos os relatos do mar que já ouviu são reais. Polvos gigantes como a Caribdis mitológica. Peixes com asas que conseguem voar. Redemoinhos gigantes piores que a Cila. Horrendas Cetos com dentes do tamanho de um homem. Sereias. Cavalos marinhos. Enguias que matam com um simples toque. E outras muitas história… São todas verdadeiras!

– É o especialista do navio nos assuntos do mar? – Richshoffer ironizou.

O franco-holandês alargou o sorriso.

– Meu nome é Charles de Toulon – ele estendeu a mão na direção de Richshoffer. – Meu pai é um capitão de infantaria da Companhia das Índias Ocidentais. Está agora em outro navio, levando seus próprios homens ao combate no Novo Mundo. Já vi muita coisa o acompanhando em suas viagens.

Richshoffer o cumprimentou.

– Charles de Toulon… Toulon na França?

– Exato, foi a cidade onde meu pai nasceu.

–Sou da cidade germânica de Strasburgo, na fronteira com a França, pouco mais ao norte de Toulon. Além disso, no ano passado, eu e Haus passamos um tempo nos divertindo na França, onde pude aprimorar o idioma.

O soldado Richshoffer tinha mais história do que o experiente franco-holandês poderia imaginar. Desde cedo seus pais desvelaram-se por lhe ensinar o catecismo, a religião e as letras, mantendo um preceptor doméstico e um mestre da língua francesa. No entanto, antes que pudesse contar mais, foi interrompido pelo amigo Haus. Este não quis entrar na conversa. Ainda estava preocupado com o gigantesco animal emergindo à superfície do mar.

– Como estão conversando tão tranquilamente? Ninguém está preocupado da baleia afundar nosso navio?

– Calma – o soldado Toulon respondeu. – Olha ali os marinheiros arremessando barris vazios na água.

– Barris? Não deveríamos preparar os canhões?

O franco-holandês abriu uma gargalhada.

– A baleia ficará brincando com os barris enquanto passamos tranquilamente por seu território.

Por fim, continuou.

– Logo verá que as baleias trazem boa sorte.

 

***

 

As palavras do franco-holandês logo se confirmaram. Não demorou para os amigos se depararem com outros peixes junto ao casco do navio. Sem dúvida estes eram caçados pela baleia. Os marinheiros os chamavam de Dourados por causa da cor de suas escamas. Eles nem conseguiam acreditar que, dentro de meia hora, pescaram mais de vinte deles. Eram compridos com três pés e muito saborosos.

Durante o percurso, a esquadra foi dividida em duas flotilhas. Uma, deveria tomar o caminho das Ilhas Flamengas, conhecida pelos espanhóis com o nome de Açores. Outra, tomaria o curso às ilhas Canárias, na costa africana, onde deveriam encontrar com o general da Armada, chamado Hendrick Lonke.

Os navio Salamander tomou o seu percurso na flotilha a caminho das Flamengas enquanto se deliciavam dos Dourados. No entanto, estes peixes lembraram o francês da péssima situação de um dos soldados embarcado..

– Preciso guardar alguns desse peixes para o soldado Linckhosz.

Toulon comentou aos novos amigos.

– O soldado Linckhosz? O que caiu enfermo? Ele é da sua companhia? – Richshoffer perguntou.

– Sim – Toulon respondeu. – O doutor confirmou o escorbuto, pois ele está com dores em todo o corpo, gengivas purulentas e já perdeu dois dentes.

O Escorbuto, infelizmente, era uma moléstia que já atacava muitos dos tripulantes do navio. E todos se preocupavam enormemente. Mesmo os dois amigos alemães confidenciaram, um ao outro, que estavam sentindo forte dores de cabeça nos últimos dias.

Um bom peixe poderia realmente o ajudar, visto a pouca comida que era dada aos soldados. Um homem com bom apetite poderia facilmente devorar a ração de quatro. Cada tripulante recebia por toda viagem três pedaços de queijo flamengo. E, por semana, oito quilos de biscoito, um pote de manteiga e um pouco de vinagre. Tinham carne apenas no domingo e na quinta-feira, junto com um prato redondo de favas. Terça-feira era o dia de toucinho. Nos outros dias, era servido papa de aveia, cevada ou ervilha. Mesa para comer era um luxo. Havia uma só a bordo. Todos se serviam no convés, sem toalhas e guardanapos. No entanto, o pior era a pouca água. Diariamente, cada um tinha uma medida certa. E, na maior parte das vezes, era fétida e suja.

Richshoffer retomou a palavra pensando no soldado enfermo.

– Certamente minhas preces vão para nosso amigo hoje.

– É tudo que podemos fazer agora – foi a triste resposta de Toulon.

No dia seguinte, tiveram notícia que seu estado de saúde piorou. Estava com falta de ar e sofrendo alucinações.

 

***

 

A viagem prosseguiu até que, numa madrugada, em meados de julho, avistaram a primeira das Ilhas Flamengas, chamada Santa Maria, a qual era habitada por gente espanhola. Lá, mais histórias de pescadores se tornavam reais. Nesta região, viram peixes que voavam em bandos. Peixes Voadores!, os amigos exclamaram. Eram do tamanho de arenques, tendo na frente junto à cabeça compridas barbatanas. O vôo não atingia, porém, a distância maior que um bom tiro de mosquete enquanto as barbatanas mantinham-se molhadas. Toulon explicou que logo que estas barbatanas secavam não podem ir mais longe. E que os dourados atrás mencionados são seus inimigos, os perseguem e devoram.

Os soldados Richshoffer e Haus observavam essa bela cena. Estavam ali, estirados, ao sol do fim de tarde no convés. Estavam a mando do barbeiro da tripulação e sangrando pelos braços. Era procedimento padrão para tratar fortes dores de cabeças. Felizmente, sua moléstia não era escorbuto. Ela foi atribuída a estarem as madeiras e cordagens ainda novas e fortemente alcatroadas, o que produzem cheiro muito insalubre. E assim o bom Deus restituiu-os a saúde depois de mais algumas sangrias.

O Salamander passou pela ilha de São Miguel onde encontraram outras três velas. Duas embarcações eram da esquadra holandesa: De Swarte Leenwe e Den Ouwevaer. A terceira era uma nau mercante que transportava uma carga de vinho para ser vendido em diversos portos, incluindo na ilha de Tercera, que era principal das ilha das Flamengas, onde a armada ancorou em seguida. Nesta ilha, sob as sombras de um grande pico, todos foram consensuais em partir de imediato para o ponto de encontro nas Canárias.

No entanto, algo atrasou a abertura de suas velas.

– Corja de inúteis!

Um soldado forte e esbelto, chamado de Hans Carol Spiessen, também alemão, quem praguejou ao alto. Estas palavras foram escutadas pelos dois amigos de mesma nacionalidade que observavam a ação sobre o navio mercante, pois, do alto mastro do De Salamander, descia uma corda até a pequena embarcação com um homem desacordado e pendurado na ponta.

– Não acredito que estes marinheiros se embriagaram de tal forma que está sendo preciso içá-los a bordo! – Richshoffer comentou a ação.

– Se o coronel Waerdenburch estivesse aqui, certamente, seriam punidos com a morte ou com a Quilha – o soldado Spiessen respondeu.

O Castigo da Quilha era punição severa, próxima da morte, em que o condenado era amarrado e arrastado de um lado para o outro do navio, por debaixo do casco. Ele deveria prender a respiração, suportar o frio e evitar bater a cabeça na quilha para sobreviver.

Os marinheiros bêbados acabaram recebendo castigos mais leves. O capitão Thomas Sickle mandou que ficassem trancados por uma semana no calabouço do talha-mar, na proa do navio. Era o local onde a tripulação faz suas necessidades quando está embarcada e, em mar agitado, ninguém pode se conservar enxuto. Depois, receberam pancadas no traseiro, de modo tal, que durante alguns dias não conseguiam sentar ou deitar de tão doloridos.

– Quem se importa com eles?

Neste momento, Haus interrompia a conversa de Richshoffer e Spiessen sobre os marinheiros insubordinados.

– Precisam provar isso aqui!

Ele estendeu a mão, segurando um fruto que retirou de sua mochila, que estava repleta também de laranjas e abacaxis. Este fruto era do tamanho de um punho e a casca completamente púrpura.

– O que é? – Spiessem questionou.

– Comprei do navio mercante – Haus estendeu o braço, oferecendo o fruto. – Dizem ser uma especiaria do oriente. Eles as chamam de Romãs.

O soldado Spiessen abraçou a fruta com os dedos, e colocou-a a boca. Mordeu a casca e as sementes crocantes, sorvendo a doce polpa, com tal gula, que esta escorreu pelos cantos da boca. O seu paladar foi atiçado em locais que nunca havia sentido antes.

– É deliciosa! – ele exclamou.

Haus ofereceu também a Richshoffer, mas este recusou o exótico fruto.

– Não quer provar, Richie?

– Deixa que eu mesmo comprarei as minhas romãs – disse o amigo. – Não aceitarei estas tocadas por suas mãos.

Richshoffer segurou o punho de Haus mostrando a palma da mão.

– Não tomamos banho desde Amsterdã e olha o tamanho destes calejados! Parece que tem pensado muito na senhorita Strausskicher, não é?

O riso correu solto. Haus se calou, emburrado. Afinal, havia uma certa verdade nas palavras do amigo.

Ele não parava de pensar na bela loira de olhos azuis.

 

***

 

Horas depois, tendo os marinheiros embriagados sido içados, os navios se preparavam para a partida. Foi quando os soldados Rischshoffer e Haus avistaram duas tartarugas gigantes, tão grandes quanto um pequeno homem, e resolveram lançar um desafio ao novo amigo Hans Carol Spiessen.

– Ele não vai conseguir! – Richshoffer instilou.

– Ah! Ele vai sim! – Haus contrariou.

Os três amigos observavam o manso flutuar do amigo alemão cada vez mais próximo do casal de tartarugas. Já próximo o bastante, seu movimento lento tornou-se uma manobra ríspida quando suas mãos tocaram subitamente o casco de um dos animais. A vibração de Haus veio em seguida.

– Eu disse que ele conseguiria!

Uma das tartarugas afundou como se fosse um pedaço de chumbo. Desapareceu no fundo do mar. A outra, no entanto, teve o casco virado, colocado de cabeça para baixo sobre a água, pelo ágil soldado alemão. E, quando as tartarugas são deitadas sobre os cascos, elas não podem voltar-se e ainda menos mergulhar. O sucesso do soldado Spiessen fez Richshoffer praguejar.

– Schit! Eu perdi, que filho duma p…

Haus abriu um sorriso.

– Pode começar a pagar agora, Richie. Quero me empanturrar com seus biscoitos nesta semana.

Os amigos se divertiam. Exaltavam o feito do outro soldado alemão, saudando-o ao chegar com a tartaruga, de casco virado, no navio.

– Bravo! Bravo!

Neste mesmo momento, chegou outro camarada, o franco-holandês Charles de Toulon, que saía das câmaras internas do navio.

– Vem, Toulon! É o dia de banquetes exóticos. Prova este fruto aqui – disse Haus arremessando uma das romãs. – E se prepara que hoje nos deliciaremos com um bom filé de tartaruga!

Com um único movimento, ao levantar o antebraço, Charles de Toulon fez a romã cair direto entre seus dedos, segurando-a firmemente. No entanto, mesmo frente aos alegres companheiros, o seu semblante sério e taciturno em nada se modificou. Ele apenas continuou seu caminhar.

– Que cara feia é essa, Charles?

Richshoffer o perguntou ao perceber que havia algo de errado. E o franco-holandês respondeu num único e pesado fôlego.

– Tristes notícias… Hans Linckhosz amanheceu morto!

 

***

 

Na madrugada de 9 de agosto de 1629, faleceu o soldado Hans Linckhosz, o qual gritou toda a noite na tentativa de enganar a morte.

– Hans Linckhosz não está aqui! Hans Linckhosz não está aqui!

Porém a morte não se deixou despedir. Este soldado foi assim o primeiro a falecer no navio De Salamander.

O enterro se fez segundo o costume marítimo. À tarde, já tendo os navios partido para as ilhas Canárias, o corpo de Hans Linckhosz foi costurado numa vela, trazido para a coberta superior e encostado ao mastro grande enquanto se fazia uma oração. Depois, várias pessoas pegaram-no pela cabeça e pelos pés, contaram um, dois, três e o lançaram por cima da amurada ao mar, onde sem dúvida foi devorado pelos peixes do oceano e não pelos vermes do subterrâneo.

O Oceano! Um sepulcro tão grande, amplo e fundo que, mesmo do mais alto cesto de mastro, não se podia o abarcar com a vista.

– Deus Onipotente conceda-lhe uma alegre ressurreição! – Proferiu um dos marinheiros, o mais religioso, que embarcou com a única bíblia a bordo, ao prestar-lhe as honras finais.

E assim Hans Linckhosz foi morto e sepultado.

 

 

 

Conde-Duque de Olivares por Diego Velasquez (1599-1660)

 

O Direito de Herança

Nobreza

2

17 de Agosto de 1629

Muitos meses depois do encontro entre o general Fadrique de Toledo e o Conde-Duque de Olivares na Torre Dourada, o cenário agora era o grande mar Oceano com suas infinitas águas desaparecendo no horizonte. Uma das ilhas verdejantes do arquipélago das Canárias emergia da superfície marinha a estibordo. E, a bombordo, em meio ao azul infinito, surgiu aquilo que El Capitán General del Mar Oceano tanto procurava.

Mal havia sua Armada de dezessete galeões percorrido duzentas léguas de costa africana, encontrou nove navios de guerra holandeses.

– Atacar!

O general lançou a audaciosa ordem. Já visualizara, ali, entre os inimigos, um dos mais poderosos navios da frota holandesa. O nome escrito no casco revelava: – Amsterdã. Era o galeão do general Hendrick Lonke. Este foi um dos três grandes comandantes holandeses responsáveis pela captura da Frota da Prata espanhola. Este grande general holandês, em seu invejável galeão de cinqüenta e quatro peças de artilharia, comboiava outras oito embarcações fortemente armadas. Certamente, estavam destinadas à guerra.

– Lonke! Enfim chegou a hora de testá-lo em batalha.

O ímpeto de Fadrique de Toledo fez o peito dos seus marinheiros inflarem em orgulho. Todos na nau capitânia desejavam se mostrar dignos do seu comandante. Estavam prontos para a batalha.

Surpreendendo os holandeses, obtiveram um grande sucesso. Conseguiram jogar os ganchos de abordagem numa das embarcações inimigas. Esse sucesso foi alcançado pelo galeão do segundo em comando da armada, o almirante Antônio de Oquendo, que, corajosamente na vanguarda, meteu-se entre os navios holandeses.

Os bombardeios começaram de ambos os lados. Fadrique deixou Oquendo cuidar da embarcação capturada. Saiu em busca de outra presa. Buscava o confronto direto com o almirante holandês. No entanto, o desejo pelo combate não era um sentimento compartilhado pelo comandante adversário.

O brado do marinheiro de observação, no alto cesto do mastro principal, lhe causou grande frustração.

– General, os inimigos estão braceando as velas na direção contrária. Estão seguindo o vento para longe de nós.

– Maldito seja, Lonke! – Fadrique praguejou.

Ele ainda ordenou abrir largamente as velas de todos os galeões de sua Armada na tentativa de alcançar os navios inimigos em fuga. Foi em vão. No fim, El Capitán General apenas pôde praguejar mais. A frota holandesa desapareceu no horizonte.

– Poderia ter me dado o gostinho da batalha… – Eu teria encerrado minha carreira com chave de ouro, Fadrique terminou a frase em pensamento. Os únicos sons que ainda estavam a ecoar eram do combate entre a corajosa almirantada, que primeiro se meteu sobre o inimigo, e sua adversária. Eram sons que cessariam antes mesmo do galeão de Fadrique voltar para socorrê-la, pois a nau holandesa, vendo-se abandonada pelo general Lonke, pediu quartel, entregando a rendição.

Por fim, o almirante Oquendo foi transportado ao galeão de Fadrique numa pequena chalupa.

– Terminamos de interrogar este prisioneiro – ele falou.

Com olhar sereno, exaltado pelas largas entradas calvas no cabelo, o almirante Oquendo tinha um dos marinheiros do navio capturado aos seus pés.

Fadrique, olhando com desprezo este prisioneiro, logo retrucou.

– E o que descobrimos?

– O ataque foi confirmado. Será mesmo em Pernambuco. As forças holandesas serão reunidas no arquipélago de Cabo Verde.

– Descobrimos alguma coisa sobre estas forças?

– Sim – O almirante continuou. – Trinta embarcações inimigas já encontram-se no local. E estas não são nem metade da Armada ainda!

A resposta fez a face de Fadrique tomar ares de surpresa. Diriam alguns, até serem ares de pavor. A força inimiga era surpreendente.

Era quatro vezes maior que a própria armada de Fadrique.

 

***

 

Era um belo dia em Madrid, com a característica secura da região causando ressecamento na garganta de seus habitantes. O céu estava claro, sem nuvens. Os raios solares iluminavam o cinza da cidade, por vezes, chegando a atingir suas claustrofóbicas ruas construídas em pedra. Os mesmos raios alcançavam o palácio de El Alcázar que reluzia o sol em suas rochas enquanto, em seu interior, o general Ambrogio Spinola atravessava seus corredores. Ele caminhava na direção de um escritório cujo percurso era decorado com pinturas de loucos e bufões. Enfim, abriu uma porta que conhecia muito bem. Era a sala do Conde-Duque  de Olivares, o Valido de Sua Majestade, o administrador do Reino.

Uma olhada rápida já permitiu que o general Spinola visualizasse ali um grande salão de entrada. Tinha uma ante-sala com um tabuleiro de xadrez no centro. Uma cristaleira com taças de vinho de um lado. Várias estantes de livros do outro. E ao fundo lá estava o Valido atrás de sua grande mesa. Desta vez, não estava sozinho. Um homem e uma mulher estavam em pé na sua frente.

– Boa Tarde, general – o obeso ministro primeiro cumprimentou.

– Soube que desejava falar comigo, Olivares – o general respondeu.

Este voltou o olhar para as duas pessoas no ambiente. Percebeu a semelhança entre eles. Havia um ligação familiar notória. Eram irmãos.

– Estávamos à sua espera, general – o Conde-Duque retomou. – Quero que conheça os irmãos de Sabóia. Victor Amadeus e Margarida de Mantova. Eles vieram de longe para solicitar ajuda ao Reino. E acredito que Vossa Excelência é a pessoa certa para isso.

Os nomes foram logo reconhecidos pelo general. O irmão mais velho, com pouco mais de quarenta anos de idade, era um homem de poucas palavras, taciturno e de olhar negro misterioso. Era conhecido como o  Leão de Susa em razão de sua ferocidade no campo de batalha. A irmã, que estava ao lado, era dois anos mais jovem e mostrava a mesma empáfia nobiliárquica do irmão.

A aparência realmente não negava o parentesco, mas se diferenciavam no sobrenome. O primeiro usava o Sabóia da Casa Ducal onde nasceram. A segunda usava o sobrenome Mantova por ser a viúva do finado Duque de Mantova, cujo nome foi muito falado na Corte nesses últimos meses. E a razão disso era bem conhecida pelo general Spinola.

– Sinto muito por sua perda – o general falou para Margarida. – Tenho certeza que Vossa Excelência recuperará o Ducado de Mantova em breve.

– Com sua ajuda, tenho certeza que sim – a mulher respondeu.

O Conde-Duque estendeu a mão na direção das cadeiras. Então falou.

– Sentem-se todos, por favor.

O conflito de Mantova ocorria no norte italiano pertencente ao Reino Ibérico. Tudo começou quando a Casa Ducal de Mantova, detentora das terras da região, teve sua linhagem interrompida. O seu Duque, assim como seus dois irmãos, morreram em idade jovem e sem deixar descendentes masculinos. Os únicos familiares vivos da família eram a própria Margarida, esposa do finado duque, e sua jovem filha Maria, casada com um duque francês.

A situação se tornou crítica para o Reino Ibérico quando este duque francês reivindicou todo o Ducado de Mantova para si. Clamou os direitos sobre a propriedade do sogro. Jogou a filha contra a mãe. Ele tinha o Reino da França como apoio, que enviou um exército de vinte mil soldados e conquistou as terras de Mantova, que antes pertenciam à Margarida.

– E como posso fazer isso? – Spinola questionou.

– Vossa Excelência é o meu melhor general e entendo suas ressalvas quanto à Holanda – o Conde-Duque retomou. – Proponho então que vá para Mantova. Desde que a França tomou controle da região, este é outro importante campo de batalha.

–  Quais os recursos terei a disposição? Como já disse, não arriscarei meus homens se não tiver as condições necessárias.

– Vossa Excelência tem seus próprios soldados. Victor Amadeus tem os dele em Sabóia. E alguns soldados ainda se mantém fieis a Margarida em Mantova. Já formam uma boa soma.

– Ainda é pouco – o general respondeu.

– Felizmente, temos o Império Romano-Germânico ao nosso lado – o Conde Duque lançou a tréplica.

Suas palavras remetiam ao tabuleiro político na Europa, que não era tão complicado. Afinal poderia ser dividida em duas parte: Protestantes e Católicos.

Os Católicos especificamente eram as três nações que participavam do conflito em Mantova: o Reino da França, o Reino Ibérico e o Império Romano-Germânico. Assim, a França declarar guerra tão abertamente contra a Espanha era algo muito nocivo. Felizmente, as relações entre as outras duas nações envolvidas sempre foram mais confiáveis. Afinal, El Rey Filipe e o Imperador Ferdinando eram primos, da mesma Casa de Habsburgo, assim como ambos o Reino Ibérico e o Império Romano-Germânico eram tidos como nações irmãs, filhas do antigo imperador Carlos V. Era senso comum em toda a Europa que o destino de uma estava diretamente conectado com o destino da outra.

– O Imperador está tão comovido com a situação de Margarida de Mantova, sua concunhada, que cinquenta mil soldados romano-germânicos serão enviados para a região.

Um largo sorriso se tornou visível na face de Victor Amadeus enquanto sua irmã apertava seu braço, assinalando um sentimento de esperança. Não demorou para palavras partirem dos lábios do Leão de Susa, que faziam jus à sua poderosa alcunha.

– Devo dizer também que a Casa de Sabóia é poderosa – Seus olhos transbordavam arrogância. – Não é apenas um ducado, mas um estado independente, um Reino próprio! Por isso, buscamos o Reino Ibérico. Vossas Excelências reconhecem nossa reputação, diferente da França, que nos enxerga apenas como vassalos. Quero uma aliança com a Espanha numa verdadeira União da Armas!

O Leão de Susa fitou os olhos de Spinola. Completou em seguida.

– Por isso, quero que esteja ao meu lado nessa guerra, general!

O Conde-Duque asseverou o mesmo olhar ao comandante Spinola. A pergunta que todos no escritório desejavam ouvir partiu dos lábios do Valido.

– Posso contar contar a El Rey que a missão em Mantova lhe agradou?

O general Spinola se levantou da cadeira. Estendeu a mão.

– Sua Majestade pode contar comigo!

 

***

 

Com o fim da reunião, o Conde-Duque de Olivares acompanhou o general Spinola e os irmãos de Sabóia até a porta do escritório. Despediu-se deles. Observou-os caminhar pelo corredor decorado com os quadros de bufões e loucos que ele próprio escolheu. Estava prestes a fechar a porta. Esperar a próxima reunião da tarde. Afinal, ainda haviam muitas outras. Não faltavam problemas para se resolver no Reino. E, mesmo com tantas reuniões marcadas, ainda surgiam muitos outros problemas que nem estavam na sua agenda. Exatamente como este que um mensageiro lhe trazia agora.

– Senhor Conde-Duque!

Este mensageiro andava em passos apressados pelo mesmo corredor por onde Spinola, Victor Amadeus e Margarida partiram há pouco tempo. O Conde-Duque soube desde o primeiro momeno que este mensageiro lhe traria péssimas notícias. Afinal, ninguém anda assim tão apressadamente para trazer uma boa notícia.

Logo que entrou no escritório o Conde-Duque fechou a porta para escutar a mensagem. A notícia não o surpreendeu. Com tantos frontes de batalha em suas mãos, incluindo a guerra na Holanda, o conflito em Mantova e a invasão ao Novo Mundo, o Conde-Duque teve que aumentar os impostos em algumas regiões do Reino.

Era exatamente de uma dessas regiões, uma das mais exploradas, a origem da nóticia. O mensageiro expôs tudo aquilo que tinha para falar.

– Temos problemas em Portugal, senhor. Outra revolta eclodiu!

 

 

Navio, iate e embarcações menos holandesas por Willem van de Velde the Younger (1633–1707)

Os Perigos do Mar

Holandeses

3

1º de Outubro de 1629

A viagem do Salamander continuou. Poucas semanas depois, já bordejavam na costa africana a primeira das ilhas Canárias, chamada de Pequena Canária. Eles primeiro avistaram a sombra do alto monte da ilha, cujo cimo em tempo claro poderia ser visto do mar a sessenta milhas de distância. Em seguida, escutaram o grito do marinheiro de observação.

– Embarcação inimiga à vista! É espanhola!

O frenesi iniciou no interior do Salamander. Todos observavam uma fragata desconhecida justamente no meio da esquadra holandesa. Eram espanhóis que navegaram ocultos pela negra madrugada, sem perceber a esquadra holandesa. Nem os holandeses haviam percebido sua aproximação. No entato, o clarear do novo dia revelou a situação.

A pequena barca não poderia realizar outra ação. Abriu as velas largamente pondo-se a fugir da frota holandesa de oito navios que a cercava. Neste momento, o timoneiro do De Salamander perguntou ao capitão Thomas Sickle.

– Senhor capitão, é uma barca com dez canhões, o bastante para nos causar dano. Nosso objetivo é Zuikerland e não pelejas sem sentido no meio do mar. Devo aconselhá-lo a continuarmos o nosso percurso.

Thomas Sickle apenas abriu um sorriso malicioso. Era um homem valente que prezava pela honra e coragem. Desta forma, o marinheiro ao timão não poderia esperar outra ordem quando percebeu a face do capitão transbordar belicosidade.

– Giro total a estibordo! Largue todas as velas! Estamos a barlavento, timoneiro. Temos a velocidade ao nosso lado. E quero ter a honra de conquistar a primeira presa desta jornada!

Em seguida, olhou para todos os soldados no convés que observavam a embarcação inimiga, incluindo o grupo de amigos alemães. Bradou para que todos lhe pudessem ouvir.

– O que estão esperando, soldados? Preparem os canhões. Tomem os mosquetes. E afiem as espadas. Pois sua primeira batalha está para começar!

 

***

 

– Não me envergonhem, bando de klootzaks! – Pouco depois, o capitão Thomas Sickle esquecia sua proibição quanto ao uso de palavrões no navio. Tinha uma boa razão para isso. Seus marinheiros, durante a perseguição à fragata espanhola, desastrosamente, deixaram o vento atirar o mastro grande junto com as vergas ao mar, assim como todos os marinheiros que estavam no cesto de observação. Determinado a capturar o inimigo, deixou para trás aqueles que caíram ao mar. Bradou com mais furor as ordens à perseguição.

– Voltemos para buscá-los depois. Toda velocidade à frente!

Com a mesma rapidez que causaram o acidente, os marinheiros conseguiram consertar o erro. Reergueram a vela principal e retomaram o curso ao inimigo.

A fragata avistada era pequena, muito menor do que o Salamander. Detinha dez canhões apenas. O Salamander, porém, além das suas trinta e oito peças de artilharia, tinha também o vento ao seu favor, impulsionado-o à frente com toda força eólica que o barlavento era capaz de fornecer.

Não demorou para o navio de Thomas Sickle se avizinhar da barca espanhola, impulsionada também pelos gritos deste capitão.

– Disparar canhões! Carreguem as palanquetas!

Os novos brados fizeram dezenas deste tipo de munição, formada duas balas de canhão unidas por uma barra de ferro, subirem ao alto, em rotação irregular sobre o eixo da barra. Elas caíram sobre a embarcação espanhola. O alcance não era longo, mas era perfeita para destruir as cordagens e os mastros inimigos.

– E os senhores com mosquete? – Thomas Sickle agora bradava aos soldados. – Vão ficar apenas olhando? Atirar! Atirar!

Os mosquetes eclodiram. Os soldados Toulon e Spiessen pareciam bem experientes em suas armas. Haus, no entanto, fechava os olhos a cada aperto do gatilho, sendo mais fácil acertar uma andorinha no céu que alguém na barca espanhola. E Richshoffer, sem nenhum treinamento anterior, fazia mais pose do que dano aos espanhóis.

O capitão espanhol, que detinha apenas um braço, tendo o outro sido arrebatado por uma bala de canhão num combate anterior, tentava fugir aproveitando o vento como podia. Mas o Salamander se mantinha, sempre perfeitamente emparelhado, num percurso realizado ao som de explosões.

A visão de todos foi encoberta pela fumaça. As armas de fogo deixavam buracos no casco. As velas eram feitas em pedaços. E as cordas se arrebentavam. Ambas as embarcações começavam a sentir os dano do combate. O tropel parecia sem fim, mas se encerrou quando os artilheiros do De Salamander despedaçaram o mastro de mezena, na parte traseira do navio espanhol, e meteram-lhe uma bala abaixo da linha d’água que começou a inundar seu casco.

O grito do capitão espanhol, agitando o chapéu e fazendo sinais que iam afundar, finalizou o combate.

– Bueno quartel! Bueno quartel

A solicitação indicava sua rendição.

Richshoffer e todos os outros soldados do Salamander se levantaram com a mesma felicidade, ares gloriosos e brados de vitória.

 

***

 

O capitão Thomas Sickle mandou arriar o bote e se dirigiu a barca espanhola com um intérprete, alguns soldados e carpinteiros para reparar as avarias na barca inimiga. Seus tripulantes foram aprisionados no compartimento de carga da própria embarcação. Apenas o capitão espanhol foi trazido a bordo do Salamander. Enquanto era levado ao calabouço no talha-mar, gritava palavras no seu idioma natal, cuja tradução trouxe grande temor a todos.

– Malditos, flammincos! El Capitán General del Mar Oceano está vindo à sua caça! Escutem bem! El Capitán general Fadrique de Toledo há de destruir cada um de seus navios!

Richshoffer questionou o real peso das palavras do espanhol.

– O que há de tão preocupante nisto? Quem se importa com esse tal de Capitão Fadrique?

O soldado Spiessem foi o primeiro a responder.

– Eu me importo. Oito anos atrás, com apenas nove galeões, ele derrotou vinte navios de guerra na batalha naval de Gibraltar.

Charles de Toulon expandiu o mito.

– Cinco anos atrás, as nossas forças conquistaram a cidade de Salvador, a capital das terras espanholas no Novo Mundo. Meu pai estava lá. Era soldado na época. O Capitão Fadrique foi quem a reconquistou.

– Dizem que ele nunca perdeu uma batalha. Que é invencível – era a vez de Spiessen retomar.

– Que baboseira! Ninguém é invencível – Haus respondeu. Logo seguido do murmúrio de Richshoffer.

– Eu, realmente, espero que não seja…

O murmúrio, que já soava preocupante o bastante, revelava um temor iminente. Um temor que logo se tornaria real.

 

***

 

Cinco dias após a captura, depois de uma tranqüila travessia pelos mares das Ilhas Canárias, um dos marinheiros não se contentou em gritar do alto do cesto de observação no mastro principal. Solicitou a presença do capitão Thomas Sickle para relatar avistamentos no horizonte.

– Senhor capitão – O marinheiro falou esbaforido ao descer o mastro. – Eu vejo navios. Uma Armada inteira. E estão vindo em nossa proa, na nossa direção!

Este mesmo marinheiro se aproximou mais do capitão Sickle para relatar o tamanho da força inimiga, em som mais baixo, bem no seu ouvido. No entanto, toda essa discrição foi em vão.

O capitão quem não conteve a exclamação.

– O quê? Quinze galeões de grande porte!

Os que ouviram o brado do capitão holandês foram tomados por um frio na espinha e pelo assustador pensamento no lendário general espanhol. Não obstante das más notícias, o marinheiro continuou.

– Sim senhor! Calculo uma soma de quatrocentos canhões!

– Pelo amor de Deus, homem! Deixe-me ver isso!

O capitão tirou de dentro da jaqueta sua luneta, uma novidade lançada na Alemanha há não mais que trinta anos. Foi à proa do navio. Colocou o olho no instrumento. Todos sabiam que nas oito embarcações de sua flotilha não haviam nem um terço da artilharia inimiga.

Não demorou para o brado do capitão Sickle ecoar pelo navio.

– Preparar canhões. Tomar posições. Avisar os outros navios. E içar bandeiras de sangue. Agora a coisa é séria!

Começaram assim os preparativos. Todos se aprestaram para o combate. Desembaraçaram as peças de artilharia. Escalaram seus artilheiros e ajudantes. Os soldados, com os seus mosquetes, foram postados na coberta superior. Cobriram as amuradas e os cestos dos mastros com panos vermelhos. Arriaram as bandeiras padrões e içaram as famosas bandeiras de sangue, rubras com um forte punho desenhado segurando uma albarda. Era um símbolo holandês que os espanhóis aprenderam a temer.

Não demorou para a frota inimiga surgir nos horizontes marítimos à vista de todos como um borrão negro em alto mar. Os corações palpitaram quando esta imagem tomou a forma de navios. A nau capitânia inimiga era gigantesca. O Salamander, antes tão vistoso e imponente, ficou pequeno frente a tamanho poder.

Os segundos ficaram lentos. Os mosquetes tornaram-se pesados. O silêncio tomou conta. Escutava-se somente o bater das ondas no casco. Só quando bem próximos, o grito do capitão Thomas Sickle, ao reconhecer as bandeiras daqueles navios, ecoou pelo Salamander.

– Esperem… – falou com a face se enchendo de surpresa. – Não são espanhóis! Aquele é o navio Amsterdã do nosso senhor general Hendrick Lonke! São os navios de nossa própria Armada!

Ao som destas palavras, os preparativos para luta se transformaram em tiros de alegria e salvas de regozijo. Eram os mesmo navios que a flotilha se apartou no caminho às Ilhas Flamengas.

Esta respondeu com a mesma saudação de canhões ao alto.

Sem muita demora, todos os capitães foram chamados a bordo do navio do senhor general Lonke, retornando com ordens de aproveitar o bom vento. O capitão Thomas Sickle avisou da decisão em tomar caminho para as ilhas do arquipélago de Cabo Verde, mesmo porque já eram muitos os casos de Escorbuto na armada.

Esta seria a última parada antes do desembarque em Zuikerland.

 

 

Europae (modificado e legendado) por Karl Sprunner von Merz

 

O Príncipe Herdeiro

Nobreza

3

22 de Outubro de 1629

Gritos furiosos ecoaram numa das recentes conquistas do Reino Ibérico: as províncias de Portugal. Há meio século, este reino, até então independente, se submeteu ao jugo espanhol praticamente sem resistência. Tudo isso porque seu adorado Rei Sebastião faleceu nos combates na África sem deixar descendentes. O trono ficou vago. O rei espanhol enxergou a oportunidade.

Nos últimos cinqüenta anos, os portugueses baixaram a cabeça para a dinastia conquistadora de El Rey Filipe da Espanha. Apenas agora, três gerações de reis depois, enfim gritos inconformados ecoaram pelas ruas da cidade do Porto.

– Mentiroso!

– Ladrão!

– Traidor!

E tantos outros xingametos mais indecentes completavam a balbúrdia.

Era tarde de uma noite escura, cuja lua crescente não iluminava tanto as ruas da cidade quanto as tochas de uma multidão enfurecida. O cenário era o Convento de São Francisco. Esta multidão exaltada se amontoava em seus portões. Jogavam pedras. Quebravam almofadas. Retorciam ferros. Forçavam fechaduras. A guarda da cidade chegou ao local, mas foi incapaz de conter o tumulto. Estava incontrolável. Eles exigiam a entrega de um homem. Desejavam linchá-lo ali mesmo em praça pública.

Tudo começou com o anúncio do imposto sobre o tecido para fiar vestimentas, chamadas de maçarocas. Era a principal atividade da cidade do Porto. Já não bastando os impostos recém-criados para a água e para o peixe, os ânimos se exaltaram ao limite na população com a chegada de um cobrador na cidade. Agora, este cobrador, chamado Francisco Lucena, se esgueirava num dos quartos do Convento de São Francisco, observando a multidão furiosa gritar seu nome, desejando sua morte.

– Eu vim cobrar o imposto às casas ducais. Não tenho nada ver com o imposto das Maçarocas. Porque estão fazendo isso comigo?

Francisco Lucena tentava se explicar para um dos monges franciscanos do convento. Era a mais pura verdade. As províncias de Portugal, juntas, deveriam ter pago duzentos mil ducados de ouro, divididos entre todas as casas ducais. O prazo terminou. E, com o acirramento da guerra contra os holandeses, o Conde-Duque de Olivares o enviou para fazer uma nova cobrança. Era este dinheiro que Francisco Lucena veio cobrar. E já vinha de duas casas ducais. Estava a caminho da terceira.

Não adiantava se explicar. O simples ouvir da palavra cobrador foi o bastante para incitar na multidão revoltada o desejo por sangue. Ninguém mais agüentava ouvir esta palavra.

Uma pedra atravessou a janela. O vidro se estilhaçou sobre sua cabeça. A parede se despedaçou com o impacto. O estrondo fez o homem se jogar ao chão. Assustado e temente por sua vida, encolheu-se no canto do aposento, encostou os joelhos no peito. Começou a chorar.

Neste momento, uma pessoa chegou à porta. Segurava uma tocha flamejante numa mão e um pedaço de madeira na outra. O cobrador viu o emissário da morte gritar seu nome.

– Lucena!

O cobrador estava ali, em posição fetal, abraçando as pernas e cobrindo seu rosto com os punhos e joelhos. Estava pálido, tomado por um incontrolável tremor. Mantendo o rosto coberto, apenas levantou o olhar reluzente pelas lágrimas abundantes que o pavor lhe arrancava. Foi então que percebeu ser outro monge franciscano. Só respirou aliviado quando monge gritou.

– Vem comigo! Uma escolta está lhe esperando nos fundos do convento. Eles o levarão ao Convento da Serra onde estará seguro!

Horas depois, Francisco Lucena estaria são e salvo neste segundo mosteiro. Felizmente, conseguiu guardar sua vida.

Essa não foi a primeira agitação em Portugal. Outra ocorreu dois meses antes, em agosto, quando todas as cidades do Reino foram obrigadas pelo Conde-Duque a pagar por suas armas. A Câmara de Lamego negou-se a compra das mil armas requisitadas, relatando a falta de recursos. Pior aconteceu em junho, com a freguesia de Buarcos que pagou as armas ao Conde-Duque mas este nunca as entregou.

Certamente, o motim das maçarocas não foi o primeiro tumulto em Portugal. Muito menos, seria o último. E, apesar dos amotinados não terem sucedido em seu intento de linchar o cobrador, o evento serviu como um aviso.

Era o prenúncio de que algo grande estava para acontecer.

 

***

 

A notícia logo chegou em El Alcázar, aos ouvidos do Conde-Duque. Não era algo que o surpreendeu. Afinal, o aumento dos impostos era necessário para financiar todos os problemas do Reino. Na verdade, O Conde-Duque não tinha tempo para lidar com algo tão pequeno quanto as reclamações das terras portuguesas. Tinha muita coisa ocupando sua mente, pois El Rey Filipe da Espanha estava vivendo o momento mais importante na vida de um soberano. Era o momento mais importante até mesmo que o dia de sua coroação. Era o nascimento de seu primeiro filho varão, o herdeiro do Reino Ibérico. Recebeu o nome do rei sábio que presenteou o menino Jesus: – Baltazar

Foram cinco dias de grandes festas por toda a corte. El Alcázar se encheu de alegria. Presentes eram entregues ao menino por cada Casa Ducal, Marquesado e Condado do Reino, ao mesmo tempo que bebidas e comidas eram distribuídas pelo efusivo Rei no largo salão principal do palácio. Bailes. Danças. Apresentações. Peças teatrais. Discursos. Não faltou nada aos comensais do rei, os nobres que chegavam em Castela. Vinham desde Portugal à Sicilia. Desde o Caribe às ilhas Molucas. Desde a América à China. De todos os quatro cantos do mundo.

Entre esses festejos um grupo de três jovens amigos se esbaldavam no vinho de El Rey. Apreciavam a boa música. Saboreavam a boa comida. E, claro, cortejavam, ainda à distância, as belas moças, cujos risos de conspirações amorosas permeavam por todo o salão. O primeiro dos três amigos logo se manifestou após beber uma larga taça de vinho, seguido de um forte suspirar.

– Já estive em muita festa de El Rey, mas esta superou qualquer outra.

Este jovem era Dom João, futuro herdeiro da Casa Ducal de Bragança, o principal ducado das províncias de Portugal.

O segundo jovem era seu melhor amigo. Um assíduo freqüentador da corte de El Rey Filipe. O seu nome era Antônio Mascarenhas. Ele quem aprazou o bom amigo.

– Sem dúvida. Todos os detalhes estão perfeitos. E olha quanta gente. Nem preciso falar em quantas mulheres, não é verdade? Nunca vi tantas!

Enfim, o terceiro amigo era Gaspar de Gusmão, futuro herdeiro da Casa Ducal de Medina-Sidônia, o principal ducado das províncias de Andaluzia, que comentou com menos empolgação.

– É incrível a coincidência. Os impostos cada dia aumentam mais e, com eles, parecem aumentar também o tamanho das festas de El Rey!

– Não exagera, Gusmão – João de Bragança saiu logo em defesa de Sua Majestade. – É o nascimento de seu primeiro varão. De seu herdeiro. É o filho de El Rey! Nenhuma comemoração é grande o bastante para tal evento.

– Muito me surpreende lhe ver defendendo El Rey – Gusmão retrucou. – Soube que as coisas também andam difíceis em terras portuguesas. Fiquei sabendo que o povo tem se revoltado bastante contra os aumentos de impostos.

– É tudo culpa do Conde-Duque de Olivares – João treplicou. – Ele quem tem levado o Reino à miséria com seu desejo insaciável por guerra.

O jovem Gusmão suspirou desapontado com o amigo.

– Então El Rey é conivente ou tolo por ter este homem como Valido. Eu cuido das finanças da minha Casa Ducal. Vossas mercês não imaginam o quanto está impossível se sustentar nesta situação.

– Eu sei, Gusmão. Meu pai, mesmo em seu atual estado de saúde, não pára de reclamar. Além dos impostos, o Conde-Duque voltou a lhe cobrar a União de Armas, que mais devia se chamar de extorsão por soldados. Só em Portugal, ele solicita dezesseis mil homens para integrar o exército do Reino!

– Em Andaluzia, ele fez a mesma solicitação.

A União de Armas era uma política do Conde-Duque de convocar nobres para as batalhas. Eles levariam homens sob seu custeio e seu treinamento em troca da graça de El Rey. Além dos dezesseis mil que solicitou a Portugal e Andaluzia. Na Catalunha foram outros dezesseis mil soldados. Em Valência e Aragão, juntas, também. E só nas províncias italianas foram outros trinta mil. O resto viria das províncias centrais do reino, em Castela.

– Alguém deveria dar um jeito no maldito Conde-Duque. O Reino estaria bem melhor sem ele! – João reclamou.

Mascarenhas, no entanto, foi quem causou maior furor com suas palavras.

– O Reino estaria bem melhor sem o próprio Rei Filipe, isso sim!

Os dois amigos o fitaram surpreendidos.

– Está louco, Mascarenhas – João quem primeiro o condenou. – Não diga isso. É traição. Se alguém escuta, sabe bem o que pode acontecer.

– Não sou o primeiro a dizer. – Mascarenhas estreitou o olhar no herdeiro de Bragança. – Afinal, todos sabem que sua família, João, tem muito mais direito às províncias de Portugal do que o próprio El Rey Filipe. Era vossa mercê quem deveria ser o rei de nossa terra natal!

João, em voz baixa para ninguém escutar, contestou estas palavras.

– Pelo amor de Deus, Mascarenhas! Meu pai escutou este mesmo discurso do seu pai por cinqüenta anos. Já se passou o reino do Filipe avô, também o reino do Filipe pai e agora continuarei ouvindo no reino do Filipe atual.

– Podemos fazer deste discurso uma tradição – Mascarenhas expôs um sorriso. – Até que algum descendente dos Bragança enfim deixe de negar sua direito divino de herança.

– Fala baixo – João exclamou.

– Mas não é verdade? – Mascarenhas retomou.

O comentário do amigo tinha como base os acontecimentos de cinquenta anos atrás quando o antigo Rei Sebastião desapareceu, morto, na batalha de Alcacér-Quibir nos Marrocos. Sem herdeiros, o direito ao reino remontou aos descendentes do finado Rei Manuel, avô do monarca desaparecido, da qual tanto João de Bragança quanto o atual Rei Filipe são trinetos. Na época, cinquenta anos atrás, uma grande confusão tomou conta quando a avó de João, então duquesa de Bragança, e o avô de Filipe, então rei da Espanha, disputaram o trono. E, numa decisão controversa entre os nobres da corte, conhecida como o Édito de Tomar, o rei espanhol tomou as terras portuguesas para si.

Com a lembrança destes eventos, ocorridos antes mesmo do seu nascimento, o jovem João de Bragança emborcava outro gole de seu vinho. Olhava para os lados à procura de alguma beldade para cortejar. Assim o fazia para ignorar o amigo. Desejava evitar esta conversa. Não obstante, Mascarenhas mantinha a discussão no mesmo tema.

– El Rey Filipe descende de uma das filhas do Rei Manuel. Vossa mercê, João, descende da linhagem masculina. Não há qualquer dúvida.

– Não sei o que faço contigo, Mascarenhas – João sorriu. – Nem sou Duque ainda e já quer me fazer Rei. Devo lembrar que meu pai está bem vivo. Apesar dos seus atuais problemas de saúde, o velho Teodósio ainda há de governar o ducado de Bragança por muitos anos.

– E eu rezo todos os dias para que o velho Duque se recupere bem.

– Além do mais, porque eu reclamaria o trono de Portugal? – João retomava. – Tenho minhas riquezas. Nosso ducado rende bem. Mulheres não me faltam. Muito menos festas e bebidas. Isso tudo sem precisar me preocupar com os problemas de governar um Reino. Por que eu desejaria mudar isto?

Neste momento, quem respondeu foi o jovem Gusmão.

– Porquê? – Ele exclamou. – Quem sabe para ser o herói do seu povo? Ser ungido como o homem que retirou Portugal deste regime tirânico? Gostaria que meu pai fizesse isto por Andaluzia. Estaríamos melhor sem El Rey e sem o Conde-Duque.

– Enlouqueceram os dois? – João colocou-se a rir. – Então eu seria rei de Portugal. Gusmão seria rei de Andaluzia. Mascarenhas nosso comandante de guerra. E assim todos viveriam felizes para sempre!

– Não é um mal pensamento – Gusmão falou seriamente.

O herdeiro de Bragança ironizou o assunto com altas gargalhadas.

– Prefiro mudar o assunto – então interrompeu. – Minha única preocupação atual é saber que bela moça levarei para cama esta noite. E quero que continue assim por muito tempo!

Enfim, caminhou aos barris de vinho, deixando os amigos para trás.

 

 

 

Vista do Recife por Gillis e Bonaventura Peeters (1614 – 1652)

 

O Capitão-Mor Volta ao Lar

Brasilianos

2

18 de Outubro de 1629

Ainda no primeiro dia de sua chegada, o capitão-mor mal colocara os pés em Pernambuco, logo trabalhou em sua defesa. Ele despachou duas caravelas com apetrechos de guerra para as outras capitanias. Fez com que saíssem dezoito navios carregados de açúcar para os portos do Reino e assim esvaziou os armazéns do Recife de qualquer ataque inimigo. Ele também tratou de ver o estado das fortificações desta praça, que ele mesmo havia construído quando foi Governador-Geral dois anos antes. Doeu-lhe muito achar tudo desmantelado.

Um desembarque inimigo poderia ser realizado em dois portos: o do Recife, ao sul, e o do Pau Amarelo, ao norte. O norte era particularmente preocupante. Se antes havia apenas uma fortaleza às margens do rio Doce, que desemboca nas praias de Pau Amarelo, agora já não havia quase nada. A fortaleza estava em ruínas e faltava a artilharia que o capitão-mor ali deixara para defesa deste rio antes de voltar ao Reino.

A situação da parte sul era quase igualmente precária. Ele encontrou demolida a bateria em frente da barra e duas outras ao lado do Forte São Jorge. Era este forte tão incapaz por sua antiguidade, que sobre vigas tinha alguma artilharia de ferro, defesa não considerável. A povoação do Recife estava ainda pior. Tinha na entrada do porto principal só seis peças de ferro em uma bateria incompleta, que não tinha muralha, nem trincheira. E, em uns arrecifes, envolto ao mar, em frente ao mesmo porto principal, estava a estrutura circular do chamado Castelo do Mar, com quinze homens somente, por ser de pouquíssima capacidade.

As ordens para a construção e reforma dessas estruturas foram proferidaa pelo capitão-mor. No entanto, talvez até mais importante que as defesas físicas, era planejar as estratégias militares de defesa. Para este fim, partiu em seu cavalo, junto com Calabar, na busca de um morador bem peculiar do Recife.

– Olá, Adriaen Verdonck.

Este morador era um homem gordo, de cabelos de cabelos loiros lisos que caíam sobre a testa e olhos cinzas opacos. A tez era muito mais pálida do que se esperava de um súdito da Coroa Ibérica. Na verdade, sua aparência não escondia a sua origem holandesa. Era um dos soldados holandeses que participaram da invasão à Bahia de Todos os Santos há cinco anos atrás, mas que desertou do exército para viver entre os povos do Novo Mundo.

– Depois de todos esses anos em que permiti que vivesse aqui, enfim precisaremos de seus conhecimentos – o capitão-mor proferiu.

O holandês estava em sua casa, na povoação do porto do Recife. Era uma residência pequena de fachada branca e paredes descascadas, cuja porta era mantida sempre aberta. Através dela, era possível ver o holandês deitado numa rede de dormir. Ele mantinha o vaivém dela só com o impulso do pé na parede da sala. No entanto, o convidativo balanço se encerrou com a chegada do capitão-mor, que vinha acompanhado do amigo Calabar.

Verdonck se levantou para cumprimentar os convidados.

– E como posso ajudá-lo, Dom Matias?

O desertor holandês pegou duas cadeiras para os convidados, que sentaram próximo à uma mesa. Enquanto isso, ele voltou para sua rede e se sentou nela, de frente a ambos Calabar e Matias.

– Os holandeses estão de volta – Matias proferiu. – Estão organizando uma nova invasão às terras do Novo Mundo e temo que Pernambuco possa ser o alvo dessa vez. Preciso que me ajude a entender como os holandeses pensam e como planejam seus ataques. Que aprender como a mente de um holandês funciona.

O holandês se manteve sentado na rede por um segundo. Os pés tocavam o solo, mas não a balançavam. O olhar recaiu para uma das paredes, mas nada foi proferido de seus lábios. A introspecção revelava a busca por uma resposta satisfatória ao capitão-mor.

Esta resposta demorou um pouco para ser externada, no entanto, quando enfim foi proferida acabou sendo decepcionante para o capitão.

– Isso é impossível – o holandês falou.

A surpresa atingiu seus dois convidados.

– Lute esta guerra como um verdadeiro soldado ibérico, esse é o meu conselho – Verdonck inclinou o corpo mais próximo, fitou os olhos de capitão-mor. – Lute por seu rei. Lute por sua religião. Lute pelo que acredita. Eu prometo que o ajudarei nesta luta como puder, mas não posso fazer Vossa Senhoria pensar como um holandês. Isso é realmente impossível.

Antes que o capitão-mor pudesse responder, seu companheiro Domingos Calabar lançou a questão.

– Faz crer que os holandeses são muito diferentes de nós.

– Eles são – Verdonck respondeu fitando o mulato. – Entenda, Calabar, que os holandeses não possuem um Rei, mas uma república. Eles não possuem um Papa, mas uma crença mais personalista. Eles não lutam por conceitos abstratos de bem maior, por líderes heroicos ou por salvadores da pátria. Os holandeses só lutam por si mesmos. É assim que eles pensam.

O olhar do capitão-mor se encheu de indignação.

– E essa certamente será a maior fraqueza dos holandeses nesta guerra – então proferiu com desdém na voz. – Um soldado deve lutar por algo em que acredita, deve ser levado a busca pelo bem maior. Como é possível que sejam enviados para a guerra sem que realmente acreditem que suas ações tem como objetivo o certo?

– Com disciplina e organização, Dom Matias – Verdonck respondeu secamente. – Essa é a maior força dos holandeses. São as ações de cada um dos seus indivíduos na busca pelo lucro pessoal, pelo bem-estar próprio e por crenças particulares que fazem da Holanda a potência militar e econômica que hoje consegue enfrentar o Reino Ibérico.

O olhar do capitão-mor se acirrou sobre o holandês antes deste lançar seu último pensamento.

– Além do mais… – um tímido sorriso se formou. – Quem pode dizer com toda certeza, que eles estão errado?

 

****

 

As semanas se passaram. Novas ordens eram expedidas diariamente para a construção e reforma das defesas pernambucanas. No entanto, não demorou para o capitão-mor ter outra péssima notícia. Ele soube que o pirata holandês chamado Cornelius Jol, mais conhecido como o Perna-de-Pau, ainda assolava os mares do continente. Por este motivo, logo aprestou sete caravelões com alguma gente para ir à ilha de Fernando de Noronha, onde este pirata foi por último avistado.

O capitão-mor imaginava que na ilha poderia encontrar alguma informação sobre a Armada holandesa.

– Algum sucesso com a expedição à ilha de Fernando de Noronha?

O capitão-mor perguntou ao amigo Pedro de Albuquerque Melo, capitão da guarda pernambucana, quando os sete caravelões retornaram depois do romper do novo ano. Todos eram conformes em dizer que o pirata tinha três navios e estavam fazendo acampamento na ilha.

– Em parte, sim. – O capitão Pedro respondeu ao capitão-mor. – Nossos homens encontraram o acampamento do Perna-de-Pau e emboscaram os homens que ali estavam. Infelizmente, o pirata estava em seu navio e fugiu assim que percebeu o ataque, mas ainda conseguimos sete prisioneiros para interrogatório.

– Alguma informação sobre a Armada holandesa?

– Infelizmente, não.

O mesmo semblante de desapontamento que se mostrou na face do capitão-mor-mor também transpareceu no amigo que relatava a ação.

– O Perna-de-Pau não é um corsário, mas um pirata – Pedro continuou. – Há anos abandonou sua nação. Quando perguntamos da Armada, os prisioneiros nem sequer sabiam do que estávamos falando.

– Deus do Céu! – Matias irrompeu. – Passaram-se quase seis meses desde minha conversa com o Conde-Duque e até agora nada – ele se mostrava cada vez mais inquieto. – Nem o tamanho da frota inimiga. Nem quando chegará aqui. Nem mesmo se ela realmente existe.

Era realmente frustrante.

 

***

 

Dias depois, o governo da Bahia, capital do Novo Mundo, despachou para Pernambuco a petição a Pedro Correia da Gama, sargento-maior de todo o Estado, para que fortificasse a vila de Olinda. Era soldado antigo da guerra e muito prático das coisas dela. Era muito inteligente na matéria das fortificações e venturoso em muitas ocasiões nos sessenta anos que serviu a El Rei em diversas partes. Chegado a Pernambuco fez trincheiras pela praia na vila de Olinda e cercou o Recife de uma paliçada de pau a pique, por ser assim conveniente.

No mês seguinte, ainda não tendo ficado pronto o Forte São Jorge e estando a fortaleza do Rio doce em estado ainda deplorável, as reformas das defesas pernambucanas continuavam em ritmo acelerado. Era tarde da noite. Matias relaxava seus músculos e nervos de mais um duro dia de trabalho nas renovações. No entanto, foi abruptamente interrompido pelos brados do amigo Calabar em frente à sua casa.

As dúvidas que tanto lhe atormentavam foram enfim sanadas

– Matias! Precisa vir urgentemente ao porto!

A urgência nas palavras de Calabar fez Matias se levantar rapidamente e colocar uma roupa. Não demorou mais do que alguns minutos para chegar no Porto do Recife, onde dois homens se apresentaram a ele.

– Matias de Albuquerque? O capitão-mor de Pernambuco? – Um dos homens perguntou.

– Sou eu mesmo – Matias respondeu. – Soube que trouxeram consigo novos rumores sobre a Armada holandesa.

O outro homem tomou a frente. Mostrava pele escura queimada ao sol, feições de um mestiço e mãos calejadas de um trabalhador, mas era capaz de proferir palavras no idioma ibérico. Formava frases que tomavam por completo a atenção do capitão-mor. Em especial, pelas informações contidas nelas.

– Não são rumores, senhor. Fui enviado com urgência por Pereira Corte-Real, governador de El Rey Filipe no arquipélago de Cabo Verde. Ele me enviou com uma terrível notícia. Uma grande Armada holandesa foi avistada em nosso arquipélago, na ilha de São Vicente. Um prisioneiro holandês que fizemos no local confirmou que seu destino é mesmo Pernambuco.

Como poucos são capazes, o capitão-mor conteve a apreensão que crescia em seu âmago. Manteve a face tranqüila. Então lançou uma nova pergunta.

– Este prisioneiro informou quando esta Armada chegará aqui?

– Eu sinto muito lhe dizer que as naus holandesas deixaram o arquipélago primeiro do que nós. Graças aos fortes ventos que o bom Deus nos enviou, nós conseguimos chegar primeiro do que ela.

– O que está querendo dizer, meu rapaz? Que a Armada pode chegar a qualquer momento agora?

– Sim, senhor.

O capitão-mor não pôde deixar de pensar em quanto ainda lhe faltava para completar as defesas inacabadas de sua capitania. Ficava cada vez mais difícil conter o medo que lutava para se expor. Se Calabar não percebeu antes esse sentimento resplandecer na face do capitão-mor, as palavras seguintes deste mensageiro não deixariam mais dúvidas. Elas descreveriam aquilo que todos temiam e especulavam: o quão poderosas eram as forças inimigas.

– E visto o tamanho da Armada, em seus galeões, calculamos mais de sete mil soldados para esta invasão.

Nem o pior pesadelo de Matias seria capaz de imaginar tais números.

 

 

Diederick van Waerdenburch por Willen Hondius (1631)

 

A Ilha de São Vicente

Holandeses

4

1o de Janeiro de 1630

No percurso até o arquipélago de Cabo Verde, os amigos alemães estranharam peixes que mais pareciam morcegos, chamados de Raias. Animaram-se com botes cheios de tartarugas capturadas pelos marinheiros, incluindo uma tão gigantesca que conseguia se arrastar com Richshoffer, Haus e Spiessen ao mesmo tempo sobre seu casco. Assustaram-se com tubarões maiores que um homem. Contemplaram o belo e colorido peixe-papagaio. E outros tão horríveis, com bocas retorcidas e formas tão esquisitas, que nem eram capazes de descrever em palavras.

Existiam tantas criaturas maravilhosas, sendo impossível ditar todas, às quais o grupo de amigos reconheciam a sabedoria e onipotência de Deus. Mas também Sua punição. Apenas no navio Salamander, de escorbuto, morreram o quartel-mestre, que foi sepultado em terra, o despenseiro Cornelius Jansen e o soldado Peter Peterson, do Harlem. Tiveram o mesmo fim os marinheiros Hans Somonsen, Adriaen Carels e, não fazendo conta de patente, o tenente Herman Koch. E faleceu, este afogado enquanto pescava, o bom homem, tão temente de Deus e detentor da única bíblia a bordo, Carol Winkelhoff.

Nenhum teve um fim tão terrível quanto de Gerhard Jorie, o qual pouco antes de morrer estava coberto de piolhos, que quase o devoravam. Apesar de o meterem inteiramente nu dentro de uma tina de água do mar para esfregarem fora a bicharada com uma vassoura e lhe vestirem uma camisa limpa, logo encheu-se outra vez. Depois, não só inchou extraordinariamente, como ficou cego. Nisto foi percebido claramente castigo divino, porque, desde sua mocidade, levou vida sempre desregrada, maltratou seus pais e, segundo afirmaram alguns, até os espancou. Era o oitavo que morreu só no navio Salamander. E a lista aumentava a cada dia.

Todos os navios desembarcaram na ilha de São Vicente, onde construíram barracas, todas bem alinhadas. Eram feitas com ramos verdes e cobertas com tábuas, todos materiais encontrados na ilha. Também buscavam ali, e nas ilhas vizinhas, limões, laranjas, cabritos, outros víveres.

E o mais importante. Começaram o treinamento militar que deveria durar três meses até enfim partirem para o desembarque em Zuikerland.

– Que vergonha!

Richshoffer e Haus desceram de uma chalupa de transporte, após horas de exploração numa das ilhas do arquipélago.

– Não pegamos nem mesmo um bode selvagem!

Os dois estavam cheios de hematomas e cortes pelo corpo. Os bodes selvagens eram animais muito ariscos e bravios, e o capitão Sickle fez questão que não atirassem. Deveriam capturá-los vivos. Além disso, sentiram a falta do amigo Spiessen neste procedimento, que não os acompanhou porque foi atingido pela disenteria que grassou com violência o exército todo.

Antes que pudessem lamentar mais, uma voz bem conhecida foi ouvida.

– Já está reclamando, Strasburguês!

Era o franco-holandês Charles de Toulon.

– Tenho uma notícia que deve lhe agradar – ele abriu um sorriso. – Um dos capitães mandou matar, para todos os soldados, um grande porco que trouxe da Holanda. O banquete já está acontecendo!

Ambos Richshoffer e Haus realmente precisavam de uma boa festa. Estavam bem chateados com o que receberam no butim da barca espanhola. Richshoffer ganhou um pano de linho e um par de sapatos por todo o trabalho. A parte de Haus foi ainda pior. Quase tudo ficou com os oficiais. Souberam depois que se encontrou uma arca cheia de ouro, escondida no assoalho do convés, sem que fosse partilhado entre os soldados.

Com a boca já salivando, os três soldados tomaram o caminho aos festejos. Ouviram o som de músicas cantaroladas e observaram os soldados aglomerados ao redor da cabana do capitão Peter Franz. Estes bebiam um bom vinho. Empanturravam-se de frutas frescas. Aguardavam ansiosos aquele animal que dourava sua carne na grande fogueira feita frente à cabana.

O franco-holandês Charles de Toulon tomou a frente do grupo. Caminhou na direção do primeiro barril de vinho que pusera a vista. No entanto, logo percebeu que caminhava sozinho, pois um soldado, chamado Johannes, impediu a passagem dos demais amigos. Sua voz irrompeu a cantoria soldadesca.

– Esta festa é só para soldados!

O tal Johanes colocou a mão no peito de Richshoffer.

– Ora? Nós somos soldados também! – Richshoffer retrucou.

– Soldados? – Johannes cuspiu no chão em desprezo. – São cães mercenários, isso sim, lutando por dinheiro. Uns estrangeirozinhos de merda, que estão aqui só para servir de bucha de canhão.

Nesse momento,  Charles de Toulon chegou ao local da balbúrdia.

– Não é preciso confusão, Johannes, eles estão comigo!

Mais soldados da festa se aproximaram. Eram alguns conhecidos do grupo: Sommers, Hermann, Kosh e outros. Tomaram a frente do soldado Johannes e gritavam para os cães mercenários irem embora.

– Fica calado, Toulon – O soldado Johannes retomou a bravura. – Nem mesmo tem puro sangue holandês. Já não basta os soldados da companhia francesa, liderada por seu pai, tentarem envenenar nossa água.

Estas palavras remetiam ao boato que corria no acampamento. Diziam que os franceses tencionavam envenenar a água dos poços, da qual todos bebiam diariamente e tiravam para cozinhar. Em conseqüência, foram presos vários deles, sem lhes achar culpa alguma. Isso ocorreu por ocasião em que um francês comentou que, por este meio, se poderia exterminar todo o exército. E um holandês, que não compreendia bem sua língua, ao ouvir suas palavras, propalou como se eles realmente pretendessem executá-lo.

– Foi tudo um mal-entendido – Toulon tentou acalmar a situação.

– Nínguem quer saber disso – Johannes bradou em resposta. – Todos já estão comentando que prefere a companhia desses cães estrangeiros que a dos soldados de verdade.

Antes que o franco-holandês pudesse responder, Richshoffer tomou a palavra enquanto tocava o braço dos amigos para partir.

– Quer saber? Vamos embora! – Então proferiu. – Nem mesmo queríamos participar desta festa. Temos que acordar cedo amanhã para o treinamento com armas!

No entanto, o Strasburguês logo percebeu que Charles de Toulon não o acompanhou. Apenas ficou ali, parado, em silêncio.

– Não vem, Toulon?

Richshoffer e Haus interromperam o passo para aguardar a resposta do franco-holandês. Este baixou a cabeça. Fitou o solo para escapar dos olhares inquisidores, sem observar o semblante de ódio feito por Richshoffer. No entanto, tal sentimento logo se revelou no tom de voz.

– Nem precisa responder. Fica aí com esses idiotas.

 

***

 

Após a confusão deste dia, outro mês de treinamento militar seguiu, com cada vez mais soldados desembarcando na ilha de São Vicente. Inicialmente, a esquadra somava as treze embarcações que saíram de Amsterdã, mais as duas que encontraram nas ilhas Flamengas, as oito do general Lonke e as cinco que já estavam ali em Cabo Verde. Esta soma já perfazia vinte e oito naus. Esse número se tornou ainda maior. Todos os dias chegavam mais embarcações. Eram o Enchuysen, De Leeuw, De Havik, Endracht, Den Eenhoarn, Voghel Phoenix, De Otter, Swol, Wapen van Nassau… e muitos outras.

No fim do segundo mês na ilha, quase dezembro, chegou o coronel Waerdenburch com mais quatro navios e vários capitães de infantaria. Entre eles, o Major Berstedt, que passou a comandar a companhia de mercenários do grupo de amigos alemães. O coronel avisou a todos que partiriam juntos para Zuikerland no romper do ano. E, faltando quinze dias para a tal data, sob o comando do novo capitão, Richshoffer, Spiessen e Haus iniciaram o carregamento de mantimentos ao navio Salamander.

– Fizemos vergonha hoje de novo.

Haus realiza seu habitual rito de reclamação enquanto todos seguravam um caixote com biscoitos, o carregando à sua embarcação.

Este foi retrucado por Richshoffer.

– Já está lamentando a disputa de tiro ao alvo de novo, Haus? Esquece isso. O que vale é a pontaria na guerra, não nesses joguinhos.

– É, mas o coronel já organizou esses joguinhos para nos testar. Pelo menos, sua boa pontaria ainda acertou um dos alvos. Eu me dei mal, não acertei nenhum dos três.

– Calma, aí, Haus – o Strasburguês respondeu. – Era preciso fazer tão rápida sucessão e ainda recarregar o mosquete em marcha que ninguém acertou os três tiros a que se tinha direito.

– Pare de querer me consolar, Richie. Sabe bem que fui o único que deixei a arma cair no chão!

Ao ouvir estas palavras, Spiessen deixou uma risada escapar, relembrando da cena cômica do amigo na disputa.

– Realmente, não dá para consolar! Foi vergonhoso!

O soldado foi tão incapaz de conter sua risada, que deixou cair o caixote que carregavam no chão. Todos imediatamente o soltaram também.

Não demorou mais do que alguns segundos para Spiessen interromper seu gargalhar, pois o amigo Strasburguês apontou para algo saindo de algumas frestas da caixa, atiçado pelo seu bater no chão.

Eram besouros e vermes.

– Que diabos é isso saindo da caixa?

– Que Merda! – Era o soldado Spiessen quem praguejava com faces de nojo e ânsia de vômitos.

Os biscoitos estavam cheios de bichos nojentos, gerados espontaneamente pelo ar tomado na ilha. Mesmo assim, toda a carga foi embarcada. Segundo o capitão Thomas Sickle, biscoitos estragados ainda são melhores que biscoito nenhum.

 

***

 

No primeiro dia do novo ano, tendo ainda chegado neste último mês mais dezesseis navios de guerra e sido construídas treze pinaças para levar os suprimentos, o general Hendrick Lonke içou a bandeira no mastro principal do Amsterdã. Conclamava o embarque de todos os soldados. E assim a grandiosa Armada holandesa partiu para conquistar Zuikerland.

Era composta por 56 navios de guerra e 13 pinaças de transporte. Constava a equipagem de 7,280 homens, entre os quais 3,500 soldados. De artilharia grossa, eram 1,160 peças, entre canhões e meio-canhões; e grande quantidade de pólvora, balas e tudo o mais necessário à execução da sua empresa e ao sustento das tripulações.

Quarenta e cinco dias depois, mal-nutridos e enfraquecidos pela disenteria, nunca tantos morreram de escorbuto. Desde sua partida, só no Salamander, os mortos por enfermidades já contavam vinte e três. Era um em cada oito homens que embarcou no porto de Texel. No total da frota, eram quase trezentos mortos e mais de mil e duzentos soldados incapazes de entrar em ação.

No dia 15 de Fevereiro de 1630, enfim chegaram tão próximo da costa do Novo Mundo que, não só distinguiam perfeitamente a cidade espanhola de Olinda, capital de Zuikerland, como também as duas fortalezas construídas próximas do seu Porto de Recife. Um dos quais, quadrangular, situado na praia, era chamado São Jorge, enquanto que outro, de formato circular, sobre um arrecife, tinha o nome de Castelo do Mar.

Logo os comandantes de mar e terra, Lonke e Waerdenburch, mandaram içar a bandeira de sangue, para assinalar aos navios da preparação para guerra. Consagrou-se uma hora à oração geral. E, enquanto o general Lonke dispunha trinta navios em meia lua para bater o Castelo de Mar com a grossa artilharia, o novo comandante de infantaria, o major Berstedt, bradou a todos no Salamander.

– Todos para as chalupas de transporte! O coronel Waerdenburch enviou suas ordens. Está iniciado o plano de desembarque!

 

 

Invasão Holandesa a Olinda e Recife (1630)

 

Os Invasores à Vista

Brasilianos

3

15 de Fevereiro de 1630

Era uma época alegre e festiva, em que toda costa do novo continente comemorava a notícia do nascimento do primeiro filho varão do amado Rei Filipe. A capitania de Pernambuco, por Matias de Albuquerque governada há mais de dez anos e fundada por seu avô, era a mais efusiva nestas comemorações. Infelizmente, neste dia, o seu capitão-mor acordou sobressaltado com um bater desesperado na porta do quarto.

– Matias!

Mal abriu a porta, uma figura conhecida surgiu. Era o amigo Domingos Calabar que já adentrava para contar o que estava acontecendo.

– O aviso de Cabo Verde, de cinco dias atrás, se concretizou! A armada inimiga chegou aos nossos mares!

Calabar não precisou dizer mais nada. O capitão-mor se preparou para o pior. Vestiu seu uniforme militar azul escuro condecorado. Travou a placa de negro aço em volta do tronco, prendendo as tiras de couro das fivelas sobre o ombro e flancos. Apertou a corrente ao redor do pescoço, de onde pendia sobre o peitoral a cruz dos Cavaleiros da Ordem de Cristo. Enfim, prendeu na cintura sua espada prateada, com lâmina tão bem afiada. Era uma companheira essencial, um presente de um pai para filho.

O capitão-mor observou, num espelho, essa espada presa em sua cintura. Depois, encarou o reflexo de sua face. Detinha pouco mais de trinta anos de idade, cuja tez tão alva realçava a cor dos seus cabelos negros curtos. Fitou seus também seus negros olhos, sempre semi-cerrados, parecendo transbordar a experiência cansada de alguém que já vira de tudo. Então suspirou. Lembrou que deveria mais uma vez provar sua honra.

– Eia!

Matias bradou ao seu cavalo quando partiu num veloz galope pelas ruas de Olinda, segurando os cabrestos e chibatando o dorso da sua alva montaria. Calabar o acompanhou no percurso através da vila.

O medo já tomava conta de toda população. Ela corria assustada na direção contrária. Os velhos tropeçavam nas ruas. As mulheres gritavam apavoradas. E as crianças choravam perdidas. O caos era total. Matias desejava, dentro do âmago, ajudar os moradores da vila de Olinda. Conseguia ver a súplica intimidante brilhando em seus olhos. Seu coração já batia mais rápido que os galopes do seu cavalo nas estradas de terra.

O capitão-mor chegou na orla praiana. Os braços apoiaram seu corpo na descida do cavalo. As negras botas tocaram as areias prateadas da costa.

– Como pode ver a situação é crítica, Matias.

Calabar estendeu o braço para mostrar a situação do campo de batalha. Haviam dois cenários incrivelmente contraditórios separados por apenas uma milha de distância através da beira-mar.

No primeiro cenário, do lado direito do capitão-mor, ao sul, estava o Porto do Recife na entrada da Barra onde desembocam os mais importantes rios pernambucanos. Estava ainda incólume da maldição holandesa que se aproximava da costa marinha, com todos os carregamentos de açúcar, sãos e salvos, nos armazéns. Também estava ilesa, a pequena povoação, de pouco mais de cem casas, construída próxima e o forte São Jorge a apenas seiscentos passos de distância dele.

No segundo cenário, à sua frente, os mares defrontes ao Forte São Jorge se mostravam infectados pelos horrores da guerra. Dezenas de navios invasores escondiam o azul do oceano com seus largos cascos negros. Estava lá, o Castelo do Mar, cercado por estas naus inimigas que avançavam em formação de meio-círculo, como a bocarra de um tubarão contra sua presa. Construída sobre uma pequena ilha de arrecifes, esta fortificação era tímida frente ao inimigo tão superior  com suas pequenas muralhas e seus dezesseis canhões enfileirados contra o oceano.

Calabar emitiu uma voz preocupada.

– Estamos enviando avisos aos nossos soldados aquartelados. Um dos três grupamentos ainda não apareceu.

– Maldição! E quanto aos outros dois grupamentos?

– Um deles está no Porto do Recife. O outro está nas trincheiras do norte, na praia de Pau-Amarelo.

Estas palavras fizeram Matias lembrar que a praia de Pau-Amarelo, ao norte de Olinda, era sua maior preocupação. A fortificação do Rio Doce ainda não estava preparada. Não havia nada para defender a entrada norte da vila, só estacadas de madeiras colocadas em improviso. Era o ponto fraco da corrente de defesa ao redor de sua cidade.

A primeira ordem começou.

– Avise a companhia aquartelada que vá ao norte, à praia de Pau-Amarelo. Não podemos deixar desamparada aquela já tão débil praça!

A segunda ordem veio em seguida.

– E chame o holandês Adriaen Verdonck aqui. Quero ouvir toda informação e conselho que tenha!

Enfim, lançou a terceira ordem.

– Agora, vamos ao Forte São Jorge!

 

***

 

Os holandeses iniciaram o bombardeio. Eles não poderiam ter escolhido uma melhor hora para atacar. As obras do Forte São Jorge já duravam alguns meses, mas estavam longe de estarem terminadas. Os artilheiros muito se esforçaram para manter a pontaria dos canhões no chão irregular da estrutura inacabada. Além disso, as muralhas foram construídas há muitas décadas, para outro tipo de guerra. Eram altas e pouco largas, ideais para enfrentar os nativos com seus arcos e flechas, mas não suportariam o poder da artilharia holandesa por muito tempo.

Era ensurdecedor os seus vinte e cinco canhões disparando em turnos aleatórios contra as caravelas inimigas. As balas podiam ser vistas subindo aos céus e caindo a seguir em um terrível arco mortal contra os navios holandeses.

Os artilheiros e recrutas pernambucanos corriam para todos os lados. Vestiam suas placas de aços sobre o uniforme militar; Empunhavam mosquetes amadeirados nos punhos. Usavam os capacetes metálicos cônicos do exército ibérico sobre suas cabeças. Realizavam constantemente a rotina de recarga dos canhões com colocação da pólvora, a sua prensa no cano e enfim os carregavam com as pesadas balas metálicas. Em seguida, os pavios acesos se tornavam grandes explosões.

Em meio a este movimento, repetitivamente frenético. Matias caminhou, adentrando ainda mais, no Forte de São Jorge. Pelo caminho, os oficiais que perceberam sua chegada em meio ao terrível momento, realizavam o sinal de respeito à sua patente. Ele continuou proferindo ordens aos subordinados que logo se tornavam ações desenfreadas.

– Amaro Queirós. Rafael Rodrigues. Nenhuma nau holandesa deverá entrar na Barra. Façam uma barreira de lanchas. Carregue-as com brusca, alcatrão e outros inflamáveis. Caso as naus inimigas tentem atravessá-las, ponham cabo nos timões e fogo no paiol.

– Nuno de Melo. Capitaneie nosso melhor navio de guerra até o sul da ilha de Antônio Vaz para impedir que entrem por aquela barreta que dá na região de Afogados.

– Francisco e Antônio Loureiro. Tragam toda a pólvora e artilharia dos navios ancorados no Porto do Recife. Quero fazer uma bateria de canhões, em cada lado deste forte, e o mais rápido possível.

– André Dias. Será o capitão de cavalaria, mas antes precisamos criar uma. Por isso, solicite cavalos aos moradores para a patrulha da orla, principalmente, à noite. Que nenhum batedor inimigo coloque os pés em nossas praias.

– E todos deixem avisado o toque de recolher! Sob pena de morte, ninguém deve sair ou retirar nada de Olinda. Todos defenderão melhor a vila sabendo que suas famílias, bens e tudo mais que amam estão ali.

Assim Matias continuou.

Os seus brados ecoavam pelo Forte São Jorge sem o capitão-mor interromper o passo. Continuou a caminhar em direção à sua muralha frontal. Desejava falar com o capitão Antônio de Lima, que comandava os soldados neste fronte de batalha.

– Capitão Lima, como está o andamento da batalha?

Matias analisou o plano de ataque holandês. Todo um aglomerado de vinte naus inimigas se desgarrou do grupo principal. Outras onze se mantinham na paragem do poço, na parte mais funda do porto, com seus canhões alcançando ambos o Forte São Jorge e o Castelo do Mar. O restante continuava o bombardeio em meio ao movimentar da costa.

– Esses infelizes estão sentindo o gosto de nosso bronze!

O capitão da fortaleza respondeu com seu brado.

– Terão que passar pelo meu cadáver se pensam que vão desembarcar nesta beira-mar. No entanto, quero observe ali, Dom Matias, na praia de Pau-Amarelo, ao norte de Olinda! Aquela sim é minha preocupação!

O capitão Antônio de Lima apontou para o ponto mais frágil da defesa da vila. As naus inimigas navegavam as águas pernambucanas naquela direção, como que deixando para trás a batalha na foz do Capibaribe.

Matias exclamou com essa cena.

– Meu Deus! Aquelas são naus de transporte!

As palavras do capitão-mor fizeram a face de Calabar se encher de desespero. Este bom civil era conhecedor o bastante da vida militar para perceber as conseqüências da cena. Em balbucios tremulantes, ele deixou escapar palavras que congelariam de medo alguém mais incauto.

– Devem ter pelo menos três mil, talvez quatro mil soldados, naquelas naus – ele engoliu seco. – E nós temos o quê? Duzentos? Trezentos?

Matias respondeu sem deixar nenhum mal sentimento se expressar na sua voz.

– Temos cento e sessenta soldados quando contamos todos os três grupamentos de Olinda e os defensores do Forte São Jorge!

– Deus! O que faremos agora?

– Lutaremos até o fim – o capitão-mor completou. –Eu mesmo liderarei a defesa da entrada norte de Olinda, em Pau-Amarelo. O capitão Lima ficará aqui defendendo o Forte São Jorge.

Então, ele cerrou seus olhos mais intensamente no amigo.

– Preciso que faça algo por mim, Calabar. Vá com nosso capitão de cavalaria, aos líderes de milícia dos sete distritos vizinhos. E manda emissários aos oito distritos distantes. Diga que o inimigo chegou e que tragam toda a gente que puder: conscritos, homens, jovens, velhos, crianças, qualquer um capaz de empunhar uma arma e coragem o bastante para fazê-lo.

– Sim, senhor – Calabar falou, retomando a coragem que Matias se acostumara a ver neste homem.

– Quero metade dos homens que conseguir comigo em Pau-Amarelo e metade no Porto do Recife. Também vá até o padre jesuíta Manuel Moraes. Diga que preciso de todos os indíos flecheiros sob sua tutela.

– Logo retornarei com toda ajuda possível…

O brado de Calabar foi interrompido pelo som da explosão que fez doer os ouvidos de todos. Era uma explosão que ocorreu na muralha lateral do prematuro Forte São Jorge ao ser atingido por uma bala de canhão inimiga. O clamor por ajuda vindo dos homens feridos no local quase abafou os ânimos de Calabar.

Este ânimo foi logo reacendido pela voz do seu capitão-mor.

– Vamos, bom amigo! É a pessoa em quem mais confio para essa missão!

Calabar balançou a cabeça em afirmação. Então partiu.

 

***

 

Por todo o dia, Matias visitou as outras fortificações enquanto a batalha nos mares persistia. Os inimigos ainda fizeram proa com barcaças de transporte para adentrar a Barra e desembarcar sua infantaria nas margens do rio Capibaribe. Graças aos navios de fogo e ao dano causado pelas baterias dos fortes, apertaram o inimigo de tal modo, que voltaram a sair pela Barra. Ao fim do dia, mais de duas mil balas inimigas foram disparadas, o que deixou muitos pernambucanos mortos e feridos. Não sem que o inimigo também ficasse em grande prejuízo.

No dia seguinte, o capitão-mor partiu para as praias de Pau Amarelo. Pouco a pouco, mais homens iam se aglomerando na entrada norte da vila. Eram bravos moradores que vinham, não apenas de Olinda e do Recife, mas também dos distritos de São Lourenço, Paratibe, Igarassu, Várzea, Muribeca e Santo Amaro. Já haviam mais de quinhentos bons pernambucanos e duzentos índios no local. Eram Alfaiates, fazendeiros, artesãos, comerciantes e tantos outros que estavam dispostos a se sacrificar por sua capitania.

Com este exército, Matias partiu ao encontro do defensor destas praias e comandante das companhias de Olinda. Era um bom homem, veterano comandante e antigo capitão-mor do Rio Grande chamado André Temudo.

Enquanto isso, ao norte dali, o próprio Coronel Waerdenburch organizava as barcaças para desembarcar seus três mil soldados. Toda a preocupação que desesperava Matias, escondida bem em seu interior, desapareceu quando ouviu uma conhecida voz lhe chamar o nome.

– Então, Matias! Vamos matar cada um destes flamengos bastardos!

A voz era do homem mais corajoso que já conhecera. Era o experiente soldado e defensor do distrito de Serinhaém, assim como uma das inspirações para Matias decidir se aventurar no Novo Mundo dez anos atrás.

Era Pedro de Albuquerque Melo.

– Vamos sim, primo. Relembrar os velhos tempos!

Matias tinha na memória o tempo em que residia nas terras do Rei Filipe no além-mar. Embora seu pai tenha nascido em Olinda e governado Pernambuco, ferimentos nas guerras marroquinas, em nome do Rei Sebastião, o deixaram aleijado e em péssima saúde para retornar ao Novo Mundo. Matias assim nasceu e foi criado nas terras do Reino Ibérico. Quando jovem, se tornou um jovem militar inquieto com experiência nas batalhas da África onde lutou por três duros anos. Enfim, veio ao Novo Mundo onde conheceu este homem.

Como era hábito, a coragem de Pedro abasteceu os ânimos de Matias, desta vez, ao som dos tambores de guerra holandeses. Os invasores haviam iniciado o desembarque na beira-mar de Pau-Amarelo, do outro lado do Rio Doce. Enquanto isso, deste lado do rio, aguardavam os quinhentos homens e os duzentos índios que estavam sob o comando de Matias, Calabar, Pedro e Temudo.

O momento de tensão crescia a cada segundo enquanto a maré baixava, e com ela, as águas do Rio Doce. Os três mil soldados holandeses estavam prestes a iniciar sua travessia sob o comando do Coronel Waerdenburch. E não demorou para os exércitos inimigos preencherem seu leito. Matias desembainhou a espada. A luz solar refletiu na lâmina ao alto. Em meio a balbúrdia do momento, foi lançado o brado.

– Aqueles com lanças, flechas e mosquetes, atirar! Todos os outros, sigam-me ao ataque!

 

 

Olinda, vista da praia do pau amarelo, por Franz Ponst (1612 -1680)

 

O Desembarque Holandês

Holandeses

5

15 de Fevereiro de 1630

Sob o alaranjado radiante do pôr-do-sol, as embarcações de transporte  bordejaram a costa de Zuikerland. Ao cair das balas de canhão das fortalezas espanhóis, grandes vagas subiam sobre as cabeças dos soldados embarcados, respingando a água salgada em suas faces. Muito espirrava também o rubro sangue quando o interior destas mesmas embarcações eram atingidas.

O tremor de seus corpos não era do frio causado pelo evaporar da água marinha em sua tez. Nem os calafrios eram em razão da chegada da noite. Muito menos, o palpitar de seus corações era da emoção por chegar na tão desejada Zuikerland. Todas essas sensações eram do clamor da morte em seus ouvidos. Era a visão dos canhões apontados em suas direções. Era o cheiro da pólvora em suas narinas. Era o gosto de sangue em suas bocas. Era do pavor que lhes atingiu em todos os sentidos.

Quase três mil soldados desembarcaram algumas léguas ao norte da cidade de Olinda, a capital de Zuikerland, longe das duas fortificações inimigas. Para a surpresa de todos, nenhuma força espanhola tentou impedi-los de colocar os pés nas areias do Novo Mundo, assim puderam assentar um acampamento na beira-mar. Tudo estava calmo demais.

– Já tinha visto algumas destas criaturas, Spiessen?

Richshoffer fez a pegunta muitas horas depois do crepúsculo. Já percorria, em todas as companhias, através dos seus capitães, os avisos proferidos pela grave voz do coronel Waerdenburch. Todos deveriam deixar os mosquetes bem secos, guardar os cartuchos de pólvora e separar as munições. Ao amanhecer, logo cedo, a marcha à cidade de Olinda começaria. A batalha pela qual haviam se inscrito estava para começar.

O Major escolheu duplas de soldados para ficar de sentinela durante a escuridão noturna. Entre os escolhidos, Richshoffer e o amigo Spiessen deveriam ficar entre nove e dez horas da noite. Quando chegou a hora da sentinela, sob a iluminação de insetos voadores com mechas brilhantes, os dois homens conversavam.

– Já ouvi falar – o soldado Spiessen respondeu enquanto Richshoffer tentava capiturar alguns dos insetos brilhantes com a mão. – Não há destes bichos nem na Inglaterra, nem na Holanda, mas ouvi falar que na França há um bocado deles.

– São incríveis! Na verdade, tudo o que vi nestes últimos dez meses foi incrível – Richshoffer estava pasmado. – Os peixes exóticos, os monstros marinhos, nadar no mais profundo oceano, as praias deste continente, estes insetos… Tudo! Agradeço a Deus por esta experiência!

– Se Deus é tão bom pra ti, Strasburguês, reza por uma boa pontaria. Amanhã, haverá sete mil homens na cidade Olinda atirando contra nós.

– Escutei que eram só uns dois mil.

– Tanto faz… mil, dois mil, sete mil… Sei apenas que, amanhã, muita gente vai morrer.

– Eu só espero não morrer no dia seguinte de completar dezoito anos de idade – Richshoffer falou, levantando levemente o canto do lábio, quase formando um sorriso.

Estas palavras fizeram Spiessen desencostar da árvore em sobressalto.

– Como assim? Hoje é seu aniversário?

– Sim, nasci no dia 15 de fevereiro de 1612, exatos dezoito anos atrás.

O amigo deu um tapinha nas costas do Strabusguês. Comentou de modo impossível de diferenciar se havia sinceridade ou ironia em sua voz.

– Então parabéns pelo aniversário, Strasburguês! Tão novo e já metido nas fileiras de uma guerra. É uma pena que haverão dois mil penetras na sua festinha amanhã, incluindo os selvagens canibais que aqui vivem!

– Obrigado pelas palavras – foi a vez de Richshoffer lançar um tom de ironia. – Sempre fazendo os mais terríveis comentários nos piores momentos.

Spiessen soltou uma risada. Colocou a mão em seu casaco, alcançando um cantil muito bem guardado em suas vestes.

Ofereceu ao amigo aniversariante.

– Pode beber!

– O que é?

– Um pouco de rum que eu trouxe do navio. Estava guardando para a vitória de amanhã.

– Não é proibido beber antes da batalha?

– Sua pontaria ficará melhor com alguns goles de vinho. Além disso, hoje é dia de comemoração. Não vamos deixar este seu dia esquecido.

Richshoffer tomou um gole deste forte rum. Spiessen fez o mesmo. E assim a singela comemoração durou até o fim da sentinela.

Depois foram para suas barracas descansar para o grande dia.

 

***

 

Horas depois, a alvorada chegou. Com o sol nascente surgindo por trás do horizonte branco-azulado, onde o céu toca o mar, todos puderam obsevar pela primeira vez a beleza natural de Zuikerland em plena luz do dia. A água espelhava no azul marinho o reluzir dourado do brilho solar, que ondulava junto às marolas oceânicas, até chegar nas areias argentas da praia e nos aljôfares de maresia nas folhas verdes da vegetação nativa.

Em meio a tão paradisíaca passagem, de exóticos coqueirais e belos animais, que sussurravam sons agradáveis vindos da mata atlântica, sobre as alvas areias, ainda molhadas pelo percurso do mar secante, três mil soldados deturpavam toda a beleza do lugar. Marchavam juntos com suas botas negras, gibões de couro e mosquetes.

Era o prenúncio que todo o verde, azul e dourado colorindo tão belas paragens, logo tomariam para si, tristes tons rubros de sangue.

Uma voz ecoou. Silenciou todo o burburinho dos soldados.

– Mandem todas as embarcações de transporte retornarem à Armada!

O próprio coronel Waerdenburch gritava essas ordens aos marinheiros da frota. Colocava sua mão estendida para trás, apontando seu bastão de comando na direção de um relevo elevado ao sul, onde se distinguia perfeitamente, em cima de um monte, as torres dos templos católicos da vila de Olinda.

A face do coronel tomou a direção dos três mil soldados. Exaltava olhos ardentes e palavras acaloradas, acordadas com o sol escaldante, que flamejavam o ímpeto dos seus homens para uma infernal batalha.

– Querem saber porque mandei os transportes embora? – o coronel asseverou os olhos. – Pois lhes direi. Mandei-os embora para ninguém olhar para trás. Hoje, recuar não é opção. Fugir, muito menos. Todos só devem olhar para frente, para a cidade inimiga que logo será nossa, pois agora há apenas duas únicas opções: Ou juntos a conquistamos ou todos morreremos! Por isso, devemos marchar. Matar todos os malditos espanhóis. Saquear seus tesouros. Tomar as suas terras! Assim lhes ordeno: Avançar! Avançar sobre a nossa Zuikerland!

A marcha começou, deixando para trás o acampamento. O exército era dividido em três partes: Retaguarda, Corpo e Vanguarda. Todas subordinadas a Waerdenburch, cada parte tinha seu próprio tenente-coronel, respectivamente Van der Elst, Steyn-Callenfels e o francês Honcx, que repassavam as ordens aos majores e capitães, e estes as repassavam aos soldados. A hierarquia era impecável entre os holandeses.

– Vooruit! Vooruit! Continuem a marchar.

Gritava o Major Berstedt, capitão de uma das companhias de mercenários na linha de frente, na vanguarda do exército, insuflando nos seus soldados as ordens vindas dos seus superiores. Entre esses soldados, estavam Richshoffer e Haus, com seus mosquetes na mão, em passos apressados sobre as finas areias da beira-mar. Spiessen estava logo atrás, na fileira posterior.

Repetidamente, as botas dos soldados afundavam na praia, fazendo a areia ranger sob seus pés. Depois, se levantavam jogando a areia aos tornozelos. Eles deveriam percorrer, do ponto de desembarque até a vila, três léguas de distância. Tinham como guia um judeu, chamado Papa-Robalos, que vivera em Zuikerland anos atrás, mas que, perseguido pela inquisição dos espanhóis, fugiu para a Holanda.

Tiros começaram a ecoar na lateral do exército. Aqueles que estavam próximo conseguiam ouvir os berros dos soldados de outras companhias.

– Inimigos na mata! Inimigos na mata!

Conseguiam, até mesmo, enxergar os espanhóis como vultos entre o denso matagal que determinava o fim da praia. Eram alguns homens de infantaria e outros sobre seus cavalos.

– Não deveríamos ir lá para uxiliar nossos companheiros? – Haus perguntou ao amigo.

– Não – Richshoffer respondeu. – As ordens do Major Berstedt são para continuarmos a marcha.

– Não há risco de sermos atingidos? Não é melhor matá-los primeiro?

– O coronel Waerdenburch já enviou uma companhia atrás dos malditos. Não passam de algumas poucas dúzias de espanhóis querendo nos assustar.

– Pois estão conseguindo… – Haus entreolhava para os lados em puro terror.

Antes que terminasse o suspiro, abriu um olhar aterrorizado. A visão à sua frente o impeliu a gritar desesperadamente.

– O que é aquilo? Meu Deus!

Tiros de mosquetes ecoaram contra o exército holandês. O grito do Major Berstedt veio em seguida!

– Atirar! Atirar! Exército inimigo à frente!

 

***

 

Richshoffer percebeu de sobressalto que, após a curva do mar, estavam de frente à uma fortificação inimiga na foz do chamado Rio Doce. Era um pequeno parapeito de pedras soltas do outro lado de um ribeirinho, onde tomava cobertura algumas centenas de mosqueteiros espanhóis. E, ao fim dos seus disparos, uma chuva com centenas de flechas iniciou, saindo detrás deste mesmo parapeito e caindo sobre os soldados.

– Para o inferno todos, espanhóis malditos!

Era a vez de Richshoffer praguejar enquanto os gritos de dor dos soldados holandeses começaram a sobrepujar as explosões de suas armas de fogo. O soldado levantou a arma sobre seu ombro. Apontou contra a fortificação. Encontrou um inimigo à revelia. Mirou no alvo. Apertou o gatilho.

O coração bateu agitado. A garganta estava seca. As explosões vindas do lado inimigo, por um jogo de sua mente, pareciam se espaçar. Mesmo o mecanismo da sua arma, parecia se mover mais lentamente. Foi quase uma eternidade os instantes desde que uma das pontas do grosso cordão preso na alavanca da arma, onde queimava uma mecha de fogo, fez seu percurso arqueado, até a pólvora na caçoleta.

O toque da mecha com a pólvora gerou uma forte explosão. O impacto do coice da arma fez o soldado fechar os olhos. Que permaneceram assim, fechados, apenas por um milésimo de segundo. Conscientemente, procurou abri-los o mais rápido possível para ver o resultado de sua pontaria.

Infelizmente, nada aconteceu com o maldito mosqueteiro espanhol que tinha por alvo. Richshoffer errou o disparo.

Percebeu, em seguida, que este mesmo espanhol começou a apontar exatamente na sua direção. Percebeu que agora ele era o alvo. O condenado tornara-se o carrasco. E assim a explosão do disparo inimigo ecoou. Em meio ao tropel da batalha, no exército holandês, surgiu um doloroso urro de dor.

O amigo Haus, ao ouvir o urro vindo da direção do velho amigo, se virou e perguntou assustado.

– Richie? Está bem?

Em verdade, o tiro encomendado a Richshoffer atingiu o soldado ao seu lado. Bem na cabeça. O Strasburguês sentiu os sangue e os pedaços de cérebro atingirem sua face.

– Acho que sim – em choque, apenas conseguiu balbuciar.

Richshoffer tremulava enquanto assistia o corpo do camarada, com quem marchou ombro a ombro neste percurso. cair sem vida. Tinha um buraco fumegante na cabeça, de onde o sangue coagulado formava poças rubras na límpida areia praiana.

Outro soldado tomou a posição do morto. Richshoffer percebeu assim, da pior maneira possível, que o próximo erro poderia significar sua morte.

– Acorda, Richie! – Spiessen gritou logo atrás. – Vai ficar só olhando! Marcha, homem! Ou será pisoteado!

O Strasburguês realmente precisava acordar. Relembrou de recarregar sua arma, revendo todos passos em sua mente para este efeito. Retornar a mecha de fogo à posição inicial. Travar a arma colocando o percussor em descanso. Apoiar arma debaixo do braço. Abrir o cartucho de pólvora com os dentes. Despejar a pólvora com a bala na boca da arma. Calcar tudo com a longa vareta. E carregar a caçoleta com outra carga de pólvora.

Tudo isso durante sua marcha. Fez tudo rapidamente. Levantou sua arma. Procurou outro inimigo. Cada segundo, poderia significar sua morte. Enfim achou uma boa presa. Atirou novamente! E assim percebeu também que, mais importante que força de vontade, era a habilidade. Disparou mais duas, três, quatro, cinco, seis vezes… Nenhum dos seus alvos foi atingido. Erros que não deixaram de ser revidados por balas e flechas do outro lado do amargo ribeirinho que chamavam de Rio Doce.

Surgiram três barcaças enviadas pelo senhor coronel Waerdenburch. Elas adentravam a foz deste riacho. Atravessavam suas águas. E arremessavam pesada artilharia contra os inimigos. Os tiros de canhões e mosquetes misturavam-se ao som de carne arrebentada e mais urros de dor. Os espanhóis, frente a superioridade numérica do exército holandês e à artilharia que despejava balas contra eles, começaram a recuar. Fugiram mata adentro.

As novas ordens do Major Berstedt ecoaram.

– Mosquetaria, manter posição! Infantaria, avançar!

Para aproveitar o bom momento, os soldados de infantaria, que incluíam Spiessen e muitos dos soldados nas fileiras detrás, atravessaram por entre as fileiras da frente. Perceberam todos, que as águas do rio Doce atingiam a cintura. Atrasava, mas não impedia os soldados holandeses de avançarem.

Logo a infantaria, às custas de algumas dezenas de perdas, chegou na outra margem. Richshoffer e Haus observaram o confronto de espadas e piquetes no parapeito espanhol. Contemplaram a carnificina. A cena durou uma hora, mas os pesadelos os perseguiriam por toda a vida.

– Por favor, quero voltar para casa! Quero voltar para casa!

Um dos soldados caídos gritou, já pálido e enfraquecido, enquanto os seus companheiros tentavam estancar o ferimento mortal em seu pescoço, que jorrava sangue a considerável distância. Era apenas um dos quais Richshoffer fitava o olhar. Outro segurava as próprias tripas com as mãos. Um carregava o próprio braço decepado. Aquele estava deitado no chão, sem perna. Este, tinha o rosto desfigurado. E muito outros complementavam a sangrenta cena.

Richshoffer e Haus recomeçaram a marcha. Atravessaram o Rio Doce com água à altura da cintura, se desviando de cadáveres. Estavam ali, pelo menos, uma centena de companheiros, sem vida ou em terrível dor. Depois, os mosqueteiros atravessaram o mesmo rastro de morte na fortificação inimiga que tinha pelos menos mais duas dúzias de corpos. Alguns estavam nus, com a tez de cobre à mostra e aljavas de flechas nas costas. Eram os infames canibais.

Eles cruzaram por Spiessen, ileso, com o corpo todo coberto do sangue. Este nada falou, só respirava ofegante e cansado. Deixaram-no para trás, pois a parte da Vanguarda, que primeiro conquistou a fortificação, ficou ali para defendê-la e descansar de seu bom sucesso.

Os inimigos recuaram para um nova posição. Entrincheiraram-se novamente para impedir a passagem do exército holandês.

O tiroteio recomeçou!

– Não posso errar de novo.

Estas palavras, escaparam da boca de Richshoffer como um murmúrio inconsciente. Ele levantou a arma. Encontrou um alvo. Era um espanhol muito bem vestido com camisa e calça de linho. Tinha uma bela espada na cintura e segurava um bom mosquete. Não era um soldado qualquer.

O dedo apertou o gatilho. A mecha de fogo fez o seu percurso. A caçoleta da arma estourou. Desta vez, aquele inimigo, o homem bem vestido, em quem Richshoffer apontou, caiu no chão.

O inimigo caiu no chão!

– Meu Deus! – Richshoffer exclamou.

Haus, ouvindo a exclamação do amigo, olhou na sua direção. Percebeu algo errado em seu semblante.

– O que houve, Richie?

A tez de Richshoffer estava pálida. Os olhos esbugalhados. As mãos tremiam. Nem os corpos caídos no Rio doce, nem o sangue do companheiro que espirrou em sua face, nem outra terrível cena na batalha, o havia de atingido de tal forma. E, em estado de choque, ele respondeu.

– Deus! Não acredito! Eu matei uma pessoa!

 

 

De Stad Olinda de Pernambuco por Claes Janszoon Visscher (1630)

 

A Batalha por Olinda

Brasilianos

4

16 de Fevereiro de 1630

O cheiro de pólvora sobrepujou o odor da maresia nas folhagens da vegetação. Tiros de mosquetes atravessaram a multidão de milicianos. Ouviu-se o som agudo e as lufadas de vento causadas pelas balas cortando o ar. Surgiram três barcaças inimigas, que vieram da boca do rio, batendo toda a margem com sua artilharia, lançando largas esferas de bronze que cortava a multidão ao som do quebrar de ossos e estraçalhar de órgãos.

O capitão-mor se arrojou à passagem com seus homens, para impedir a passagem do imigo. Era difícil imaginar o sentimento destes, moradores e civis, mais acostumados com delícias da vida que à morte tão próxima. A lama sujava-lhes os corpos. Pedaços de carne caíam em seus rostos. Muitos caíam aos prantos durante o percurso, derrubados pelo próprio medo. Logo, o combate pelo controle de Pau-Amarelo não era mais decidido por disparos de canhões e mosquetes à distância. Era definido pela luta de espadas no combate corpo-a-corpo.

Respingos d’água revoaram na outra margem com o avançar da infantaria holandesa pelas águas do Rio Doce.

– Não fujam! Continuem o ataque!

O gritou partiu do capitão Temudo, que animava seus soldados à batalha. Infelizmentente, grande parte dos moradores ganhou os matos. Eram civis, desacostumados com a guerra. Fugiram apavorados.

Os que ainda resistiram, viram-se recuando pouco a pouco. Fortificaram no segundo ponto de defesa preparado pelo capitão-mor. Ficava na entrada norte da vila de Olinda, num convento religioso transformado em fortaleza, sobre a qual as armas apontavam numa travessia bem entrincheirada. Era estreita o bastante para anular a vantagem numérica dos inimigos.

Dos quinhentos homens e duzentos índios que chegaram em Pau-Amarelo, apenas cem bravos homens se mantiveram na defesa de Olinda. Todos os outros estavam mortos, feridos ou fugiram, intimidados por tão superior força inimiga. Matias não pestanejou contra os fugitivos. Eram apenas civis. Resistiram mais do que podia se esperar deles.

– Cuidado, Matias! Atrás de ti! – Calabar bradou.

Ao virar o rosto para trás, enxergou outro batalhão holandês que vinha do interior da vila de Olinda.

Não houve tempo para pensar no que estava acontecendo ou como podia o inimigo estar vindo de dentro da vila. O capitão-mor apenas viu o líder do batalhão inimigo. Era detentor de um corpo musculoso, cabelos escuros e longos à altura do ombro e um nariz proeminente sob o qual havia longa barbicha. Além disso, era bem alto. O capitão-mor Matias de Albuquerque, em sua estatura mediana, nem sequer alcançava seu queixo. Essa diferença parecia personificar o tamanho de seus exércitos.

O comandante holandês ergueu sua bela arcabuz, feita de fina madeira e trabalhada delicadamente por algum mestre artesão. Era um item único, certamente feito por encomenda. Sua mão se fechou sobre o gatilho antes que se pudesse realizar qualquer ação, assim como fizeram as armas dos seus soldados

Tudo ocorrera rápido demais.

– O capitão Temudo foi ferido!

Calabar gritou para todos no local.

– Nós temos que carregá-lo para fora daqui! Agora!

Já no chão, Calabar tentou estancar o ferimento que acometia o defensor daquelas praias. O sangue do capitão ferido continuou sem parar, escorrendo através dos dedos. A palidez acometeu sua face. O brilho sumiu de seus olhos. André Temudo morreu.

Com a constatação, Calabar se levantou. Retirou os joelhos da pegajosa poça rubra sob seus pés. Era impossível organizar os pensamento em meio ao caos que imperava em sua volta. Ele nem mesmo sabia quanto tempo passou com o capitão Temudo. Só ouviu o grito dos inimigos por um lado. Depois, observou Matias e Pedro conversando algo que não conseguiu entender. Finalmente, sentiu alguém puxar-lhe pelo braço. Compreendeu que Matias ordenara a retirada. Não demorou para uma visão acometer seus olhos.

Era a visão da vila de Olinda sendo deixada para trás.

 

***

 

Horas depois, após ter desabado de cansaço, Calabar acordou com um cheiro adocicado atingindo suas narinas e escutando as batidas de ondas do mar. Estava num galpão, em meio a caixas cheias de açúcar, tabaco e algodão. Era um dos armazéns do Porto do Recife. Logo caminhou para fora, onde encontrou seus companheiros. Estavam em frente a língua de terra que une estes armazéns à vila de Olinda, margeando a foz do Rio Beberibe. Ali haviam vários canhões voltados para o mar e paliçadas que cercavam tudo ao redor.

Matias e Pedro estavam ao lado de um senhor de barba e cabelo grisalhos. Era o velho Gama, o veterano de guerra enviado pela capital em Salvador, que estava por comandante do Porto do Recife. Juntos, com a noite bem iluminada pela lua crescente no firmamento, todos puderam entender de onde surgiram os inimigos em suas costas. Compreenderam que, enquanto estavam em batalha na entrada da vila, os inimigos enviaram um batalhão para contorná-la. Entraram nela por outra passagem.

Dos pouco mais de cem homens que ainda resistiram na entrada norte de Olinda, quase cinqüenta estavam mortos. Outra grande quantidade estava ferida. Matias de Albuquerque, que partiu à praia de Pau-Amarelo com setecentos homens, retornou ao Porto do Recife com apenas vinte.

Calabar chegava a tempo de ouvir Pedro praguejar contra os efeitos da conquista da vila sobre os soldados nas fortificações.

– Como pode me dizer que meus homens não estão mais aqui?

O capitão dos milicianos de Serinhaém estava inconformado. Ouviu uma resposta direta do velho Gama.

– Quando Olinda foi conquistada, eles abandonaram seus postos, Pedro. Apenas três homens de toda sua companhia se mantiveram aqui. E não foram os únicos. Muitos fizeram o mesmo. Dói ver a facilidade com que deixam os postos. Os que chegaram à tarde não aparecerão nesta manhã.

– Pelo menos me fez o favor de abrir fogo contra estes malditos traidores? – Pedro questionou indignado.

– Sim – o velho Gama respondeu. – Aqueles que não morreram por nossos mosquetes, morreram nos arrecifes do mar ao tentar fugir de nós. Receberam o que mereciam!

A honra de um soldado e o respeito por seu líder não poderiam ser inferiores ao medo dos inimigos. Caso isso ocorra, deve-se certificar que é do seu líder que o soldado deve temer acima de tudo. Esse era o pensamento de ambos os comandantes. Pior fez um holandês que Matias permitiu morar na capitania de Pernambuco nos últimos anos, chamado de Adriaen Verdonck. Na ocasião da tomada da de Olinda, rapidamente esqueceu sua fidelidade ao capitão-mor e passou para o lado inimigo com aparências de amizade.

– Esqueçamos os malditos desertores – Pedro interrompeu. – Temos mais com que nos preocupar. A vila de Olinda foi conquista. Sobre isto que devemos discutir agora.

Com estas palavras, todos se voltaram para o capitão-mor, que estava mais a frente. Esperavam sua resposta. No entanto, ele ainda se mantinha hipnotizado pela cena dos holandeses invadindo a vila de Olinda. Calabar tomou a frente. Aproximou-se do capitão-mor. Então, perguntou.

– E agora, Matias? Como devemos proceder?

 

***

 

O capitão-mor Matias de Albuquerque tomou uma tocha ardente em suas mãos. Quando os primeiro raios da alvorada trouxeram a nova manhã, uma fumaça escura e adocicada tomou conta dos céus pernambucanos. As cinzas da destruição se espalharam pelos armazéns do Porto do Recife, pois o próprio capitão-mor mandou incendiar toda a carga de açúcar em seu interior. Se era o açúcar que os holandeses desejavam, Matias fez questão de mostrar que nunca os permitiria colocar suas mãos nele. Preferia antes ver toda carga, de quinze mil caixas que ali havia, destruída, transformada em brasas e cinzas.

Essa atitude nem um pouco conteve as investidas inimigas que se mantiveram impedosamente por quatro dias e quatro noites consecutivas, tanto por terra quanto por mar. Embora os inimigos tivessem conquistado a vila de Olinda no primeiro dia, Matias de Albuquerque conseguiu manter sua posição no Porto do Recife graças à bravura do comando do velho Gama naquela praça e do capitão Lima no Forte São Jorge, que ficava à sua entrada.

Infelizmente, essa defesa também teve seu preço como se comprovou ao quinto dia com a voz moribunda de um dos defensores do Forte São Jorge.

– Capitão-mor, nós vencemos?

– Foi uma bela batalha, Dom Pero – disse Matias ao homem que estava entre a vida e a morte. – Nunca vi tamanha bravura. Trinta e sete homens que fizeram milhares recuar.

– Foi uma honra lutar em seu nome, Dom Matias. Fico feliz sabendo que morrerei, tendo feito o meu melhor.

– Os médicos logo chegarão para lhe tratar os ferimentos – disse o capitão-mor, com grande pesar.

E murmurante o homem respondeu:

– Capitão-mor – ele tossiu sangue em suas entranhas antes de continuar. – Apenas diga à minha esposa que lutei com bravura e que a amo muito.

Este era o resultado da vil batalha do dia anterior. O custo das dezenas, talvez centenas, de holandeses caídos sem vida, ao redor do Forte São Jorge, foram cinco soldados pernambucanos mortos e oito gravemente feridos. Nenhum em situação tão precária quanto este que balbuciava seus últimos desejos no ouvido do capitão-mor.

Era algo que o capitão Lima relembrava Matias de Albuquerque.

– Com dom Pero Correia da Silva, serão seis os nossos mortos na batalha de ontem: Antônio Borges, morreu como sempre um bravo; Guedes Pinto, bem o conhece da sua guarda pessoal; e outros três homens igualmente corajosos. Todos mortos. Que Deus os tenha.

Matias de Albuquerque baixou sua cabeça em silêncio. Apesar das palavras proferidas ao moribundo combatente, Matias esteve em batalhas o bastante para saber que aqueles ferimentos não eram recuperáveis. Poucos dias depois, Pero Correia da Silva faleceu.

– Eles serão honrados e lembrados, capitão Lima. Graças a eles mantivemos o forte São Jorge.

– Por um dia, capitão-mor. Apenas por mais um dia.

– Para suprir essas perdas, eu trouxe a companhia de Francisco de Figueroa, que tomou o lugar do finado André Temudo, – o capitão-mor continuou. – Assim, o Forte São Jorge terá oitenta homens ao seu dispor para continuar fazendo tão importante defesa.

Matias falou ao apontar para um grupo de soldados que estava próximo.

– Vejo entre este reforço o alfaiate da vila, o açougueiro Fernandes Vieira, também uns rapazotes que mal sabem amarrar os calçados e alguns de barrigas inchadas – o capitão Lima analisava o socorro. – Certamente, terei muito trabalho em ensiná-los o que é uma guerra.

– Dos cento e sessenta soldados que El Rey nos enviou, nos restam apenas trinta – o capitão-mor explicou, seguido de um lamento. – Os moradores realmente precisam aprender bem rápido.

 

***

 

Além dos soldados para reforçar a defesa do Forte São Jorge, o capitão-mor também enviara quatro companhias com uma dúzia de soldados cada uma para os arredores de Olinda. Depois, enviou mais duas companhias liderada pelos irmãos Viana em seu interior. Elas tinham o objetivo de trazer ao Porto do Recife toda gente que encontrassem além de impedir a saída dos inimigos em busca de comida ou a entrada de traidores.

Essas quatro companhias haviam causado mais de cinqüenta baixas inimigas em poucos dias. Interrogando os prisioneiros que fizeram, descobriram o tamanho das forças holandesas. Eram setenta grandes naus, mais de sete mil homens de guerra e mar, na qual, destes, já haviam desembarcado, na vila de Olinda, toda a infantaria, que eram quase quatro mil soldados.

O inimigo tanto se apoderou da vila de Olinda, sábado 16 de fevereiro, logo fez mil exorbitâncias e insultos. Por dez dias, não perdoaram a cousa alguma. Entraram nos sagrados templos. Executaram a perfídia herética, nas sagradas imagens, vasos e vestes sacerdotais, com muitos impropérios, roubando tudo. Enfim, no décimo dia, às três horas da tarde, as forças invasoras realizaram seu maior ataque. Elas foram enviadas contra o Forte de São Jorge e o Porto do Recife, que foram bombardeados vivamente pelos galeões fundeados no poço e pelos iates que bordejavam a costa.

– Disparar todos os canhões!

O capitão-mor proferiu as ordens aos seus soldados, fazendo as armas de fogo ensurdecerem todo o campo de batalha.

– Toda a Infantaria avançar! – então, continuou quando viu os inimigos avançarem também por terra. – O Porto do Recife é nosso e ninguém o conquistará sob minha guarda!

Os pernambucanos antes fecharam a entrada do porto a tempo por meio de navios postos a pique e estavam dispostos a lutar contra a infantaria inimiga neste dia. No entanto, algo terrível e inesperado os impediu. Toda a munição, que ficava na Ponta da Aseca, junto ao Porto do Recife, explodiu.

O clarão cegou a todos. A fumaça cobriu os seus corpos. Tábuas flamejantes de madeira voaram para todos os lados. Matias tomou a frente, protegendo os demais. Foi quando sentiu a forte pancada de uma das tábuas de madeira atingindo seu rosto, fazendo-o sangrar poucos centímetros abaixo do olho.

Matias ignorou a dor. Perguntou-se qual  a  causa  da  explosão, Pois os holandeses estavam longe demais do Porto do Recife para serem os responsáveis. Então quem poderia tê-la causado? A resposta veio dos gritos inconformados do velho Gama, já metendo a mão à espada.

– Traição! Traição!

 

 

Planta baixa da cidade de Olinda por Johannes Vingboons 1612 -1670

 

A Inocência Perdida

Holandeses

6

16 de Fevereiro de 1630

Eu matei uma pessoa… Tudo o que Richshoffer aprendera em sua vida conflitava com o que acabara de acontecer. Ele apertou o gatilho de sua arma contra um ser humano. Quantas lágrimas seriam derramadas por este ato? Uma mãe que suportou o labor de um filho? Uma esposa que esperava à janela? Ou crianças que esperavam o retorno do pai? Quanto mal seu disparo causaria?

Eu matei uma pessoa… O soldado Strasburguês pensou em todos os que jaziam no Rio Doce. Eram dezenas de holandeses e espanhóis, mortos lado a lado. Por que se abalara com este único homem? Dez, cem, mil mortos, estas são apenas estatísticas numa guerra. Basta imaginar, dentre estes números, a vida de uma única pessoa para perceber o tamanho da tragédia.

Eu matei uma pessoa… A frase continuava a se repetir em sua cabeça. Ele se perguntava como seu Deus, onisciente e onipresente, julgaria tal ação no dia do juízo final? Mesmo sendo este Deus tão diferente do Deus dos espanhóis?

Todos eram pensamentos que, mesmo em conjunto, não duravam nem um segundo. Fizeram turbilhões na mente do soldado. Foram abruptamente interrompidos pelas novas ordens do Major Berstedt à sua companhia.

– Companhia! Marchar à direita!

As ordens conduziam os soldados a deixarem para trás a Retaguarda do exército. As outras duas partes do exército, a Vanguarda e o Corpo, uniam forças. Marchavam pelo matagal ao redor da vila de Olinda, comandados pelo tenente-coronel Steyn-Callenfels, um homem loiro baixo cuja meia-idade era revelada por suas entradas na testa e profundas rugas na face.

– Onde estamos indo? Porque estamos abandonando a batalha? – Haus foi o primeiro a perguntar.

Alguém em meio a massa de soldados respondeu.

– Há outras entradas para Vila de Olinda. Contornaremos ela para atingir o inimigo pelas costas

 

***

 

Como descrito, o exército contornou o monte onde foi construída a vila de Olinda. Não demorou mais algun passos, mata adentro, para observarem-na novamente. Em especial, uma segunda passagem, esta mais estreita, que levava ao seu interior, que foi construída entre dois templos religiosos. Era um local estratégico, mas pobremente defendido. Afinal, as forças espanholas estavam concentradas na entrada principal, no combate contra o coronel Waerdenburch. Nesta estreita passagem, haviam apenas vinte soldados. Eram tão poucos que, na primeira carga de mosquete holandesa, quatro deles caíram mortos, fazendo os outros fugirem apavorados.

A passagem estava livre para a força liderada pelo tenente-coronel Steyn-Callenfels subir a ladeira que levava a vila. Ele a adentrou, com as ordens aos soldados de fazerem a festa. Uns, já invadiam os templos religiosos para hastear as bandeiras holandesas. Outros, saqueavam o interior das casas abandonadas. Os moradores fugiram tão às pressas que, em muitas casas, haviam pratos de comidas ainda aquecidos sobre as mesas, prontos para serem devorados pelos soldados famintos. E haviam soldados que deixavam estas casas já com o vinho da Espanha nas mãos para brindar à vitória.

Nem todos tiveram as ordens de vasculhar as casas. O tenente-coronel Steyn-Callenfels enviou muitos batalhões para auxiliar o coronel Waerdenburch. Todas estas forças, juntas, desceram a grande ladeira na outra entrada da vila, onde o inimigo se entrincheirou. A surpresa acometeu os espanhóis que não esperavam um ataque vindo em suas costas.

– Disparar! Disparar!

O major Berstedt gritou aos soldados, repassando as ordens do tenente-coronel Steyn-Callenfels. O governador espanhol, chamado Matias de Albuquerque, foi tomado pela surpresa. Não haviam mais do que cem homens e outra quantidade igual de nativos selvagens sob seu comando.

Richshoffer avançou contra o inimigo. Encontrou-o a meio caminho da ladeira enquanto muitos dos seus companheiros de batalha caíam atingidos pelos mosquetes espanhóis.

Um grito de dor ecoou ao seu lado. A voz era do amigo Haus.

– Fui atingido! – O jovem berrava aos esperneios no chão.

Richshoffer se preocupou quando viu o amigo atingido por uma flecha Pensou em voltar para ajudá-lo, mas sua ação foi interrompida por um avulso brado de Haus proferido em meio à sua dor.

– Cuidado, Richie!

Era um selvagem canibal, de corpo todo tingido de negro, nu, exceto por sua aljava de flechas nas costas, que exalava fúria nos olhos com um tacape na mão contra o Strasburguês.

– Schit!

Richshoffer fechou os olhos. Por reflexo, apertou o gatilho do mosquete. A pólvora estourou. O soldado de Strasburgo, pego tão desprevenido pelo ataque, não conseguiu segurar o coice da arma. Foi jogado, para trás, ao chão.

Levantou de imediato, a sobressalto, preocupado por sua vida. Viu o selvagem também caído. Felizmente, o tiro de supetão atingiu o inimigo à queima-roupa. O selvagem, mesmo com o ombro escurecido pela pólvora, fumegando pela queimadura da bala e sangrando por tão profundo ferimento, tentava ignorar a dor. Era em vão. Ela o impedia de se levantar.

– Morra, maldito canibal!

Tomado pelo ódio, que sempre se tem contra alguém que atenta contra sua vida, Richshoffer jogou para trás o mosquete. Estava preso no ombro por uma alça. Retirou a espada da bainha. Lançou-a contra o inimigo caído.

Sua lâmina nunca encontrou o alvo, pois o soldado foi impedido por uma mulher.

Com seu corpo esbelto nu, seios firmes e as partes íntimas à mostra, era uma jovem guerreira indígena cuja tez detinha coloração cobre e os cabelos negros desciam através das costas até a cintura. Ela tomou a frente do selvagem ferido. Era pequena em estatura, mas bravia no olhar. Mesmo que este olhar transbordasse pesadas lágrimas e uma súplica sincera.

– Iandê niti îuka xe-mena! Ixê aurora iandê!

A indígena bradou ao soldado. Tentava lhe dizer algo.

Richshoffer nada entendeu. Nem poderia, pois falava a língua dos selvagens. Suas lágrimas, que pingavam do queixo para o chão. Penetraram no íntimo do Strasburguês. Suplicava-o para não matar aquele homem, seu amado, seu marido.

Condoído, o soldado foi incapaz de desferir nele o golpe mortal, mas não houve tempo do Strasburguês pensar sobre sua hesitação. Os gritos de vitória percorreram toda aquela ladeira na entrada principal da vila. Ele olhou além do casal selvagem, percebendo o triunfo holandês ao encontro das forças de Steyn-Callenfels com as do coronel Waerdenburch.

Depois, Richshoffer olhou trás. Buscou o amigo Haus, que já retirara a flecha que lhe acertara o braço.

– Tudo bem, Haus? – Richshoffer perguntou com o amigo já próximo.

– Não estou nada bem, Richie. Não está vendo que fui ferido!

– Deixa de drama! Vejo que foi apenas um arranhão!

Percebendo que o amigo estava fora de perigo, o rapaz voltou o olhar.

– Agora vem cá. Veja só isso.

O soldado Richshoffer mostrou o casal, cujo nativo mal conseguia se levantar por seu ferimento, enquanto era abraçado pela nativa nua. As faces de desespero de ambos chamaram a atenção de Haus.

– Nunca tinha visto um selvagem antes.

– Nem eu.

– E isso são lágrimas descendo dos olhos da fêmea?

– São sim, Haus! É incrível. Eles até parecem seres humanos.

Richshoffer já baixava sua espada quando um disparo, sem aviso, ocorreu. Ele apenas pôde ver a cabeça do nativo selvagem estourar, jogando mais sangue e miolos nas vestimentas dos dois amigos.

– Loucos! – Era a voz de Toulon que surgia detrás do casal de índios. – Nunca baixem as armas para esses selvagens! Não se pode confiar nestes animais.

A nativa que antes suplicava pelo esposo, teve a face tomada por outro tipo de lágrimas. Eram lágrimas de ódio. O-îuka-bae! O-îuka-bae!, ela gritava, chamando todos de assassino.

A cena deixou os dois amigos alemães condoídos, vendo-a sujar seu corpo nu com sangue e pedaços de cérebro que escorriam da cabeça do marido.

– Isso foi desnecessário, Toulon! – Richshoffer gritou.

– Eu salvei sua vida, Strasburguês! – o franco-holandês retrucou.

Este já amarrava os braços da índia com uma corda para a imobilizar. Não sem antes, o soldado de Strasburgo reclamar.

– Não preciso de sua ajuda – ele levantou a voz. – Nós, os cães, fazemos todo o serviço enquanto os soldadinhos oficiais da Holanda ficam apenas olhando. Enquanto isso, seu papaizinho o tirou da linha de frente para que não fizesse vergonha.

As sobrancelhas raivosas de Toulon convergiram mais intensamente e seu rosto se contraiu em indignação. Nada mais falou. Apenas deixou os dois amigos alemães para trás. Retomou o passo sobre a ladeira que levava à Olinda. Passou ao lado do grupo de amigos, batendo seu cotovelo no ombro do Strasburguês para mostrar o descontentamento com sua atitude.

 

***

 

Ambos amigos caminharam depois por entre as centenas de corpos caídos. O Major Berstedt ordenou que separassem os corpos espanhóis dos holandeses para que fosse feita a contagem e as preparações para os funerais. Enquanto realizavam tal ação, chegou  amigo Spiessen.

Ele, que ficara na fortificação do Rio Doce para manter a posição, chegou aos dois amigos, perguntando.

– Então, Strasburguês, como está a contagem?

– Contamos sessenta dos nossos mortos. Os feridos já chegam em mais de duzentos. Dos inimigos, temos aqui pouco mais de cinqüenta mortos e um número igual de feridos.

Haus observou o morto trazido por Richshoffer. Não pôde deixar de perceber a roupa que vestia. Era um bonito par de calças de linho, que desciam-lhe até os artelhos. Eram ornadas de rendas na abertura e nas bocas, cozidas duas vezes e pespontadas com seda branca. Eram tão compridas que iam até os sapatos, que também eram de magnífica qualidade.

– Que belos calçados e par de calças, não? Esse espanhol certamente não era um soldado ordinário – Haus apontava.

– Acho que foi este quem acertei na trincheira – Richshoffer respondeu.

– Sério?

– Acho que sim.

– Meus parabéns, Strasburguês! – Spiessen inferiu. – Quem diria que seu presente de aniversário foi ter assassinado um capitão inimigo!

– Se foi eu ou algum outro quem o matou naquela escaramuça, não sei. Deus o saberá – respondeu modestamente.

Em seguida, o próprio Richshoffer complementou estas palavras com a oração que escutou no De Salamander.

– E que o mesmo Deus conceda-lhe um fim bem aventurado e uma feliz ressurreição. Como também a todos os soldados que morreram valentemente aqui, de ambos os lados, frente ao inimigo.

Todos baixaram a cabeça em oração. No entanto, suas preces foram interrompidas por um grito de Haus.

– Spiessen? O que está fazendo?

Richshoffer abriu os olhos para observar o recém-chegado amigo retirando os belos calçados do espanhol morto.

– Prefere esperar que reconheçam sua ação na partilha do butim? – disse Spiessen colocando o par de calçados no peito de Richshoffer. – E toma essas calças também. São muito boas e compridas, lhe poupando de usar meias na mata, só não as pegarei para mim em respeito à nossa amizade.

Ambos os amigos alemães ficaram calados olhando Spiessen deixar o local. Não sem antes este dizer.

– Agora o faça rápido antes que alguém veja.

O Strasburguês fitou o olhar no espanhol morto, cuja vida foi arrebatada por sua arma. Observou seus olhos inertes, sem vida, fitando o vazio. O mortal ferimento no ombro havia coagulado. E as calças estavam bastante manchadas de sangue, mas isto não o horrorizou. Richshoffer tirou-as fora, deixando o morto em roupas de baixo.

Guardou as vestes dele para si.

 

 

Fadrique de Toledo na Captura de São Cristovão por Felix Castelo (1634)

 

As Políticas Agressivas

Nobreza

4

16 de Fevereiro de 1630

– Pilhem tudo! O que couber nos bolsos, poderão levar! – Estas palavras eram proferidas pelo Capitán General del Mar Oceano aos seus homens na ilha de Santa Marta. Uma pequena ilha do Caribe colonizada por holandeses onde a Armada espanhola avançou sobre um acanhado forte de apenas quatro peças de artilharia. Agora, com este forte conquistado e suas peças descavalgadas, os soldados se apoderavam da cidade indefesa.

Era a terceira ilha conquistada por Fadrique de Toledo desde o último setembro.

– Parabéns, general – o almirante Oquendo o congratulou. – Três ilhas, três diferentes inimigos espanhóis derrotados.

– Este é o lado bom de guerrear por El Rey. Não faltam inimigos. França. Inglaterra. Holanda. A lista é enorme.

A primeira das três ilhas conquistadas foi a Ilha de Las Nieves, que era um entreposto para corsários ingleses, onde foram tomados oito dos dez navios que ali estavam e conquistado um fortim com duas peças de artilharia.

Depois, passou-se para a ilha vizinha, tão próxima da primeira que era possível ser vista de sua praia. Esta era bem maior em tamanho e importância. Chamava-se Ilha de São Cristovão. Era uma ilha colonizada ao sul pelos ingleses e ao norte pelos franceses. Na parte inglesa, Fadrique conquistou o Fortes Charles com vinte duas peças de artilharia e quase dois mil homens de guarnição. Na parte francesa, tomou três fortes chamados Basse Terre, de Nord e Richelieu, respectivamente, com onze, dez e catorze canhões e guarnecidos com quase mil homens.

Sobre estas conquistas, falava o general Fadrique.

– E sejamos francos. Esta presa holandesa foi bem mais fácil que as anteriores. Nem sequer tentaram dar uma boa luta como fizeram os ingleses e franceses na ilha de São Cristovão.

– Sim. Graças ao bom Deus, tudo estava a nosso favor – o almirante Oquendo o respondeu. – Tenho certeza que, se os ingleses e franceses estivessem unidos contra nós na ilha, a história seria bem diferente.

– Se estivessem, eu nem atacaria – Fadrique respondeu. – Eu já esperava essa desunião. Afinal, na ilha, eles estavam vivendo uma falsa paz. Do mesmo modo que estamos em guerra com ambos os reinos da Inglaterra e da França, esses mesmos reinos estão em guerra entre si.

Ouvindo as palavras do almirante Oquendo, o general Fadrique adentrou o povoado da ilha Santa Marta, onde seus homens pilhavam cada canto do lugar.

– E como está o saque até o momento? – O general perguntou.

O almirante Oquendo prontamente o informou.

– Das três ilhas, conseguimos muito tabaco, com certeza. No entanto, a maior parte do butim foram as armas. Foram 129 canhões e 1350 mosquetes com abundância de munição. Sem contar os navios que enviamos para o Reino com os prisioneiros .

– Ótimo. Isso deve melhorar os ânimos do Conde-Duque. Ele ficará muito feliz com nosso bom sucesso nestas ilhas. Assim poderemos começar a reabastecer nossas embarcações e voltar ao Reino.

– Ao Reino, senhor? – O almirante exclamou – Não deveríamos tomar curso para o sul? Evitar a invasão ao Novo Mundo?

O general Fadrique logo tratou de censurar seu subordinado.

– Oquendo, Oquendo… Mesmo na sua idade ainda não aprendeu nada sobre prudência. Temos dezessete navios em nossa Armada e estamos falando em quase setenta embarcações inimigas no Novo Mundo. Faz a matemática.

Ao ouvir as palavras de Fadrique, um ar desafiador partiu de Oquendo. Afinal, o próprio almirante, já mais velho que o próprio Capitán General, se considerava um melhor homem para o cargo. E assim alfinetava.

– Pensei que o senhor fosse O grande Fadrique de Toledo! O homem que enfrentou inimigos em situações piores e venceu todas as guerras a que foi colocado à prova. Como pode fugir de uma batalha agora?

– Exatamente por tudo isso que não tenho mais nada a provar – Fadrique contra-argumentou. – Deixa eu lhe dizer algo. Nos meus primeiros dez anos de serviço na Marinha Real eu soube batalhar magnificamente. Nos dez anos seguintes, aprendi muito bem quando entrar em batalha. E, agora, iniciando minha terceira década de serviço, sei bem quando não devo entrar.

O general Fadrique cerrou os olhos no almirante.

– E Pernambuco certamente é uma batalha que não vale a pena entrar.

 

***

 

Era tarde da noite no palácio de El Alcázar. Terminava mais um duro dia de expediente para o Conde-Duque de Olivares. Como esperado, apesar de todo esforço do Valido, os problemas do Reino continuavam sempre muitos. Eram como a mitológica Hidra de Lerna. Quando se cortava uma cabeça, duas novas surgiam em seu lugar. Por esta razão, as boas notícias eram sempre muito bem comemoradas.

– Olivares – chegou um ilustre mensageiro.

– Embaixador – o Conde-Duque respondeu, já o reconhecendo.

Era com o desejo de uma boa comemoração que o representante do Imperador Romano-Germânico em Madri, o embaixador Khevenhüller chegava ao escritório do Valido de Sua Majestade. Tinha uma garrafa de vinho na mão e largo sorriso no rosto.

– Trago boas notícias do norte da Itália.

Essas palavras fizeram o Conde-Duque esboçar um semblante de contentamento. Afinal, Spinola e Victor Amadeus partiram da Espanha há alguns meses. A missão do experiente general era avançar diretamente sobre o Forte de Pinerolo, na região de Casale. Era o local onde as forças francesas na Itália estavam fortificadas. Recebiam suprimentos diretamente de Mantova.

O local era considerado inexpugnável. Era um grande desafio até mesmo para alguém como general Spinola, considerado o melhor estrategista de toda a Espanha naquele momento. A única forma de conquistá-lo era forçando a rendição de seus defensores atráves da fome e da sede. Esse era o motivo pela qual as novas notícias trazidas pelo embaixador eram tão animadoras.

– As forças do emperador conquistaram Mantova!

– Mais rápido do que imaginei – o Conde-Duque respondeu.

– Tivemos uma ajuda divina – o embaixador explicou. – Assim que nossos exércitos chegaram, a peste devastou todos que estavam na cidade, incluindo as forças francesas. Nossos exércitos não tiveram dificuldades em entrar na cidade, cortando assim os suprimentos para o Forte de Pinerolo.

As palavras do embaixador, no entanto, não faziam jus a destruição que acometeu o Ducado de Mantova. Nem este comentava o tamanho da pilhagem que as tropas imperiais fizeram na região. A reclamante apoiada pele Reino Ibérico, Margarida de Mantova, teria muito trabalho para reeguer o Ducado após esta guerra. A verdade era que este nunca mais se recuperaria do estrago.

Isso pouco importava ao Conde-Duque. Tudo que desejava era parar o avanço das forças francesas na região.

– Agora é questão de tempo até o Forte de Pinerolo cair e esta guerra chegar ao fim – o embaixador completou, tendo já preparado as taças de vinho.

O tilintar das taças pela destruição de Mantova se seguiu.

– A uma vitória rápida! – o Conde-Duque bradou antes de derramar o vinho garganta abaixo.

 

***

 

Muitas garrafas de vinho foram esvaziadas nessa comemoração. No entanto, algumas horas depois, ela foi interrompida pela chegada de um mensageiro real. O bater grave na pesada porta de madeira chamou a atenção dos dois homens. A voz do mensageiro veio em seguida.

– Senhor Conde-Duque! Permissão para entrar.

– Permissão concedida, rapaz – o Cande-Duque respondeu. – Mas o que é tão importante para interromper esta reunião e tão tarde da noite?

– Notícias chegaram do porto de Cádiz. Foram enviadas pelo Capitán General del Mar Oceano, Fadrique de Toledo. E, com elas, também nos enviou oito embarcações capturadas e mais de dois mil e trezentos prisioneiros que fez no mar Oceano.

Ao ouvir estas palavras, o Conde-Duque nem sequer tentou esconder o largo sorriso. Falou com um expansivo humor.

– Ah! Mais uma excelente notícia! Uma semana atrás recebi a notícia do governador de Cabo Verde dizendo que os holandeses estavam reunindo dezenas de navios e milhares de soldados em uma de suas ilhas. Estava preocupado, mas vejo que meu bom general Fadrique conseguiu outra grande vitória em nome de El Rey.

Os olhos do mensageiro se encheram de dúvidas quando enfim falou.

– Senhor… As notícias que eu tenho é que são prisioneiros franceses e ingleses, não holandeses. E não foi em Cabo Verde que foram capturados. Eles foram capturados na ilha de São Cristovão no Caribe.

O Conde-Duque se levantou. Todo o bom humor que estava em sua face desapareceu como se nunca tivesse existido. Assim que escutou a palavra Caribe no lugar da palavra Cabo Verde ou Pernambuco, não deixou de expressar seu descontentamento. Nem parou de se questionar.

– No Caribe? O que diabos Fadrique está fazendo no Caribe?

 

Cidade de Olinda e Recife por João Albernaz Velho

O Cerco às Fortalezas

Holandeses

7

17 de Fevereiro de 1630

A vila de Olinda, capital de Zuikerland, foi conquistada. Os soldados holandeses comemoravam a vitória, saqueando tudo que podiam dela. Entravam pelas casas, carregados com o melhor que nelas achavam. Com machados, quebravam as portas, as caixas, os escritórios e os contadores cheios de finas sedas, ouro, prata e ricas jóias. Outros entravam pelas igrejas espanholas, roubando os ricos ornamentos e quebrando as estátuas de Jesus Cristo, da Virgem Maria e dos santos católicos.

Saqueavam os mercados e as casas, achando-as cheias de barris de vinho. Assim beberam tanto que as ruas estavam alastradas de bêbados. E, como andavam tão embriagados, caíam a cada passo. Tornavam-se a levantar, apenas para cair de novo. A barafunda e alarido era tanto, que, com muita mosquetaria, que disparavam a esmo, parecia um dia de juízo.

Para Richshoffer e seus amigos, no entanto, não houve motivo para comemoração. Coube à companhia do major Berstedt ficar num dos templos religiosos, na entrada da vila, mantendo boa guarda. Eles observavam de sua torre a balbúrdia dos soldados embriagados que davam assim motivo a contínuos rebates falsos.

– Que vergonha!

Richshoffer era o primeiro a praguejar.

– Os soldados deitados assim, tão embriagados, nas ruas e nas casas, parecem brutos irracionais.

– Eu estou é com inveja deles – Spiessen retomou. – É incrível o azar do major Berstedt nos sorteios. Logo hoje tivemos que ficar de sentinela!

– Ainda mais depois de tudo que passamos para conquistar esta cidade – Haus completou.

O barulho dos soldados bêbados persistiu, de modo que até o romper do dia pouco puderam descansar.

No dia seguinte, foram recompensados. Não obstante estivessem todos muito fatigados do constante pelejar e do intolerável calor, de pronto se restauraram com o delicioso vinho de Espanha e se refrescaram com limões, laranjas e açúcar. Quando foram para seu aquartelamento permanente, encontraram um bom alojamento. Foram agraciados pois, em Olinda, antes da conquista, haviam três mil habitantes. Como o número de soldados holandeses desembarcados era ainda maior, muitos ficaram em péssimos quartos enclausurados nos conventos religiosos ou apinhados nas casas mais modestas.

Spiessen também encontrou nesse mesmo alojamento um barril de vinho de Espanha e toda a sorte de víveres que os espanhóis lá haviam deixados. Apenas não aproveitaram mais porque o coronel Waerdenburch ficou tão nervoso com os brutos irracionais que caíam bêbados nas ruas da cidade que mandou guardar todo o vinho encontrado em casas de adega. Forcas foram desenhadas em suas portas para avisar o destino dos que tentassem entrar.

Poucos dias após a conquista da cidade, uma grande fumaça escura surgiu no Porto do Recife, local onde estava o governador espanhol Matias de Albuquerque. Os holandeses muito estranharam este acontecimento por não terem lançado nenhum ataque ao local. Também estranharam que tal névoa adentrava suas narinas, recendendo um odor adocicado e forte.

Revelou que o inimigo, sabendo não poder resistir por muito tempo, colocou fogo em toda sua valiosa carga de açúcar.

 

***

 

O General Lonke continuou a combater os inimigos por mais quatro dias, lançando sua artilharia tanto no Forte São Jorge quanto no Castelo do Mar. Devido ao movimento das ondas, em constante agitação, os artilheiros da Armada não puderam fazer tiros certeiros. As fortificações inimigas, por outro lado, foram impiedosas em seus disparos. Obrigaram os navios, sob o comando do general, a fazerem largo durante a noite e se colocarem fora do alcance de sua artilharia. Tão nutrido foi o canhoneio, que estavam muitos dos navios tão varados de balas que se podia ver através dos dois costados e muitos tripulantes haviam perdido suas cabeças, braços e pernas.

No quarto dia, com o fracasso da Armada, decidiu-se lançar um ataque por terra. Dez companhias, com mais de mil homens foram enviadas sob a liderança do tenente-coronel Steyn-Callenfels, levando escadas para escalar o Forte São Jorge. Eram duas companhias em cada lateral do forte, para arrimar as escadas, subir as muralhas ou fazer cobertura do solo. Outra companhia tentava romper a porta. E a décima levava a cargo granadas para serem jogados no seu interior. Todas acometeram com máscula bravura, na mais completa escuridão num assalto que durou pouco mais de duas horas .

O resultado foi pífio.

– O que houve, Spiessen? Não conseguimos tomar o forte?

Richshoffer e Haus, que trabalhavam na construção de trincheiras em vários pontos da cidade, interromperam seus afazeres para perguntar ao amigo dos detalhes da expedição.

Spiessen, todo sujo de areia e sangue, respondeu.

– Os marinheiros idiotas trouxeram da Holanda escadas muito curtas! Ficamos expostos ao inimigo que jogavam sua artilharia tanto da fortaleza quanto do Porto do Recife que faziam muito dano na passagem da praia.

A ação foi realmente um desastre. As escadas holandesas não alcançavam nem os parapeitos do Forte São Jorge. Não desistindo, os soldados voltavam a colocá-las, a subir e a deitar granadas. Como se não bastasse, as granadas também eram inúteis. Demoravam muito a explodir, tempo o bastante para que fossem jogadas de volta e explodissem os soldados holandeses.

– E o que o coronel fará agora? – Richshoffer perguntou.

– Não quero nem saber – Spiessen esbravejou já deixando os amigos para trás. – Quero é tomar um bom vinho!

– Vinho? Como? – os dois amigos exclamaram com notória sede. – O coronel Waerdenburch proibiu todo vinho até a tomada dos fortes, trancafiou tudo nas adegas.

Spiessen olhou para os amigos, mostrando seu sorriso desafiador.

– Tenho meus meios – por fim, falou.

 

***

 

Os amigos depois descobririam que Spiessen fez amizade com um dos sentinelas que guardavam as adegas do coronel. Era um jovem da cidade de Leipzig, futuro herdeiro de um título de Barão. Ambos planejaram invadir na noite uma das casas de adega. A tentação em tomar um bom vinho para se recompor era grande. Afinal, após cinco dias em terra, já tendo acabado tudo o que os espanhóis deixaram em suas casas, os mantimentos para um exército deste tamanho já começavam a escassear.

Os amigos decidiram não acompanhar o terceiro amigo na invasão às casas de adega. Era muito arriscado. Voltaram à suas funções no levantamento das cercas de madeira nos pontos estratégicos da vila. Richshoffer, em especial, tomava cuidado para não sujar as calças novas que tirou do espanhol morto. Agora já estavam bem limpas, fazendo o branco reluzir mais belo.

Por estar utilizando essas calças, que deveriam ter entrado no butim da pilhagem, o Strasburguês teve um especial temor quando a voz do tenente-coronel Steyn-Callenfels ecoou seu nome.

– Soldado Richshoffer. Apresente-se!

Richshoffer correu na direção do oficial, fazendo sinal de respeito à sua patente, já realizava as apresentações.

– Ambrosius Richshoffer de Strasburgo. Soldado da companhia do Major Hugo Wierich von Berstedt aos auspícios das muito poderosas Províncias Unidas da Holanda, e sob as ordens do muito ilustre, severo e valoroso senhor coronel Diederik van Waerdenburch, senhor!

O tenente-coronel tratou de deixar o jovem de Strasburgo à vontade.

– Estava com o Major Berstedt há pouco – retomou. – Por isso, lhe pergunto: por acaso é filho de Johann Richshoffer, o picador, construtor de barreiras na Holanda?

– Johann é meu tio, quem herdou contrato de barreiras do meu avô. Meu pai é o seu irmão mais novo, Daniel, o negociante.

O tenente-coronel cerrou um olhar mais introspectivo.

– Conheci seu avô e sou grande amigo de seu tio – por fim, continuou. – Conheço os Richshoffer de Strasburgo e sei que são uma excelente família.

Richshoffer mostrou notório semblante de contentamento.

– E vejo que lhe ensinaram muito bem como se vestir – o tenente-coronel complementou. – Belas calças tem aí.

– Obrigado novamente, senhor – Richshoffer respondeu com uma sugestão de sorriso.

O tenente-coronel continuou.

– Seus familiares já me ajudaram muito. Sinto-me na obrigação de retribuir. Quero que me acompanhe no jantar e me conte como diabos chegou neste fim de mundo.

Richshoffer nem precisou pensar para responder. Entusiasmou-se tanto que os pensamentos se atropelarem. Quando retomou o fôlego, falou com grande alegria e orgulho.

– Será uma grande honra, senhor tenente-coronel.

 

***

 

Depois de passados dez dias da conquista de Olinda, outros confrontos entre as forças holandesas e os fortes ocorreram. A irritação do coronel Waerdenburch com a resistência do inimigo chegou ao nível máximo. Mesmo porque a comida começou a escassear e a fome já atingia todo o exército sem que eles conseguissem passar dos limites da vila para buscar comida.

O coronel solicitou, ao general Lonke, peças de artilharia dos navios de guerra. Assim, um novo ataque por terra foi realizado sob as ordens do senhor tenente-coronel Van Der Elst. Durante a noite, fizeram aproximações completas à distância de apenas um tiro de mosquete enquanto se começava a construção de uma bateria de artilharia. No outro dia, esta bateria ficou inteiramente concluída em madeira, na forma de grandes cestões, com a altura de um homem e preenchidos com muita areia.

Estava tudo pronto no dia 28 de fevereiro de 1630, quando o general Lonke transportou para terra seis largos canhões, logo colocados nesta bateria. E assim começou-se a bater violentamente o Forte São Jorge, por dias a fio, sem descanso e sem piedade. Toda a companhia do major Berstedt teve a missão de carregar as munições da vila para a bateria, em meio à chuva de balas de canhão. Era um trabalho inglório e perigoso, cuja má sorte do major nos sorteios mais uma vez os colocou.

Richshoffer, por outro lado, obteve licença para se encontrar com o tenente-coronel Steyn-Callenfels, no alojamento entregue ao oficial. No local, a exclamação do soldado percorreu seus ambientes.

– Quinze mil caixas de açúcar!

Ambos  conversavam sobre a fumaça que tomou conta do Porto do Recife alguns dias atrás. Estavam numa das quase duzentas casas pertencentes à alta sociedade de Zuikerland, que enriquecera às custas da produção de açúcar, e que agora acomodavam os altos oficiais holandeses. A casa do tenente-coronel era ampla e bela. Seu quintal estava no alto da colina de Olinda, defronte à beira-mar onde disparos eram trocados com os fortes inimigos.

– Isso mesmo – o tenente-coronel Steyn-Callenfels respondeu. – Cerca de nove mil toneladas, destruídas, transformadas em fumaça!

Richshoffer, com uma pena-tinteiro que levava em sua mochila, junto com seu diário, colocou-se a fazer cálculos aritméticos. O tenente-coronel Steyn-Callenfels o olhou, nem um pouco surpreso, do jovem mercenário conhecer álgebra, pois sabia bem suas origens.

– Meu Deus – O Strasburguês retomou. – Minha conta já está em quatro milhões de florins.

– Pois é, garoto. O bastante para pagar o soldo de todos os soldados em Zuikerland por cinco anos completos. – o tenente-coronel o deferiu. – O governador espanhol, o tal Albuquerque, não é idiota. Ele sabe que as guerras não são combatidas nem vencidas por soldados e armas. Ele sabe que as guerras ocorrem pelo e para o dinheiro.

Ouvindo a lição, Richshoffer lançou um sovo comentário

– Tenho certeza que os conselheiros não vão ficar felizes quando souberem dessa perda.

Suas palavras remetiam a uma esperada chegada. Um socorro de mantimentos estava para chegar. Vinham junto com pessoas de alto escalão da Companhia das Índias Ocidentais. Esses conselheiros seriam a grande salvação, porque a fome já começava a causar grandes problemas nos exércitos. E a sede era ainda pior. Os próprios holandeses propalavam que o nome Pernambuco, era uma corruptela da palavra In-Phernum-Buco, que significa Boca do Inferno.

– Espero que eles cheguem logo – Richshoffer retomou.

O tenente-coronel completou a informação.

– Não mais que eu – ele revelou. – Três franceses foram capturados tentando passar para o lado inimigo. Além disso, tivemos outras infrações. Hoje mesmo encontramos quatro de nossos soldados invadindo os depósitos de vinho e víveres do coronel Waerdenburch.

As últimas palavras do tenente-coronel mudaram o semblante do soldado Strasburguês. Ele arregalou os olhos. Arqueou as sobrancelhas. Deixou cair o queixo. A péssima sensação o afetou mais ao ouvir as palavras seguintes do oficial.

– Os infratores são um bem nascido filho do Barão de Leipzig, dois holandeses e um mercenário alemão.

– Um mercenário alemão?

Spiessen!, Richshoffer exclamou em pensamento. Deduziu que a inconseqüência do amigo acabou por selar sua ruína. Era algo que em nada o surpreendeu. No entanto, não houve muito tempo para o Strasburguês pensar sobre o assunto. Sua atenção foi desviada pela nova ação do tenente-coronel.

Ele se levantou de supetão, apontando para a beira-mar.

– Meu Deus! Olha aquilo, Richshoffer!

Seu grito veio em acordância com um estrondo, vindo do Forte São Jorge. Foi tão alto que pôde ser ouvido na alta colina onde ambos estavam.

– É uma rachadura no forte São Jorge.

 

***

 

Essa rachadura se expandiu nos dias seguintes, com a pesada artilharia holandesa concentrada nela. Os espanhóis ainda a revestiram com sacos de algodão para amortecer o impacto dos canhonaços, mas estas foram neutralizadas por balas incendiárias. Enfim, após mais cinco dias de forte bombardeio, as muralhas do Forte São Jorge ruíram no dia primeiro de março. A capitulação de seus defensores ocorreu no mesmo dia.

A derrota desta fortaleza gerou um efeito dominó sobre as demais. No mesmo dia, o Castelo do Mar se rendeu e o Porto do Recife foi abandonado pelo governador espanhol. Onze dias depois desta vitória, bem antes do esperado, para alegria de todos que aguardavam ansiosamente por mantimentos, chegaram nove navios carregados de víveres. Todos foram recebidos com salvas de canhões e grande júbilo pelas tropas holandesas.

Eles traziam três conselheiros da Companhia das Índias Ocidentais, chamados Bruyne, Calandrini e Serooskerken, junto com setecentos novos soldados, as famílias dos oficiais, pessoas para colonizar estas terras, muitas peças de artilharia, munições, apetrechos bélicos e, claro, os tão desejados mantimentos. Tudo isso foi descarregado e os tripulantes desembarcados.

O grupo de amigos observava tão bela cena. Haus ficou particularmente excitado por ver aquilo que mais desejava.

– Por favor, Richshoffer, diga-me que não estou sonhando. Que meus olhos não me enganam!

As palavras de Haus remetiam a visão de centenas de pessoas que desembarcavam destas nove embarcações. Entre a multidão, lá estava uma bela garota de cabelos loiros, olhos azuis e nariz arrebitado. Uma imagem, como sempre, maravilhosa e estupenda de se ver. E foi observando esta mesma bela imagem, que Richshoffer respondeu o amigo.

– Acredite, Haus. Aquele ao lado dos conselheiros é sim o senhor Strausskicher com sua filha Amália.

 

 

 

Engenho de Açúcar por Frans Post (1612-1680)

 

As Cinzas do Recife

Brasilianos

5

1o de Março de 1630

– Levem todos para longe daqui! – Matias gritou em meio a destruição dominante da cena, entre as explosões que continuavam ininterruptas na Ponta da Aseca, onde ficavam os depósitos de munição.

O sangue descia de sua face machucada. A fumaça impregnava suas roupas. Ele logo percebeu o resultado do vil atentado. Embora o Porto do Recife tivesse resistido ao ataque inimigo, os holandeses cercavam o Forte São Jorge. E não havia como o capitão-mor os auxiliar. Não havia como continuar a luta, pois haviam perdido quase toda a munição no atentado. Os inimigos colocavam baterias com canhões de largo calibre ao seu redor, com o bombardeio recomeçando impiedosamente.

O socorro da Paraíba ainda chegou nos dias seguintes. Traziam cem homens e duzentos índios para auxiliar o capitão-mor. Infelizmente, era tarde demais. O Forte São Jorge foi o primeiro a cair. Não demorou para a grande preocupação que se tinha com esta fortificação enfim ocorrer. Cinco dias depois do atentado, sofrendo bombardeio ininterrupto, mesmo com os parapeitos revestidos com sacos de algodão para amortecer o impacto, as finas muralhas não mais suportaram os canhões de largo calibre. Ruíram no dia primeiro de março.

E, como não havia mais o forte de São Jorge, nem o porto do Recife, e estava o mar cheio de barcos inimigos, era impossível o socorro, sem o qual era inútil qualquer porfia. O Castelo do Mar se rendeu em seguida.

Tudo aquilo que Matias governou e defendeu nos últimos dez anos de sua vida estava totalmente destruído. Ele observava o Porto de Recife em cinzas logo atrás. A sua direita, estava o Forte São Jorge por completo arruinado. E, na sua frente, tomada pelos inimigos, estava a vila de Olinda. Restava-lhe apenas a possibilidade de abandonar esta praça. Retirar-se para o interior da capitania. Deixar para trás a vila, fundada por seu avô, sob o domínio holandês.

A realidade o atingiu de forma fulminante. Lembrou da tocha acesa em suas mãos cujo fogo, dias atrás, utilizou para incendiar o Porto do Recife. Da mesma forma que o fogo da tocha se esvaiu com os ventos da praia, a sua força de vontade, transformava-se agora em cinzas. Com o espírito igualmente arruinado, lançou a ordem final aos seus soldados.

– Temos que abandonar a cidade – ele lamentou.

E assim todos partiram. Abandonaram suas posições. Deixaram para trás aquela costa marinha.

 

***

 

Horas de caminhada depois, Matias ergueu a cabeça ao atravessar um largo portão de madeira para adentrar o interior de um engenho de açúcar. Avistou uma ostentosa casa-grande, com dupla escada que levava à entrada no andar superior. De um lado, estavam os bois com os cabrestos de arado enquanto, do outro, estavam as moedoras de cana com os sacos de açúcar próximos. Logo, os escravos trabalhadores deixaram a senzala. Do interior da casa-grande, veio a dona do engenho. Uma mulher chamada Ana Paes, renomada por ser descrita como a mais bela e bem sucedida do novo continente.

O grito de Calabar guiou o grupo pelas matas, confirmou o local onde chegavam.

– O Engenho Casa Forte está logo a frente!

Dois dias se passaram, sem que Matias conseguisse dormir. Passou a madrugada num quarto escuro, iluminado apenas pela luz que atravessava as frestas da porta e da janela. Observava, com esta tímida luz, a espada que lhe foi entregue por seu pai. Um legado da família Albuquerque que atravessou gerações. Uma arma que combateu em tantas batalhas vitoriosas. Um símbolo que causou temor em inúmeros inimigos dos seus antepassados. Era uma honra inigualável tê-la nas mãos. Tantas vitórias Matias realizou com esta arma na mão. Tantas provações já superou empunhando sua lâmina ao alto. Mas neste dia era tomado pela vergonha de não conseguir honrá-la na batalha.

Ainda sobre uma cama macia, num quarto de paredes de alvenaria, Matias desviou o olhar ao escutar um barulho de ferragens velhas de uma porta se movendo. O som veio de um escravo do engenho que entrava neste quarto com lençóis limpos e um prato de comida nas mãos. A cabeça de Matias ainda latejava tornando difícil qualquer pensamento. O seu corpo estava dolorido em cada junta e tendão. Recordava os acontecimentos anteriores. Tudo parecia um terrível pesadelo. Ele se apoiou na madeira fria da cama para se sentar. Colocou suas pernas fora do leito. E a mão na cabeça dolorida.

– Boa tarde, capitão-mor.

O escravo de pele negra e vestimentas surradas falou ao perceber Matias acordado.

– Está há dois dias está nessa cama, senhor – ele continuou. – Vossa senhoria quer comer alguma coisa?

A voz do escravo aumentou a dor, como um martelo em sua cabeça.

– Não, obrigado. Apenas deixe-me sozinho!

Matias emudeceu imerso em seus pensamentos. O escravo deixou os lençóis limpos que trazia no braço sobre uma estante de madeira. Então, falou.

– Os senhores Pedro e Calabar desejam entrar para falar com o senhor. O que devo dizer a eles?

– Que retornem aos seus distritos – lamentou –  aguardem a resposta de El Rey. A guerra acabou. E nós perdemos.

A vergonha impediu Matias de querer ver qualquer pessoa. O escravo sentiu o pesar na sua voz. Hesitou por um segundo antes de sair. Tentou dizer-lhe algo mas não continuou. Apenas avisou que poderia chamá-lo caso precisasse de algo mais. Matias voltou a se deitar na cama. Desejava dormir. Desligar todo e qualquer pensamento de sua mente, mas isso era impossível. Foram horas angustiantes que passou deitado, sem realizar qualquer ação.

O escravo retornou mais tarde deixando seu almoço no chão. Uma sopa com alguma carne branca no meio. Talvez um frango ou peixe. Não saberia dizer porque nem sequer olhou para o prato. Ele não sentia fome ou vontade de fazer qualquer outra ação. Passou a tarde na escuridão do quarto com janelas fechadas e lampiões apagados.

O local parecia um calabouço, mas a prisão estava na própria mente.

 

***

 

Nesta noite, a porta se abriu novamente. Apesar do que solicitara ao escravo, a voz que logo ouviu era do seu melhor capitão Pedro de Albuquerque Melo, cuja entrada no quarto lhe causou grande reprovação.

– Levante-se, Dom Matias – este grande amigo de batalhas não desanimou ao perceber tal sentimento. – Nós precisamos de sua liderança. Preciso que diga como deveremos proceder agora.

Mesmo ouvindo bem estas palavras, Matias manteve o silêncio. Ficou imóvel em sua cama. Pedro ainda esperou em vão por uma resposta.

– Ficar sozinho dentro de um quarto escuro não resolverá nada – ele retomou a palavra.

– E o que há para resolver, Pedro? – Matias respondeu com rude voz. – A vila de Olinda está perdida e não há nada que possamos fazer.

– Podemos lutar. Ainda temos homens ao nosso dispor.

– Dos cento e sessenta defensores de Olinda, restam-nos apenas vinte. O que espera que façamos com vinte homens contra os milhares holandeses?

– Com vinte homens, eu faria uma formidável resistência e lutaria até o fim – Pedro continuou o brado.  –Apenas muito me surpreendo em ver que não pensa assim.

Matias suspirou pesadamente.

– Não tenho dúvida de que lutaria, Pedro, Sempre foi o mais corajoso de todos, mas volte ao seu distrito.

O mau sentimento do capitão-mor não fez Pedro desistir. Este continuou a tentar animar seu familiar.

– Os líderes dos quinze distritos trarão mais homens para nossas fileiras.

– Homens iguais aos que deixaram desamparados seus postos e colocaram fogo em nossas munições? – Matias o censurou.

Não sem logo ser retrucado.

– Homens que podemos antes preparar para a batalha, em vez de trazê-los, sem conhecimento de como proceder ou como reagir frente ao inimigo.

Pedro queria falar mais. No entanto, apenas ficou mudo, sem saber o que dizer, pois suas habilidades com a palavra não eram tão boas quanto aquelas com a espada. Ainda mais ao ver seu bom amigo tão tomado pela tristeza.

– Acabou, Pedro.

O semblante de ódio surpreendeu seu capitão. Nem mesmo Matias se lembrava de algum dia ter sido tão grosseiro com ele. Pedro apenas se levantou com faces de tristeza por tal sofrimento e palavras duras.

Bateu fortemente a porta em frustração, deixando Matias sozinho novamente no escuro do quarto.

 

***

 

Pouco depois, como o capitão-mor já esperava, foi Calabar quem entrou no quarto para tentar o animar. A porta se abriu trazendo uma grande claridade, pois Calabar trazia em suas mãos um candeeiro aceso cujo fogo fez os olhos de Matias, acostumados com a escuridão, arderem fortemente. Mesmo tentando fechá-los, a claridade atravessava a pele fina de suas pálpebras, o incomodando.

– Matias, por nossa amizade de tantos anos, combata este seu negro sentimento. – Calabar falou. – Não foi para isso que o capitão Temudo e tantos outros se sacrificaram

Matias mal conseguia olhar sua face. Mas ainda assim o respondeu.

– Preferia ter morrido como o capitão Temudo naquele dia. Antes morrer como um bravo do que viver com essa desonra.

Calabar tocou no ombro de Matias e fitou os olhos semi-cerrados, agora mais avermelhados e tristonhos, quando falou:

– Apesar destas palavras, meu bom amigo, fique certo que, se for preciso, eu mesmo me sacrificaria no seu lugar e pela defesa de nossa terra.

Apesar da demonstração fraternal e patriótica de Calabar, a resposta de Matias ao amigo foi o silêncio. Virou o rosto para o chão. E, já durando um bom tempo, Calabar retomava suas palavras para encorajá-lo.

– Reage, Matias! Nunca lhe vi tão magro e abatido antes. Faz três dias que não põe nenhum alimento em sua boca. É duro para mim lhe ver definhando desta forma.

Para Matias, o único conforto nas palavras de Calabar foi saber quão precário era seu estado, pois a idéia da morte lhe parecia mesmo um bom destino agora.

Calabar continuou.

– Eu o conheço como ninguém. Sei que sua honra deseja continuar o combate. Se não pode fazer isso por nossa Olinda perdida, faça por seus companheiros de tantas batalhas passadas. Ou por mim que lhe estimo tanto!

Calabar ainda tentou muito convencer seu amigo, mas Matias apenas continuou a respondê-lo com o silêncio.

– Ou mesmo por El Rey. Ou pelo povo Pernambucano que clama sua restauração.

Calabar se manteve falando por quase uma hora, mas Matias não mais o escutava. A sua mente trilhava outros pensamentos. Em especial, a imagem recorrente do Porto de Recife se esvaindo nas chamas até ser transformado por completo em cinzas.

Estas cinzas se tornaram o símbolo de sua derrota. Da mesma forma que suas mãos iniciaram o fogo que o destruiu, elas mesmas poderiam retirar sua própria vida. Matias sentia como que isso apenas selaria algo que já havia ocorrido, pois se via como num limbo penoso cuja vida já deixara para atrás mas a morte estava ainda para chegar.

– Não falará nada, Matias?

O amigo perguntou após todo um discurso ignorado. Calabar ainda aguardou uma resposta.

Assim como Pedro, deixou o quarto frustrado.

 

***

 

Com o fechar da porta, Matias percebeu que Calabar deixara o candeeiro aceso. Ele observou a vela em seu interior, queimando. Analisou o balançar tremeluzente do fogo por horas. Estava hipnotizando seus olhos e derretendo a cera bem lentamente. Matias apenas tinha a noção da hora por causa do escravo que lhe trazia as refeições. Mesmo que nem sequer tocasse na comida. Logo chegou o jantar. E, algumas horas depois, a ceia. As longas horas da madrugada passaram sem Matias conseguir fechar seus olhos. Tudo o que enxergava era a vela derreter até o fogo se esvair nas cinzas entre a cera liquefeita. Da mesma forma que se esvaiu o Porto do Recife. E agora se esvaía a sua honra.

Quando a porta foi reaberta, Matias soube que havia atravessado a madrugada com a chegada da manhã. Já era o desjejum. Mas não foi o som da velha sandália do bom escravo que escutou desta vez. Em seus ouvidos, ouviu passos mais fortes como aqueles gerados por calçados femininos. E, quando virou o olhar, lá estava Ana Paes, a administradora do Engenho Casa Forte. Ela se aproximou do capitão-mor com elegantes passos. Em seguida, se baixou em frente ao candeeiro, colocando uma nova vela sobre a cera derretida da antiga.

Enquanto a luz foi voltando a brilhar no candeeiro, uma voz suave deixou os lábios carnudos da bela moça ao proferir:

– Acredito que este fogo precisa ser reacendido!

 

 

Vista de Madrid desde a ponte de Segóvia por artista desconhecido (1560)

As Notícias de Longe

Nobreza

5

1º de Março de 1630

Uma alegre melodia ressonava pelos jardins do palácio de El Alcázar. Em meio às verdejantes árvores e coloridas flores da primavera, pelo menos uma dúzia de jovens fidalgos da corte real dançavam e cantarolavam com grande júbilo e entusiasmo. Damas e cavaleiros postavam suas  taças de vinho ao alto e se empanturravam com pães, carnes e peixes. Os amantes já trocavam carícias. Os desimpedidos procuravam seus pares. Todos celebravam a vida no clima bucólico dos bosques serranos da cidade de Madrid.

No epicentro desta animada celebração estava João de Bragança cujos dedos se entrelaçavam nas cordas do um instrumento musical. Repuxava-as para retirar das partituras a bela melodia que incitava todos a comemorar a bela tarde cujo manto azul vívido recobria toda cidade. Muitas das damas, vendo o habilidoso músico regozijar, se aproximaram para melhor escutar as notas que gracejavam o festivo ambiente.

– Não conheço esta cantiga – uma das belas damas falou.

– Também não. De quem é? – Perguntou a outra.

João sorriu. O amigo Mascarenhas, já com uma bela moça envolvida nos seus braços, quem primeiro as respondeu.

– Foi o próprio João quem a compôs.

As damas se surpreenderam. Não deixaram de elogiar este nobre trovador português. Ao fim de sua melodia, Dom João, envaidecido, tomou a palavra às belas damas. Olhava em especial para aquela mais bela que já se insinuava à sua pessoa.

– Acredito que já ouvimos bastantes de minhas composições – o herdeiro de Bragança falou. – Canções mais conhecidas alegrarão o ambiente. Peço sugestões às senhoritas. Deixarei que escolham a próxima canção.

As damas se entreolharam. Já propunham algumas possibilidades.

– Ondas do mar de Vigo – sugeriu uma.

– Dona que eu quero bem – disse outra.

– Que me quereis, Caballero – disse uma terceira.

O grupo continuava a proferir mais sugestões de baladas, em busca do recomeço das musicalidades, quando Mascarenhas lançou uma sugestão.

– Que tal algo de nossas terras, João? Pensei em Nau Catrineta.

João sorriu, consentindo com a escolha do amigo e retocando as cordas de seu instrumento. Cerrou os olhos naquela bela dama. Era uma das que não levara para cama ainda. A troca de olhares luxuriosos entre os dois revelava que era uma situação que não duraria muito tempo.

– Lá vem a nau catrineta, que tem muito o que contar. Ouvirdes agora, senhores, história de pasmar… – João começou assim a mostrar seu talento musical cantando a história do famoso Jorge de Albuquerque, capitão-mor de Pernambuco, que foi atacado por um navio pirata quando retornava ao Reino. Ele revidou o ataque mesmo numa chalupa com sete homens apenas. Acabou poupado pelos piratas por sua bravura, passando meses à deriva no Oceano, perdido, sofrendo de fome e desesperança, ao lado de seus homens.

Assim, tragados pela bela melodia e instigante história, deixaram-se induzir pelo efeito do vinho espanhol e pela animada balada portuguesa.

– Sobe, sobe, marujinho, àquele mastro real. Vê se vês terras de Espanha, as praias de Portugal. – Todos cantarolavam o refrão na maior alegria.

 

***

 

Era mesmo um belo dia em Madrid. Os raios solares refletiam  majestosamente nas janelas de El Alcázar e tornavam as cores da edificação mais vívidas. O Conde-Duque de Olivares, da janela de seu escritório, na Torre Dourada, observava a cidade sob seu mando. Os pensamentos percorriam as péssimas notícias vindo do fronte de batalha marítimo. A armada holandesa cruzou o grande Oceano desde o arquipélago de Cabo Verde até Pernambuco. E conquistou a Vila de Olinda, a cabeça daquela região.

A perda de Pernambuco para os holandeses era terrível para a reputação do Reino. O Conde-Duque precisava planejar o envio de uma armada de socorro. Ele precisava reconquistar as terras ibéricas daquele canto esquecido do mundo. E precisava fazer isso o mais rápido possível.

O bater na porta tirou sua concentração. Um novo mensageiro chegava em seu escritório. Entrou escoltado pela Guarda Real. Afinal, não era um mensageiro qualquer. Vinha de longe. Vinha do Reino do França.

– Excelência – este cumprimentou.

O Conde-Duque de Olivares acenou. Permitiu que entrasse. Recebeu a carta com o selo real da França e a assinatura do representante maior daquele reino: o Cardeal de Richelieu. O conteúdo do documento foi logo exposto pelo próprio mensageiro enquanto o Valido realizava a leitura.

– O Cardeal de Richelieu requisita a presença de Vossa Excelência para iniciar negociações de paz entre os Reinos de França e Espanha na questão de Mantova. Ele acredita que possam chegar a um consenso sobre o assunto.

Era uma notícia realmente explêndida. A França reconhecia a derrota nos campos de batalha italianos. Agora, buscava uma paz. Era a oportunidade da Coroa Ibérica para concentrar os recursos e esforços de guerra no campo de batalha holandês, onde realmente importava.

A parte ruim era ter que se encontrar com o Cardeal de Richelieu para a negociação. O Conde-Duque de Olivares era alguém com muitos inimigos, mas dificilmente sustentava algum sentimento de ódio por alguém. A exceção era o próprio Cardeal de Richelieu. Já sentia náuseas só em escutar esse nome. Sempre esperava o pior da parte dele.

– Diga ao Cardeal que marque o dia e o lugar! Está mais do que na hora de resolvermos essa questão!

No entanto, se tem algo que o Conde-Duque aprendeu nestes últimos dez anos a frente do Reino Ibérico, era que política não é feita com o coração.

Ela é feita com o estômago!

 

***

 

Alguns dias depois, nos bosques vizinhos de El Alcázar, um grupo de jovens amigos se divertiam numa amistosa caçada. As suas montarias atravessavam por entre as árvores de copa cheia. Seguiam a matilha de cães farejadores. Estavam envolvidos no cheiro do solo úmido. Buscavam o tão desejado alvo. Um disparo de mosquete então ecoou.

– Acertei bem no alvo!

As palavras vieram de um dos jovens sobre seu corcel. O mosquete fumegava pelo disparo. Os cães perdigueiros avançavam ao local. Lá, certamente, estaria a raposa que acertou. Este jovem era João de Bragança, herdeiro da principal Casa Ducal das terras portuguesas. O segundo jovem era seu melhor amigo, Dom Antônio Mascarenhas. Este foi quem primeiro aprazou a habilidade do companheiro.

– Belo tiro, João.

Logo todos chegaram no local dos alvoroçados latidos da matilha. E, observando a raposa morta, o terceiro jovem tomou a palavra.

– Parabéns, João. Finalmente ganhou de mim. É um milagre.

Era o jovem Gusmão, herdeiro da Casa Ducal de Medina-Sidônia, o principal ducado das províncias de Andaluzia.

A resposta do herdeiro da Casa de Bragança veio em seguida.

– Do que está falando, Gusmão? Já ganhei várias vezes de ti.

– Não lembro nem um pouco disto. Na verdade, estou até surpreso de o ver com um tiro tão perfeito – disse o nobre de Andaluzia em tom de brincadeira.

João aproveitou para retomar o tópico de uma conversa anterior.

– Ora, bastou imaginar a cabeça do Conde-Duque de Olivares na raposa. Não tinha como errar.

O jovem Gusmão soltou uma gargalhada.

– Mesmo porque não duvido que o Conde-Duque logo começará a cobrar para podermos caçar nestas florestas – por fim, completou.

Não esperando o novo comentário de Mascarenhas, sua gargalhadas se descontrolou com as palavras seguintes.

– Eu não duvido é o Conde-Duque começar a cobrar impostos às próprias raposas para serem caçadas.

Os risos se perpetuaram altos e intensos.

– E tudo isso para financiar uma guerra inútil no norte italiano – Gusmão continuou seu praguejar. – É incrível como o Reino tem se envolvido em cada problema desnecessário.

– Nem comece a falar no nome de Mantova aqui – João interrompeu. – Por pouco, eu não me envolvi nessa situação toda. Meu pai fez de tudo para arranjar um casamento com a herdeira de lá. A coisa só não deu certo por ela já estar em negociação com o tal Duque francês que começou toda essa confusão.

O amigo Mascarenhas inferiu a tréplica.

– Pelo que eu soube, foi o Conde-Duque de Olivares quem conspirou contra essa sua união.

– Deixa de teorias conspiratórias, Mascarenhas. Meu pai também tentou me casar com as filhas dos Duques de Parma, Modena e Florença. Tentou até com as de Sabóia, que já tinham uma certa idade.

– E todas essas tentativas de união, sem razão aparente, não sucederam. Ora, João, por acaso não consegue enxergar a mão do Conde-Duque para sabotar as negociações?

Neste momento, João já terminara de amarrar o fruto de sua caçada nas estribeiras de sua montaria. Já pronto para partir, o jovem Gusmão, que escutava a conversa dos amigos, interrompeu a discussão.

– Então, Victor Amadeus de Sabóia quase se tornou seu cunhado?

– Sim – João respondeu. – Não apenas me livrei de uma guerra, como também de uma quarentona feia e gorda.

– E de conviver com o homem mais arrogante que já conheci – Gusmão acrescentou. – Onde seu pai estava com a cabeça?

Não houve tempo para João responder, Mascarenhas tomou a palavras em defesa do atual Duque de Bragança.

– Tenho certeza que o velho Dom Teodósio tinha seus motivos.

Nesse momento, a discussão entre o grupo de amigos foi interrompida. Antes que qualquer outro comentário pudesse ser feito, o galopar urgente de um cavalo foi ouvido por entre as árvores do bosque. Com olhos curiosos, os três buscaram-no nos horizontes florestais. Não demorou muito para um cavaleiro se evidenciar. Era alguém que João logo reconheceu.

Era Eduardo de Bragança, seu irmão. Apenas um ano mais novo que o herdeiro da Casa Ducal portuguesa, a visão do jovem rapaz trouxe grande surpresa. Mais obediente ao orgulhoso pai e mais afeito aos estudos, era certo que Eduardo não viera participar de alguma festividade na corte castelhana.

– Eduardo? O que faz aqui? – João logo o inquiriu.

O herdeiro de Bragança tinha temores quanto ao motivo da vinda de Eduardo a Madrid. Estes temores logo se tornariam reais. O irmão veio trazer más notícias do paço de Bragança, sediado na cidade de Vila Viçosa. Notícias tão tristes que tiveram que ser proferidas sem mais delongas.

– É nosso pai, João. A sua saúde piorou muito nas últimas semanas. O médico disse que ele tem poucos dias de vida.

 

 

Igreja da Matriz por Frans Post (1612-1680)

 

 

 

 

 

 

 

A Recepção aos Conselheiros

Holandeses

8

3 de Março de 1630

– Que merda, Spiessen! O que houve? – Richshoffer, perguntou ao amigo através de uma abertura na porta de madeira que os separava. Tinha cerca de um palmo de largura e fenestrada com grades metálicas. Só permitia que um visualizasse a face do outro. O interior era de pedras negro-acinzentadas onde havia duas camas de madeira velha, sem colchão algum. Era a cela onde Spiessen se apertava, desconfortavelmente, com outros prisioneiros.

O local era um mosteiro antes da invasão, mas o coronel Waerdenburch o transformou num calabouço.

– Tivemos um grande azar – o amigo explicou. – Estávamos nos deliciando com o vinho confiscado quando o próprio coronel e alguns altos oficiais entraram para os festejos da vitória. Fomos pegos em flagrante!

– Todos nós sabíamos que isso não ia dar certo – Richshoffer o censurou. – Estava indo quase todas as noites lá.

– Mas valeu a pena, Strasburguês – Spiessen soltou um risinho. – Ninguém faz vinhos tão gostosos e tão fortes quanto os espanhóis.

– Só diz isso por não ter sido punido ainda. Esqueceu que o coronel avisou que os infratores serão punidos com a morte? Ou pensa que os desenhos de forcas nas portas das adegas eram apenas para a decoração?

– Calma, Strasburguês. Tudo ficará bem.

– Calma? – Richshoffer exclamou. – Só Deus sabes como pode ter tanta calma nessa hora.

O amigo aprisionado se afastou da pequena abertura gradeada que o separava de Richshoffer. Deixou a luz do corredor entrar no aposento. Lá estavam os outros três infratores. Entre eles, um belo mancebo cuja cabeça erguida e nariz empinado revelava sua herança nobre, mesmo estando em tão desonrosa situação. Era o sentinela daquela noite.

– Aquele é o filho do Barão de Leipzig – Spiessen continuou a explicar. – O coronel nunca teria coragem de condenar à morte alguém da nobreza por algo tão banal. E sei bem que ele também não mancharia sua fama de justo, condenando apenas nós três e deixando-o livre.

– Espero que tenha razão.

Richshoffer deixou escapar um suspiro de preocupação. Era algo que não havia no semblante de Spiessen, cujo dedo indicador apontou para a cela à frente ao lançar o novo comentário.

– Além do mais, olha ali.

Ele apontou para cela também de abertura gradeada à frente. Todos já haviam percebido um choro vindo do local.

– Olha que coisa mais linda – Spiessen continuou.

O Strasburguês olhou através dessa outra abertura gradeada. Viu uma pequena índia de cabelos longos negros que desciam abaixo da cintura, mas que não conseguiam esconder seu corpo nu, esbelto e belo. Nem seus firmes seios. Muito menos, suas partes íntimas. Era sua face tão exótica, e estranhamente linda, que tomava toda a atenção do amigo.

Richshoffer logo a reconheceu.

– Essa é a indígena que prendemos no dia da conquista.

Spiessen escutou estas palavras. Ainda assim, não conseguia tirar os olhos da bela selvagem apesar da limitada visão pelas aberturas gradeadas das duas portas que os apartavam.

– Que olhar é esse, Spiessen? – Richshoffer comentou em tom de brincadeira. – Parece tomado por algum tipo de feitiçaria…

Este manteve o silêncio. Ignorou o comentário.

– Não é feitiçaria – disse um dos prisioneiros logo atrás, provavelmente, o filho do Barão de Leipzig. – É a face de quem não vê uma mulher nua há quase um ano!

Richshoffer não conteve a risada.

Spiessen, no entanto, continuou a observar aquela a bela criatura de Deus, condoído por seus prantos e fascinado por seus contornos.

 

***

 

Antes que tentasse fazer algo para chamar a atenção do amigo encantado, o soldado de Strasburgo ouviu alguém lhe chamar pelo nome. Era a voz do outro amigo, Haus, que gritou esbaforido.

– Richie! Estou lhe procurando há horas!

– Calma, Haus – Richshoffer respondeu, após atravessar os escuros corredores. – Parece um tanto impaciente.

Havia uma boa razão para sua falta de paciência. Este a externou, com uma pergunta igualmente ansiosa.

– Sabe bem que estou. Por isso, diga-me logo, diga-me se falou com o senhor Steyn-Callenfels?

Richshoffer abriu um sorriso.

– Claro que sim, meu bom amigo, eu falei com ele.

– E então?

– Ele disse: sim!

– Deixa de brincadeira. É sério?

– É sério sim – o sorriso do Strasburguês se alargou. –  Ele deixou que eu levasse algum amigo para a Recepção. Nós dois estamos convidados!

Os saltos de alegria e os abraços no amigo Richshoffer ocorriam em razão do primeiro grande evento em Zuikerland.

Os três conselheiros da Companhia das Índias Ocidentais chegaram com grande número de civis, homens e mulheres, que colonizariam e investiriam no Novo Mundo. Um grande banquete de boas-vindas aos recém-chegados foi assim organizado e entre os convidados estava o senhor Strausskicher e sua filha, com a qual Haus ainda não conseguira criar a oportunidade de a encontrar.

Embora nenhum soldado estivesse convidado, graças ao tenente-coronel Steyn-Callenfels, os dois amigos eram as raras exceções desta regra.

Era a chance de Haus encontrar sua bela Amália.

 

***

 

Os dois amigos colocaram suas melhores roupas em preparação para a recepção de boas vindas. Estava organizada igreja matriz de Olinda, local com uma magnífica visão de toda conquista holandesa. Ela incluía as ruínas do Forte São Jorge, os arrecifes do conquistado Castelo do Mar, o Porto do Recife com seus galpões incendiados e a abandonada ilha verdejante de Antônio Vaz, envolta pelas águas do Rio Capibaribe.

Os dois amigos atravessaram a rua principal de Olinda, onde um dos três franceses capturados na tentativa de deserção tinha sua punição à mostra. Era o líder dos traidores, que fora condenado pelo Conselho de Guerra. Primeiro, cortaram-lhe dois dedos e pregaram-lhe nas costas uma bandeirinha branca com a palavra Verrader, que significa traidor em holandês. Em seguida, foi açoitado e enforcado em praça pública. Com as suas quatro trancinhas pretas, que trazia dos dois lados da cabeça, amarradas com fitas de seda colorida, apresentava um aspecto ridículo ainda que lastimoso.

Mal atravessaram a praça onde estava o morto, ambos escutaram o som de instrumentais que soava a melodia de grandes compositores da renascença holandesa. O grau de civilidade na Igreja Matriz contrastava com a barbaridade dos últimos dias. Os amigos então aceitaram taças do vinho oferecido. Pegaram alguns doces nas mesas próximas. Analisaram o ambiente.

Haus já levantava a cabeça à procura da sua amada.

– Richie, meu amigo, agradeço por ter me trazido, mas acredito que não preciso explicar porque lhe abandonarei agora.

– Encontrou Amália?

– Sim. Olha ela ali.

Lá estava a bela loira de olhos azuis, em vestido de cores claras e detalhes laranjas. Era a senhorita Amália Strausskicher. O desejo do rapaz se ergueu de imediato. Já haviam se passado oito meses desde a última vez que a viu.

– Vá logo lá, amigo! Acaba com sua saudade!

Nem Richshoffer terminou a frase, Haus já percorria o salão.

 

***

 

O soldado alemão ficou sozinho por um tempo. Continuou a dar bebericadas no seu vinho e comer algumas frutinhas servidas. Ouviu as músicas que se iniciavam com uma linha melodíca, que era sobreposta sucessivamente por outra, o que acrescentava textura e complexidade à canção. Enfim, os conjuto melódico atingiu seu clímax épico, no melhor estilo de fuga. Tudo era percebido pelo Strasburguês, cujo conhecimento era capaz de discernir a música da época, que passava do Renascimento para o Barroco.

O comtemplar músical foi logo interrompido, pois o soldado escutou a voz do tenente-coronel Steyn-Callenfels lhe chamar a atenção.

– Está aproveitando a festa?

O tentente-coronel vestia seu melhor uniforme militar, que guardava para as melhores situações. Era de algodão vinhoso, com correames de couro negro, que vestia por cima de uma camisa branca de larga gola.

– Estou sim, senhor – o soldado respondeu. – Não imaginava tantos comes e bebes. Estou impressionado com tamanha abundância de víveres trazida pelos Conselheiros.

O oficial sorriu timidamente.

– Aproveite, garoto.

Era um sorriso sem o brilho habitual, com o tenente-coronel não conseguindo esconder a apreensão, nem escondendo os motivos dela.

– Infelizmente, nada disto foi trazido pelos Conselheiros, são na verdade os últimos mantimentos em nossos armazéns.

– Não entendo, senhor – Richshoffer questionou suas palavras.

– Os conselheiros nem sequer conseguiram chegar na ilha de São Cristovão para abastecer. O maldito capitão Fadrique de Toledo a conquistou alguns dias atrás.

O soldado arregalou os olhos. Eram palavras que o preocuparam imensamente. Não obstante, Steyn-Callenfels continuou.

– O Coronel já enviou os navios para relatar nossa vitória na Holanda e solicitar socorro. O capitão Von Sckoppe, o guia Papa-Robalos e outros homens de grande valor foram enviados nesta missão.

– Tentarei não me desesperar – o soldado murmurou.

Richshoffer percebeu nesse momento que o tenente-coronel não caminhava sozinho no salão. Outra pessoa o acompanhava. Era um homem de meia-idade, com ares de soldado velho, daqueles que não participam de uma batalha há anos. Era alto e gordo. Tinha olhos cinzas e uma larga calva. A aparência era o tempo todo cansada. Era de tez branca, embora esta parecesse especialmente maltratada pelo sol, bem mais que o esperado para um holandês. Também não era alguém que o Strasburguês já vira antes no exército, nem nos galeões desde a Holanda, nem nos quase vinte dias desde que chegou em Zuikerland.

O tenente-coronel fez questão de apresentá-lo, antes que o soldado o indagasse sobre o homem.

– Richshoffer, quero que conheça Adriaen Verdonck.

Estas palavras fizeram o homem gordo e calvo estender a mão para cumprimentar o soldado. O tenente coronel continuou as apresentações.

– É um holandês, natural da província de Brabante, mas o encontramos no dia do desembarque residindo aqui em Zuikerland há muitos anos.

A curiosidade do soldado se atiçou.

– O senhor residia aqui em Zuikerland?

– Este continente é meu lar há muitos anos – o homem respondeu. – Aguardei por muito tempo a chegada desta Armada, por isso, farei todo o possível para que o general Lonke e o coronel Waerdenburch consigam o feito de trazer os ares de uma Nova Holanda para cá.

– Já está fazendo – o tenente-coronel Steyn-Callenfels o corrigiu. – O seu relatório é fundamental, não só sobre Zuikerland, mas também sobre as capitanias espanholas ao norte: Itamaracá, Paraíba e Rio Grande. Será de grande valia para nossos planos futuros.

– Fico feliz em ajudar. – Verdonck retomou.

Richshoffer se animou com os possíveis planos de ataque às capitanias do norte.

– Com sua ajuda, Verdonck, as capitanias do norte serão tomadas. Seus governadores fugirão tão assustados como fez o governador de Zuikerland: o tal de Albuquerque.

A mesma perspectiva animadora não surgia na face de Verdonck.

– Devo dizer, Richshoffer, que conheci bem Matias de Albuquerque nestes anos todos em que vivi aqui. É um homem de grande valor e não acredito que esta será a última vez que ouviremos falar dele.

O gordo brabantino tomou um gole do seu vinho.

– Tenho certeza que Matias de Albuquerque está se reorganizando e preparando um contra-ataque neste exato minuto!

 

***

 

Os três conversaram por um longo tempo. O tenente-coronel Callenfels contou dos planos de exploração à ilha de Antônio Vaz, situada em frente ao porto do Recife, da qual estava separada somente por um rio. O brabantino Adriaen Verdonck contou que havia só um convento nessa ilha, mas sugeriu ser possível e conveniente transformar o local numa fortificação, com quatro baluartes.

O assunto seguinte relembrou Richshoffer da cena que vira antes de chegar à recepção dos Comissários. Lembrou do francês enforcado em praça pública. O tenente coronel contou das discordâncias do coronel Waedenburch com o capitão das companhias francesas, Charles de Toulon, por sua dura punição, mas o brabantino louvou sua severidade, tão necessária para um líder.

Essa discussão era a oportunidade perfeita para o Strasburguês perguntar sobre o destino do seu amigo Spiessen.

– O coronel Waerdenburch condenará mesmo à morte todos os quatro homens que invadiram as adegas?

– Certamente que não – Steyn-Callenfels respondeu de imediato. – O senhor coronel não teria coragem de matar o filho do Barão de Leipzig. De forma alguma.

O soldado respirou aliviado.

– Foi o que eu imaginei.

Infelizmente, a preocupação ressurgiu com as palavras seguintes do tenente-coronel.

– Mas não se pode deixar tal crime sem punição. Ainda mais agora que prevemos escassez de alimentos. O coronel tem que manter sua autoridade, por isso, se decidiu realizar um sorteio. Amanhã, apenas um soldado daquele grupo de ladrões, será enforcado em praça pública

– Entendo – o soldado transbordou preocupação pelo amigo.

 

***

 

Enquanto isso, do lado de fora da recepção, um casal apaixonado atravessava as ruas de terra batida de Olinda. Os risos deixavam suas bocas de forma espontânea. Era impossível segurar a felicidade. Ambos consumiam todo o desejo reprimido de tantos meses separados pelo grande oceano.

– Oh, Deus! Como eu senti falta deste corpo!

A bela Amália beijava Haus no pescoço e despia o peito amado do uniforme militar.

Um gemido de prazer deixou os lábios do homem.

– Hmmm… – ela respondeu no mesmo tom. – Não tanto quanto senti a falta do seu.

Ambos tentaram dar passos adiante na direção da morada reservada aos Strausskicher. Com a recepção aos conselheiros no seu momento mais alto, os pais de Amália ainda estariam lá. E a casa estaria vazia. Era o plano perfeito.

No entanto, o casal nem sequer conseguiu cruzar a primeira travessa. Haus já colocava a bela Amália contra a parede. Pressionando seu ventre no dela. Os lábios se tocavam. As mãos percorriam seu corpo curvilíneo. A bela saia rendada se levantou. Os beijos nunca estiveram mais cheios de paixão.

– Oh! – Ela gemeu ao sentir algo aquecer seu interior, entrando em seu âmago feminino.

A enlevação fez o desejo de Haus enlouquecer. Era o primeiro de muitos sons que ressonavam na deserta rua. Vagidos e mais gemidos. Sons que repetiam-se intensamente. De forma, incrivelmente libertina e magnificamente luxuriosa. O calor tornava-se mais intenso a cada segundo. Enfim, um arroubo de êxtase transbordou. Foi impossível conter a discrição.

O abraço libidinoso, tornou-se acolhedor. Minutos ofegantes seguiram. Uma respiração pesada os impedia de falar e compartilhar os sentimentos. Amália tivera as forças drenadas. Apenas conseguiu deitar a cabeça no peito do amado. E ouvir, recostada, o palpitar do seu coração.

Foi Haus o primeiro a vencer essas sensações arrebatadoras.

– Quero estar sempre do seu lado, Amália!

Em seguida, beijou-a novamente. Não conseguiu. Algo inesperado aconteceu. Em meio a este beijo, um gosto salgado atingiu os lábios de Haus. Ele afastou seu rosto, percebendo, na face cabisbaixa da moça, lágrimas descendo por suas bochechas rosadas.

– O que houve, mijn lieve? Porque chora?

Ela hesitou por um momento. Parecia não querer falar sobre o assunto.

– Oh, Haus…

– Diga-me, por favor!

Amália balbuciou sílabas em seu choroso soluçar, mas as palavras pareciam não querer deixar seus lábios. Demorou até enfim vencer a tamanha tristeza que a consumia. Quando o conseguiu, foi a vez de Haus deixar lágrimas encharcarem sua face, pois ela assim falava em balbucios:

– Papai me disse a razão de virmos todos para cá. Ele disse que prometeu, ao conselheiro Serooskerken, minha mão em casamento.

 

 

Engenho de Pernambuco por Frans Post (1612-1680)

 

A Casa Forte

Brasilianos

6

4 de Março de 1630

Matias de Albuquerque olhava os grossos lábios da bela Ana Paes tentando evitar seus olhos. O capitão-mor nunca a conhecera pessoalmente, mas a jovem excedia qualquer apresentação. Sua fama já percorria toda Pernambuco tanto por sua grande riqueza como dona do Engenho Casa Forte quanto por sua beleza indescritível. O capitão-mor deveria agradecê-la por o ter acolhido neste engenho e fornecido abrigo e alimento neste momento obscuro. No entanto, este apenas desejava ficar sozinho. Assim virou seu rosto contra a parede em desaprovação à chegada da mulher e em vergonha por seu fracasso.

– Bom dia, Dom Matias – ela interrompeu seus pensamentos.

Ele manteve o silêncio.

– Acredito que desejará saber que os líderes dos quinze distritos pernambucanos retornaram para seus povoados – ela tentou continuar, mas o capitão-mor interrompeu suas palavras.

– Eles fizeram o que eu mandei – falou em monocórdia voz. – Hoje também deixarei este lugar. Deixarei Pernambuco.

–  Eles não partiram para desistir – Ana Paes o interrompeu. – Eles prometeram trazer mais socorro, mais forças para lutar contra o invasor. Todos clamam a restauração de Pernambuco e esperam sua liderança nesta causa.

– Eles perdem seu tempo – Matias respondeu secamente. – Retornarei a São Salvador e esperarei as ordens de El Rey para saber como proceder.

A mulher, até então calma, ouvindo a teimosia de Matias, acresceu sua figura. Elevou a voz para lhe falar.

– Então, ficará apenas sentado, esperando que alguém do outro lado do oceano resolva os seus problemas.

Ouvindo o insolente comentário, Matias ergueu sua cabeça e assim pôde ver com detalhes o rosto delicado de Ana Paes. Era delicado demais para alguém de tamanho sucesso nas terras do Novo, com sua alva tez, olhos verdes, ricos cabelos castanhos escuros e proeminentes lábios carnudos. Não detinha nem vinte anos de idade.

Mas Matias mal prestou atenção em quão linda era a face de Ana Paes. Tudo o que permeava sua mente eram as palavras proferidas por ela.

– É a coisa mais sensata a fazer – ele respondeu.

– Mas não posso aceitar que desista agora, Dom Matias. Caso contrário, os holandeses conquistarão esta capitania por completo.

– Eles já a conquistaram – ele falou a esnobando.

– Não, não conquistaram! – Ela elevou ainda mais sua voz. – Eu ainda estou aqui assim como os outros senhores de engenho e também os moradores dos quinze distritos que logo retornarão. Assim como seus companheiros de batalha que estão do lado de fora desta porta. E, se tem algo que eu entendo é que, mesmo quando tudo está perdido, deve-se reerguer novamente. E lutar. Ainda mais sua pessoa, Dom Matias, que é nossa maior esperança.

O capitão-mor olhou para a tão inocente moça, tão jovem que nem deveria saber do que estava falando. Era quase uma adolescente.

– Acredita mesmo entender o que estou sentindo? Que sabe o que é perder tudo?

Ele continuou a retrucá-la severamente, erguendo seu corpo da cabeceira da cama e elevando o tom de voz como que a ensinando sobre as verdades da vida.

– Eu falhei com minha responsabilidade e com meu povo. O que me resta são apenas glórias passadas, já esquecidas por muitos. Quantos morreram por minha causa? Quantos acreditaram em mim? E ainda assim os holandeses nos venceram! Não me venha com palavras infantis, nem tente entender o que estou sentindo.

Matias esperava que Ana Paes fosse deixar estes aposentos por sua raiva e falta de educação. Ou que seria expulso do engenho com todas as suas tropas. Era algo que ele sabia bem merecer, pois, nos últimos três dias, fora nada além de um parasita, um estorvo e um perigo tanto para Ana Paes quanto para todos do seu engenho.

Ana Paes se levantou de seu assento, fitando-o bem dentro dos seus olhos com as mesmas faces de ódio e sofrimento que ele acabara de externar.

– Saiba, Dom Matias, que eu entendo a dor da perda muito mais do que poderia imaginar ou do quanto eu gostaria de já tê-la sentido.

Os olhos de Ana Paes umedeceram, enquanto ela engolia seco algo preso na garganta, antes de proferir as palavras seguintes:

–  Pois eu sou, ou melhor, era a esposa do soldado Pero Correia da Silva.

Ao fim da frase, a moça mal conseguia segurar as lágrimas. Foi a vez de Matias engolir seco, lembrando daquele soldado no forte São Jorge que confortou nos últimos momentos de sua vida.

– E como pensa que me tornei a dona deste engenho? Meu pai, o herdeiro desta fazenda, morreu durante o desembarque em São Salvador na primeira invasão holandesa há cinco anos atrás.

– Eu sinto muito – o capitão-mor tartamudeou. – Não fazia idéia.

– Não tenho nem vinte anos e já sou viúva e órfã de pai. Então não me venha falar que não entendo o que é perder tudo, pois eu já sofri muito da cota de dor imposta por Deus pela perda de entes queridos!

Matias, balbuciante, sem saber o que dizer, procurava palavras para responder esta mulher. Apenas lembrou das últimas palavras daquele bom soldado no Forte São Jorge.

– Eu sinto muito, Ana. Seu esposo, Pero Correia da Silva, era um bravo soldado. Estive com ele pouco antes de morrer. Ele me pediu para dizer que lhe amava muito.

Ana Paes interrompeu com a tristeza se revelando mais intensa.

– Não é algo que precisasse ser dito, pois conhecia o amor de meu esposo tanto quanto ele conhecia o meu.

Os olhos avermelhados e condoídos de Ana Paes não mais conseguiram conter as lágrimas. Ela apenas pôde enxugá-las com as mãos enquanto desciam em sua face e sorver as que encharcavam suas narinas. O capitão-mor percebeu que não era o único com dolorido coração, por isso, apenas deixou Ana Paes continuar seu desabafo, sentindo o peso de suas palavras.

– O mesmo ódio em seu peito contra os invasores, é dezenas de vezes maior dentro do meu, Dom Matias. O mesmo vazio. A mesma dor. Apertando-me internamente. Foram tão poucos meses desde que me casei, pensei que seria eterno.

Ana enxugou seu rosto, olhou em silêncio para o alto, recompondo-se de sua tristeza. Apenas segundos depois retomou suas palavras.

– Não posso deixar que o único homem capaz de derrotar os assassinos de meu marido e do meu pai fique se remoendo numa cama. Esperando a resposta de um Rei. Os holandeses devem pagar! É nosso dever evitar que tomem nossas terras! E, se apenas Matias de Albuquerque pode fazer isso, eu lhe suplico que o faça.

– Espera muito de mim, Ana – foi a desconsolada resposta de Matias. – De que adianta levantar se já fui derrotado por este mesmo inimigo. Ainda mais agora que mal consigo pensar direito ou ter forças para qualquer outra coisa.

– Está errado, Matias. Esta não é a primeira vez que Deus me maltrata desta forma. Quando Ele levou meu pai, eu aprendi a conviver com todos esses maus sentimentos. E transformá-los em algo produtivo. Eu era uma criança quando me vi obrigada a tomar conta, sozinha, do engenho de minha família. Hoje, o Engenho Casa Forte é o mais próspero de toda Pernambuco. E o mesmo deve ser feito por Pernambuco.

Enquanto olhava o solo cabisbaixo, envergonhado pela forma como tratou Ana Paes, Matias sentiu um toque acolhedor entre seus dedos. Eram as mãos da jovem mulher que seguravam as suas, tocando-as com um calor hospitaleiro e com uma tez tão suave quanto flocos de algodão. Um gesto de amizade que o fez erguer a cabeça outra vez.

Ana Paes mirou nos olhos semi-cerrados de Matias, desta vez com semblantes dóceis e amigáveis, trazendo palavras de esperança:

– Meu marido lhe tinha total confiança. E eu também tenho. Da mesma forma que antes eu renasci do meu sofrimento como alguém mais forte, peço que tente fazer o mesmo. Sua liderança é nossa única esperança para livrar esta terra destes malditos invasores, para honrar meu amado e também o nosso povo. Tem a capacidade de fazer por Olinda o que eu fiz pelo meu engenho. Tomar conta. Reerguer. E torná-lo ainda melhor.

O silêncio permeou entre os dois por longos momentos antes de Matias tentar respondê-la com algo do turbilhão confuso em sua mente. A desesperança ainda estava estampada em sua face. Parecia duvidar destas palavras.

– Mas Ana… – ele tentou falar.

No entanto, antes que qualquer resposta pudesse ser proferida, Ana Paes colocou os seus tão delicados dedos sobre os lábios de Matias, impedindo-o de continuar.

– Não fala nada. Apenas revolve essas palavras em sua mente. Toma o tempo necessário para se recuperar, pois o tempo será o seu maior aliado, assim como será o meu. Outra vez.

Enfim Ana Paes apertou mais forte as suas mãos, as soltando em seguida. Caminhou através dos aposentos, se postando entre o capitão-mor e a espada que estava ao lado da cama. Tocou-a suavemente. Passou os delicados dedos por sua lâmina. Então falou.

– A sua pessoa, Matias é, por decreto de El Rey e pela admiração do povo pernambucano, o defensor destas terras. Então age como tal!

O capitão-mor fitou a espada dos seus ancestrais, ali, esperando por novas glórias para que voltasse a brilhar tão reluzente quanto antes. Sentiu-se egoísta. Os seus problemas pareciam tão pequenos ao lembrar tudo o que aquela moça já sofrera. Sentiu-se fraco. A esperança de Ana Paes parecia pedir pouco ao se comparar tudo o que ela já enfrentou.

O capitão-mor manteve a cabeça erguida enquanto observava Ana Paes deixar os aposentos em seu elegante vestido de cores brancas e azuis enquanto seus cabelos escuros ondulavam sobre suas costas num balançar hipnotizante. A porta se fechou com sua saída. Não sem antes ela dizer:

– Tenho certeza, Matias de Albuquerque, que o homem, por quem meu esposo detinha tanta admiração e por quem sacrificou a própria vida, ainda está dentro de ti.

 

***

 

Com o fechar suave na porta, o capitão-mor percebeu que estava sozinho novamente no quarto. Enquanto colocava o alimento em sua boca pela primeira vez em três dias, observava a vela que Ana Paes trouxera. Esta vela nova estava erguida sobre a cera derretida da anterior. O seu fogo era forte e bom, sendo capaz de iluminar todo o quarto. Essa imagem o lembrou mais uma vez dos armazéns do Recife, destruídos para evitar que o inimigo viesse a se tornar mais poderoso.

Lembrou das palavras da bela Ana Paes. Ela conseguiu erguer seu engenho mesmo quando ninguém acreditava nela. O fogo deste candeeiro pôde ser reacendido mais forte do que o anterior. O Porto de Recife pode ser reconstruído de suas cinzas. E, se tudo isso era possível, Matias poderia se reerguer da sua ruína e se tornar mais forte. Ele não podia deixar que a morte de seus soldados na batalha por Olinda fosse vão. Foi com esses pensamentos que segurou o cabo de sua espada, cujo o couro que o envolvia, aqueceu sua mão, de forma acolhedora e indulgente.

Depois se levantou da cama, caminhando em direção a janela do quarto. Destrancou a fechadura. E abriu-as em seguida. O brilho solar arejou o ambiente, aquecendo seu corpo e iluminando cada canto do quarto. Ele mal lembrava o quão revigorante era a luz de um novo dia. A medida que seus olhos se acostumavam com a grande claridade, ele foi conseguindo ver os campos verdejantes do engenho, as largas árvores abundantes em frutos e as ostentosas plantações de cana de açúcar que desapareciam além do horizonte.

Após alguns minutos divagando sobre sua missão, em frente a bucólica paisagem do engenho, enfim segurou a maçaneta metálica da porta do quarto. Hesitou por um minuto enquanto sentia a sensação gelada do metal irradiar para sua mão. Ele nem percebeu o momento em que surgiu a coragem para enfim abri-la. Foi como se tivesse se aberto sozinha, pois apenas percebeu que isto acontecera quando ouviu o ranger das dobradiças pouco lubrificadas.

Lá estavam o velho Gama e Calabar sentados na longa mesa de madeira bem-trabalhada logo na sua frente, circundados com meia dúzia de seus melhores homens. Ana Paes estava ao fundo, orientando uma das escravas na preparação de alguma bebida. E, ao lado da porta, Pedro estava percorrendo, em círculos, o ambiente por sua grande preocupação.

Quando ouviram o ranger das dobradiças, todos voltaram suas faces de surpresa para Matias, com olhos hesitantes sem saber o que dizer e esperando compreender o que seu capitão-mor tinha em mente naquele instante. Os olhos de Matias estavam fixos em Ana Paes, ao fundo deste cenário, pois percebeu que ela mostrava um grande sorriso no seu belo rosto. Depois, fitou cada um de seus companheiros de batalha que aguardavam hesitantes sua voz.

– Espero que todos tenham descansado bastante – então falou – , pois está na hora de contra-atacarmos!

 

 

Parte II

 

 

Selva tropical por Johann Moritz Rugendas (1802-1858)

 

A Guerra de Emboscada

Holandeses

1

14 de Março de 1630

Era uma escura alvorada. Chovia fortemente. Nem mesmo um raio solar atravessava as pesadas nuvens. As gotas d’águas escorriam pelos galhos na mata que mais pareciam emaranhados de fios como uma teia de aranha escondendo os perigos a frente pronta para agarrar uma presa incauta. Tudo era estranho. Os ventos assoviavam gélidos timbres. As toadas dos pingos no solo ecoavam. Um trovão ao longe fez arder a espinha do grupo de homens que ali se aventuravam. Qualquer coisa poderia acontecer a cada novo passo em meio a escuridão de terras tão desconhecidas.

Era a primeira vez que os holandeses cruzavam o rio Beberibe, avançando na assustadora mata. Era um grupo de seiscentos soldados, sob o comando do tenente-coronel Van Der Elst, desbravando caminhos estranhos, nunca antes vistos por estes olhos. Tinham o objetivo de encontrar engenhos desejosos de se unir à bandeira holandesa ou pilhar aqueles que a rejeitassem. Já haviam percorrido uma légua de distância desde a vila de Olinda. E, após a longa caminhada, descansavam todos juntos, o que lhes davam lânguida sensação de segurança.

Neste cenário negro, uma conversa de quatro amigos foi interrompida por um abrupto levantar de cabeça.

– Que barulho foi esse?

Um dos soldados virou a face para esquerda, com olhos arregalados, procurando algo na mata.

Escutei algo estranho – ele se aterrorizava.

– Acalme-se, Johannes – outro o admoestou. – Deve ser um macaco pulando nesses galhos.

O terceiro questionou.

– Ou um daqueles ratos gigantes de cabeça grande. Como é que os nativos o chamam mesmo?

– Capavera… Caipevara… ou algo parecido… – o segundo respondeu.

O assustado soldado Johannes, quem havia sobressaltado, manteve o semblante apreensivo. Continuou a procurar vultos na mata.

– Estou com um mal pressentimento.

Nesse momento, como nos contos de terror, os medos do soldado pareceram se tornar reais. Um grito desesperado ecoou ao lado, num estertor de voz que fez o pavor escalar a espinha do soldado. Sua face empalideceu. A mão tocou o mosquete. Os olhos se abriram. Os dedos tremiam como nunca, quase impedindo-o de elevar a arma. E, ao olhar para o lado, viu uma cena que não poderia imaginar.

Para sua surpresa, era a cena dos seus camaradas aos prantos de tanto rir. Era Hermann gargalhando alto e exagerado enquanto os outros dois soldados que dividiam a mesma sentinela nesta fria noite, Jost e Sommers, o acompanhavam da mesma forma.

Ao perceber que se tratava de uma brincadeira, Johannes se encolerizou.

– Isso não tem graça.

Os risos continuaram. Só se encerraram quando Johannes se levantou chateado, deixando a roda de amigos.

– Calma, Johannes. Foi só uma brincadeira.

Antes terminar suas palavras, outra vez, Hermann pareceu querer repetir a brincadeira. Ele repetiu o mesmo urro desesperado de dor. Dessa vez, pareceu gritar ainda mais alto que da primeira vez.

A nova brincadeira fez Johannes se virar, enraivecido.

– Já disse para parar!…

O praguejar não se completou. Ele observou algo estranho no amigo. Estava com olhos inertes, arregalados. As mãos tentavam alcançar o abdômen. Lá, estava a ponta de uma flecha lhe atravessando o estômago.

Uma tosse de suas entranhas cuspiu sangue, que salpicou por toda a face de Johannes.

– Ataque inimigo! – Os gritos do soldado Sommers percorream o acampamento. – Temos que soar o alarme agora!

Infelizmente, estas foram suas últimas palavras, pois as gotas d’água não eram mais as únicas coisas que caíam do céu agora. A forte chuva vinha acompanhada de centenas de flechas selvagens, que atingiram Sommers em seu fígado, peito e pescoço.

Uma dor lancinante atingiu Johannes na panturrilha. Ele fora também atingido pelas mesmas flechas de origem desconhecida. Todos os seiscentos homens acampados correram desordenados, de um lado para o outro, em grande desespero. Fugiam deste inimigo invisível.

Johannes, já vendo os amigos, Hermann e Sommers, mortos, se jogou ao chão. Buscou o terceiro. Este estava caído no chão, se movendo na sua frente.

– Jost! Temos que sair daqui!

Johannes se arrastou na direção do camarada, ignorando a dor que irradiava de sua perna esquerda. O amigo Jost, apesar de seus movimentos, não respondeu aos chamados. Então, Ele tocou o seu ombro.

– Jost? – Johannes perguntou.

Jost não estava vivo. Uma flecha atravessava a órbita do olho esquerdo, penetrando mais de um palmo adentro da cabeça. Não eram os movimentos do amigo que estava vendo, mas os espasmos musculares de um homem morto. Tomado por um pânico incontrolável, Johannes tentou se levantar. Fugir dali o mais rápido possível. A dor em sua panturrilha o impediu. Derrubou-o novamente ao chão.

Passos foram ouvidos, esmagando as folhas molhadas sobre a negra lama no solo. O soldado levantou o olhar. Os pingos de chuva, que caíam na face, escorreram através de sua fronte e olhos. Dificultavam a visão, mas ele conseguiu distinguir o nativo selvagem que empunhava um tacape na mão.

Rapidamente, o soldado tocou o mosquete que carregava. Empunhou-o contra o inimigo. Apertou o gatilho. Só um som surdo, reles e abafado, ocorreu. Percebeu que, por estar a mecha de fogo apagada no cordão e a pólvora na caçoleta molhada pela chuva, o disparo foi abortado.

O único som escutado em seguida foi seu crânio quebrar ao ser golpeado dezenas de vezes pelo tacape inimigo.

 

***

 

Na cidade de Olinda, a uma légua de distância do ataque, mais especificamente no convento-prisão, o soldado Spiessen escutava os grunhidos da bela indígena aprisionada na cela à sua frente. Ele se manteve encostado na porta de madeira, praticamente falando sozinho. Afinal, a selvagem era incapaz de compreender o idioma holandês. Muito menos, ele falava o idioma nativo.

– Logo, todos seremos libertados – o soldado alemão proferiu. – Já disse aos outros soldados para não se engraçarem com vossa mercê. Já disse a todos que será minha. Quando Zuikerland for nossa, junto com os territórios ao norte de Itamaracá, Paraíba e Rio Grande, os conselheiros anunciaram que chegará nosso próprio príncipe governante. Tudo será considerado parte das das Províncias Unidas, incluindo sua tribo que poderá viver entre nós. Podemos até nos casar, pois já soube que seu povo permite que um homem tenha muitas esposas. Estou animado com a possibilidade.

A selvagem nada entendeu. Respondeu com urros raivosos na sua língua nativa que fizeram Spiessen curioso. Não obstante dos gritos de seus companheiros: Cala a Boca! Queremos dormir!, ele continuou o monológo com a indígena. Observava-a, por entre as aberturas gradeada de suas celas. Enfim, só se calou quando ela lançou gritos contra ele, em resposta.

– Japeu-á! O-îuka-bae! Iandê kuri-paba! Iandê kuri-taciatã! Taciatã!

A selvagem tinha faces de ódio. O soldado sabia que estas palavras significavam insultos. Eram ameaças contra sua pessoa. Spiessen, no entanto, preferiu se enganar. A musicalidade da língua nativa o fazia pensar em coisas belas.

– Taciatã – repetiu um dos sons. – Parece ser uma palavra bonita.

– Taciatã! Taciatã! – A selvagem repetia em tons de ameaça, contrastava com a ternura que Spiessen se dirigia à ela.

– É assim que lhe chamarei: Taciatã!

O soldado não imaginava que a palavra Taciatã significava Sofrer. Ela o ameaçava com um sofrimento intenso, mas a palavra ganhou outra conotação da boca do mercenário holandês. Afinal, o sofrimento era a melhor palavra para definir a própria selvagem nesta situação, sem liberdade e longe do seu povo.

– Taciatã – a selvagem agora murmurava triste.

– Taciatã! – Spiessen repetiu, sem imaginar o quanto a palavra fez doer o coração e a alma da indígena.

– Taciatã.

Uma lágrima caiu dos seus olhos selvagens.

Spiessen não entendeu o porquê do choro. Nem houve tempo de se indagar. A voz de Richshoffer os interrompeu.

– Spiessen! O que está fazendo?

– Só estou conversando com Taciatã.

– Taciatã?

– É a selvagem. É assim que a chamo.

– Isso é loucura!

A fronte de Richshoffer se elevou, surpreso. Ele fitou o amigo para entendê-lo, mas a urgência em sua voz superou a curiosidade.

– Deixa para lá! – ele proferiu, logo iniciando novos questionamentos. – Haus está por aqui? O alarme está soando, mas não consigo encontrá-lo em lugar nenhum.

– O que houve?

– O grupamento de Van Der Elst, que fazia reconhecimento nas terras de engenhos, foi atacado. Estão chamando todos os soldados! O Major Berstedt já esta à caminho!

– Haus não esteve por aqui!

Richshoffer suspirou desapontado.

– Maldição! Não tenho mais tempo de procurá-lo. Só espero que o Major tenha piedade dele!

 

***

 

O soldado Richshoffer tomou caminho ao socorro dos seiscentos soldados do tenente-coronel Van Der Elst. Seguiram os ecoantes tiros de mosquetes e gritos de homens morrendo. Atravessaram uma légua de densas matas. Já era fim da tarde. Era o momento mais alto do confronto quando o major Berstedt e sua companhia lá chegou. Seus soldados tomaram parte do conflito, disparando suas armas de fogo contra os inimigos.

– Senhor! Qual a situação? – Richshoffer perguntou ao major.

– Os inimigos recuaram da posição inicial, de forma que removemos os mortos e feridos, mas agora voltaram a nos atacar com uma força considerável.

– Quem são? Índigenas?.

– Não são só selvagens, soldado. A posição aonde recuaram possuía um parapeito de pedra, de onde atiraram com mosquetes e canhões! Com certeza, há espanhóis entre eles!

O Richshoffer colocou os olhos fora do relevo que os protegia. Teve uma visão através da mata. Ele viu parapeito que o major lhe descrevia. Era de arquitetura europeia.

Um nome foi proferido em voz alta.

– O governador Albuquerque!

O major sacudiu a cabeça em afirmação.

– Só mantenha a posição soldado – este continuou. – A ordem de recuar já foi dada, mas temos que ficar aqui até a Companhia de Van Der Elst esteja a salvo.

Essa foi a vez do soldado Richshoffer balançar a cabeça em afirmação. Por trás do relevo que lhe dava cobertura, este continuou a atirar contra o inimigo que mal conseguia distinguir em meio à escuridão e emaranhado da mata. Só conseguia enxergar nitidamente os soldados feridos que eram carregados por sua lateral até a cidade de Olinda.

A cena lembrou a carnificina no Rio Doce, no dia do desembarque em Olinda, com o choro de soldados que sangravam. Muitos perderam pernas e braços. Outros ficaram sequelados por toda a vida. Alguns já mortos. Até o major Berstedt foi atingido por uma flecha. Felizmente, ela atingiu sua bolsa no cinturão, não lhe causando nenhum dano.

Nem todos tiveram a mesma sorte, como Richshoffer pôde constatar naquelas duas horas que durou a peleja.

 

***

 

Nesta noite, num dos alojamentos, envolto no burburinho de dezenas de soldados que dividiam a mesma morada, Richshoffer descansava de tão terrível confronto. Deitava-se numa cama, cuidando de sua arma e da sua munição, tão utilizadas neste dia. Conversava com o amigo Haus, que não participara da batalha. Ninguém soube onde esteve o dia inteiro, pois este se esquivava de conversar sobre o assunto. Não queria falar sobre seu encontro com a senhorita Strausskicher. Por isso, escutava Richshoffer contar sobre a ação desta manhã.

– Nosso socorro também sofreu perdas consideráveis. Entre mortos e feridos, uns vinte homens. Temos sorte dos arcos selvagens não serem tão mortais quanto os nossos mosquetes. A maioria das flechas resvalava nos cintos, couros e malhas. Que o diga o major Berstedt que foi salvo por sua mochila.

– Estão dizendo que foi obra do governador Albuquerque.

– Ambos prisioneiros que fizemos, um espanhol e um selvagem, confirmaram – Richshoffer revelou. – Disseram que ele tem dois mil espanhóis e três mil índios na fortaleza que encontramos. Batizou o lugar de Bom Jesus!

– Cinco mil homens! Tanta gente assim?

– Prefiro não acreditar na palavra de um espanhol, mas devo dizer que vi muita gente na fortaleza inimiga.

Neste momento, ao terminar de limpar sua arma, a paciência de Richshoffer se acabara. Ele não conseguia mais esconder sua indignação pelo desaparecimento do amigo neste dia. Resolveu abordá-lo.

– Agora me responda, Haus – o Strasburuguês fitou os olhos do amigo. – Quando o trombeta soou as ordens para agruparmos, lhe procurei por toda parte. Tinha toda certeza que estava com a Amália.

Mal terminou de falar, Richshoffer colocou sua arma limpa junto aos cartuchos de pólvora no boldrié da cintura, que acabara de organizar. Olhou o amigo que se deitava na cama ao lado. Esperou sua resposta.

– Não nego que eu estava mesmo com ela, Richie.

– E não ouviu o alarme?

– Ouvi, mas não podia abandonar Amália. – Haus, que primeiro abriu um leve sorriso, logo sua boca caiu, fraquejando em tristeza. – Ainda mais agora que soube que o senhor Strausskicher prometeu sua mão em casamento ao conselheiro Serooskerken.

– Será que isto é coisa certa?

– Já está tudo negociado – falou em tom mais baixo.

– Ainda assim, Haus, não pode nos abandonar numa batalha. Não falo apenas por mim. Nem pelos oficiais que podem lhe punir. Mas ninguém da companhia entenderá suas ações como eu. Sorte sua tudo ocorrer tão rápido, que ninguém fez conta dos  faltosos.

– E do que importa isso para mim? Se não for para ter minha amada Amália, prefiro nem estar aqui, prefiro abandonar tudo.

Haus ficava cada vez mais indignado, mas Richshoffer não aliviou em expor a dura realidade ao amigo.

– Amália está noiva de outro homem. Esqueça ela!

A desesperança era notória na face do jovem, mas este quem quebrou o silêncio com uma audaciosa frase.

– Não, não a esquecerei!

 

***

 

Com tal lembrança, a conversa entre os dois amigos foi interrompida novamente. Todas as dezenas de homens que faziam um tamanho alarido no alojamento, também se silenciaram. A razão disso foi a entrada do jovem Charles de Toulon Junior no alojamento. Escutou-se cochichos maldosos e murmúrios perniciosos.

– É o filho desertor!

– Tal pai, tal filho.

– Um vergonha.

– Só podia ser francês.

O franco-holandês caminhou através do quarto, em silêncio, tentando ignorar estas palavras. Um sentimento de contentamento tomou conta de Richshoffer ao ver este homem sofrer o preconceito antes destinados aos cães mercenários, mas agora este preconceito se concentrava em todos da raça francesa. Haus quem explicava a Richshoffer a razão do especialmente maldoso tratamento ao soldado franco-holandês.

– Soube do pai de Toulon? – Haus perguntou aos sussuros.

– Não. O que houve? – Richshoffer estreitou o olhar curioso no amigo.

– Retornou à Holanda para fazer reclamações contra o coronel Waerdenburch sobre as severas punições aos traidores franceses.

– Ele está louco. O coronel é um herói. Conquistou estas terras e sua honra é impecável. É loucura começar essa briga.

– Acredito nisso também, mas Toulon não merece a forma como estão descontando isso nele – Haus comentou.

No entanto, esta não era uma opinião partilhada por Richshoffer.

– Ele merece sim!

Richshoffer, ali, ainda sentado em meio aos cartuchos de pólvora que organizara, observava o franco-holandês atravessar o alojamento. E, quando bem na sua frente, não se conteve em perpetuar os maus-tratos. Foi o único a dizer em voz alta o que todos falavam em cochichos. E assim o fez para o próprio franco-holandês escutar.

– Então, Toulon, quando será sua vez de fugir para a Holanda, assim como fez seu papai covarde.

Todos os soldados no alojamento riram alto com o comentário. O jovem Toulon deteve o passo. Mirou um olhar gélido contra Richshoffer. Nada falou. Apenas viu o lampião aceso cuja vela iluminava este canto do alojamento, bem ao lado da cama de Richshoffer. Com um sutil movimento de mão, empurrou-o sobre esta cama.

Explosões e faíscas estouraram quando o lampião caiu sobre os cartuchos de pólvora que ali estavam organizados ao lado do boldrié. Em meio a um grande tropel, Richshoffer tentava se proteger das faíscas que agora iluminavam o quarto e voavam para todos os lados, já lhe causando queimaduras nos pés, camisa e tronco. O jovem Charles de Toulon, sem nenhuma expressão de contentamento ou de raiva, apenas proferiu uma palavra.

– Idiota!

O alarido incendiário se manteve no quarto enquanto Haus e Richshoffer tentavam apagá-lo. Os alarmes soaram. Os dois logo deduziram que todo esse barulho deu falso rebate aos sentinelas que estavam fora do alojamento.

Pouco depois, embora o fogo já estivesse apagado, deixando apenas uma mancha preta no colchão carbonizado, não demorou para o Major Berstedt entrar no alojamento. E, ao ver todo o escarcéu, bradou.

– Que merda é essa aqui?

Richshoffer, nervoso, mal conseguia se explicar. Afinal, podia ser severamente punido por tudo aquilo.

– Não fui eu, senhor.

– Deixa pra lá, não quero saber. – O major interrompeu o gaguejar do Strasburguês. – Não foi este o motivo do alarme. Quero todos lá fora imediatamente! O inimigo voltou!

– O inimigo? Onde? – um dos soldados ali perguntou.

A resposta foi inacreditável.

– Atacaram dentro do nosso território, de surpresa, na travessia entre Olinda e o Recife. O general Lonke caiu na emboscada!

 

Mulato com Mosquete por Albert Eckhout

 

A Heróica Resistência

Brasilianos

1

14 de Março de 1630

Matias de Albuquerque e seus soldados partiram do Engenho Casa Forte com os suprimentos providos por Ana Paes. Poucas milhas ao norte, resolveu ocupar e fortificar a casa de um morador. Estava a uma légua da vila de Olinda e da povoação do Recife. Não faltou quem desaprovasse esta resolução, parecendo-lhes temeridade o querer fortificar tão perto do inimigo. Respondia o capitão-mor, sempre constante, que esperava Deus que dali faria uma formidável Resistência. Este local recebeu o augustíssimo nome do divino Senhor e Protetor: – Bom Jesus!

A fortificação se acomodou ao sítio, assim os muros não eram tão bem trabalhados e geometricamente perfeitos como o esperado de uma fortaleza de Sua Majestade. Em breve tempo que se fez, cercou-a de uma forte trincheira com seus terraplenos, parapeitos, plataformas e esplanadas. Também se começou a cavar dois fossos cavos e alteados para dificultar ainda mais o avanço inimigo. Junto da fortaleza, muitos moradores edificaram casas, para que com seu aparo pudessem ficar seguros do inimigo. E assim, se fez em breve uma razoável povoação, que fortificou e forneceu esta força com artilharia em que havia algumas peças de bronze, retirada dos navios do porto.

Não demorou para o velho Gama logo lembrar Matias da vil ação que traidores causaram no Porto do Recife.

– Com aquele atentado, malditos desertores quase lhe mataram, Matias. Isso tudo porque algum covarde não mais desejava lutar. Quem quer que tenha sido merece uma punição exemplar.

Matias escutou estas palavras, sabendo serem verdade, mas sua resposta surpreendeu a todos quando falou.

– Esqueçamos isso. Deve ter sido algum desastre, um acidente sem culpados.

– Mas, capitão-mor, não há como ter sido um acaso!

– Gama, bom amigo, deixemos isso para trás.

O capitão-mor não desejava declarar suspeitos os mesmos de quem esperava ajuda. As suas palavras traduziam o real significado do Forte Bom Jesus.

Era um recomeço.

Dez dias após sua fundação, no dia 14 de março de 1630, as defesas, ainda imaturas, do Forte Bom Jesus foram testadas. O inimigo enviou seiscentos soldados, que bem poderiam ser dois mil, para atacar esta demonstração de ousadia do capitão-mor. Graças ao grande valor e bravura de todos ali presentes, os inimigos foram rechaçados. Muitos foram os feridos, que incluíram o bom amigo Calabar. Ele, como que reafirmando as palavras de lealdade que proferiu a Matias dias atrás, quase morreu atingido no ombro por um mosquete inimigo.

Esse foi o batismo de fogo da nova fortaleza, sobre o qual se ganhou a confiança dos moradores do Pernambuco.

 

***

 

O Forte Real de Bom Jesus cresceu enormemente nos dois meses seguintes. As dificuldades no início foram imensas e ainda continuavam a assolá-los. A falta de comida obrigou, muitas vezes, a Matias servir espigas de milho aos seus soldados. A falta de munição o fez buscar chumbo nas redes de pescadores. Muitas vezes foram socorridos pela ajuda vinda da Paraíba e do Rio Grande. Outras vezes, Matias gastava de seus próprios cofres, acumulando dívidas e penhorando bens.

O capitão-mor assinalou funções aos seus companheiros de guerra, em especial, para Pedro de Albuquerque e para o velho Gama. O primeiro foi enviado às capitanias do Norte, onde deveria passar por Itamaracá, Paraíba, Rio Grande e Ceará, até chegar no Maranhão, em busca socorro. O segundo se tornou o capitão do Forte do Cabo de Santo Agostinho por ser esta a principal defesa da costa pernambucana, no caminho às capitanias do Sul, em especial, a cidade de Salvador, capital do Novo Mundo.

Calabar, cuja ferida, recebida no Batismo de Bom Jesus, dez dias antes, já estava se recuperando, foi designado para coordenar os soldados. Não perdeu tempo. Nomeou-se alguns capitães de emboscada, marcando-lhe os postos. Os índios, assistidos pelo padre Manuel Moraes, ficaram juntos em Santo Amaro. As diversas saídas da vila de Olinda eram guardadas por quatro capitães: João de Amorim, Manuel Soares Robles Antônio Pereira e Francisco Rebelo. O Porto do Recife estava a cargo de Lourenço Cavalcanti de Albuquerque, nas Salinas e Aseca, à margem do Beberibe. Entre os dois povoados, encarregou Luiz Barbalho ao Buraco de Santiago. Havia mais João Mendes Flores, que tinha a cargo alguns índios, por saber bem sua língua. E, para os aventureiros que se quisessem alistar, fez capitão a Manuel Rabelo de Franca.

Era exatamente um desses capitães que interrompeu Calabar e Matias em um de suas reuniões diárias.

– Estive no engenho dos Berenguer de Andrada – ele falou.

Era Francisco Rebelo, o Rebelinho, que se alistara meses antes, mas que assumiu a companhia de seu capitão quando este morreu na batalha por Olinda.

Visitar os engenhos para manter a fidelidade deles era algo que Matias se acostumara a fazer. Calabar criou um itinerário de locais onde poderiam encontrar mais homens dispostos a ajudar nesta guerra ou pelo menos abastecer sua linha de suprimentos. Era um trabalho extremamente necessário, afinal, toda ajuda nesse momento era bem vinda.

– É um local com bastante gado e boas plantações cujo proprietário se mantém fiel a El Rey Filipe. Ele solicitou sua presença para discutir a forma como poderia ajudar em nossa missão.

– O senhor Berenguer de Andrada já foi casado com uma Albuquerque, dona Joana, que não está mais entre nós. É um grande homem.

A explicação de Matias terminou com suas ordens.

– Partiremos já para conversar com ele!

 

***

 

Pouco mais de uma hora depois, O capitão-mor, Calabar, Rebelinho e seus soldados chegaram à propriedade descrita. Aguardaram por alguns instantes do lado de fora da casa-grande. Ela tinha cores brancas, dois andares de altura, uma larga sacada e dois cavalos amarrados ao lado de um pequeno jardim com flores parcas. Chamava a atenção a porta principal escancarada, quase toda reduzida a lascas de madeira. Parecia ter sido destruída a golpes de machado.

Não demorou muito para um senhor gordo, calvo e de barba cheia atravessar a porta da frente.

– Capitão-mor – o senhor de engenho cumprimentou. – É tão bom ver que está bem. A minha esperança por dias melhores apenas persiste em razão dos relatos sobre sua bravura.

– Boa tarde, Andrada.

Matias cumprimentou o senhor de engenho ao descer de seu cavalo. Continuou com um largo sorriso.

– Sempre é bem-vindo ouvir as palavras de homens de coragem e boa índole como o senhor!

– Aceite o convite à minha morada, meu capitão-mor – disse o senhor de engenho. – Os mesmo convite se estende a todos os que o acompanham.

Matias aceitou. Solicitou aos soldados que aguardassem do lado de fora, junto com Rebelinho, vigiando a chegada de algum invasor.

Ambos Matias e Calabar entraram na casa-grande. Era uma grande estrutura de modesta decoração, feita de móveis trabalhados pelos artesãos locais e tecidos surrados cobrindo as janelas. Não haviam quadros, mas algumas imagens religiosas estavam entre os pertences pessoais.

Ambos atravessaram a casa com os filhos do senhor lhes observando, em silêncio, próximo a escada que levava ao andar superior. Ao chegar na cozinha, Matias falou com dona Antônia, quem o senhor Berenguer de Andrada desposou depois da morte de dona Joana de Albuquerque, sua primeira mulher. Ela enxugou as mãos na toalha amarrada na cintura antes de cumprimentá-los. O senhor de engenho apontou para a mesa de oito lugares feita da madeira de carnaúba. Solicitou que se sentassem.

Com um sinal de mão, os dois filhos mais velhos do senhor se sentaram também enquanto um jovem rapazinho e outras três filhas, com uma deles segurando um pequeno bebê de colo, se dispuseram ao lado da mesa. Era uma bela família. Todos com cabelos escuros e olhos negros não deixavam dúvidas serem filhos do velho senhor de engenho. Todos, exceto por uma das garotas, aquela com pouco mais de seis anos de idade, que mostrava olhos azuis, cabelos loiros e tez extremamente alva. Era uma figura que parecia fora do lugar.

Foi na cabeça da pequena garotinha que Matias passou a mão por seus cabelos dourados antes de comentar.

– Fico feliz da pequena Carlota estar bem. Alguém a quem tenho muita consideração me pediu para manter sempre um olho cuidadoso nela.

– Mas por muito pouco não estamos lamentando, capitão-mor – o senhor de engenho impostou uma seriedade angustiante. – Os invasores estrangeiros estiveram por aqui – ele continuou.

– Eles descobriram sobre Carlota? – O capitão-mor empalideceu.

O senhor Berenguer de Andrada logo tratou de acalmá-lo.

– Nem conseguiram arrancar este segredo, nem minha lealdade, capitão-mor. Nunca trairei os meus princípios, nem quebrarei minha promessa. Disse-lhes que permaneceria leal a El Rey, mas, como represália, eles levaram todo nosso gado e grande parte de nossa colheita.

Nesse momento, dona Antônia colocou a bandeja com copos de leite e biscoitos no centro da mesa. Calabar pegou um dos copos para si e colocou outro na frente de Matias.

O velho senhor baixou a cabeça, não escondendo a preocupação.

– Eles nos deixaram vivos desta vez, mas temo que retornem.

– Tudo mudará agora, Andrada – o capitão-mor, mal aguardou o senhor terminar a frase, já respondeu com voz firme e bravia. – Ouvi moradores dizerem que era melhor esperar. Outros perguntaram que sem os recursos para empreender a conservação e restauração, de que servia tentar. Disseram que mais que perder a pouca gente que temos, mais convém conservar para quando chegassem as Armadas de El Rey.

O olhar de Matias se acirrou.

– Eu digo que não só a guerra defensiva começou, mas a nossa ofensiva também!

Com estas palavras, o senhor Berenguer de Andrada se levantou. Postou-se atrás de seus dois filhos ali sentados. Então disse:

– Não tenho muitos recursos para oferecer, capitão-mor, os holandeses levaram tudo que eu tinha, estou velho demais para lutar e minhas filhas precisam de mim aqui, mas aceite estes meus dois filhos na sua luta.

Só nesse momento o capitão-mor olhou as faces dos garotos. Um deles possuía algo próximo dos dezessete anos. O outro mal atingia a puberdade. Era apenas um menino. Nenhum deles se manifestou ou falou qualquer palavra. Mantiveram o silêncio, coniventes com a vontade do pai. Talvez não tivessem discernimento ou desejo de entrar em combate, mas pareciam dispostos a cumprir os desejos paternos.

A mãe segurou o choro que lutou para se expor. Era uma decisão que já estava tomada por esta família antes mesmo da chegada de Matias.

– Graças às recentes investidas, percebo que os moradores estão se tornando mais valentes e combatentes – o senhor retomou. – Meus filhos também o serão!

Nos últimos meses, o capitão-mor recebeu muitas solicitações de homens que desejavam se unir à sua causa nesta guerra. Vastos eram homens que perderam tudo por causa da invasão. Uns, vieram preocupados com o futuro de suas famílias. Outros, em busca de uma chance para adquirir riquezas através dos espólios da guerra.

Uma boa parte o fez pelo desejo de fazer o que é certo, por seus princípios e pela lealdade a El Rey. Negar esse pedido seria uma afronta à honra desta família e numa guerra como esta era possível negar novos soldados. Os próprios holandeses pensavam que o capitão-mor tiham milhares de homens a sua disposição. Era algo que resultava no medo que impediu o inimigo de tentar tudo quanto podia, pois julgava as forças pernambucanas muito maiores do que realmente eram.

O capitão não sabia por quanto tempo manteria essa ilusão, por isso respondeu.

– Seus filhos hão de voltar como grandes heróis. Será uma honra tê-los ao meu lado na luta contra os invasores holandeses!

O choro preso na garganta da mãe ficou impossível de segurar. As faces do pai foram tomadas pela preocupação. O fazendeiro já esperava as palavras do capitão-mor, mas ninguém está realmente preparado para ouví-las.

Matias se levantou da mesa enquanto tomava o gole do leite que fora lhe oferecido. Foi quando continuou a falar.

– Minha presença aqui traz grandes perigos.

O senhor de engenho assentiu, estendendo a mão. Matias a apertou com firmeza. A mãe correu para abraçar os filhos, com lágrimas no o rosto.

O fazendeiro, ainda mantendo o aperto de mão, falou com voz trêmula:

– O pertences dos meus queridos filhos estão prontos. Espere apenas alguns instantes enquanto realizamos as despedidas.

 

***

 

Ambos Calabar e Matias atravessaram a sacada de cores brancas da casa. Desceram os degraus até o solo arenoso. Caminharam na direção de Rebelinho. Montaram em seus cavalos se preparando para partir. Enfim, os dois garotos também deixaram a porta da frente. Subiram nos cavalos que já estavam preparados em frente a casa. E assim todos partiram de volta às fortificações do forte real de Bom Jesus.

A casa-grande desapareceu aos poucos no horizonte. Ambos os garotos, com olhos de saudade, viravam suas faces para observá-la como se fosse a última vez. Afinal, não havia nenhuma certeza que retornariam a vê-la novamente.

As paisagens pernambucanas passaram com velocidade, maior parte do caminho, através de rotas escondidas na mata fechada. Em certo momento, Rebelinho puxou fortemente as rédeas de seu cavalo, o fazendo empacar as patas dianteiras. Calabar foi o primeiro a perguntar:

– O que foi que houve, Rebelinho?

Rebelinho manteve o silêncio. Depois de muito olhar o horizonte, falou.

– Há algo estranho à frente.

Ele partiu além da serra, com algumas escoltas, através da rota que seguiam, sem dar maiores explicações. Todos consentiram seu pedido. Mantiveram-se imóveis no local.

Não tardou muito para Rebelinho ressurgir no horizonte, retornando até sua posição. Em sua face, se percebia os olhos de preocupação cuja razão logo explicou.

– Uma patrulha holandesa vem logo à frente.

 

 

Richelieu no Cerco de La Rochelle por Henri Motte (1881)

 

 

O Reflexo no Espelho

Nobreza

1

14 de Março de 1630

No região sulista de Portugal, a região do Alentejo sempre possuiu paisagens serenas. Já no fim da tarde, com o sol ameno, essa serenidade era ainda mais notável. Os raios alaranjados iluminavam a pairavem sobre morros, onde o verdejante da grama era tímido, quase assumindo tons amarelados. Havia algumas árvores esparsas, pontilhando o gramado repartido pela estrada de terra. No entanto, neste dia em especial, a serenidade do lugar era interrompida por uma carruagem de quatro cavalos.

Dentro da carruagem estava o jovem João de Bragança. O cenário ao redor lhe trazia memórias de sua infância e adolescência. Aqui, ele nasceu, cresceu e viveu toda sua vida. A própria carruagem trazia o brasão da Casa Ducal de Bragança de fundo prateado, com um ‘X’ desenhado em faixas vermelhas dentro do qual havia cinco pequenos escudos azuis com besantes prateados. Bragança era a Casa Ducal que um dia João herdaria. E com a doença do pai ficando pior, este dia estava cada vez mais próximo.

João olhava a paisagem tranquila das terras alentejanas passarem pela janela da carruagem. No entanto, o reflexo no vidro lhe chamou a atenção. Por um momento, enxergou a figura paterna, do honrado Dom Teodósio, ali sobre sua própria imagem.

– Nunca fomos parecidos, meu pai. É uma pena.

Uma cidade murada surgiu no horizonte. As casas eram de cor branca com telhados avermelhados, entrecortadas por ruas ornadas com laranjeiras e limoeiros. Sob um monte próximo, também estava um grandioso castelo cuja entrada era formada por um portão em arco, guardado por duas gigantescas torres cilíndricas.

Era a cidade de Vila Viçosa, sede do ducado de Bragança, um povoado bucólico, que transmitia a mesma tranquilidade da paisagem alentejana ao redor. No entanto, quanto mais a carruagem de João aproximava, mais o nervosismo aflorava no seu herdeiro. Trouxe-lhe lembranças de sua infância feliz, das brincadeiras com seus irmãos e dos conflitos com o pai durante a adolescência. Afinal, sendo João o primogênito da família, era preciso que aprendesse as matérias necessárias para assumir o lugar paterno. Era algo que João nunca mostrou o interesse necessário.

– Apesar de tudo, sempre admirei o senhor mais do que qualquer outro. Sempre foi considerado o mais perfeito dos nobres mesmo entre seus pares. Ninguém nunca será capaz de substituí-lo.

Os dedos de João tocaram o brasão da família. Era um toque hesitante. Parecia um objeto fora do seu alcance. Estava além de suas capacidades.

– Quero que possamos nos acertar antes que se vá, meu pai. Quero que saiba que seu legado estará em boas mãos – João respirou profundamente. – Eu quero que o senhor tenha orgulho de mim!

Enfim, a carruagem adentrou a cidade.

 

***

 

Longe dali, as terras de Piemonte na itália bordejavam os Reinos envolvidos no conflito em Mantova. Na pequena cidade de Cherasco, se iniciou as negociações para o fim deste conflito, numa reunião formada pelos representantes do Reino da França e do Reino Ibérico. Nem a mais ferrenha batalha em Mantova poderia rivalizar o poder destrutivo do confronto de olhares entre dois homens.

O primeiro era o obeso Conde-Duque de Olivares, sentado com seu largo corpo e vestido com sua usual roupa negra de correames dourados. O outro era o Cardeal de Richelieu, braço-direito do rei francês, vestindo o hábito branco sobre o qual havia um manto vermelho. Ambos tinham idades semelhantes embora o corpo emagrecido e o grisalho no cavanhaque do cardeal pareciam lhe dar alguns anos a mais.

–  Olivares.

–  Richeileu.

Os cumprimentos foram secos. Os olhares rivais destes dois homens voltaram a se confrontar. E não se deixando intimidar, o Conde-Duque em certo momento aproximou o mapa para si. Tomou os rumos da discussão.

– Como Validos de nossos reis, eu proponho que…

– Primeiro-Ministro – Richelieu interrompeu o Conde-Duque.

O representante espanhol levantou o olhar. Não entendeu o significado destas palavras.

– Disse algo? – Então perguntou.

– Na frança, não mais utilizamos a palavra de Valido. Utilizamos a designação Primeiro-Ministro em seu lugar.

– Primeiro-Ministro? – O espanhol falou com certo desprezo na voz.

– Sim. Premier Ministre, ou primeiro-Ministro em seu idioma.

– Que designação horrível devo dizer – o Conde-Duque deixava mais claro seu desprezo. – Franceses e seus modismos, com certeza, logo será esquecida.

O Conde-Duque voltou o olhar para o mapa. Não sem ouvir a resposta do representante francês.

– Não espero que possa entender a beleza de como nós franceses utilizamos as palavras. É preciso ter uma certa delicadeza.

O insulto nas entrelinhas fez o Conde-Duque fechar o punho mais fortemente e suas pálpebras tremerem com uma certa raiva, mas, contendo seus impulsos, o representante ibérico voltou à discussão inicial.

– Muito bem. Eu, como Valido de El Rey Filipe da Espanha, e vossa eminência, como Primeiro-Ministro do Rei Louis da França, juntos devemos chegar à uma decisão para Mantova. Proponho algo que acredito deixará ambas as partes satisfeitas.

– Este é o objetivo de toda negociação – o cardeal alfinetou.

– Estamos dispostos a aceitar que a única filha do falecido Duque Mantova e seu esposo, o Duque de Nevers, o homem que os franceses defendem, recebam o título desta Casa Ducal junto com as terras deste lado do traçado.

Enquanto falava essas palavras, o Conde-Duque traçava uma linha no mapa. E, ao fim, já a apresentava ao cardeal com a seguinte explicação.

– No entanto, as terras deste outro lado do traçado devem ficar conosco para serem anexadas às nossas terras de Milão e ao ducado de Sabóia.

O Cardeal de Richelieu colocou os olhos no traçado que dividia as terras do ducado de Mantova pela metade. Então falou:

– Estava pensando em algo mais próximo disto, Olivares.

O cardeal francês traçou uma nova linha fronteiriça, que diminuía a parte espanhola no mapa.

– Então abre mão apenas de Alba, Trino e Monferrato… – o Conde-Duque continuou. – Não é tanto quanto meu rei deseja ou o que nosso aliado o Duque de Sabóia espera, mas acredito que deverá satisfazê-los.

Eram meras compensações quando comparadas ao que realmente importava para a região. O Valido espanhol não pôde deixar de perceber que o Forte de Pinerolo estava dentro da parte francesa no desenho do cardeal. Logo mostrou sua insatisfação.

– E quanto ao Forte de Pinerolo?

– O Forte de Pinerolo é a principal fortaleza da região – o cardeal francês retomou. – Tem mais importância do que o próprio ducado de Mantova.

O Conde-Duque lançou um novo olhar de desprezo.

– Por isso mesmo que El Rey Filipe não aceitará que eu retorne à Castela sem que o forte esteja novamente em mãos ibéricas.

O obeso valido espanhol confrontava o magro primeiro-ministro francês, quando enfim o primeiro retomou.

– Não haverá negociação se não ceder algo de maior valor do que algumas pequenas cidades – o Conde-Duque acirrou seu olhar. – Devo lembrar que estamos em vantagem nesta guerra.

O cardeal francês manteve a seriedade, cerrando suas pupilas no Conde-Duque. Como excelente negociante, era capaz de saber o quão longe poderia ir. Neste caso, chegara ao limite. A importância do Forte de Pinerolo era enorme, mas não o bastante para comprometer a negociação.

– Tudo bem, Olivares – por fim, respondeu. – Mas me prometa que nunca falará mal da generosidade francesa. Assim que nossos reis assinarem o tratado, entregaremos a fortaleza, mas quero que entenda isso como um presente do Rei Louis para o Rei Filipe.

– E nossos reinos estarão em paz a partir de agora? – O Conde-Duque complementou.

– Sim. Enfim, todos estaremos em paz. – Richelieu respondeu.

O Conde-Duque de Olivares se levantou. O Cardeal de Richelieu fez o mesmo. Ambos apertaram as mãos.

– O Império, a Espanha e agora a França são três grandes forças católicas da Europa – o Valido continuou. – Finalmente, poderão ficar em paz outra vez. É a mão de Deus desejando que esqueçamos rixas passadas para nos unirmos contra o verdadeiro inimigo: Os hereges protestantes!

No entanto, os ânimos foram amainados pelo representante francês.

– Ninguém quer a destruição dos reinos protestantes mais do que eu, Olivares. No entanto, falemos de paz hoje. Deixemos as alianças de guerra para outro dia.

Ouvindo o cardeal relutante a entrar na guerra, o Conde-Duque lançou uma típica demonstração da rivalidade entre os íberos e franceses.

– Pensei que o Rei Louis, um príncipe católico, detentor de um primeiro-ministro ordenado na Igreja Romana, fosse lutar por algo que acredita. Por isso pergunto: É falta de ideais ou de soldados que aflige a França?

– Cuidado com suas palavras, Olivares – o primeiro-ministro respondeu à altura. – Deveria se alegrar por estarmos entrando em paz. O seu Reino Ibérico não suportaria um inimigo como o Reino da França por mais tempo. Afinal, na própria questão de Mantova, se esconderam atrás do Imperador.

Neste momento, o orgulho de ambos os homens subiram-lhes a cabeça.

A resposta do representante espanhol veio em seguida.

– Vossa Eminência pode ser um clérigo de Deus, mas não tenho dúvidas que Deus é Espanhol. Com Ele do nosso lado, nada nunca nos faltará.

O cardeal não conseguiu esconder um sorriso de deboche por tamanho orgulho deste homem por sua nação.

– Tem o direito de acreditar no que quiser, Conde-Duque.

Apesar desta expressão ter incomodado o Conde-Duque, este a ignorou. Percebeu que a discussão estava indo longe demais. Tentou acalmar os ânimos.

– Não desejo lhe ter como inimigo, Richelieu, muito menos, o seu reino. Somos todos católicos e devemos nos unir contra os hereges protestantes, inimigos de nossa religião.

– Tenho certeza que minhas decisões são iluminadas por Deus. Então, se coloco o futuro da França acima de tudo, incluindo das necessidades imediatas da Santa Igreja, sei que eu sou abençoado por Ele.

O Conde-Duque não se conteve. Foi sua vez de transparecer um sorriso de deboche por tamanho orgulho deste homem por sua nação.

– Tem o direito de acreditar no que quiser, Richelieu.

A gargalhada do Conde-Duque de Olivares ecoou.

– Eu desejava apenas instigar Vossa Eminência a entrar na guerra contra os hereges – ele falou. – E não iniciar uma nova guerra entre nossos reinos.

O cardeal não modificou a expressão em sua face.

– Então. selemos logo esta paz antes que seja tarde demais.

 

 

Dança Tapuia por Albert Eckhout

 

O Terror Selvagem

Holandeses

2

25 de Março de 1630

Todos os soldados na vila de Olinda se agitaram com a terrível notícia. O comboio em que vinha o general Lonke, escoltado por cinqüenta soldados de sua Guarda Pessoal, fora emboscado. Ele fazia o percurso entre o porto do Recife e a vila de Olinda. Uma travessia ao longo do rio Beberibe que, sendo esta a primeira emboscada, logo se tornaria cada vez mais perigosa e já começava a cobrar o duro pedágio de muitas vidas holandesas. Nesta primeira emboscada, em especial, o general Lonke foi tomado no assalto.

–Vamos, homens! O general está em perigo!

O grito era proferido pelo major Berstedt para toda sua companhia.

Um punhado dos cinqüenta soldados da Guarda Pessoal do general chegara na vila, maior parte extremamente ferida e sem saber da situação do general. Richshoffer não lembrava de ver os exércitos marchando antes com tamanha rapidez.

A tensão atingia todos. A preocupação dominava e pior ficou quando surgiu no horizonte um cavalo, apavorado, à pinote desenfreado. Era o mais nobre animal encontrado no Novo Mundo. Musculoso. Belo. Impetuoso. O couro era acastanhado e a crina, dourada. Era impossível de não admirar.

– Olhe lá! É o cavalo do general! – Um dos soldados gritou.

– Não vejo ninguém montado nele! – O major Berstedt relatou.

– Senhor Major, vejo algo estranho em sua sela. Tem alguma coisa ali – apontou um dos seus soldados.

– Também estou vendo – confirmou outro.

– É um corpo deitado!

– Será o corpo do general?

– O general está morto?

– Espero que não! – O major Berstedt retrucou fortemente, para encerrar a perniciosa discussão.

O primeiro pensamento era dos inimigos enviarem o general morto como aviso para abalar a moral dos soldados. Era uma possibilidade horrível. Um dos soldados se aproximou. Tomou-lhe as rédeas. Analisou o corpo deitado sobre a sela. Era o uniforme do general. Felizmente, este mesmo soldado também constatou uma ofegante respiração.

– É mesmo o general. Ele está vivo!

O major Berstedt desceu do cavalo, em tamanha rapidez, como nunca havia feito antes. Em segundos, atravessou os soldados que se amontoavam ao redor do general. Percebeu-o ainda deitado sobre seu dorso, com os braços ao redor da longa cervical da montaria. Ninguém entendia porque não deixava de abraçá-la, nem porque continuava a gritar desesperado.

– Não façam isso, comigo! Por favor!

O major tentou o acalmar.

– Senhor general, está a salvo agora.

– Monstros! Não façam isso, comigo!

– Sou eu, senhor, o major Berstedt!

– Berstedt?…

Os olhos do general estavam encharcados de lágrimas.

– Foi tudo tão rápido, Berstedt. Eles surgiram da mata. Foi terrível!

O general afrouxou os braços ao redor do vistoso corcel. Encravada no belo animal, o major Berstedt percebeu flechas na parte superior da pata direita e no dorso. Mais tarde, os oficiais teriam a notícia da boa sorte do general. Tendo sido capturado, feito refém e espoliado de seu bastão de comando pelos inimigos, libertou-se pela desordem dos índios. Por descuido de um deles, que deixando escorregar o arco que apontava contra o general, acertou bem em seu cavalo. E este, recebendo a flechada, se espantou de tal forma que teve o poder de salvar seu cavaleiro, retornando à povoação de Olinda.

– Onde está o resto de sua Guarda? – o major perguntou.

Os olhos do general se arregalaram. Os pêlos do corpo eriçaram.

– Estamos guerreando com monstros! – general voltou a chorar.

Um calafrio percorreu a espinha do major.

– Levem o general para seus aposentos – por fim, falou.

 

***

 

Estamos guerreando com monstros!, os gritos proferido pelo general percorreram a mente de Richshoffer durante o percurso até o local da emboscada. Nada poderia prepará-lo para a cena aos seus olhos. Nunca se havia visto tamanha maldade. O cheiro de morte e fezes permeava o lugar. Trinta corpos estavam enfileirados no chão ou pendurados nos altos das árvores. Foram deixados ali, expostos como pedaços de carne destrinchada por um açougueiro.

Cabeças degoladas, braços decepados, pernas partidas e outros pedaços de corpos estavam espalhados por toda a margem do rio Beberibe. Alguns corpos tinham tantas feridas que era impossível de se contar. Outros tiveram seu tronco aberto desde o tórax até o abdômen por onde seus órgãos abdominais, ainda presos ao corpo, caíam pendurados até o solo logo abaixo. Os sangue, que descia das tripas, ainda se mostrava vivo. Os soldados foram extripados ainda quando estavam vivos.

Richshoffer observou de um corpo em particular, em situação ainda pior. Os selvagens haviam amputado ambos os seus pés, arrancado ambas as mãos e retirado ambos os olhos da órbita. A crueldade foi tamanha que até o órgão entre suas pernas foi castrado no pobre homem. Agora seu corpo jazia ali, inerte, em situação deplorável.

– Meu Deus! Como alguém pode ser capaz de fazer isso? – Richshoffer exclamou indignado.

– Nem consigo imaginar – o major Berstedt retirou um facão da cintura. – Só não podemos deixá-los nessa situação!

Ele rasgou as cordas que prendiam o corpo na árvore. Os seus soldados fizeram o mesmo. Perceberam que a maldade era ainda maior. Era uma perversão inimaginável.

Algo caiu de dentro da boca do corpo. Era o órgão que, removido de entre as pernas, foi empurrado em sua garganta. Richshoffer olhava aquilo, indignado. O mesmo fora feito nos outros cadáveres. E o pior foi constatar que, após tão insuportável suplício, com tantos órgão arrancados de seu corpo, mãos, pés, olhos e genitais, ainda assim havia vida neste homem.

– Ajudem-me… – ele balbuciou em completo tormento, com extrema dificuldade, em sons quase incompreensíveis, pois sua língua também foi arrancada. – Não quero mais sofrer … – ele continuou seu mirmúrio.

Era impossível ver essa cena e não chorar! O corpo ainda resistiu por alguns minutos até finalmente a vida se esvair.

A sua morte foi um alívio para todos que o contemplavam.

 

***

 

Alguns dias depois, já não bastava a baixa moral dos soldados holandeses, chegou o dia do julgamento dos ladrões de vinho. Estava ninguém menos que o coronel Waerdenburch para proceder a decisão do Conselho de Guerra. Tinha ao seu lado os três tenentes-coronéis Van Der Elst, Steyn-Callenfels e Foucques Honcx. Também estava lá, entre eles, o conselheiro Adriaen Verdonck, que fora o mentor da idéia do sorteio para punir os ladrões.

Era notória a ascensão de brabantino entre os líderes de Nova Holanda após entregar um relatório detalhado sobre o território de Zuikerland e da grande amizade com que travava com todos. Ele participava como conselheiro de todas as decisões e saía constantemente na companhia do coronel, de quem era fiel comensal de sua mesa. Na frente destes homens, estavam os quatro condenados, incluindo o soldado Spiessen. Todos com forcas ao redor do pescoço e semblante cansado, tristemente destruído.

Uma multidão de soldados se reuniu, com grande pesar para ouvir o destino dos companheiros. Entre eles, estavam Haus e Richshoffer.

– Neste tambor estão quatro nomes.

O tenente-coronel Steyn-Callenfels começou.

– O nome retirado de seu interior será enforcado pelo assalto às adegas da Companhia. Escolherei um dentre os soldados que aqui estão reunidos para retirar o nome daquele que receberá a punição.

Richshoffer ficou surpreso ao ver o dedo do tenente-coronel na sua direção.

O tenente-coronel bem que poderia ter dito sua intenção antes, pensou o Strasburguês, mas logo deduziu que não foi algo programado. Apenas, instintivamente, o fez em razão da proximidade que agora tinham. Além do que, poucos seriam os soldados do exército, capazes de ler os pedaços de papéis no tambor.

O soldado caminhou na direção da mesa dos líderes.

– Retire um nome, soldado – disse o coronel Waerdenburch quando estendeu a mão que segurava o pequeno tambor. Era a segunda vez que o Strasburguês estava tão próximo deste valoroso homem, o grande comandante, que tanto admirava.

Richshoffer pôs o olho no interior do tambor. Fitou os quatro papeizinhos dobrados. Colocou sua mão dentro. E retirou um deles.

Ele mesmo o desdobrou. A tensão de todos aumentou a cada segundo de espera. Soldados, líderes e os condenados sentiram o palpitar de seus corações se elevar. Todos esperavam saber quem perderia a vida neste dia. Ao ler o que estava escrito ali, a face do Strasburguês descorou. A palidez tomou conta. Um calafrio lhe trespassou. As mãos começaram a tremer. Os olhos abriram-se largamente. Ele releu diversas vezes. Não havia dúvida. Lá estava escrito Hans Carol Spiessen!

– Qual nome está escrito aí, soldado?

O coronel Waerdenburch o apressou, querendo logo encerrar a tensão que já perdurava mais tempo que os soldados podiam suportar. Num lampejo, num instinto desconhecido, frases se repetiram na cabeça de Richshoffer. Eram do próprio Spiessen na masmorra: O coronel nunca teria coragem de condenar alguém de alta fidalguia à morte por algo tão banal, quanto do tenente-coronel Steyn-Callenfels na recepção aos conselheiros: O senhor coronel não teria coragem de matar o filho do Barão de Leipzig, de forma alguma.

Nem mesmo Richshoffer entendeu o porquê das palavras que deixaram sua boca, mas, embora estivesse escrito Hans Carol Spiessen no pedaço de papel, as suas palavras para os comandantes foram:

– O soldado Leipzig. É o nome dele que está aqui.

Gritos de espanto e suspiros de surpresa deixaram as gargantas dos soldados no local. Um péssimo semblante surgiu na face dos líderes. Eles duvidavam das palavras do Strasburguês.

– Tem certeza disso, soldado? – O tenente-coronel perguntou, primeiro que os outros líderes.

O seu rosto se acirrou. Tornou-se ainda mais contestador. Fizeram o soldado tremer ainda mais.

– Tenho sim, senhor.

– Deixe-me ver isto.

Era notório que o tenente-coronel não acreditou no soldado. E, com esta solicitação, ao estender a mão para receber o pedaço de papel, Richshoffer mal podia controlar seu corpo pávido. Foi a vez do soldado, atemorizado, estender seu braço e repousar o pedaço de papel na mão do tenente-coronel.

Os segundos dolorosos, desde o recebimento do papel até a leitura do que estava escrito nele, foram os piores da vida do Strasburguês. Todos descobririam que mentiu. Ele não tinha dúvidas que o coronel Waerdenburch o enforcaria ali mesmo.

Quando a voz de Steyn-Callenfels retomou, para Richshoffer, foi como uma sentença de morte proferida por um carrasco.

– Está correto. O nome que está aqui é o do soldado Leipzig.

Richshoffer se sentiu num outro mundo, numa realidade diferente, em qualquer outro lugar. Duvidava da sua sanidade. Ele simplesmente não acreditou no que estava ouvindo. Reviu em sua mente os últimos momentos e a lembrança do papel.

Não havia dúvidas que estava escrito o nome de seu amigo Hans Carol Spiessen. O que acabara de ocorrer?, ele se perguntou pelo menos uma centena de vezes num único milésimo de segundo. Só interrompeu os próprios questionamentos quando o coronel Waerdenburch proferiu as palavras seguintes.

Era outra situação que o Strasburguês também não esperava.

– Enforquem o soldado de Leipzig!

A forma como esta frase foi proferida. A completa frieza. A total falta de hesitação. Não era a reação que Richshoffer esperava quando relembrou as palavras de Spiessen e de Steyn-Callenfels.

Todos observavam o soldado Leipzig, em lágrimas, pedindo desculpas e clemência, ao ser levado ao improvisado cadafalso. Era uma cadeira de madeira, sobre o qual estava a corda pendurada numa das muitas árvores da praça. Era o mesmo local onde foi enforcado o francês desertor. E o mesmo destino inglório estava reservado a este soldado, condenado pela voz de Richshoffer.

Com esta cena em vista, arrependido do que fez, este tomou a palavra em prol do condenado.

– Senhor coronel, este homem é filho do Barão de Leipzig. Alguém de sangue nobre e grande valor. Além disso, foi uma infração tão pequena. Certamente, já aprendeu a lição. Ele merece um segunda chance?

O coronel cerrou os olhos em Richshoffer, parecia incrédulo na ousadia do mercenário alemão. Tornou-se evidente também como toda situação era infausta para os presentes, pois todos os soldados secundaram as palavras de Richshoffer com gritos de apoio e pedidos de clemência.

O coronel levantou a mão ao alto, solicitando que parassem a gritaria. Depois voltou o olhar para o Strasburguês.

– Garoto, qual o seu nome?

– Ambrosius Richshoffer, senhor, da companhia do Major Berstedt.

– Muito bem, soldado Richshoffer, – o escárnio estava na voz do coronel. – Eu disse qual era a pena. Expliquei como seria o julgamento. Agora, quer que eu quebre minha palavra?

– Não, senhor – o soldado engoliu seco.

– Espero que não, pois lembro bem de seu rosto no dia do desfile em Amsterdã, vestindo-se tão galantemente. Lembro bem quando lhe falei que a honra verdadeira está na palavra de um homem e no seu valor no campo de batalha. Se ao menos soubesse o que é a honra da palavra, nem ousaria fazer esta sugestão.

Richshoffer tentou falar, dizendo ao coronel:

– Eu não pretendia, senhor.

– Agradeça por eu ainda lhe deixar viver, soldado. E, quanto ao Leipzig, podem enforcá-lo. Agora!

O improvisado cadafalso sob os pés do soldado recebeu um chute do executor. Os pés do condenado caíram ao ar até pararem abruptamente. A corda lhe apertou fortemente o pescoço. Grunhidos ininteligíveis saíram de sua garganta. Houve alguns minutos de espasmos por todo seu corpo. Os olhos do soldado se esbugalharam. Sua face se arroxeou vividamente. O desespero do condenado era terrível.

Richshoffer jogou seu olhar ao chão. Não queria, não conseguia ver a cena deplorável, da injustiça que ele mesmo causou. Minutos intermináveis e sofridos continuaram. Até enfim os grunhidos pararem por completo.

Depois de algum tempo, Richshoffer conseguiu retomar a coragem para olhar o resultado de sua ação. Já não havia qualquer movimento no corpo pendurado. O soldado de Leipzig estava morto.

A voz do coronel interrompeu o silêncio.

– Quanto aos outros três ladrões, quero-os açoitados até que as costas estejam em carne viva. Saibam todos que este roubo de vinho não foi uma infração pequena! Muito pelo contrário, desobedecer um comandante é o maior crime que um soldado pode cometer!

E. Ao fim dessas palavras, deixou o local em completo silêncio.

 

***

 

Os três condenados, incluindo Spiessen, foram retirados de suas cordas e carregados pelos carrascos ao tronco no centro da vila, onde foram chicoteados. Richshoffer caiu de joelhos. Tão imerso em sua culpa, nem percebeu a chegada do tenente-coronel proferindo palavras em suas costas, próximo o bastante para que apenas o soldado conseguisse ouvir.

– Eu o estimei como um filho, Richshoffer – disse Steyn-Callenfels. – Nunca imaginei que me desapontaria de tal modo. Traiu minha confiança. Mentiu ao seu comandante. Foi vergonhoso!

– Eu sei – uma lágrima desceu de sua face. – Por que o senhor não revelou minha mentira? Por que não disse ao coronel o verdadeiro nome no pedaço de papel?

A resposta do tenente-coronel veio com olhares punitivos, testa franzida raivosa e saliva esputando de sua boca. Palavras furiosas que determinavam o fim da boa amizade e relação paternal que ocorria entre estes dois homens.

– Se a verdade fosse dita, seria seu corpo pendurado naquela árvore. Algo que não mais me parece uma tão má opção agora.

 

 

Hendrick Lonke por Jan Frederik Christiaan (1861)

 

O Poder do Medo

Holandeses

3

06 de Abril de 1630

Doze dias depois da emboscada sofrida pelo general Lonke, um urro de terror deixou seu quarto. Trespassou todo o interior de uma bela casa, a mais vistosa de Olinda. Chegou até a rua defronte, onde dispersou pelas travessas circunvizinhas. Os soldados que percorriam essas mesmas ruas se assustaram enormemente. Perguntaram-se o que estava ocorrendo? Seriam os malditos espanhóis entrando furtivamente em Olinda? Invadindo a casa do grande general Lonke? Capturando o comandante supremo?

As perguntas pairaram sobre soldados mais incautos em tão altas horas da noite, mas tais pensamentos não estavam na mente da Guarda Pessoal do general. Nem mesmo passou pela cabeça desses homens que o general pudesse estar sendo atacado, pois já estavam acostumados com os gritos. Desde o dia da emboscada, não teve uma noite sequer que o general não acordasse, pela madrugada, de forma tão violenta.

– Senhor general, foi só um sonho!

Um dos soldados de sua Guarda Pessoal chegou ao local, se aprestou rapidamente no interior de sua residência e balançou os ombros do senhor Lonke na tentativa de acordá-lo.

– Está tudo bem agora.

– O que houve?

O general percebeu o suor frio descer sua fronte, as mãos tremerem incontroláveis e o coração palpitar tão rápido que lhe doía o peito. Colocou os dedos entre os cabelos brancos, bem aparados, tão rentes, que se percebia bem o contorno da cabeça.

– Aconteceu outra vez – o soldado respondeu.

– Deus! – o general exclamou ao se sentar à beira da cama. – É o mesmo pesadelo. Os mesmos corpos mutilados. Os mesmos membros decepados. Colocados na boca. E o mesmo selvagem maldito me ameaçando com sua lança.

– Tome um pouco d’água para acalmar os nervos, senhor.

O soldado entregou o copo d’água que deixara ali, antes do general deitar para dormir. O general abraçou o recipiente em suas mãos e o sorveu por completo. Era um gole tão desesperado e tremulante que a água escorreu molhando o grisalho cavanhaque.

– No sonho, eu não consegui escapar dos selvagens – o general revelou. – Faziam tudo aquilo comigo, as mesmas coisas que fizeram aos outros.

O soldado manteve o silêncio. Só após um longo tempo emudecido, proferiu novas perguntas ao general.

– Deseja mais alguma coisa? Mais água? Algo para comer?

– Não, só me deixe sozinho.

O soldado obedeceu, já estava atravessando a porta do quarto quando escutou a razão do pedido de seu superior. O soldado escutou o poderoso comandante supremo das forças holandesas iniciar um choro copioso, incontrolável e emocional. Nem o próprio general acreditava no que estava acontecendo. Olhava sua própria imagem no espelho do quarto, num dos móveis que decoravam o lugar. Em meio ao seu lastimoso soluçar, lembrava de uma vida de glórias. Disse a si mesmo: Sou o general Hendrick Lonke. O grande herói das Sete Províncias Unidas. O primeiro capitão holandês no Novo Mundo. Saqueador da famosa Frota da Prata espanhola. E detentor de tantos outros epítetos.

No entanto, no espelho, só conseguiu enxergar um velho ancião de sessenta e dois anos de idade, frágil e moribundo, chorando como uma criança.

Toda sua vida buscou glórias. Conseguiu mais do qualquer outro holandês. Enfim, realizou a última delas: a conquista de Zuikerland. Tudo isso para morrer do outro lado do Oceano, tendo seu cadáver profanado e mutilado de maneira tão perversa por selvagens canibais. Ou pior, perder a honra na busca por vingança. Um ditado holandês lhe perseguiu a mente:

– Não há inverno tão frio em que os lobos não se devorem!

O general Lonke causou um grande espanto com o inesperado anúncio. Decidiu deixar o Novo Mundo. Explicou a todos a preocupação com sua frágil saúde e a falta da sua amada esposa Grietgen, que o esperava na Holanda. Entregou o cargo de comandante supremo ao coronel Waerdenburch. Despediu-se amigavelmente deste e dos demais oficiais, com quem banqueteou esplendidamente. E, ao amanhecer, partiu para o Porto do Recife, acompanhado dos mencionados superiores e de uma forte escolta.

Quatro dias depois, em 10 de abril de 1630, todos os canhões dos fortes conquistados e dos navios fundeados no porto deram tiros de despedida. Os mosqueteiros deram três salvas em sua honra. E, com todos os seus pertences carregados, o senhor general fez vela numa frota de dez navios.

Era a última viagem do grande general, que anunciou sua aposentadoria ao chegar na Holanda.

 

***

 

O general Lonke pareceu prever quão pior a situação se tornaria depois do dia em que fora capturado. O período entre os assaltos espanhóis foram se tornando cada vez mais próximos. Dez dias depois, no terceiro dia de abril, um segundo ataque ocorreu, contra soldados que saíram para cortar madeira a poucas milhas da travessia do rio Beberibe. Foram dezessete mortos.

Oito dias depois, no dia onze de abril, os espanhóis destroçaram uma companhia e aprisionaram um soldado holandês. Em seguida, conduziram-no vendado à sua fortificação, onde lhe mostraram um depósito de pólvora e ameaçaram que se os holandeses ali fossem fariam todos voarem pelos ares. Deceparam-lhe ambas as mãos e o conduziram, outra vez vendado até o território holandês, onde conseguiu no dia seguinte chegar à vila fraco e exangue.

Dois dias depois, no dia treze, os inimigos atravessaram o rio Beberibe e realizaram um ataque ao pé da colina onde foi construída a vila. Apesar do pouco dano que causaram, era espantoso ver a audácia de que eram capazes. Ao dia dezoito, os ataques já ocorriam diariamente.

Haus e Richshoffer voltavam do socorro a uns soldados que saíram em busca de água nas cacimbas da ilha de Antônio Vaz. Um ataque surpresa custou aos holandeses a perda de quarenta e cinco homens. Chegaram a tempo só de ver os corpos mutilados, como já se tornava um horrível costume.

Ambos retornavam aos seus alojamentos com um péssimo sentimento, que só piorou com a triste cena que encontraram no caminho.

– Parece que temos um novo condenado em nossa forca.

Por ordem do coronel Waerdenburch, a companhia  do Major Berstedt não mais estaria sediada em Olinda, mas no Porto do Recife agora. Era um local de melhor defesa, principalmente, depois que um convento religioso na Ilha de Antônio Vaz foi transformado no Forte Ernesto.

Infelizmente, a infame forca do Conselho de Guerra, também fora transferida para o Porto do Recife.

– Parece ser outro francês desertor – Richshoffer comentou.

– É verdade – Haus constatou as feições gaulesas no condenado. – Só me pergunto quem será o próximo?

– Só espero que não seja Spiessen por causa daquela selvagem aprisionada que ele foi visitar no dia seguinte que se livrou dessa mesma forca. Ou o senhorzinho mesmo, Haus!

– Eu? Por que diz isto?

– Pensa que eu não sei que continua a se encontrar com a senhorita Strausskicher – Richshoffer balançou a cabeça em desaprovação. – Acabará nesta forca se continuar com isso.

Haus convergiu as sobrancelhas.

– Eu a amo, Richie! Nunca vou abandoná-la. E quanto mais eu penso nisto, mais acredito que só há uma opção!

– Pelo amor de Deus, o que pretende?

A voz de Richshoffer exaltou uma notória preocupação. Haus detinha o mesmo sentimento. Após uma longa hesitação, respondeu.

– Eu posso pedir a mão de Amália em casamento.

 

***

 

Antes que Richshoffer pudesse responder, a caminhada dos dois amigos alcançou seu destino. Eles chegaram no novo alojamento. Eram péssimos. Mas não foi sobre a má-qualidade dos leitos e o mofo que recendia nas paredes que Richshoffer reclamava. Ele foi tomado por um furor quando percebeu o estado do seu baú de roupas, onde estavam todos os seus pertences.

Estava por completo aberto. Algo que não deveria ser possível, pois se certificou de deixá-lo muito bem guardado, com um forte cadeado.

– Alguém abriu meu baú!

Richshoffer exclamou desesperado.

– Tem certeza?

– Claro que tenho – ele agachou-se sobre seu baú. – Olha isto, o cadeado está arrombado!

Richshoffer percebeu que seus pertences não estavam lá. O baú estava vazio. Percebeu que fora roubado. Levaram um belo terno, com alamares de prata da largura de um dedo. Muitos outros objetos, assim como toda sua roupa branca, que tinha tão boa e bonita, como nenhum outro soldado em toda a companhia. No entanto, não eram as roupas o que mais o preocupava.

– Não – o desespero passou ao terror – Eu não acredito que levaram meu diário também!

– Havia um diário?

– Sim. Eu anotei tudo que aconteceu desde o dia que embarcamos. Todos os detalhes. Tudo!

Richshoffer se exaltou com a constatação. Jogou o baú para o lado. Destrinchou seus compartimentos. Procurou debaixo de sua nova cama. Dentro dos armários. Em todo lugar do alojamento. No entanto, a esperança logo desapareceu. Ele pôde apenas praguejar a perda de seu mais querido bem.

– Meu Deus! Não acredito que levaram meu diário!

 

***

 

Longe dali, não mais que alguns dias após ser chicoteado e liberado de suas prisões, o terceiro amigo, Spiessen, foi direto ao convento-prisão. Desejava se confortar dos últimos dias tão terríveis. Desejava fazê-lo ao lado de sua adorada Taciatã, pois conseguira subornar novamente o sentinela.

– Goedenavond, Taciatã.

Spiessen deu as boas noites.

– Consegui convencer o sentinela a me deixar entrar, devo dizer que não me custou barato.

Ele utilizara sua cota de água e comida para subornar o sentinela. Com a falta de mantimentos cada dia pior, estes se tornaram os bens mais valiosos dentre os soldados. Afinal, as forças holandesas não conseguiam avançar além do rio Beberibe e o pouco que lhes eram enviado da Holanda era dividido por todos os seis mil soldados. A comida distribuída em um mês mal dava para uma semana.

Spiessen abriu a porta. Entrou e se sentou no centro da cela. Taciatã, cerrou o olhar no estranho homem de alva tez. Estava agachada, apertada num dos cantos da cela. Mirou seu olhar no soldado quando este iniciou o costumeiro monólogo com a selvagem.

– Pensei que a situação de Nova Holanda logo estaria resolvida, mas a situação aqui fora está muito pior do que eu poderia imaginar.

A selvagem escutava mesmo não entendendo uma só palavra do estranho idioma holandês.

– Estamos sofrendo ataques até dentro da vila de Olinda. De tal forma, que o coronel alojou minha companhia agora do Porto do Recife. É um péssimo alojamento, mas de fácil defesa. Diz que estamos mais seguros lá. Afinal, perdemos tantos homens nos últimos meses. Mesmo os feridos por balas de mosquete morrem em poucos dias. Ninguém sabe o porquê.

A selvagem olhou a forte porta de sua cela. Mesmo seu alimento, era entregue por uma brecha na madeira. Ela não viu a luz solar desde que fora colocada ali. A porta esteve fechada todo esse tempo. Ela se espantou ao vê-la ser aberta neste dia para a entrada do soldado.

Spiessen continuou.

– Esses feridos, primeiro, são acometidos por contrações na mandíbula, de tal forma, que nem conseguem comer. Depois, começa a febre e a dor por todo o corpo. Enfim amanhecem mortos. Dizem que foi o escorbuto. Os homens antes acometidos por esta moléstia não conseguem fechar bem os ferimentos e o ar pestilento deste lugar termina de fazer o resto. Não é a toa que todo exército está tão apavorado, que decidiu armar até mesmos os negros com arcos, piques e espadas para mandá-los ao combate na linha de frente.

A selvagem tentou manter o olhar no soldado, mas este sempre escapava à porta de madeira. O desejo de vê-la abrir novamente era enorme. Não conseguiu deixar de pensar que o soldado era sua melhor chance de escapar da maldita prisão que lhe prendia já há tantos meses.

Spiessen continuou.

– Esses negros são de uma agilidade impossível de descrever, lançando-se ao chão logo que se faz fogo sobre eles, e no próximo instante, já se levantam e disparam suas flechas causando ferimentos tão perigosos quanto balas de mosquete. Infelizmente, não temos mais que uns sessenta negros. Não devem durar muito tempo.

A selvagem criou mil planos para escapar. O seu corpo deixou a escuridão daquele canto apertado da cela. A nudez resplandecente de seu corpo, se expôs aos olhos do soldado. Ele estendeu a mão. Pensou no toque da selvagem. Em contato físico. Era algo que ansiava há muito tempo. Taciatã não o tocou. Começou a se mover ao redor. Caminhou às suas costas.

O soldado não de conteve a apreensão. Sabia do risco que estava correndo. Não podia deixar de pensar nos corpos mutilados pela ação de sua raça inculta. Seu pescoço estava ali, à mostra para a selvagem, pronto para ser esgoelado. Em suas costas, ouviu a selvagem grunhir palavras no idioma nativo.

O soldado continuou.

– Zuikerland não é nada do que esperávamos. Só vemos guerra, fome, doenças e morte. Parece que estamos no juízo final em meio ao calor dos infernos. A única coisa que me impede de abandonar tudo, a única coisa boa que encontrei aqui, foi sua companhia.

Um rufo da selvagem calou o soldado. Ele engoliu seco. Já tendo dado a volta por trás dele, a selvagem estava novamente à sua frente. Ela aproximou seu nariz. Fungou no soldados. Cravou os olhos nele. Aproximou sua boca.

O soldado ainda teve o ímpeto de completar seu monólogo.

– É sua presença quem ainda me traz alegria, minha adorada Taciatã!

Ao fim dessas palavras, a selvagem Taciatã lhe beijou os lábios. Colocou sua língua nele. Era ardente, bravia, Feroz. Os longos e lisos cabelos negros caíram sobre a face de Spiessen. No entanto, seus olhos se mantiveram abertos. Escapavam à porta de madeira.

A selvagem abriu o casaco do soldado. Colocou a mão na gola da camisa. Rasgou-lhe os botões. Os seus delicados dedos repousaram sobre o forte peitoral. A outra mão desceu ao dorso musculoso. Continuou até abaixo da cintura. Um abraço, voraz e envolvente, o apertou. As grossas pernas femininas lhe cingiram a cintura. O ventre nu roçou no volumoso desejo, escondido nas calças do soldado. Este desejo se libertou.

O enlace lhes conjugou. Uniu suas intimidades. Foi quando o soldado sentiu as unhas ríspidas, violentas, sobre sua tez. Veredas avermelhadas emergiram nas costas do homem. Um grito de dor se misturou ao regozijo. Estranhamente, arrancou-lhe mais prazer.

O soldado a colocou de costas. Observou o esguio dorso, revestido apenas dos longos cabelos, enquanto os pés e mãos da selvagem tocaram o solo. A face selvagem, olhou-o sobre os ombros. Enlouqueceu o soldado. Enquanto era tocada no regaço, o forte olhar do soldado penetrou na pupila negra da selvagem. Penetrou em seu íntimo. Penetrou muito mais.

Horas de depois, um ganido selvagem, concertado por um macho e uma fêmea, ecoou pelas ruas de Olinda!

 

 

Frans Post 1612 – 1680

 

As Alianças de Guerra

Brasilianos

2

11 de Abril de 163

Escondidos, atrás dos galhos e folhas da vegetação, todos observaram o passar da carruagem inimiga. A sua escolta era realizada por muitos soldados de infantaria e alguns de cavalaria através da larga estrada de terra que levava à vila de Olinda. E, no seu interior, era possível visualizar as colheitas confiscadas das hortas e fazendas que não aceitaram submeter ao jugo holandês. Calabar, com os dois novos recrutas, observava a ação dos seus companheiros.

Os ouvidos apenas escutavam as rodas da carruagem em giro constante, fazendo a poeira subir do solo. Os olhos apenas fixavam nos alvos inimigos pré-definidos. Os segundos pareciam eternos. O plano de ataque revolveu sem fim em suas mentes. Cada galope dos cavalos aumentava a sensação de urgência do momento. Um dos soldados holandeses ainda fungou fortemente. Inalou o odor queimado das mechas dos mosquetes pernambucanos ardendo nos recantos da mata. Percebeu que algo de muito ruim estava para acontecer.

– Eia!

Era tarde demais. O grito do capitão Rebelinho que iniciou um forte e impiedoso tropel de mosquetaria.

Como tudo aquilo era coberto de árvores, os soldados da Resistência não foram vistos pelos holandeses senão quando se encontraram frente a frente. Matias e seus homens lançaram um assustador grito de guerra a tempo ainda de ver Rebelinho saltar, com seus homens, da copa das árvores.

Punhais perfuraram o tórax dos cavaleiros inimigos. Empurraram-os pelos ombros para trás com o mortal impacto. Os corpos caíram sobre os dorsos dos cavalos e depois até o chão. Os cavalos rincharam em tons agudos, assustados com a ausência de seus cavaleiros abatidos.

Só se ouviu-se cocheiro gritar Mijn God!, clamando por seu Deus. O capitão-mor lançou seu olhar ao campo de batalha. Só enxergou holandeses mortos ou fugindo apavorados. Os inimigos nem se deram o trabalho de descarregar seus mosquetes, saíram correndo. Restou apenas o cocheiro e um soldado que de joelhos suplicava por sua vida.

– Please! Vermoord me niet!

O capitão-mor respondeu essa súplica com a espada em seu pescoço

– Levem este outro aos depósitos de pólvora e munição. Mostrem nossas minas e outros explosivos. Mandem-no de volta ao seu povo com uma mensagem: Se algum holandês ousar se aproximar de Bom Jesus, faremos todos voarem pelos ares.

O capitão-mor acirrou o olhar.

– E se certifiquem que este holandês nunca mais seja capaz de usar um mosquete contra nós outra vez.

O prisioneiro foi amarrado e colocado na carruagem enquanto Matias analisava o interior do transporte.

– Aqui há bastante alimento para saciar o nosso povoado por uma semana! Levemos tudo a Bom Jesus! – ele falou a Rebelinho.

A carruagem assim partiu pela estrada em direção a Bom Jesus.

 

***

 

Todos chegaram ao lar no início da noite. O capitão-mor os solicitou que guardassem os espólios obtidos na emboscada. Seguiu à sua humilde tenda. Era uma morada singela onde se acostumara a dormir tranquilamente. Após a construção dos muros de proteção ao redor do acampamento, começariam as moradias dos soldados e de todos que estavam vivendo neste novo lar. Matias já sentia falta da simplicidade do atual modo de viver.

Ele sentiu Rebelinho lhe tocar o ombro. O jovem capitão estava com uma garrafa da forte bebida alcoólica obtida na moedura da cana de açúcar. Eles não haviam iniciado qualquer colheita no acampamento, assim, a garrafa certamente estava entre as conquistas do dia.

– Vamos comemorar as nossas vitórias com o doce néctar dos deuses, capitão-mor!

Rebelinho levantou a garrafa ao alto com um grande sorriso no rosto.

– O capitão de índios, João Mendes Flores, chegou hoje também contando de sua ação contra um batalhão holandês. Chegou a capturar um alto comandante inimigo, mas este conseguiu escapar por muito pouco, não sem antes deixar no local seu bastão de comando. Todos os soldados estão se preparando para festejar o troféu junto com os recursos que conseguimos hoje. Então, capitão-mor, o que me diz?

Com certeza havia muito o que comemorar. O encontro com senhores de engenho fieis ao Rei Filipe. Dois novos recrutas à causa da restauração. Os pertences pernambucanos recuperados dos ladrões holandeses. E tudo isso sem nenhum homem sequer ferido. Todos precisavam mesmo relaxar e celebrar as conquistas do dia, mas não Matias. Muito ainda faltava ser feito. Ele precisava da cabeça lúcida.

– Infelizmente, não posso – o capitão-mor respondeu. – Amanhã acordarei logo cedo. Minha presença só constrangerá os soldados.

– De mofo algum, senhor – Rebelinho argumentou. – Tenho certeza que nossos homens ficarão mais animados ao ouvir suas histórias pregressas contra os vis holandeses. Claro, todas regadas ao bom efeito do álcool. Eu, pessoalmente, mal posso esperar para escutá-las!

– Estou muito cansado, Rebelinho! Tenho certeza, que suas histórias já são mais do que o necessário para elevar a moral dos nossos homens.

– Fique certo que beberei por nós dois, capitão-mor. Considerarei isto uma ordem explícita do senhor.

Rebelinho levou a garrafa aos lábios, encharcando sua boca. Emitiu um largo suspiro causado pelo queimor do álcool na garganta. Matias riu como há muito tempo não fazia. Rebelinho, que o acompanhara por um bom tempo nesta risada, então disse:

– Tenha uma boa noite, capitão-mor..

E o capitão-mor respondeu com o mesmo cumprimento.

 

***

 

Matias estendeu o tecido em frente à sua tenda, possibilitando ver todo o interior. Adentrou-a enquanto prendia o mesmo tecido para fechá-la novamente. Despiu-se das roupas sujas. Banhou a face e o corpo na pequena bacia de água limpa colocada ali pelas escravas que cuidavam da arrumação. Por fim, se deitou na sua, embora simples, confortável cama.

Ficou imaginado os meses que viriam. Quantos senhores de engenhos e fazendas ainda eram fieis ao bom Rei? Quantas emboscadas seriam realizadas? E como conseguiria mais homens para lutar? Precisava estar preparado tanto para o ataque inimigo quanto para expulsar os holandeses dessa terra.

Preocupava-se com os moradores da capitania, que governou por mais de uma década. Lembrou da visita ao engenho do senhor Berenguer de Andrada. Quantos mais sofriam com as pilhagens holandesas? Lembrou da jovem criança loira de olhos azuis. Por que sentia que o futuro daquela garotinha estava conectado aos destinos desta guerra? Lembrou da bela família, cuja angustia dominou seus olhos. Como trazer a esperança novamente àquelas faces?

Questionou-se sobre quanto tempo ainda levaria para ter notícias do seu bom capitão Pedro. Será que retornaria trazendo as forças das capitanias do Norte? Será que pelo menos chegaria lá sem ser morto por alguma patrulha holandesa? Lembrou de notícias que há poucos dias chegaram de São Salvador, pelo velho Gama. Quantos homens seriam enviados? Chegariam eles a tempo?

As incertezas eram tamanhas. Era inconcebível o peso que recaía sobre seus ombros. Sem dúvidas, incontáveis foram as madrugadas em claro, com os olhos faiscando o vermelho insone a cada nova manhã, cada vez mais intensos, quase incapazes de suportar o cansaço.

E assim ocorreu todas as noites durante tantos longos meses.

 

***

 

Depois de todo esse tempo, muito havia mudado no acampamento de Bom Jesus. As tendas deram lugar a casas de alvenaria. O número de soldados e civis aumentou enormemente. As muralhas com um largo fosso adiante já cercavam os assentamentos, protegendo-os do ataque inimigo. Chamar o local de acampamento era uma falácia de grandes proporções. Bom Jesus tornou-se um povoado murado e militarizado.

Os seus homens se tornaram cada vez mais especializados em emboscadas contra o inimigo invasor. Pequenos grupos estavam espalhados nas estradas de Pernambuco, atacando os holandeses quando eles menos esperavam. Neste dia, pela manhã, Calabar relatou os sucessos dos soldados que o capitão-mor enviou à casa de um morador nas Salinas e também ao Buraco de Santiago. No primeiro, o capitão Lourenço Cavalcanti causou mais de uma centena de baixas inimigas. No segundo, o capitão Luís Barbalho armou emboscadas nos mangues, do outro lado do rio, junto ao caminho que vai da vila de Olinda à povoação do Recife. Pelejava porque buscava ocasião, buscando-a com tanta falta de comodidade, como a de ficar quatro dias e noites dias emboscados, aonde só os mosquitos já eram adversários formidáveis.

– Senhor capitão-mor?

Os relatos foram interrompidos pela visita do escravo da bela proprietária do Engenho Casa Forte.

– Dona Paes teve novo contato com o espião. Ela deseja lhe passar as informações o quanto antes.

Ana Paes se tornou uma grande aliada do capitão-mor. Ela entrou em contato com um espião entre os oficiais do exército holandês. Por prata, ouro ou algo mais de valor, o homem oferecia informações valiosas sobre tudo o que ocorria no território inimigo. Eram relatos sobre as forças que guarneciam todos os seus postos, os navios que chegavam das Províncias Unidas, e quantos soldados, víveres e munições traziam consigo.

Por este motivo, Matias esteve visitando o Engenho Casa Forte constantemente nesses últimos meses. Um escravo negro emissário do espião sempre se apresentava à propriedade de Ana Paes com valiosas cartas para a causa da Resistência. Revelou que os inimigos assentaram o Forte Ernesto, onde antes havia um convento na ilha de Antônio Vaz. E que todo território conquistado pelo inimigo, foi batizado por seus soldados de Nova Holanda.

– Ela disse que é urgente! – O escravo completou.

 

***

 

O capitão-mor montou em seu veloz corcel, acompanhado do seu braço direito Calabar e de alguns homens de confiança. Percorreu as trilhas entre as largas plantações de açúcar até a propriedade. O engenho era próximo. Estava a poucos minutos de cavalgada em direção ao sul do Forte Bom Jesus, onde já se conseguia ver suas cercanias. Em pouco tempo, o capitão-mor estava em frente à sua casa-grande.

Uma escrava avisou que Ana Paes o aguardava nas margens do Rio Capibaribe. O rio margeava os limites sul do Engenho antes de atingir os mares costeiros além do horizonte. Matias partiu em meio ao verde da planície. Atravessou os campos abertos sem plantações, até enxergar o brilho da luz matinal reluzindo nas suas correntezas. Lá estava a bela dona de engenho, sozinha, olhando o volumoso rio realizar seu percurso. Aproveitando a sombra de uma árvore frutífera de copa cheia, estava sentada num banco de madeira bem trabalhada coberto com um lençol branco para não lhe sujar o vestido.

– Olá, Matias.

A jovem virou o rosto no exato momento em que o vento levantou graciosamente seus cabelos escuros. A mesma brisa suave levou consigo a doce fragrância de jasmim e lírios às narinas de Matias. Ele observou os fortes olhos esmeraldas desta mulher brilharem em combinação com a grama ao seu redor enquanto os raios de luz espelhados nas águas do rio atingiam sua face alva.

Os lábios cheios e sedutores da bela moça se movimentaram para agraciá-lo com uma voz melodiosa e encantadora.

– Estava ansiosa à sua espera, Dom Matias.

– É sempre uma honra e um prazer a encontrar, Ana – Matias a cumprimentou de volta, tirando o chapéu. – Eu vim o mais veloz que pude quando soube que desejava falar comigo com grande urgência.

A jovem retirou, gentilmente com a mão, os ricos cabelos escuros que lhe caíam sobre rosto. Levantou do seu assento segurando a barra do seu vestido de cores neutras, que cobria todo o corpo. Este vestido deixava apenas os braços esguios e sua bela face à mostra, mas não era capaz de esconder as curvas volumosas de seus seios e quadris separados por uma fina cintura.

Ela colocou os dedos quentes e bem cuidados sobre as mãos de Matias. Conduziu-o ao banco de madeira de onde acabara de se levantar.

– Soube da ação no Porto do Recife, bem no centro de Nova Holanda, em que, por sua ordem, foram enviados homens em jangadas furtivas na madrugada. O nosso espião contou como os holandeses ficaram estarrecidos ao ver uma de suas naus em chamas. É um assunto que até hoje comentam, apavorados, nas mesas de jantares.

Ao fim do aprazar da moça, Matias falou com firme voz.

– Os holandeses precisam saber que estamos nos aproximando. Suas muralhas não hão de lhes garantir proteção.

– Sente-se, capitão-mor. Solicitei sua presença por outras razões além de congratular tão memoráveis ações.

Matias se sentou sobre o lençol que revestia o banco. Só conseguiu parar de olhar os lábios encantadores da jovem mulher quando ela olhou à frente, onde o horizonte toca os céus, para falar com voz hesitante.

– Nosso espião contou que os holandeses estão sofrendo com a dificuldade de encontrar água boa para beber. Seus soldados já se amotinam contra a água barrenta que seus líderes lhes entregam. Por isso, estão de olho na região de Afogados, onde Ambrósio Machado tinha largas cacimbas com a água potável da melhor qualidade.

– O Coronel Waerdenburch deu as ordens de construir um Forte de Cinco Pontas para determinar a soberania da região.

O capitão-mor logo entendeu a importância da informação. Começou a pensar nas conseqüências favoráveis em impedir a formação de tal linha de suprimentos aos exércitos inimigos. Com suas forças militares ainda não preparadas para uma batalha direta, a estratégia era tentar enfraquecer ao máximo o inimigo por meio de emboscadas.

Uma vitória sobre tal cenário, impedindo a água potável de chegar à Nova Holanda, causaria um impacto ainda maior. Dificultaria a manutenção do exército holandês em terras Pernambucanas.

– Esta é uma importante informação, Ana – o capitão-mor respondeu. – Já enviei o capitão Francisco Gomes de Melo para defender a região. Agora reforçarei às forças do posto.

Ana Paes colocou as mãos macias, tão suaves e lisas quanto pétalas de uma rosa orvalhada pela manhã, sobre o ombro de Matias.

– No entanto, a principal razão pela qual solicitei sua presença não foi essa informação – os dedos da moça deslizaram pelo braço de Matias até atingir novamente as suas mãos. – Tenho algo mais importante a lhe revelar!

Matias não soube se foi a onírica paisagem bucólica, os raios de sol espelhados em sua face ou a voz encantadora que deixava os hipnotizantes lábios de Ana Paes. No entanto, quando ela aproximou sua boca, mais perto do seu ouvido, o coração do capitão-mor bateu mais forte.

Ele sempre percebera que a presença da moça lhe causava sensações que não sabia descrever bem em palavras. Como uma paixão enamorada ou algo semelhante. O desejo de tocá-la, de beijá-la, de possuí-la. Era uma admiração que conflitava sua cabeça, pois Matias há anos prometera a si mesmo que nunca se envolveria com que não fosse sua esposa. Tomou um voto celibatário. Assim o fez por motivo de um importante segredo de família, o qual guardou dentro de si por anos.

Quando Ana PAesse pôs novamente a falar, Matias percebeu que não eram palavras doces que ela estava a lhe revelar. Muitos menos, era algum desejo oculto. Ela trazia mais notícias sobre o inimigo. Matias pensou que ficaria aliviado, afinal, não sabia se conseguiria resistir aos seus encantos. No entanto, a notícia que a moça revelou trouxe ainda mais preocupação em sua mente.

O  terrível relato partiu dos lábios de Ana Paes, mais uma vez, em contradição com sua voz encantadora.

– Ontem chegou ao Coronel Waerdenburch uma carta da Províncias Unidas da Holanda, vinda das terras além mar. É tão assustadora que tenho até dificuldade para lhe falar. Esta mensagem descrevia que o capitão Von Sckoppe, que partira para a Europa, logo estará retornando como major…

Ana respirou profundamente antes de continuar.

– E trará consigo mais três mil soldados holandeses para nossas terras!

 

 

Vista de Madrid por Antoon Van Den Wijngaerde

 

A Volta ao Lar

Nobreza

2

1º de Agosto de 1630

Tudo era alegria no porto de Cádiz. Dezessete embarcações ancoravam depois de quase um ano longe de sua terra natal. Era a Armada do Capitán General del Mar Oceano. Era a chegada de Fadrique de Toledo que meses atrás enviara mais de dois mil inimigos prisioneiros, oito embarcações capturadas e todos os espólios de seu bom sucesso.

Mais feliz estava toda população por ver o Capitán General trazendo mais algumas centenas de prisioneiros dos odiados inimigos holandeses e muito outros espólios. No entanto, nenhuma pessoa ali em Cádiz estava tão feliz em ver a Armada do bom Fadrique quanto uma jovem mulher de cabelos negros e vinte e poucos anos de idade.

Quando Fadrique se aproximou, a mulher o abraçou.

– Um ano! – Ela exclamou em tom de reclamação. – Nunca mais faça isso comigo, Fadrique! Nunca mais me abandone por tanto tempo.

Fadrique não deixou de abrir um belo sorriso. Em seguida, beijou a jovem mulher. Era sua esposa Elvira.

– Ainda faltam dezessete dias para completar um ano desde minha partida. Apressei a viagem para que não pudesse dizer isto.

– Seu bobo!

Um novo beijo feliz pelo reencontro se seguiu.

– Tenho algo para lhe mostrar – disse a esposa.

E assim ela tomou nos braços o pequeno bebê que uma criada carregava logo atrás.

– Quero que conheça sua filha, Fadrique. A nossa pequena Vitória.

O Capitán General del Mar Oceano observou criança detentora de olhos e cabelos tão escuros quanto os do pai. Tendo partido quando sua esposa estava grávida, esta era a primeira vez que Fadrique colocava os olhos nesta criança. Nunca antes vira algo tão encantador quanto as bochechas rosadas da bela menininha.

– Não se preocupe, minha querida, pois esta foi minha última viagem – ele desabafou com alívio na voz.

A esposa entrelaçou os braços no amado. Não sem que antes o esposo afastasse seu toque.

– O que houve, Fadrique? – Ela questionou.

Essa ação do marido a assustou imensamente, principalmente, quando o escutou a razão disto.

– Foi um maldito mosquete inglês que me varou o braço. A bala ficou alojada, mas agora começou a cicatrizar.

– Meu Deus, Fadrique. Foi bem próximo do peito. Poderia ter morrido.

– Este não é meu primeiro ferimento de guerra, Elvira. Pode ficar tranquila.

Apesar das palavras do marido, a zelosa esposa nunca poderia deixar de se preocupar. Em casa, limpou com cuidado o ferimento até que ficasse cicatrizado por completo. Repousou o esposo. E o mimou. Enfim rezou em agradecimento a Deus por esta ser sua última viagem.

Afinal, a cicatriz que ficou no braço de Fadrique a lembrava diariamente o quão próximo esteve de perdê-lo.

 

***

 

Se o povo recebeu El Capitán General del Mar Oceano com grande entusiasmo, o mesmo não ocorreu em El Alcázar. Já faziam algumas semanas das recentes notícias do Novo Mundo. Informaram que os holandeses ancoraram quase setenta embarcações e desembarcaram sete mil homens no Novo Mundo, conquistando a capitania de Pernambuco e a cidade de Olinda.

Era com essa terrível notícia em mente que o Conde-Duque recebeu Fadrique em seu escritório na Torre Dourada.

– Como pôde fazer isto comigo, Fadrique? – O valido exclamou.

Fadrique tratou de se vangloriar.

– Eu presenteei El Rey com as únicas vitórias espanholas nos últimos dois anos. Foram três grandes ilhas produtoras de tabaco e um entreposto holandês nas ilhas do Caribe. Foram muitos espólios capturados. Esperava que Vossa Excelência fosse me agradecer!

– Agradecer? – O escárnio do Valido era notório. – Por sua causa perdemos a maior região produtora de açúcar do mundo.

Em seguida, atacou o general onde mais lhe doía, no seu orgulho.

– O capitão-mor de Pernambuco, com apenas cem homens que lhe enviei e um bando de selvagens, está fazendo mais do que o grande Fadrique com uma armada de dezessete galeões e dois mil soldados!

– Eram setenta navios de guerra e seis mil soldados inimigos! – O general respondeu. – O que Vossa Excelência esperava que eu fizesse com essas dezessete embarcações?

– Deveria fazer o que eu ordenei! – O Valido gritou.

– E arriscar um derrota humilhante?

O Conde-Duque respirou profundamente para se acalmar.

– Tudo bem – desistiu da discussão.

Não porque concordava com Fadrique, provavelmente, nem o ouviu, mas por ter percebido que esta discussão não traria soluções.

– Tudo bem – continuou. – Precisamos fazer algo enquanto o capitão-mor de Pernambuco mantém os holandeses longe dos engenhos de açúcar.

– Vossa Excelência precisa enviar uma Armada tão grande quanto a que libertou São Salvador há cinco anos atrás – Fadrique deu seu parecer.

– Não seja louco – o Valido o respondeu. – Se eu tivesse como enviar quatorze mil soldados hoje, eu os colocaria na Holanda e não do outro lado do Oceano! Aquela armada só foi possível na época porque os nobres estavam dispostos a custear tudo, como bons vassalos de El Rey. Uma disposição que hoje está cada vez mais rara.

– É uma situação difícil. Eu entendo, mas…

– Eu confio em vossa mercê, Fadrique – o Conde-Duque interrompeu. – Posso conseguir mais dois mil homens das terras portugueses e napolitanas para incorporar ao Armada del Mar Oceano que está sob sua liderança.

– Minha liderança? – Fadrique exclamou. – Devo lembrar a Vossa Excelência que combinamos que esta seria minha última viagem. Que me concederia uma aposentadoria e uma pensão vitalícia quando eu retornasse.

O Conde-Duque lançou um olhar furioso.

– Pernambuco foi conquistada! A sua missão, que era impedir isto de acontecer, foi um fracasso completo!

– Mas, Excelência…

– Não quero ouvir desculpas! Fique feliz por eu ainda oferecer a mesma aposentadoria e a mesma pensão quando Pernambuco for reconquistada. Por isso, se prepare para partir outra vez!

– Mas, Excelência…

– Agora!

Neste momento, a mente de Fadrique foi tomada pela lembrança da esposa Elvira e de sua pequena Vitória, quem apenas pôde conhecer já próxima de completar o primeiro ano de vida. O general do mar não pôde deixar de pensar que, quando estiver de volta, sua pequena criança estaria bem mais crescida. Já estaria correndo e falando muitas palavras. Muitas palavras, mas, certamente, não saberia dizer a palavra papai. Com este pensamento, o general Fadrique deixou escapar uma única palavra dentre seus lábios.

– Não.

Se esta palavra saiu como um balbucio, as seguintes foram ganhando força.

– Eu me recuso a ir para Pernambuco!

O olhar furioso do Conde-Duque ficou ainda mais assustador.

– Insubordinação! Felonia! Deslealdade! Traição! São acusações graves que asseguro a Corte Militar lhe condenará caso negue ir à Pernambuco!

– Vossa Excelência…

– Isso é uma ordem, Fadrique. E não a repetirei! Fama e honra lhe foram agraciadas pelo serviço de El Rey. E é assim que retribui?

Estas palavras atingiram fortemente o general do mar. Por um momento, hesitou. Sabia bem o poder do Conde-Duque e do que ele era capaz, mas no fim, mesmo sabendo que sua resposta selaria seu destino, Fadrique a proferiu com total convicção, encerrando assim esta dura conversa.

– Sempre servi Sua Majestade às custas de minha fazenda e sangue. Nunca fui covarde, mas hoje minha resposta é Não!

Seus olhos se estreitaram no Conde-Duque. Por fim, decretou.

– Eu me Recuso a ir para Pernambuco!

 

***

 

Após meses longe de sua cidade natal de Vila Viçosa, João de Bragança desceu da carruagem que o trouxe de Madrid ao lado de seu irmão Eduardo. A brisa gélida da chegada do inverno atingiu seu corpo. Obrigou-o a colocar as luvas e encolher os ombros, mas não o inibiu de se maravilhar com sua herança. Atravessando o terreiro do magnífico paço dos Bragança, João contemplou, no horizonte limitante da cidade logo atrás, o símbolo do poder militar de sua casa ducal. Era o largo Castelo de Bragança com suas altas muralhas em estilo gótico medieval construída em alvenaria e intercaladas em diferentes pontos por grandes portões defendidos por torres cilíndricas.

Na sua frente, contemplou o Palácio Ducal onde nasceu e cresceu. Um palácio construído em estilo italiano renascentista, com uma gigantesca fachada em bloco, toda revestida em mármore claro brilhoso. Possuía três andares de altura e, na largura, mais de vinte janelas em cada andar. Todas enfileiradas e dispostas eqüidistantes, completando-se à sua esquerda com a majestosa capela ducal.

Os guardas que defendiam as portas do palácio, reconhecendo seu futuro senhor, herdeiro do ducado, se curvaram em respeito. Vendo-os, João não hesitou seu passo, caminhou ao interior do seu lar. O largo séquito de criados e fidalgos que habitavam o paço reverenciaram o jovem herdeiro à medida que este percorria seus aposentos e corredores. Pouco depois, já estava frente ao quarto do pai, o Duque Teodósio de Bragança. Local onde seu outro irmão, o caçula chamado Alexandre, estava em companhia de muitos fidalgos e vassalos desta nobre Casa.

– Como está nosso pai, Alexandre? – João perguntou.

– Cada dia pior, irmão. Graças a Deus chegou a tempo, pois ele deseja muito falar com vossa mercê.

João balançou a cabeça em consentimento. Em passos lentos, se aproximou da porta do quarto paterno. O frio toque no trinco da porta o fez hesitar enquanto sua vida passava por seus olhos. Lembrou da infância sem sua mãe, que morrera no parto do irmão caçula, quando João tinha apenas quatro anos de idade. Lembrou da criação com seus dois irmãos. E também dos últimos anos que distanciaram o filho do pai. Opiniões contrárias e objetivos diferentes, tão esperados entre duas gerações, trazem sempre conseqüências inesperadas para qualquer família. Ainda mais em jovens como João que nunca excederam nas matérias esperadas de um herdeiro.

As caçadas, a música e a boemia sempre foram suas maiores dedicações. Nunca fora o homem que os desígnios paternos esperavam. O irmão Eduardo faria um melhor Duque, foi a frase que escutou de um de seus professores. Foi algo que o marcou profundamente. A porta se abriu, dissipando estes pensamentos. O momento de hesitação havia passado. Na sua frente surgiu o leito paterno, rodeado de criadas que molhavam sua testa e recolocavam seus lençóis. Faziam de tudo para confortar um homem em seus últimos momentos.

– Pai? – João perguntou.

– Filho – Dom Teodósio tomou a palavra. – Temos tanto o que conversar!

 

 

Muro com Cavalos e Escravos por Frans Post (1612-1680)

 

As Reuniões e Reencontros

Holandeses

4

24 de Abril de 1630

Numa das belas casas que acomodavam os líderes de Nova Holanda, o coronel Waerdenburch iniciou uma reunião para discutir o futuro das forças holandesas. Assim o fazia com um terrível peso nas costas. Era uma carga de centenas de homens mortos e nenhum avanço além das fronteiras já conquistadas nos últimos dois meses. As emboscadas do inimigo estavam cada vez mais frequentes. Ocorriam diariamente. Antes mesmo do fim de abril, outras duas emboscadas na ilha de Antônio Vaz, em especial, foram ainda mais terríveis. Mais de sessenta mortos numa e cento e dez na outra.

Só no dia 14 de maio de 1630 foram três ataques simultâneos. O primeiro deles ocorreu novamente na estrada de Olinda a Recife, onde o general foi emboscado. Desta vez, o alvo foi o almirante Pieter Ita e o conselheiro Servatius Carpentier, que escaparam às custas de trinta soldados mortos. O segundo ataque ocorreu na ilha de Antônio Vaz contra um grupamento que tinha ido buscar frutas, onde houve mais algumas dezenas de mortos. E o terceiro ataque correu no interior da vila de Olinda, em ruas abertas e desabitadas da periferia, onde, encontrando apenas um negro, lhe cortaram a língua, lhe quebraram o braço e lhe fizeram diversos ferimentos na cabeça.

Sempre, antes da chegada do socorro holandês, os pernambucanos desapareciam por completo na densa mata da região. Estavam sempre um passo a frente. Pareciam saber os planos holandeses antes mesmo de serem executados. Era de tal forma que, em todas essas emboscadas juntas, o governador espanhol não perdera mais que um punhado de homens.

Com um murro na mesa, o coronel Waerdenburch desabafou sua mais recente frustração diante dos presentes.

– Mais de duzentos mortos!

O novo assalto ocorreu na ilha de Antônio Vaz, uma ilha ao sul do Porto do Recife que Matias de Albuquerque abandonou quando perdeu a praça do Recife. Na margem bem defronte aos armazéns do porto, os holandeses transformaram um convento religioso desabitado numa fortificação: o Forte Ernesto. Todos na mesa, incluindo o conselheiro Adriaen Verdonck e os subcomandantes Van Der Elst, Steyn-Callenfels e Foucques Honcx, se calaram impotentes frente à fúria do coronel.

– Estamos combatendo inimigos ágeis e valorosos! – Steyn-Callenfels quebrou o silêncio.

– Foi tudo muito rápido, coronel. – Honcx complementou.

Os espanhóis a invadiram furtivamente na madrugada a trincheira do Forte Ernesto. Massacraram muitos homens ainda dormindo em suas camas. Tomaram o controle da fortaleza. Foram tão audaciosos que ficaram por mais de duas horas jogando artilharia no Porto do Recife. Neste tempo, descavalgaram todos os canhões, os tornando inúteis, e destruíram um dos baluartes. Quando o socorro holandês chegou, abandonaram a posição, fazendo mínima resistência.

O tenente-coronel Steyn-Callenfels continuou seu parecer.

– Os malditos pareciam saber que, naquela noite, daríamos folga à maioria dos soldados pelo trabalho extra dos últimos dias, em que tivemos que cortar muita madeira.

Depois foi a vez de Van Der Elst.

– Isso é culpa dos desertores franceses, que entregaram nossas rotinas e patrulhas ao inimigo.

Por fim, era a vez de Honcx discordar.

– Todos os desertores eram soldados rasos, é impossível que tivessem acesso a informações como essa.

Os três subcomandantes do exército holandês discordavam entre si. Convergiam apenas em dizer que os espanhóis tinham informações privilegiadas. Não sabiam onde as conseguiam, mas não havia como negar essa verdade. Por fim, brabantino Verdonk questionou.

– Acreditam no rumor sobre um espião entre os oficiais?

A pergunta remeteu ao relato de um negro que passou para o lado holandês. Ele contou haver um traidor, que diariamente encontrava com os espanhóis na floresta. Ele dava notícia da força que guarnece todos os postos holandeses, dos navios que chegam da Holanda, assim como quantos soldados, mantimentos e munições traziam.

– Ou alguém próximo aos oficiais! – Van Der Elst inferiu.

– Tomarão as palavras de um negro por verdade? – Honcx contrariou.

– Não podemos ignorar a possibilidade – Steyn-Callenfels retomou.

Um novo bater do punho de Waerdenburch na madeira da mesa, interrompeu as conjeturas e acusações entre os tenentes-coronéis. O imponente comandante geral das forças holandesas deixava claro sua opinião sobre o assunto.

– Se houver um traidor nesta mesa, ou entre os majores, ou até entre os capitães, eu mesmo farei com que ele implore para morrer!

 

***

 

Nos dias seguintes, cada um dos tenentes-coronéis receberam suas ordens para melhorar a defesa da cidade e do porto. Steyn Callenfels tomou a missão de guarnecer melhor os parapeitos do Forte Ernesto com paliçadas e pontas estreladas de ferro. Também deveria colocar estrepes dentro e em frente aos fossos, além de construir outro forte na margem defronte ao Afogados, de Cinco Pontas.

Van Der Elst teve a missão de construir mais uma fortaleza, para os holandeses conseguirem andar no próprio território. Afinal, para irem do Recife à Olinda, tinham sempre que organizar quatrocentos ou quinhentos, homens bem armados para fazer a escolta de uma distância de duas milhas. Esta fortaleza seria erguido numa fábrica que o inimigo tinha entre as duas praças, alguns passos distantes das ruínas do Forte São Jorge e receberia o nome do conselheiro Bruyne.

Foucques Honcx deveria preparar uma companhia de fuzileiros, com os melhores atiradores em posse de mosquetes de pederneira, para buscar frutas e refrigérios do outro lado do Beberibe. As pedras de fogo eram bem mais confiáveis que os cordões de mecha para disparar a pólvora dos mosquetes, pois, nesta época, Pernambuco chovia tanto que as mechas estavam sempre apagadas.

Durante este tempo, Richshoffer descansava no alojamento de sua companhia, durante a folga, quando seu descanso foi interrompido por estrondos e muita gritaria. Eram objetos sendo quebrados e os brados raivosos, que vinham do gabinete do Major Berstedt. O soldado ficou preocupado com a situação, por isso, não hesitou em correr ao local.

– O que houve, Major?

O soldado lançou a pergunta quando entrou no aposento. Logo viu o comandante irritado. Chutava as cadeiras do escritório. Derrubava os objetos sobre a mesa. O tom de sua voz era transtornado.

– Eu fui roubado! – O Major se exaltou. – Minhas Roupas, jóias, moedas, tudo desapareceu.

Jogou mais algumas coisas no chão. Nem olhou para o soldado, quando este lançou a pergunta. Richshoffer tinha na lembrança que o mesmo ocorrera com ele meses atrás.

– Roubado?

– É a única explicação – o major continuou inconformado. – Ontem mesmo o baú com meus pertences estava aqui e muito bem fechado! Mas isso não impediu o ladrão, que acabou levando o baú com tudo dentro.

Richshoffer se lembrou do dia anterior.

– Vi seu baú ontem, Major, com seu criado, o recruta Conrad Eberhard. Ele o estava levando, junto com alguns outros, para o outro lado do Rio Beberibe, tendo eu reconhecido seu baú especificamente e perguntado o que estava fazendo com ele, o recruta disse que o levava até o senhor.

O major parou o que estava fazendo.

– Faz mais de uma semana que eu não atravesso o Beberibe. Nunca ordenei nada disso a Eberhard. E para que diabos eu ia querer levar meu baú para lá!

– Eu sei, senhor. Também estranhei, mas o senhor deixava todos os seus afazeres a cargo dele. Não vi razão para duvidar das palavras de Eberhard.

O major fumaçava de raiva como mosquete em dia de batalha.

– E onde está Eberhard, agora?

– Ele não dormiu no alojamento ontem – Richshoffer apreensivo respondeu. – E ninguém mais o viu depois de atravessar o Beberibe com os vários outros baús.

– Schit! – O major praguejou.

Sentou em desânimo numa das cadeiras do aposento. Era um praguejar que continuou além, até este revelar sua conclusão.

– Parece que não são só os franceses que estão deserdando o exército agora.

– Acredita que Eberhard passou para o lado inimigo?

– Tenho certeza, soldado – o Major suspirou. – E levou minhas coisas com ele.

Richshoffer relembrou o mesmo ocorrera com suas coisas.

– Semanas atrás minhas coisas foram roubadas também, mas já faz tanto tempo. – ele coçou o queixo. – Terá sido Eberhard também?

– Não duvido que este klootzak, ladrão maldito, filho duma mãe, esteja nos roubando desde essa época – o major respondeu.

– Temos que contar ao Conselho de Guerra.

– Não! – O major bradou, com fronte elevada e olhos abertos, temerosos, ao se levantar de sua cadeira. – De forma alguma!

– Porque não, senhor? – Richshoffer perguntou

O major, desconcertado, explicou.

– Porque dias atrás um negro passou para o nosso lado. Ele disse haver entre nossa gente um espião, que diariamente que vai ter com os inimigos na floresta. E Eberhard tinha acesso aos meus arquivos e papéis oficiais, até mesmo meus documentos confidenciais.

– Isto é mais uma razão para contarmos ao Conselho de Guerra, não?

Richshoffer coçou a cabeça. Não compreendeu a relutância do major em revelar aquilo aos altos oficiais.

– Não conte a ninguém sobre o que ocorreu aqui – o Major explicou. –  Se o coronel Waerdenburch souber da liberdade que eu dei a este recruta traidor, o próximo na forca serei eu.

O soldado observou o cenho temeroso em tão bravo homem. Não pôde ir contra seu comandante. Então falou:

– Não se preocupe, senhor. Ninguém saberá de nada.

Neste momento que algo os surpreendeu. Um alarme tocou. Trombetas davam aviso de um inimigo. Ambos se perguntaram o que estava acontecendo. Deixaram o alojamento. Mal haviam atravessado as apertadas portas que levavam ao seu exterior, um dos soldados da sua companhia chegou ao local.

– Desertor! Encontraram um soldado abandonando seu quartel com todos os pertences nas costas. Os sentinelas já partiram ao local.

O major não conseguiu esconder o pensamento na sua mente.

– Será Eberhard?

 

***

 

Ambos correram para a praia do Recife onde os sentinelas também estavam a caminho. Conseguiram ver, ao longe, quando já pisavam nas alvas areias da beira-mar, o duelo de um dos guardas contra o tal desertor. O major e o soldado desejavam que fosse o maldito ladrão que lhes roubou as coisas.

Ao chegar, ali, na beira da praia, perceberam que o desertor já estava morto. E não era Conrad Eberhard que jazia ali no chão.

– Maldição! É apenas outro maldito francês.

O major Berstedt exclamou, desapontado, ao ver a face esguia com os cabelos negros e longos, típicos do povo gaulês. A esperança do Major em reaver seus bens foi exterminada. Para Richshoffer, não era o desertor morto no chão que lhe chamava a atenção, mas o sentinela que o arrebatou. Percebeu que o homem em pé, sobre o corpo sem vida, era Charles de Toulon Junior.

O jovem Toulon, ao ouvir o praguejar do major Berstedt ao francês morto, respondeu duramente. Ignorou qualquer tipo de castigo por gritar contra um oficial de maior patente.

– Sim. É outro francês, cuja raça corre no meu sangue!

Todos que chegavam, faziam crescer a roda que se formava ao seu redor do franco-holandês.

– Conheci este homem – este continuou o desabafo. – Antes de traidor, era um amigo. Deserdou por causa de todos aqui, por ter sofrido o pão que o diabo amassou nos últimos meses em razão do preconceito em nosso exército. O mesmo tratamento que eu também sofri!

Com estas palavras, Charles de Toulon caminhou para longe do círculo de holandeses que se formava ao redor. Todos, em silêncio, abriram caminho. E assim Toulon Junior deixou a praia. Não sem antes dizer.

– Querem saber? Meu pai estava certo. Não adianta explicar. Para o inferno todos!

Todos observaram o jovem franco-holandês partir para seu aquartelamento. Richshoffer olhou para o morto. Chamou-lhe a atenção que o ferimento que o matara, localizado bem abaixo do peito esquerdo, nem sequer possuía uma polegada.

Não foi maior que o produzido por uma sangria.

 

***

 

Noutro lugar, agora na parte mais rica da cidade de Olinda, Haus estava deitado ao lado de Amália, nas escondidas de um depósito de armas. Estavam ambos ainda sem roupa, ofegantes do momento de prazer.

– Só Deus sabe o quanto eu a amo, Haus!

A bela senhorita buscou o fôlego perdido, esgotado pela explosão de paixão de segundos atrás.

– Se me ama mesmo deixará que eu fale com seu pai.

– É Loucura, Haus! – O desespero retomou as forças de Amália, a fazendo se levantar. – Meu pai matará nós dois!

– Devo apenas ficar olhando, calado, enquanto acontece seu casamento com o senhor Serooskerken?

Amália baixou a cabeça.

– Não há nada que possamos fazer.

– E o nosso amor? – ele perguntou. – Quero que seja minha esposa!

– Ninguém se casa por amor, ainda mais em minha posição social – Amália falou conformada.

Haus nem tanto.

– Pensei que com nós dois seria diferente.

Os dois se calaram. Tentaram pensar numa solução. Nada havia. Nem fugir como faziam alguns casais da Europa era possível, estando em terras tão distantes e desconhecidas.

Só Amália ousou falar o que estava na mente dos dois.

– Podemos ser amantes. Continuaremos nos encontrando, mesmo depois de eu me casar com Serooskerken.

Haus nada falou. Só se levantou. Vestiu a roupa. Hesitou frente à porta de saída. Proferiu com certo rancor na voz.

– Nunca! Seu amor, seu corpo, será apenas meu, Amália!

Ele abriu a porta. Atravessou-a com passos pesados, quando a senhorita Strausskichner, ainda cobrindo suas partes desnudas com o vestido nas mãos, o perguntou.

– O que pretende fazer?

Haus deteve o passo. Tomou um pesado fôlego. Voltou o rosto para sua amada. Viu suas belas feições ali, em pé, atrás da porta entreaberta, mal conseguindo cobrir seu belo corpo desnudo com o vestido azul de renda em sua mão. O olhar azulado, quase anil, da jovem penetrou nos olhos temerosos de Haus.

– Não agüento mais esta situação – ele fitou seus olhos. – Pedirei hoje mesmo, ao senhor Strausskicher, a sua mão em casamento.

 

Rei Filipe IV da Espanha por Diego Velázquez (1599–1660)

 

Os Sentimentos Ocultos

Brasilianos

3

8 de Setembro de 1630

As palavras de Ana Paes ecoavam na mente de Matias quase dois meses após seu relato. O fim do ano se aproximava embora pouco pudesse comemorar e o inimigo já realizara o primeiro passo para alcançar as cacimbas de água potável de Afogados. Eles conseguiram completar o poderoso Forte de Cinco Pontas, armado com dezesseis canhões e localizado na ilha de Antônio Vaz. Mesmo tendo os capitães de emboscada lançado diversos ataques durante sua construção, as obras terminaram sob pesada proteção dos exércitos holandeses.

Passados também muitos meses desde a partida de Pedro de Pedro de Albuquerque, não houve mais qualquer notícia dele. Pode-se pensar que a preocupação do capitão-mor era menor com relação às notícias vindas do sul, da capital São Salvador, com a carta enviada por El Rey.

 

Caro Matias de Albuquerque,

Em consideração ao zelo e cuidado com que sempre me houve servido; e do bem e do valor com que ultimamente procedeu na ocasião de Pernambuco, hei tido por bem fazer-lhe mercê e nomear-lhe para o meu Conselho de Guerra. E que convém enviar uma Armada com dois mil homens e todo o necessário para eles, e mais alguma artilharia para se conservar o posto do Real de Bom Jesus. Se vossa mercê o fazia tão bem com tão pouca gente, com muita vantagem o fará com mais dois mil homens.

            Assinado, Sua Majestade, El Rey Filipe.

 

A promessa de dois mil soldados era algo muito aquém do que Matias esperava. Na primeira invasão, quando São Salvador foi conquistada, Sua Majestade enviou quatorze mil homens para reconsquistar a cidade. Já se passara o mesmo tempo que demorou para reunir a armada de cinco anos atrás e nem sinal dos tão poucos prometidos para Olinda desta vez.

Ele se lembrava que a capitania de Pernambuco sempre foi considerada mais uma propriedade particular da família Albuquerque que uma extensão das terras reais. Além disso, as novas cartas que lhe chegavam mais pareciam duplicatas da primeira. Era como se El Rey nem se desse ao trabalho de escrever algo novo. Deveria ele temer que o socorro pudesse não chegar? Que Pernambuco não era prioridade de El Rey? Ou estava o capitão-mor ficando paranóico? O próprio Matias se perguntava. A verdade é que, para alguém no comando contra inimigos tão superiores atacando-o de todos os lados, a paranóia não era apenas uma virtude mas também uma obrigação.

Era notável o turbilhão de pensamentos angustiantes que acometia o capitão-mor, mas havia outro grande problema que tomava seu sono. Era um problema em que Matias se sentia não ter com quem conversar.

Não poderia contá-lo a ninguém.

 

***

 

O capitão-mor caminhava cabisbaixo pelas ruas de Bom Jesus com os pensamentos em seus problemas quando se viu diante da casa do amigo Domingos Calabar. Este deixara seus engenhos e sua esposa Bárbara em Porto Calvo, na comarca de Alagoas, para sua singela morada na fortaleza recém-construída. Morava ali sozinho, pois a esposa ficaria mais segura longe da guerra aguardando o retorno do marido.

Ao avistar o capitão-mor parado ali, o amigo mulato caminhou na sua direção. Lançou os cumprimentos do fim de tarde.

– Seja bem vindo, Matias.

Matias não mostrou um bom semblante. Só rugas mais profundas e pálpebras mais pesadas por tão grandes preocupações.

– O que houve? – Calabar questionou. – Percebo tamanha perturbação em sua mente. Diga-me o que lhe aflige.

Matias atravessou a porta de madeira, junto com o amigo. Acomodou-se ao humilde local. Manteve o silêncio diante dos novos questionamentos do do amigo. Pareceu deter as palavras na ponta da língua para contar suas aflições. mas estas palavras simplesmente não conseguiram deixar seus lábios.

Calabar foi mais incisivo.

– Pressinto o fardo da responsabilidade pesar sobre seus ombros, mal posso imaginar tudo pelo qual está passando.

– Sim, Calabar – Matias respirou profundamente. – O forte Bom Jesus. A defesa de Afogados. Olinda e Recife com invasores. As patrulhas holandesas. Os encontros com fazendeiros. Pedro no Maranhão. A falta de socorro do Reino. São tantas coisas.

Matias logo retomou o último assunto em sua mente, ainda que fosse quase incapaz de proferir as palavras que o revelassem.

– Mas não é só isso. Tem algo mais, algo que não sei como falar – o capitão-mor balbuciou, sendo a palavra retomada pelo amigo ao perceber a não progressão de suas frases.

– Sempre pode me contar o que quiser, meu amigo.

– Eu sei, Calabar, mas me envergonho só de pensar. É que, é que nas últimas semanas tenho pensado coisas, sobre uma mulher.

Matias emudeceu. Não conseguia continuar. Segurou suas palavras, até que novamente o amigo quebrou o silêncio que já perdurava um bom tempo.

– Presumo que esta mulher seja Ana Paes.

Os olhos de Matias se arregalaram. Ficou ainda mais desconcertado.

– Nunca contei a ninguém. Como sabe disto?

– Não sou cego, Matias. Percebi como olha para ela.

– Nunca imaginei que tais sentimentos estivessem tão a mostra.

– Mas não entendo qual o problema – Calabar o interrompeu. – É natural que alguém tão bela provoque tais sentimentos. É normal que um homem solteiro como vossa mercê os tenha. Não há nenhuma vergonha nisso.

Matias tomou o fôlego antes de o responder.

– Não é tão simples, sabe disso – então desabafou.

Calabar, conhecendo a história do amigo, sabia bem o que o afligia.

– Vossa mercê não é o seu irmão, não precisa se redimir pelos erros dele – então, falou.

As palavras de Calabar remetiam aos tempos em que o pai do capitão-mor, Jorge de Albuquerque, residiu em Pernambuco, muitos anos antes de Matias nascer. Ele governou a capitania por mais de uma década. Lutou em todas as batalhas cujo valor e coragem lhe deram fama, mas ele também conheceu uma bela mulher. Uma prostituta, uma nativa, uma escrava, uma qualquer, o capitão-mor nunca soube realmente. A moça engravidou. Nove meses depois, o bastardo nasceu e recebeu o nome de Paulo.

Jorge de Albuquerque abandonou a criança. Retornou ao Reino para combater na infame batalha de Alcácer-Quibir em nome do grande Rei Sebastião. Nunca deu educação ao filho bastardo. Nunca esteve presente na sua criação. Tudo o que o bastardo fez na vida foi envergonhar a família Albuquerque. Cometeu todo crime imaginável, de ladroagem a canibalismo, de assassinato a sodomia. Sua infâmia chegou ao Reino. Quando morreu, condenado por estes mesmos crimes, tudo que a família queria era o esquecer. O capitão-mor prometeu que nuca se deixaria levar pelos encantos de uma mulher que não fosse a sua esposa.

A lembrança na ovelha negra da família Albuquerque fez a face de Matias mudar a expressão, num misto de raiva e vergonha.

– Nunca perdoarei meu pai por colocar o mesmo nome do amaldiçoado em mim. Causou-me tanta náusea que na primeira oportunidade tomei o nome Matias para mim.

Calabar mirou os olhos do capitão-mor.

– Tenho certeza que Ana Paes será uma ótima esposa e uma excelente mãe para seus filhos para que isso nunca aconteça outra vez.

– Sugere que me case com Ana Paes?

– Por que não?

Era uma pergunta que o capitão-mor fizera a si mesmo. Já tinha um amargo argumento para ela. Afinal, ele era um Cavaleiro da Ordem de Cristo, era filho do Senhor de Pernambuco, possuía o sangue nobre de Fidalgos.

– É abaixo da minha posição, Calabar. – por fim, murmurou.

Não obstante, o amigo respondeu.

– Talvez isso seja verdade no Reino, mas aqui em Pernambuco o senhor não conseguirá uma noiva melhor.

Matias tomou um fôlego. A resposta fez o murmúrio tomar força.

– A questão não é a minha esposa, mas nossos filhos – a voz se tornou mais firme. – Não cometerei o mesmo erro do meu pai. Meu filho não será filho dessa terra selvagem. Nascerá no Reino, onde terá a melhor educação de Lisboa e de Madrid!

Calabar não escondeu sua decepção.

– Tem que dar uma chance para essa terras, Dom Matias. – o mulato tocou o ombro do amigo. – Sei como enxerga o mundo, mas nem tudo pode ser dividido em certo e errado. Há milhares de tons de cinza entre o preto e o branco. Nem todas as decisões de El Rey são infalíveis. Nem todo casamento precisa ser arranjado. Nem sempre o Novo Mundo deturpa a honra de seus filhos.

– Gostaria de acreditar nisso, meu amigo – o capitão-mor lançou as novas palavras com certo pesar. – Mas Sua Majestade foi colocado no trono por Deus, casamentos por amor apenas causam sofrimento e o sangue nobre não deve se misturar com os de plebeus. Essa é a verdade do mundo!

Calabar se manteve cabisbaixo. Nada mais falou. Por outro lado, o capitão-mor também pouco se sentiu melhor quanto à sua apreensão Apenas se levantou e deixou a casa do amigo, introspectivo e com sentimentos de culpa por algo que ainda não fez.

Afinal, era um assunto que ainda lhe causaria muitas noites insones.

 

***

 

Dias depois, o capitão-mor tomou caminho ao Engenho Casa Forte. Era o dia marcado para se encontrar com um negro mensageiro que, de três em três dias, comunicava dos planos do coronel Waerdenburch. Este negro vinha a mando de um espião que lhe revelava o que se passava no interior das linhas inimigas e tudo mais que lhe era confiado. Era pessoa da intimidade do comandante holandês, que participava de banquetes e aconselhava decisões militares.

Ao chegar no local combinado, para a surpresa de Matias, não encontrou o mensageiro negro. O espião veio em pessoa. Lá estava o próprio Adriaen Verdonck. Era facilmente reconhecível ao longe por seu corpo grande e obeso. De perto, suava como um porco, molhando sua testa larga e oleosa cabeleira loura. Parecia incapaz de se acostumar com o calor da região mesmo depois de tantos anos vivendo em Pernambuco.

– Matias, meu capitão-mor, fico feliz em revê-lo.

O espião Verdonck parecia feliz ao fitar seus olhos cinzentos no capitão-mor. Este apenas sentia nojo do gordo holandês. Considerava-o um homem sem honra, pois, quando o coronel Waerdenburch conquistou a capital pernambucana, logo correu para viver dentro das fronteiras holandesas. E, para angariar simpatias junto ao inimigo, tomou para si a tarefa de escrever um longo relatório acerca da situação de Pernambuco, particularmente no que diz respeito a lugares, aldeias, comércio e defesa, bem como das capitanias de Itamaracá, Paraíba e Rio Grande.

– Desejava estar do seu lado nesta guerra – o espião continuou.

– Bem que poderia – o capitão-mor respondeu. – Mas preferiu me trair. Revelou informações vitais sobre nossas forças ao inimigo. A escolha de ficar ao lado do coronel Waerdenburch foi sua.

O sorriso desapareceu da face de Verdonk.

– Acredito estar me redimindo com toda ajuda que já lhe dei.

Dentre as informações do espião, Matias pôde contar sempre com o aviso do tamanho das forças holandesas, como estavam postadas suas guardas, onde melhor tentar assalto, da quantidade da artilharia, munições e víveres, não só os existentes, como as que chegam nos navios. Até mesmo a primeira vitória de sua Resistência, foi graças a Verdonk. No batismo de fogo de Bom Jesus, em 14 de março de 1630, o espião quem avisou do ataque holandês e os guiou até onde as forças do capitão-mor estavam emboscadas.

– Paguei caro por cada uma dessas informações – o capitão o interrompeu – Será preciso bem mais do que isso para conseguir o meu perdão.

O espião estendeu o braço. Entregou uma carta ao capitão-mor.

– Exatamente por isso estou aqui.

O capitão-mor tomou esta carta em suas mãos. Abriu e desdobrou o papel que havia em seu interior.

– É um mapa de Pernambuco – Matias exclamou.

– Sim, é um mapa holandês – em seguida, o espião colocou o dedo indicador num dos pontos do mapa. – Olhe com mais cuidado, verá algumas praças bem conhecidas como os fortes Castelo do Mar, Ernesto, Bruyne e Cinco Pontas. Agora, olhe o lado norte do Capibaribe. Perceba que também há uma fortificação de frente à Barra, na Ponta da Aseca.

O capitão-mor olhou o desenho com cuidado mais. Era um prospecto do que os inimigos planejavam para o novo ano.

O espião retomou a palavra.

– Da mesma forma que os holandeses buscam o domínio da ilha de Antônio Vaz com o Forte de Cinco Pontas, junto com vários redutos que ainda construirão ao seu redor, eles estão determinados a fazer o mesmo do outro lado do Capibaribe, na Ponta da Aseca. Local onde sua Resistência sempre cobra o pedágio, ao custo de muitas vidas holandesas.

– Os inimigos planejam construir tudo isso ainda neste próximo ano?

– Eles querem tudo pronto ainda em janeiro. No mais tardar, em fevereiro!

As rugas sulcaram a fronte do capitã-mor.

– É uma ótima informação – Matias respondeu. – Mas não precisava ter vindo aqui. Poderia ter mandando um dos seus escravos como mensageiro, como sempre tem feito.

– Eu vim pessoalmente por um bom motivo, Matias – foi a vez de Verdonck falar. – Desejo garantir que atacará o forte na Ponta da Aseca, no mesmo dia que os holandeses iniciarem sua construção.

As rugas do capitão sulcaram novamente.

– Eu tenho um plano – o espião abriu um sorriso. – Como eu disse, desejo estar do seu lado nesta guerra. Mas não quero chegar em Bom Jesus, aos meus amigos pernambucanos, com a desconfiança dada aos traidores. Eu quero chegar lá com as glórias de um herói.

Um sorriso irônico se desenhou na face do capitão-mor.

– Nada do que fizer, mudará a forma como é visto entre os nossos.

O sorriso, no entanto, se dissolveu com as palavras seguintes do espião.

– Claro que mudará, pois seus olhos contemplam o homem que assassinará o coronel Waerdenburch!

– O quê? – Matias, surpreso, deixou escapar.

– No mesmo dia do seu ataque à fortificação inimiga na ponta da Aseca, eu planejo não apenas envenenar a bebida do governador de Nova Holanda mas também colocar fogo em seus barris de pólvora no Porto do Recife e colocar o mesmo veneno na água dos destacamentos inimigos.

– Quando nós nos reencontrarmos, todos ouvirão da sua própria boca, Matias, que eu fui o responsável pela vitória!

 

***

 

Após estas palavras, Matias e Verdonck apertaram as mãos em acordo. Em seguida, despediram-se um do outro. Matias revolvia as últimas palavras do espião, pois se somando à sua grande lista de preocupações de poder ou não confiar neste homem que já o traiu uma vez. Por que mudar de lado agora? Será que sentia faltas dos amigos pernambucanos? Da religião que adotou? Da boa vida que tinha em Olinda? Do justo governo de Matias?

Certamente, o ajudou muito na decisão a água barrenta que os holandeses bebiam e a escassez de mantimentos para milhares de soldados, supridos apenas pelos poucos navios que chegavam da Europa. O capitão-mor sabia que enquanto se mantivesse os engenhos de açúcar fieis e as cacimbas de Afogados sob controle, as suas paragens estariam sempre mais agradáveis.

Felizmente, o dia do capitão-mor ainda não havia acabado. Já no Forte Bom Jesus, quando o sol começava sua descida celeste aos horizontes, ele foi chamado por Calabar. Este seu bom amigo dizia que uma grande força aliada surgiu do lado de fora das muralhas, desejando se unir à causa pernambucana. Matias seguiu nesta direção. Percebeu um grupo diferente aguardando diante dos fossos e portões de Forte Bom Jesus.

Eram centenas de homens e mulheres com rostos imberbes, cabelos negros lisos e pele morena dourada. Eram nativos indígenas. A cena era surpreendente e animadora. Um grande socorro chegava assim tão inesperado e ao mesmo tempo tão necessário. O dia não poderia terminar tão bem!, Matias exclamava em pensamento. E ainda ficaria ainda melhor! Principalmente, depois que um dos soldados defensores dos portões de Bom Jesus, perguntou ao líder desta tribo indígena o que ele gostaria de falar com o capitão-mor. O líder bradou frases felizes, tendo o nome do seu bom capitão ao final.

–Eu sou Felipe Camarão, líder da tribo Potiguar. E trago a mensagem enviada por Pedro de Albuquerque Melo!

 

Ambrogio Spinola por Paul Rubens (1677-1640)


A Queda dos Generais

Nobreza

3

25 de Setembro de 1630

Pela manhã, nem deixou o galo cantar ou os primeiros raios surgirem no horizonte, o Conde-Duque já deixava o palácio com seus pesados passos. O seu destino era embaixada francesa. Estava nervoso com a demora na entrega do Forte de Pinerolo pelos franceses ao seu principal aliado na região: o Duque Victor Amadeus de Sabóia. A rendição deveria ter ocorrido meses antes. Até este momento, os franceses solicitaram múltiplas renegociações e alargamentos de prazos. Algo estava muito errado na avaliação do Conde-Duque. Era algo para se resolver o quanto antes.

O capitão da guarda real o acompanhava. No entanto, apenas caminhara alguns passos, uma pessoa começou a lançar insultos contra sua pessoa.

– Maldito seja, Olivares! Queimará no inferno por tamanha maldade e vilania!

Uma pedra arremessada caiu poucos metros distantes do Valido. Este nem se mexeu. Apenas se virou, reconhecendo o algoz. Era Fadrique de Toledo, antigo Capitán General del Mar Oceano, que neste dia mais lembrava um mendigo maltrapilho.

– É o responsável por destruir minha família, por destruir minha vida! Maldito!

Fadrique continuou a gritar enquanto a Guarda Real lhe impedia de realizar um novo ataque.

– O que houve com Fadrique? – o capitão da Guarda perguntou.

– Eu me certifiquei que recebesse uma pesada multa do Tribunal Militar por desobediência assim como demoção de todos os seus bens e mercês. Fiz questão de que tudo o que ele tinha fosse confiscado. Agora deverá viver na miséria com sua família para aprender a não me contradizer.

Enquanto era contido, o antigo general continuou a gritar.

– Isso era realmente necessário, Conde-Duque?

– Sem dúvida.

Fadrique era muito querido por todos nas forças armadas espanholas. Era melhor deixar claro a culpabilidade no general para evitar que as más línguas pudessem fazer o Conde-Duque de vilão. Assim, decidiu dar uma resposta ao capitão da Guarda Real.

– Essa situação com Fadrique me lembra quando El Rey ainda era um Infante, um adolescente, se preparando para o cargo real que inevitavelmente assumiria. Eu era seu camareiro-mor, comandava todos os seus criados e sua educação. Certo dia, por inspiração de um livro, ele me perguntou: É melhor para um soberano ser amado ou temido?

– E qual foi sua resposta?

– Respondi exatamente o que estava escrito no livro: Quando se deve abrir mão de uma dessas duas qualidades, é muito mais seguro ser temido do que amado.

O capitão nada respondeu. Ambos continuaram observando o ódio desesperado de Fadrique enquanto este era levado embora pela própria Guarda Real para longe do Conde-Duque.

Os homens são ingratos, volúveis, simuladores e dissimulados, covardes frente ao perigo e cúpidos de lucros. Fadrique está recebendo o que merece por desafiar minhas ordens, por ter testado minha reputação – o Valido falou. – E certamente não quero o seu amor!

Um novo silêncio persistiu.

– Quer que eu o encarcere nas masmorras pela insolência de hoje? – o capitão voltou a perguntar.

– Por enquanto, não – o Conde-Duque respondeu friamente ao entrar na carruagem. – Estando ele incapaz de pagar a multa do Tribunal Militar, a ordem para sua prisão já está sendo expedida. Logo será encarcerado no Forte de Santa Olalla, nas terras Andaluzas.

Dentro da carruagem nem olhou para o antigo e desgraçado general do mar, apenas falou.

– Por hoje, apenas quebre uns dois dedos e alguns ossos de sua face. Depois jogue-o numa sarjeta qualquer.

Enfim, partiu em direção à embaixada francesa para descobrir a razão da demora na entrega do Forte de Pinerolo.

Era a maior preocupação em sua mente.

 

***

 

Não mais que uma hora depois, tendo atravessado a Plaza Mayor e chegado do outro lado da Puerta del Sol, o Conde-Duque enxergou uma movimentação inesperada. Em frente à embaixada francesa, não havia a costumeira tranquilidade do local que só era perturbada pelos muitos transeuntes no local. Ali estava também uma carruagem estacionada nas suas ruas calçadas, para onde embaixador da França carregava muitas malas com seus pertences.

– Conde du Fargis.

Nem esperou as rodas de sua carruagem pararem, o Conde-Duque já abriu sua porta para interceptar o representante francês em Madrid.

– Onde está indo com tanta pressa? – logo o questionou.

– Olivares? – a surpresa surgiu no olhar do embaixador francês, que ainda tartamudeou, mas logo se recompôs. – Estou partindo em missão do meu Reino que como sabe está num momento crítico em razão do mal aconselhado príncipe Gastón d’Orléans.

O Conde-Duque fitou o representante francês. Os motivos de sua pressa bem poderiam ser verdadeiros, mas a mentira era facilmente lida no seu olhar. Não obstante, o questionamento continuou.

– Procurei Vossa Excelência por todo o palácio para discutir os motivos pela qual os termos do tratado de Cherasco não foram cumpridos ainda – a desconfiaça era bem perceptível na voz do Valido. – Fiquei surpreso em saber que estava deixando Madrid tão prontamente.

O nervosismo se tornou mais evidente no embaixador francês.

– Eu nem sequer esperava que Vossa Excelência percebesse minha saída, tão logo estarei de volta – este ainda esboçou um sorriso amarelo.

O Conde-Duque devolveu com outro meio sorriso.

– A última vez que vi um embaixador abandonar Madrid tão apressadamente foi dias antes da Inglaterra declarar guerra contra a Espanha – ele deixou as razões de sua desconfiança ainda mais evidentes.

– Não pense bobagens, Olivares. Estarei de volta em poucas semanas.

– Antes de ir, Embaixador, por que não tenta me explicar um bom motivo para as forças franceses em Mantova não terem entregue o Forte Pinerolo?

– Realmente, não saberia dizer o motivo específico – enfim, era possível ver um resquício de verdade nas palavras do representante francês. – Tenho as mesmas informações que Vossa Excelência, as quais dizem que Richelieu desejava acertar pormenores sobre a entrega da Fortaleza com o duque Victor Amadeus.

– Pormenores não duram semanas para serem acertarem, Embaixador.

O Conde-Duque estava cada vez mais impaciente.

– Eu realmente não sei, Olivares – a pressa do francês aumentava. – Juro que vou procurar uma resposta assim que eu retornar de minha missão.

Sempre bom em julgar pessoas e saber quando está sendo enganado, o Valido de El Rey soube que a ignorância do embaixador era real. Ele realmente não sabia dos motivos para a demora na entrega do Forte Pinerolo ou de qualquer plano maligno que o Cardeal Richelieu pudesse estar tramando. No entanto, uma coisa era certa.

A pressa do embaixador em deixar Madrid revelava que este também pressentia que algo de muito grave estava para acontecer.

 

***

 

Semanas depois, no norte da Itália, em meio ao cerco contra Forte de Pinerolo, os olhos do general Spinola miravam a fortaleza inimiga. O local era geograficamente estratégico por ser uma região montanhosa de difícil acesso. A presença dos franceses ali permitia rota direta dentro do território de Sabóia. Era algo que angustiava Victor Amadeus, duque desta região, que sempre sonhou com uma Sabóia independente. Por isso, este partira para reclamar aquela fortaleza de volta para si da forma como o Cardeal de Richelieu havia negociado com o Conde-Duque de Olivares.

Finalmente, a chegada de Victor Amadeus ocorreu no início da noite. Este foi direto à tenda do general no acampamento principal do cerco. Era uma larga tenda, mas com o mínimo de conforto. A mente espartana de Spinola permitia apenas sua cama ao fundo e a área para trocar as vestimentas. No centro, estava a pequena mesa onde o Spinola realizava suas refeições. Ele estava sentado ali, em frente à uma ave assada, algumas batatas e uma taça de vinho.

O Duque de Sabóia viu o general Spinola, ainda em sua armadura dourada, fazendo sua refeição. Sentou na cadeira oposta. O general quem primeiro lançou a única pergunta que realmente importava.

– Como foi a reunião com os franceses?

Mais do que ninguém, o general estava cansado do cerco, que já durava tanto tempo. Infelizmente, a resposta era tudo o que não desejava ouvir.

–  Apenas mais desculpas – Victor Amadeus retrucou. – Eles ainda aguardam as ordens de Richelieu para proceder com a entrega da fortaleza.

O semblante de decepção tomou conta de Spinola. Ele largou o talher sobre o prato. A comida pareceu mais difícil de engolir.

– Algo está errado – enfim, expôs sua avaliação. – Eles estão cercados. Os suprimentos estão acabando. Não há saída da atual situação. Manter essa praça só enfraquece a posição da França daqui por diante.

Spinola mirou Victor Amadeus nos olhos.

– O que eles estão esperando?

Victor Amadeus se manteve mudo. O silêncio persistiu, até enfim este se levantar da cadeira e caminhar até a saída da tenda.

– Acredito que logo saberemos – falou antes de deixar o local.

 

***

 

A resposta para a pergunta do general Spinola veio mais rápido do que ele próprio gostaria. Alguns minutos depois de Victor Amadeus deixar o local, o general sentiu algo estranho em sua garganta. Uma sensação de dormência e aperto. Tentou tossir para aliviar a sensação. Não fez efeito. Tentou se levantar. Caiu sufocado no chão.

O general tentou chamar seus homens, mas a garganta era incapaz de emitir qualquer som. Ele se debatia contra um inimigo invisível. Continuou a tentar se levantar. Era sempre jogado no chão. Enfim, olhou a taça de vinho da qual acabara de beber. Olhou o prato que acabara de comer. Percebeu que ali estava a razão de sua agonia. Deduziu neste instante que fora envenenado.

Era tarde demais. O general caiu sobre a mesa de jantar já desacordado. O som de copos metálicos batendo no chão e pratos de porcelana quebrando em vários pedaços, ecoaram com desabar do general. O barulho enfim chamou a atenção dos seus soldados, que, ao chegarem no local, ainda puderam lhe ouvir balbuciar as duas palavras que sempre guiaram sua vida: – Reputação e Honra.

No entanto, nada mais puderam fazer. Estas foram as últimas palavras do grande general Ambrogio Spinola.

 

Mapa de Olinda por autor alemão desconhecido 1650

 

O Adorado Pretendente

Holandeses

5

18 de Dezembro de 1630

O senhor Strausskicher estava sentado, com uma taça de bom vinho espanhol na mão, no quintal de uma das melhores casas da cidade. Tinha a mais bela vista para o território conquistado na sua frente, com as belas praias de Olinda, o Porto do Recife, a barra dos rios Beberibe e Capibaribe e a ilha de Antônio Vaz. Era uma visão magnífica. A casa foi seu lar pelos últimos nove meses, desde o dia que desembarcou nas terras do Novo Mundo. Era espaçosa, luxuosa e acolhedora. Por esta razão, sentiu tamanha tristeza ao receber a terrível notícia de que teria que abandoná-la.

Era uma triste situação por estarem os exércitos holandeses sendo derrotados em batalha. Estavam sempre acometidos pelo constante cerco inimigo e constante perigo a todos na vila, incluindo à sua própria família. Em especial, havia a preocupação de ver seu investimento desmoronar. Até o presente momento, não conseguira plantar uma única cana de açúcar ou fiar um único algodão, o que significava um grande prejuízo ao seu bolso.

Em setembro, os inimigos construíram uma trincheira no rio Beberibe, no banco de areia pantanoso chamado Buraco de Santiago. Todas as tentativas de destruí-lo resultaram em muitas mortes holandesas. Mesmo na ilha de Antônio Vaz, embora tenham fortalecido o Forte Ernesto e finalizado o Forte de Cinco Pontas, não atingiram as desejadas cacimbas dos Afogados na outra margem do rio. Mesmo dentro da ilha o inimigo vinha sempre saudar, com muitas flechas e balas, os soldados que iam buscar água e madeira. Diferentes expedições foram lideradas pelos tenentes-coronéis Van Der Elst, Steyn-Callenfels e Foucques Honcx para além do Beberibe. Todas retornaram sem empreender nenhum sucesso e com muitos homens a menos.

Em outubro, o próprio coronel Waerdenburch realizou uma saída. Mas, encontrando uma trincheira inimiga no caminho, foi obrigado a voltar. A desejada região da Várzea, descrita por Adriaen Verdonck como tendo mais de cem diferentes engenhos, ficou mais na imaginação que na realidade. Em novembro, houveram mais ataques inimigos. Dezembro também. O senhor Strausskicher já se se preocupava com a idéia de falência.

Felizmente, estava longe de se desesperar. Afinal, grande parte do ouro que colocou em Zuikerland já estava destinada ao dote do casamento de sua filha com o conselheiro Serooskerken. Era um gasto inevitável que, no fim, se tornaria um bom casamento para a filha. O próprio Serooskerken garantiu que possuía a influência e os meios dentro da Companhia para restituir qualquer prejuízo na forma de indenização. A verdade é que o senhor Strausskicher estava bem tranqüilo com a situação. Mesmo que não lucrasse, também não sofreria prejuízo.

Desta forma, conhecendo a situação deste homem, é possível imaginar sua reação quando um jovem rapaz de faces bobas e olhar inocente interrompeu o descanso de seu fim de tarde, o solicitando para uma conversa.

– Senhor Strausskicher.

O rapaz tomou uma pausa para retomar a coragem.

– Meu nome é Philipp van Haussen – ele  começou. – Sou só um soldado, mas gostaria de revelar os meus sentimentos por Amália, sua filha. Estamos juntos há muitos meses e nos amamos muito. Por isso, venho pedir ao senhor a mão dela em casamento.

Ao ouvir estas palavras, o senhor Strausskicher foi tomado por um primeiro pensamento: Como foi mesmo que esse soldadozinho insignificante chegou em minha casa? Em sua raiva, quase esquecera dos eventos de minutos atrás. Só os relembrou quando viu sua filha, acanhada, segurando a beirada da porta. Sentia-se mais segura no piso da cozinha, como se uma barreira invisível na caixa da porta a protegesse das punições do patriarca.

Ele relembrou que a moça armou a desconfortável situação.

– Isso é verdade, minha filha?

A menina, temente dos desígnios do pai, nunca se sentiu tão intimidada. Estava apavorada, com o que poderia acontecer, mas num arroubo de coragem balançou a cabeça em afirmação à pergunta paterna.

– Entendo –  o pai fez um claro sinal de decepção.

Haus aproveitou o momento para continuar seu pedido.

– Como pode ver, senhor, temos sentimentos muito fortes um pelo outro. Queremos passar o resto da vida juntos.

O senhor Strausskicher deu um profundo gole no vinho que tomava. Desejava ignorar tudo aquilo. Trilhava um praguejar severo em sua mente. Um reles soldado, não deve ter nem dezoito anos! Como minha filha pôde fazer isso comigo?, o senhor apenas suspirou profundamente. Apertou os olhos para tirar o cansaço. Tentou manter a polidez, tão lapidada em sua vida de mercador.

– E como pretende cuidar de minha preciosa filha, garoto?

– Meus pais possuem um comércio em minha cidade natal no império germânico. Rende bons lucros, para que eu possa dar uma vida simples, mas confortável à sua filha.

– Se este comércio é tão bom, o que faz aqui como um reles soldado?

Haus engoliu seco.

– Com todo o respeito, senhor, cortejo sua filha desde Amsterdã. Foi para ficar ao lado dela que me alistei na Companhia.

– Entendo – o senhor fitou novamente a filha.

O olhar de reprovação estava lá, mais contido. A origem germânica chamou sua atenção. Um soldado mercenário!, veio um latejar terrível na sua cabeça. Não bastava ser soldado, tinha que ser um mercenário!,  ele revolvia inconformado.

Não obstante, em aparente calma, continuou os questionamentos.

– Tem algum título de nobreza? De pai, mãe ou mesmo avô?

– Não, senhor.

– Pelo menos, tem een heer? Alguma fidalguia?

– Também não.

– Posses?

– Não.

– Algum ouro ou prata guardado para investir?

– Tenho o soldo que a Companhia me pagará ao fim do meu tempo de serviço.

– Os oito florins por mês?

– Sim, senhor.

– Entendo – ele falou com óbvio desprezo.

Um silêncio tomou conta. Mesmo Haus se envergonhou de suas respostas. Baixou a cabeça. O senhor Strausskicher pensou como aquilo tudo era uma perda de tempo. Uma paixãozinha adolescente, ingênua e patética. Estes dois jovens não sabem nada sobre a vida, não durarão nem um ano juntos!

– A minha filha sempre teve tudo do bom e do melhor – continuou. – Nunca lhe faltou nada. Como acredita que a fará feliz? Como suprirá todas as suas necessidades? Como dará uma vida digna à minha preciosa Amália?

Num interminável segundo, o desejo de Haus se transformou em embaraço. O jovem rapaz se sentiu incapaz, indigno da mulher que ama. Por fim, reergueu sua cabeça no humilhante momento.

Havia uma única certeza.

– Eu amo a sua filha, mais do que tudo neste mundo. E, quando se tem tamanho sentimento no coração, o que mais é necessário? Acredite, senhor, nosso amor é tudo o que precisamos.

A resposta do senhor Strausskicher foi uma grande risada.

Haus baixou a cabeça. Aonde haviam palavras verdadeiras e boas intenções, o mercador só enxergava ingenuidade. O jovem rapaz se calou. Percebeu que qualquer tentativa de argumentar era em vão. Não valia a humilhação.

Para a surpresa de ambos os homens, a bela Amália, tocada pelas palavras do amado, decidiu fazer valer sua opinião.

– Pai – ela tartamudeou. – Eu amo Philipp Van Haussen – a voz ganhou firmeza. – Viveria com ele na pobreza e na riqueza. Com ou sem o senhor. Ele está certo, nós só precisamos do amor um do outro.

O senhor Strausskicher se levantou.

– Só quero o melhor para o seu futuro, Amália! – ele foi repreendor.

Ela o enfrentou.

– O melhor para mim é estar feliz ao lado do homem que eu amo! Juro que o odiarei se me impedir de ser feliz!

O silêncio retornou.

O senhor Strausskicher se sentou preocupado. Nunca vira a amada filha lhe desobedecer, ainda mais jurar-lhe ódio. Contemplou, sem ação, a filha se aproximar do amante e abraçá-lo.

O próprio senhor Strausskichner já tivera dezessete anos, sabia bem como eram os sentimentos nesta idade. Ficou cabisbaixo por um momento. O seu desejo era trancafiar sua preciosa Amália num quarto. Puní-la. Castigá-la. Deserdá-la. A maioria dos pais o teria feito. No entanto, o senhor Strausskicher amava muito sua filha. Ao contrário dos desejos paternos, a resposta que proferiu ao casal foi bem diferente.

– Tudo bem – falou num profundo fôlego. – Eu posso tentar considerar Haus como um possível pretendente. Só me dê tempo para pensar e avaliar, para conseguir aceitar isso tudo.

Haus era incapaz de segurar seu bobo sorriso de felicidade.

– É tudo o que peço, senhor – ele respondeu.

 

***

 

O senhor Strausskicher se sentou sozinho. Observou a paisagem à frente. Imaginou a desonra de ter um cão mercenário como genro e seus planos financeiros arriscados por um capricho adolescente. Era preciso resolver esse problema o quanto antes. Bebeu mais um gole da sua taça de vinho, tão voraz, que a secou por completo.

Um escravo doméstico adentrou o quintal quando percebeu a taça vazia.

– Deseja mais alguma coisa, senhor?

O senhor Strausskicher demorou a responder. Não era mais vinho que desejava. Enfim, mandou o negro chamar a melhor pessoa para resolver a indesejada situação.

– Vá à casa do coronel Waerdenburch, pois preciso falar com ele urgentemente!

 

***

 

Algum tempo depois, Haus já estava no seu alojamento do Porto do Recife contando à Richshoffer sobre como procedeu o pedido de casamento ao pai de Amália e a boa forma como este aceitou toda a situação.

– Amália enfrentou seu pai, por mim, por nós dois.

– Não acredito no que estou ouvido! – Richshoffer o olhava incrédulo.

– Oras, eu estou vivo aqui para contar a história, não estou? – Haus se sentia nas nuvens. – Precisava estar lá para entender. Não viu como o senhor Strausskicher ama sua filha. Ele apenas deseja o melhor para ela. Ficou preocupado dela o odiar pelo resto da vida.

– Ainda assim, é difícil de acreditar.

– Eu estava lá e nem acredito! – Haus exaltava sua felicidade. – Temos que comemorar. É por minha conta hoje. Quero compartilhar este momento contigo e com Spiessen, meus melhores amigos.

O recitar do nome de Spiessen trouxe uma má memória.

– Bem que Spiessen está precisando de algo diferente. Ele só fala na selvagem agora. Está ficando tão distraído que quase morreu por isso.

O comentário se deveu à uma emboscada inimiga em outubro quando toda companhia saiu para cortar madeira. Ao chegarem do outro lado do rio, o inimigo se achava atrás de um parapeito. Recebeu-os com tão certeira descarga que caíram vários mortos e muitos ficaram feridos. Apesar disto, a companhia do major Berstedt conseguiu galgar o parapeito e os puseram em fuga. Pouco ajudou o amigo Spiessen na ação, que, além disperso do combate, foi ferido por um tiro nas costas. A bala não o varou por ter ricocheteado num estojo de prata que carregava consigo.

A lembrança e os planos de comemoração, no entanto, foram interrompidos pelo major Berstedt. Este adentrou o alojamento dando ordens para uma nova missão.

– Preparem suas armas, soldados! – O major bradou. – Os boatos de um espião em nossas forças eram reais. Descobrimos quem ele é e partiremos à sua caça neste momento.

Conrad Eberhard?, o soldado Richshoffer se questionou. Todos se perguntavam sua identidade, tendo cada um suas próprias suposições. A resposta era bem diferente do que estavam esperando.

– Um indígena passou para o nosso lado alguns dias trás, reconheceu o negro por quem o espião enviava cartas ao governador Albuquerque sobre todos os nossos planos – disse o major, completando em seguida:

– O espião é o conselheiro de guerra Adriaen Verdonck!

 

Felipe Camarão por Vitor Meireles (1832-1903)

 

Os Guerreiros Potiguares

Brasilianos

4

28 de dezembro de 1630

Em frente ao Forte Bom Jesus, Matias observava os nativos que desejavam se unir à causa pernambucana. Eram índios integrados à civilização. Alguns vestiam gibões, botas e calças. Outros deixavam parte do corpo desnuda. Quase todos combinavam as roupas com plumas e tecidos coloridos típicos de sua cultura. No entanto, todos estavam armados, até mesmos as mulheres. Tratava-se de uma tribo guerreira. Alguns seguravam arcos e lanças como é costume ver os nativos, mas haviam os que portavam espadas e mosquetes.

Matias analisou toda a mistura cultural. Ficou ainda mais surpreso quando o líder tomou a frente do grupo. Apesar de sua face tipicamente indígena, estava coberto com a vestimenta completa de um branco das terras do além-mar. As roupas cobriam todo o corpo. Tinha proteções metálicas. Carregava espada longa no cinturão de couro e um mosquete preso às costas. Portava até mesmo os brasões da família real do Rei Filipe em seus tecidos.

– Soldados do Forte Bom Jesus! – Ele gritou.

O semblante de Matias foi tomado em sobressalto quando o líder indígena bradou mais alto.

– Trago ao capitão-mor Matias de Albuquerque um importante mensagem das capitanias do Ceará e do Maranhão, enviada por seu capitão Pedro de Albuquerque Melo.

– Meu Deus! – Matias não conseguiu conter a exclamação. Depois de nove meses sem notícias do capitão Pedro, finalmente, ele fez contato, já o considerava morto por algum ardil holandês.

– Abram os portões! – o capitão-mor lançou a ordem.

Então, caminhou aos portões com um grande número de homens em escolta. Os indígenas fizeram o mesmo quando seu líder se aproximou com uma das mulheres guerreiras ao lado.

Quando estavam frente a frente, com os olhos se cruzando num momento de tensão, o líder indígena falou.

– Meu nome é Felipe Camarão, líder da tribo Potiguar, e esta ao meu lado é minha esposa Clara! Eu fui enviado pelo capitão-mor do Ceará e meu irmão de honra, Martim Soares Moreno, para lhe auxiliar nesta luta.

Felipe Camarão não era um nome desconhecido. Era o filho de Potiguaçu, o Camarão Grande, lendário líder das tribos potiguares da capitania do Rio Grande que selou a paz há trinta anos atrás com os colonizadores ibéricos junto ao também lendário Jerônimo de Albuquerque Maranhão. Alguns anos após esta conquista, o próprio Camarão Grande foi batizado, se convertendo na fé cristã junto com sua esposa e filhos.

Este filho, em especial, o Felipe Camarão, foi enviado em tenra idade ao colégio jesuíta de Miritibi, em Pernambuco, para aprender o costume e a religião dos colonizadores.

– Seja bem-vindo de volta a Pernambuco, Poti, filho de Camarão Grande – Matias confirmou já conhecer a história do líder potiguar, continuando com uma pergunta: – Mas me conte porque seu irmão Martim Soares e meu primo Pedro não vieram em sua companhia?

– O capitão-mor me Honra ao se referir a mim pelo nome que meu pai me deu ao nascimento – o líder indígena respondeu – mas pode me chamar de Felipe Camarão como fui batizado na fé cristã e agora sou conhecido.

O nome remetia ao seu batizado no Rio Grande, já em idade adulta, cujo o sobrenome Camarão era a tradução da palavra Poti e o nome Felipe fora escolhido em homenagem ao rei ibérico.

– Quanto a resposta de sua pergunta, digo que ambos Pedro e Martim partiram juntos ao Maranhão na busca por mais socorro!

Percebeu-se nas palavras de Felipe Camarão a completa ausência de sotaque ao falar o idioma do Reino. Certamente não era seu idioma natal mas conseguia proferi-lo com perfeita fluência. Nem os ‘f’s e ‘l’s, tão penosos para os de sua raça pronunciarem, tinha dificuldade em fazê-lo. Se o capitão-mor não estivesse vendo a face indígena na sua frente, não havia como distingui-lo de um imigrante do Reino Ibérico.

– Entendo.

Matias respondeu, desapontado pela ausência de ambos companheiros, mas esperançoso na possibilidade de mais exércitos. Em seguida fez uma nova pergunta ao potiguar sobre a grande batalha que se aproximava.

– Oh, Felipe Camarão. Uma grande batalha se aproxima de nossas fronteiras e que definirá os rumos destas guerras. Acredita que seus guerreiros potiguares estarão preparados para a luta neste campo de batalha?

O indígena respondeu.

– Os guerreiros potiguares já nascem prontos para lutar!

Seguiu o brado indígena com lanças e mosquetes ao chão.

 

***

 

Enfim o bom Deus enviou um sinal, pensou Matias. Eram grandes guerreiros liderados pelo reconhecido líder Felipe Camarão e a promessa de exércitos ainda mais poderosos. O grande temor do capitão-mor, no entanto, era sobre as notícias da capital de Salvador. Elas descreviam que o socorro do Reino chegaria em breve, mas como este breve se transformou em longo, muitos foram perdendo as esperanças, as vidas, as fazendas e até mesmo a fidelidade em El Rey.

Depois que os guerreiros Potiguares se alojaram em suas habitações no centro de Bom Jesus, Matias retornou aos seus aposentos. Começou a escrever uma carta destinada ao Rei Filipe.

 

À Sua Majestade, El Rey Filipe,

Esta guerra não se pode sustentar sem as Armadas com tal poder que assegurem a restauração. É certo que os holandeses não deixam ociosas suas armas e forças, de cinco a seis mil infantes, e sempre conservam as quarenta a cinqüenta naus que tem ali. Porque a cada mês lhes vêm da Holanda duas a três naus com cinqüenta soldados cada uma, para suprir os que matamos. Os moradores, que até aqui tem procedido com grande fidelidade e valor, vendo demora no que esperam para a restauração, provavelmente não se conservarão nesta constância. E, faltando esta, faltará tudo para prosseguir a guerra. Não só a praça de Pernambuco, mas todas as outras praças da nossa terra.

Assinado, Matias de Albuquerque

 

Ao terminar de escrever a carta, Matias suspirou. Sentiu um pesar deixar o peito. Um desabafo que há muito tempo desejava externar.

Mandou chamar um dos seus melhores soldados.

– Solicita minha presença, capitão-mor?

O soldado era chamado Antônio Dias Cardoso, um dos homens que lutavam na companhia de Luís Barbalho nas fronteiras do território inimigo. Ele viera relatar as vitórias na região das Salinas, local onde capitão Luís Barbalho iniciou uma nova fortificação ao redor de uma casa de morador.

– Dias Cardoso, tenho uma importante missão – Matias hesitou por um minuto olhando a carta nas mãos antes de entregá-la ao bom soldado. – Eu enviei cartas de socorro à capital de São Salvador, para conseguir o apoio dos exércitos do Reino. Até o momento, não obtive mais que promessas. Quero que vá se informar sobre a atual situação.

– Considere a ordem cumprida, senhor!

O bom soldado respondeu sem hesitar.

 

***

 

No dia seguinte, o capitão-mor despertou antes do surgimento do sol nascente. Algo que já lhe era costume. Em seguida, foi ao encontrou do líder indígena Felipe Camarão e seus guerreiros Potiguares. Todos com suas armas empunhadas e pertences nas costas, partiram juntos ao confronto vindouro. Deveriam iniciar a marcha conjunta para às margens do Rio Beberibe, nas fronteiras com o território da Nova Holanda.

Chegara o momento de colocar o plano do espião Adriaen Verdonk em ação. Deveriam atacar a construção do novo forte holandês. Seria o sinal para o espião matar o comandante holandês, pôr fogo nos depósitos de pólvora e envenenar a água do exército holandês.

Antes mesmo do sol atingir seu pino, este grupo chegou nas fortificações defronte à Ponta da Aseca. Mesmo sendo um grande número de guerreiros, o exército de Felipe Camarão se movia com grande velocidade através das matas de Pernambuco. Os potiguares estavam acostumados com os segredos do continente e a destreza era com certeza uma de suas maiores qualidades. No local indicado, estavam os índios comandados pelo Padre Manuel Moraes; também as forças paraibanas lideradas por um dos irmãos Albuquerque Maranhão; defensor de Santo Amaro, Estevão Alves; e o defensor do Buraco de Santiago, o habilidoso Luís Barbalho.

Eram as principais forças que mantinham confinados os holandeses na porção de terra que consistia na vila de Olinda, no Porto do Recife e na Ilha de Antônio Vaz.

Os capitães e soldados aguardavam as palavras do seu capitão-mor.

– Este ao meu lado é o bravo Felipe Camarão!

Matias bradou para que todos pudessem ouvir.

– Ele traz não apenas os seus experientes guerreiros potiguares para esta guerra, mas também ótimas notícias vindas do norte. O famoso capitão-mor Martim Soares Moreno está chegando com os seus incomparáveis guerreiros do Ceará e também os poderosos soldados da capital de São Luís. Assim, unidos a essas forças, os nossos exércitos hão de marchar sobre Olinda, expulsando os holandeses das nossas terras!

– Preparem-se, meus fiéis soldados. Preparem-se todos para a grande batalha que se aproxima!

 

 

Victor Amadeus e Chistine Marie por Giovanna Garzoni (1600-1670)

 

As Revelações em Família

Nobreza

4

30 de Novembro de 1630

Uma conversa ocorria numa das centenas de cabanas militares do cerco ao Forte de Pinerolo em Mantova. Era a maior de todas as cabanas deste acampamento. Era o local onde um homem terminava sua madrugada comendo um belo assado de carne com um bom vinho. Este homem era Victor Amadeus, o novo Duque de Sabóia. Ao seu redor, no mesmo aposento, duas mulheres nuas estavam deitadas sobre uma larga cama, digna de reis. Estavam dormindo, após uma noite de luxúria, digna das bacanálias ao deus do vinho. As duas moças mais pareciam ornamentos, junto com as tantas tapeçarias, cortinas e tapetes que completavam o cenário.

Dividindo a mesa com Victor Amadeus estava uma terceira mulher, tão jovem quanto as outras, no auge de seus vinte e quatro anos. Contradizendo seus atos nesta noite, esta tinha uma face angelical, pele bem alva e cabelos louros encaracolados que lhe desciam às costas nuas. Tão nuas quanto o resto de seu corpo, afinal, também participara da mesma orgia que o Duque.

Esta jovem mulher era sua esposa.

– Ah, Christine Marie, que bela comemoração.

Assim disse o homem, tomando mais um gole de seu vinho enquanto relembrava a libidinosa noite de prazer com as três mulheres. Esta lhe respondeu com um sorriso devasso, realçando mais que seus largos seios à mostra.

– Uma comemoração bem merecida. E será a primeira de muitas, agora que enfim os franceses lhe entregaram o Forte Pinerolo.

– Mal posso acreditar.

Os festejos e orgias continuariam por muito mais tempo. Durariam até o raiar do sol. No entanto, em certo momento da farra uma presença estranha surgiu no local. Era exatamente a irmã de Victor Amadeus. A mulher cuja morte do marido iniciou todo conflito em Mantova. Trazia consigo palavras ainda mais indesejadas que sua presença.

– Diga-me que não é verdade, irmão! – ela bradou

Victor Amadeus sobressaltou. Não desejava que ver sua irmã, mas foi obrigado a manter os ouvidos atentos.

– Por favor, diga-me que não envenenou o general Spinola! Diga-me que não deseja agir contra os interesses da Espanha!

Mal terminou de falar, Christine levantou sua taça de vinho. Brindou-a com o esposo ao mesmo tempo que deitava o corpo nu sobre ele, beijando-o ardentemente nos lábios. A mão desceu para o meio das pernas do marido.

Christine desejava causar constrangimento na cunhada.

– Tudo o que fizemos foi para o engrandecimento de nossa Casa. Ela merece alcançar o poder de um Reino como a França e a Espanha. Não ser um mero vassalo de um deles!

Por fim, as palavras de Christine Marie terminou.

– Olivares nem imagina o que temos planejado para ele!

 

***

 

Longe dali, em Portugal, ao encontrar o pai no leito de morte, o jovem João de Bragança se lembrou da varíola que o acometeu na infância. Algumas cicatrizes provenientes da doença ainda podiam ser encontradas debaixo de seu cavanhaque. Sua memória nunca esqueceu o dia em que seu pai o levou para as enfemarias da cidade. Como o homem severo e disciplinador que era, o velho Teodósio queria mostrar ao filho a boa fortuna que teve por ter se recuperado totalmente. Os doentes naquela enfermaria não teriam essa mesma sorte.

João se lembrava dos gemidos e das tosses sempre presente no lugar. O ambiente trazia uma cor amarelada, patológica. As janelas eram todas lacradas. A iluminação vinha das velas que flamejavam incessantemente embora a ventilação do lugar fosse gélida. A sensação era de um peso no ar. A inspiração parecia lhe arder as narinas. Era intragável.

Hoje, muitos anos depois da visita ao hospital, João sentiu as mesmas sensações na terrível enfermaria que se transformou o quarto paterno. A figura acamada do velho Teodósio, Duque de Bragança, se expunha numa debilidade que assustava o herdeiro.

– João, meu filho.

Um movimento de mãos do velho Duque foi o bastante para fazer toda criadagem deixar o aposento. Quando a sós, o filho retirou as luvas que lhe protegiam do frio invernal. Sentou ao lado do pai. Retomou a palavra.

– Pai, eu vim assim que soube da piora em sua saúde.

– Chegou a tempo, pois temia que ficasse tarde demais.

Sentado à beira da cama, João sentiu os dedos do pai lhe tocarem a mão.

– Não diz isso, pai – João apertou esses dedos calorosamente. – Eu estava em Madrid, não é tão longe assim.

O amoroso aperto de mãos parecia esquecer as diferenças passadas.

– E o que fazia em Madrid? – O velho duque perguntou.

Como numa tempestade de emoções dúbias, a vergonha se expressou na face do rapaz. Revelava a razão de não visitar antes o pai.

– O que um jovem, solteiro e com todo o ouro que o senhor me provém, poderia fazer na cidade mais festiva do Reino?

– Por que, filho? Não há mulheres e bebidas aqui em Vila Viçosa?

O velho Teodósio entreolhou desapontado. A resposta aumentou o sentimento.

– Mesmo juntando toda população da região sob o governo de Bragança, a capital do Reino possui pelo menos dez vezes mais pessoas. As comemorações promovidas por El Rey em nada se comparam com as daqui.

A face do pai se entristeceu.

– Desde a morte de sua mãe, aos seus quatro anos de idade, eu me dediquei à sua criacão e dos seus irmãos. Toda minha vida fiz de tudo para lhe afastar de Madrid. Daquele ambiente nefasto. Porque me desobedecer agora?

A decepção paterna trazia outras tantas lembranças.

– Eu só estava me divertindo, pai? Qual o problema? – João respondeu, imodesto e contestador, como sempre respondeu o pai.

As mãos já não se apertavam mais.

– Vejo até que trouxe consigo alguns modismos da corte filipina. – Os olhos do velho Teodósio fitavam a camisa de seu filho. As luvas, que João acabara de guardar, saltavam do bolso ficando à mostra. – Desde quando está usando luvas?

João as pressionou mais ao interior da vestimenta, as tirando da vista do pai, assim como desviava o olhar ao chão com o mesmo objetivo.

– O inverno está para começar. Já está frio lá fora.

– Luvas são para mulheres, meu filho. Quando estiver com frio, esfrega as mãos.

João levantou o rosto para manter o orgulho, mas, ao fitar o desaprovador olhar paterno, este retornou ao chão.

– Em Madrid as pessoas as usam o tempo todo.

O pai retomou a palavra quase de imediato, interrompendo o filho.

– Por favor, não fale o nome desta cidade amaldiçoada. E, se quiser continuar a conversar comigo, deixa estas luvas afeminadas no balcão para que eu as jogue fora mais tarde!

– Sim, senhor – o filho respondeu ainda cabisbaixo.

Em seguida, tirou as luvas do bolso. Colocou-as no balcão como solicitado pelo pai. O velho Teodósio continuou o sermão.

– Eu esperava fazer de sua figura um exemplo aos seus irmãos, mas é o primeiro a cair nas tentações deste mundo manipulado por nossos inimigos.

Eu esperava mais de ti, João, a frase veio à mente do filho tantas vezes quanto ele a escutou por toda a vida.

– Sempre esperou mais de mim do que eu pude lhe dar – o sentimento na voz do herdeiro passava da murmurosa vergonha para o elevado rancor. – Sempre fui o filho mais cobrado, no entanto, sempre fui o primeiro a lhe desapontar – a voz se alteou. – Talvez se Eduardo fosse seu herdeiro não sentiria tanta vergonha, não é verdade?

– Não levanta a voz, garoto – o velho conteve o gérmen da exaltação do filho. – Não importa que seu irmão tenha sido sempre o mais obediente e estudioso, a minha herança é sua. É João de Bragança, meu primogênito, quem carregará meu nome e meu título quando eu morrer!

Antes que algum sentimento pudesse se manifestar no filho, o timbre do velho Duque se abrandou. Palavras mais humanas deixaram os seus lábios.

– Por isso, não quero que cometa os mesmos erros que eu.

– Erros? – O novo sentimento de João era a dúvida. – Que erros? Afinal, o grande Teodósio sempre foi o mais perfeito nobre de Portugal. – Eram palavras verdadeiras, mas a voz do filho já trilhava o campo de zombaria.

O pai tomou um profundo e pesado fôlego.

– Foram muitos erros – falou com voz lúcida. – Certamente, o maior deles foi me deixar ser aprisionado. Deixar que os anos me acostumassem com as grades invisíveis ao meu redor.   E ainda assim meu herdeiro, por vontade própria, entra na mesma armadilha.

– Do que está falando, pai? – A confusão tomava conta da cabeça do filho.

– Estou falando do Édito de Tomar.

Cinquenta anos atrás, as cortes ducais portuguesas e os nobres detentores de grandeza se reuniram na cidade de Tomar para decidir o sucessor do Rei Sebastião entre a avó de João, Catarina de Bragança, e o avô de El Rey Filipe, então Rei da Espanha. Foi nesta reunião que decidiram que o avô de El Rey governaria Portugal, se tornando província da Espanha, num evento conhecido como a União Ibérica.

No entanto, as palavras seguintes do pai revelariam surpreendentes revelações que ocorreram nos bastidores dessa união.

– Foi por minha causa que sua avó desistiu da disputa por Portugal.

Os olhos de João se arregalavam. Eram segredos de família desenterrados depois de muitas décadas.

– Acredito que contei onde eu estava durante este tempo? Sobre o que aconteceu naa batalha de Alcácer-Quibir?

– Sim. Aos doze anos de idade, o senhor era escudeiro do Rei Sebastião na inglória batalha contra os mouros do Marrocos. Quando a situação se tornou crítica, o Rei ordenou que o senhor fosse levado para um lugar seguro, mas o desobedecendo o senhor tomou um cavalo e se lançou à linha de combate.

– No fim, o Rei Sebastião acabou morto e eu fui feito prisioneiro.

Era a vez do velho Duque desviar o olhar.

– No entanto, diferente do que foi contado, meu filho, eu nunca estive em prisões marroquinas. A verdade é que o Rei do Marrocos ficou tão impressionado com minha bravura infantil que me deixou regressar à casa alguns meses depois da batalha.

– Então onde o senhor esteve nos três anos seguintes? – João questionou.

Ainda com o olhar arredio na janela, Teodósio confessou mais revelações de um passado distante.

– Com a morte do Rei de Portugal e a crise de sua sucessão, o Rei do Marrocos me entregou ao Rei da Espanha, que me reteve em Andaluzia, aprisionado no palácio do seu maior general, Alonso de Gusmão, Duque de Medina-Sidônia.

– Gusmão?

– Sim. Gusmão. – O pai continuou: – O avô do seu amigo de farras em Madrid. O Rei da Espanha apenas permitiu meu regresso à Vila Viçosa quando sua avó Catarina desistiu da disputa pelo Reino de Portugual, o entregando de mão beijada aos espanhóis.

– Pai – João nem conseguia acreditar. – Eu não sei nem o que dizer.

– Nossa família e o Reino de Portugal foi vítima de uma conspiração até hoje mantida em segredo de todos. Algo que pactuei, mesmo depois da morte de sua avó. E o fiz por pura vergonha e medo.

A mente de João, capturada numa tempestade confusa de pensamentos, divagava perdida. No entanto, esta tempestade mais pareceu uma brisa quando o velho Duque proferiu as palavras seguintes.

– Por isso, lhe peço agora, meu filho, que não mais pactuará com esse segredo. Prometa-me que será melhor do que eu, que não ficará calado enquanto usurpadores tomam nosso trono e tiraniza nosso povo.

O velho duque respirou profundamente. Então completou.

– Prometa-me que lutará pela restauração do Reino de Portugal.

Soldados pilhando uma fazenda por Sebastiaen Vrancx (1573–1647)

O Grande Traidor

Holandeses

6

22 de Janeiro de 1631

As buscas começaram por todo o território de Nova Holanda. Todos os soldados se empenhavam ao máximo para encontrar o espião Adriaen Verdonck. Todos desejavam colocar o traidor na maldita forca, pela qual tantos já passaram e retirar dela o último que sofrera de sua punição. Era um soldado que, de tão faminto, arriscou a própria vida para invadir um dos armazéns do porto em busca de comida, mas só encontrou uns bacalhaus velhos, roídos por ratos. Todos compadeceram da morte do soldado faminto, visto que a fome permeava por todo o exército, mas o coronel não pensou duas vezes em condená-lo.

Os soldados não sentiam a mesma compaixão pelo vil traidor. Todas as companhias o buscavam com afinco: no porto do Recife, na vila de Olinda e na ilha de Antônio Vaz. Cada canto, construção, armazém, rua e travessa destas localidades foram vasculhadas. Reviraram toda mobília de sua casa. Inquiriram todos que lhe eram mais próximos. Não obtiveram sucesso algum. Nenhum sinal de Verdonck foi encontrado.

Ambos Richshoffer e Haus voltavam para seus leitos, descansar da infrutífera procura pelo traidor quando a voz de um dos prisioneiros numa prisão próxima ecoou pelos corredores.

– Scio ubi est perfidus Adriaen Verdonck.

O prisioneiro, vendo a movimentação das forças holandesas, em conjunto com o constante repetir do nome Verdonck, conseguiu deduzir o que estava acontecendo. Não sabia falar holandês, nem os soldados entendiam o idioma ibérico. Tentou o latim.

O soldado Richshoffer foi o único capaz de entendê-lo. As palavras que o prisioneiro proferiu traduziam a inesperada mensagem.

– Eu sei onde está o traidor Adriaen Verdonck!

 

***

 

Já tarde da noite. Dois soldados responsáveis pela sentinela das cacimbas da ilha de Antônio Vaz estavam caídos no chão. Um deles tinha uma faca cravada no pescoço. O outro padecia de um buraco de bala no peito. Eles guardavam uma pequena cabana no meio à mata. Lá estava um profundo poço onde os holandeses retiravam toda a água para beber e cozinhar. Era a principal e, praticamente, a única fonte de água para o exército holandês. Era exatamente ali dentro que estava o homem quem matou os dois sentinelas.

Ele estava com um botijão na mão. Despejava poço adentro seu conteúdo liquido, cuja coloração era ainda pior do que a insalubre água dali. Outros dois botijões vazios revelavam o quanto já despejara e pelo menos uma dúzia revelava quantos ainda desejava despejar. Era Adriaen Verdonck colocando em prática o terrível plano para exterminar o exercito holandês. Depois, seguiria o assassinato do coronel Waerdenburch da qual Verdonck não raras vezes partilhou a mesa em fraternais jantares. Em seguida, colocaria fogo nos depósitos de pólvora holandeses. Tudo terminaria com um ataque em massa do governador Albuquerque dentro do território holandês.

Era um plano engenhoso e extremamente audacioso. Verdonck poderia ter conseguido tal ação. No entanto, foi impedido a tempo.

– Não se mova, traidor!

Um estrondo ecoou. Lascas de madeira voaram da porta. Foram precedidas pela forte bota que a escancarou. Era o major Berstedt que adentrava seu interior. O espião soltou o botijão que tinha nas mão. Tocou em sua pistola na cintura, mas já era tarde demais. O mosquete do Major apontava para sua cabeça. Richshoffer, Haus e mais meia dúzia de soldados entraram em seguida com suas armas na mão.

– Largue a arma ou faço sair fumaça de sua testa!

A cabana se encheu de soldados. O espião, embora hesitante, deixou a pistola se soltar da mão. Caiu no solo. Uma última pessoa entrou na cabana. Era o prisioneiro espanhol que revelou seu plano. E, no idioma espanhol, ambos travaram uma discussão.

– Não acredito que fez isso comigo? – Verdonck se surpreendeu. – Eu disse que o libertaria logo que colocasse o plano em prática!

– Éramos amigos até me deixar apodrecer por dez meses nestas malditas prisões – o prisioneiro respondeu.

A face do traidor se encheu de revolta. Tentou se explicar. Não conseguiu. A bota do major Berstedt escancarou sua face.

– Cala a boca, verrader!

Com alguns dentes a menos, o espião caiu desacordado no chão.

 

***

 

Não muito tempo depois, num dos escritórios do alto escalão de Nova Holanda, ambos Haus e Richshoffer estavam de frente ao tenente-coronel Steyn-Callenfels e ao major Berstedt. Receberam as congratulações em nome do Conselho de Guerra.

– Meus parabéns!

O tenente-coronel congratulou o major, mas seu olhar tomou a direção de um soldado específico.

– Sempre soube, Richshoffer, que apesar de tudo, suas ações ainda me deixariam orgulhoso.

Este soldado respondeu com alegre figura.

– Agradeço muito por estas palavras, senhor Steyn-Callenfels, mas acredito que as honras desta captura pertencem o prisioneiro espanhol que nos entregou o traidor.

– As ações do espanhol não serão menosprezadas, soldado.

Os holandeses ficaram extremamente agradecidos com a revelação do prisioneiro a ponto de o libertarem e o deixarem viver na cidade holandesa. Eles descobririam que Verdonck não conseguiu envenenar as cacimbas de Antônio Vaz. Aprouve a Deus revelar essa maldosa intenção a tempo, pois, segundo os especialistas, em razão de estarem em meses chuvosos, o veneno acabou se diluindo nas águas, não conseguindo atingir seu objetivo.

Também foram encontradas cartas com os próprios escravos do espião, que foram apresados pelos destacamentos holandeses. Quando foram abertas pelos oficiais, confirmaram a correspondência que ele mantinha com o governador Albuquerque.

– E onde está o traidor agora? – Haus quem agora levantou a questão.

– Em interrogatório – Steyn-Callenfels respondeu. – O próprio coronel Waerdenburch está conduzindo as investigações.

 

***

 

O major Berstedt tocou os ombros do seus soldados para se despedir do tenente-coronel, não sem antes querer mostrar serviço. Pediu licença para voltar ao alojamento, dizendo que a guerra ainda não acabou e sua companhia precisa voltar ao trabalho. No entanto, antes de partirem do aposento ou mesmo alcançarem o trinco da porta, o tenente-coronel os interrompeu.

– Esperem um pouco.

– Algo mais, senhor? – O major perguntou, já contendo seu passo. Os seus soldados fizeram o mesmo.

Steyn-Callenfels colocou os olhos num dos jovem soldados.

– Soldado Haus, – então perguntou. – Por acaso seu nome completo é Philipp van Haussen?

– Exatamente, senhor.

– Interessante – o tenente-coronel exclamou ao ler um documentos em sua mão. – Alguns dias atrás, antes de toda esta balbúrdia iniciada pelo traidor, eu recebi um documento com seu nome.

– Alguma coisa que eu deva fazer, senhor?

– Sabendo que os espanhóis estão organizando uma armada para cá, os Dezenove Diretores estão enviando um socorro sob o comando do senhor Pater. Logo que chegar, esta armada levará a infantaria do capitão d’Artischau num ataque à ilha de Itamaracá.

– Itamaracá? – Haus exclamou.

– Sim. Uma ilha a menos de dez léguas ao norte de Olinda, depois das praias de Pau Amarelo onde primeiro desembarcamos. É um local de muita riqueza natural e mantimentos abundantes.

Haus ficava cada vez mais intrigado em saber qual a relação entre ele e a ilha, mas o tenente-coronel não demorou a explicar.

– Não sei o que tem feito, mas chamou atenção do alto escalão. – Um pedido vindo diretamente do senhor Coronel Waerdenburch solicita que seu nome esteja entre os soldados escolhidos no ataque.

– Eu deixarei o Porto do Recife? – Já era possível perceber os ares de desesperos na voz do soldado. – Quando, senhor?

– Aqui diz que a esquadra para esta missão partirá ainda este mês.

– Mas, senhor – o jovem não conseguia esconder seu nervosismo. – Quanto tempo ficarei longe da terra firme? Quando retornarei a Recife?

Eram perguntas motivadas pela lembrança em Amália. Afinal, como ele poderia deixá-la neste momento tão importante em seu relacionamento? Ainda mais agora que seu pai parecia estar o aceitando como possível noivo. Pelo menos, até este momento, era isto que Haus pensava. A resposta do tenente-coronel veio de forma devastadora.

– Provavelmente, semanas. Talvez meses.

– Meses? – Haus exclamou. – Não posso, senhor. Não posso me ausentar de Nova Holanda agora.

O tenente-coronel fitou os olhos no jovem soldado. Estava incrédulo no que estava ouvindo. Retrucou-o num duro tom de voz que não escondia sua reprovação.

– Esta ordem veio do mais alto escalão de nossas forças. Negar uma ordem de tal importância pode ser considerada alta traição. Uma acusação não muito diferente do espião Verdonck.

– Mas, senhor…

– Deveria se sentir lisonjeado por ter sido escolhido entre tantos.

Estas palavras nem um pouco animaram o jovem rapaz. Tudo que conseguia pensar era na senhorita Strausskicher. O que aconteceria se passasse meses longe de sua amada? O que seria dele agora? Este pensamento fazia sua cabeça latejar. Era uma dor que certamente o acompanharia pelos meses vindouros e que já começava a aumentar com as palavras seguintes do tenente-coronel.

– Arrume as malas, soldado. Deverá partir muito em breve!

 

***

 

Longe dali, noutra localização, enquanto Haus se encontrava com Amália para lhe contar a triste notícia, numa sombria e escura masmorra, sons bem diferentes eram escutados. Primeiro, se iniciou o som de engrenagens deslizando. Depois, o esticar de uma corda. E enfim terminava com o som de ossos estalando. Os estalos vinham das articulações dos joelhos, cotovelos, ombros e quadris do espião Verdonck sendo arrancadas de suas posições originais. O grito de dor veio em seguida, pois até mesmo as vértebras do seu corpo eram deslocadas uma das outras pelo Potro. Era o coronel Waerdenburch quem controlava este instrumento de tortura.

– Conte tudo, traidor! Conte o que sabe do inimigo! – O coronel gritava.

– Vai para o inferno, Waerdenburch! – O traidor berrava de volta.

– Ainda resiste, Verdonck? Ainda não bastaram as duas polegadas extras que acrescentei à sua altura?

– Já disse que contei tudo.

– Ah! Não contou não! Quero saber tudo sobre os planos do inimigo.

Um movimento de mão do coronel fez todos os sons terríveis recomeçarem. Culminando num grito de dor ainda mais terrível.

– Não lhe enganarei, maldito traidor – o coronel proferiu. – Morrerá não importa o que aconteça. No entanto, se será uma morte rápida e indolor, ou agonizante com cada tendão do seu corpo arrancado, um por um, a escolha é sua! Fale e eu acabo este sofrimento!

Dois dedos já haviam sido arrancados na parte mais nevrálgica da mão de Verdonck. Dezenas de marcas de açoite marcavam seu corpo nu. A face inchava largamente. E dentes estavam faltando. Estas marcas revelavam que o potro não era o primeiro tipo de tortura que o coronel submetera o traidor brabantino. Nem seria o último.

O homem manteve sua força de vontade o quanto foi possível.

– Nunca! – Ele resistia.

O coronel calmamente falou.

– Homens, podem continuar.

Um novo grito lancinante, desesperador, ecoou na masmorra. Foram acrescentadas mais duas polegadas ao traidor às custas de dores excruciante e danos permanentes em seus tendões. Desta vez, Verdonck sentiu os ligamentos de seu joelho e quadril estourarem. Foram os primeiros de uma longa noite de dor e desespero.

O coronel foi impiedoso. Implacável. Mesmo com a resistência do traidor se mostrando surpreendente, não havia como resistir aos tratos a que fora submetido. Ainda tentou o suicídio em sua cela, mas, sendo impedido, a tortura recomeçou ainda pior. Em determinada hora dos dias seguintes, o inevitável ocorreu. O seu espírito e força de vontade foram quebrados.

Adriaen Verdonck revelou:

– Será no primeiro dia de fevereiro, quando se iniciará o novo forte. Neste dia, o inimigo lançará um ataque com todas as suas forças!

 

 

Cena de Batalha por Jan Martszen de Jonge (fl. 1626–1647)

 

O Ataque ao Waerdenburch

Brasilianos

5

1o de Fevereiro de 1631

– Exércitos inimigos à vista! – O grito de Calabar percorreu as muralhas do Forte Bom Jesus. Ele avisava das chalupas holandesas de transporte que deixavam o Porto do Recife e a ilha de Antônio Vaz. Elas desembarcaram na margem norte do Rio Capibaribe, no pedaço de terra chamado de Ponta da Aseca.

Era o início de um novo ano. Já no primeiro de janeiro, exatamente como revelado pelo espião Adriaen Verdonck, os holandeses construíram uma série de fortificações na ilha de Antônio Vaz, incluindo um grande forte ao sul e quatro redutos ao norte, defendendo o Forte de Cinco Pontas. Estavam trezentos passos adiante das cacimbas, que davam de frente à barreta dos Afogados.

A resposta da Resistência foi bater forte. Dois dias depois, o capitão Francisco Gomes de Melo lançou cinco companhias de emboscada nas construções inimigas. Depois, quis a sorte que forças pernambucanas encontrassem quatrocentos inimigos andando, tão descuidados, sob os cajueiros da região. As frutas que comiam, sendo doces, se tornaram amargas com o ataque. Antes do término do mês, os holandeses haviam sofridos mais de duzentas baixas. Os holandeses revidaram. Nos quatro últimos dias de janeiro, em especial, derramaram grande quantidade de sangue, com muitas perdas em ambos os lados.

O plano holandês de expansão buscava uma nova fortificação, com três pontas de baluartes na Ponta da Aseca. Em homenagem ao seu comandante supremo, esta fortificação receberia o nome: Forte Waerdenburch. O capitão-mor não estava disposto a permitir isso ocorrer! Conforme o plano discutido com Verdonck, preparou dezoito companhias de soldados no total, cada uma com seu capitão, além dos guerreiros indígenas de Felipe Camarão que formavam um exército próprio. Seria a maior ação conjunta da Resistência desde o dia do desembarque holandês.

– Avise a Rebelinho, Gomes de Melo e aos outros sete capitães de companhias ao sul do Capibaribe, que o dia que esperávamos chegou!

Eram as palavras de Matias ao amigo Calabar que anunciavam o início da batalha.

– Também avise a Luís Barbalho, Felipe Camarão e aos cinco capitães das companhias ao norte, em Santo Amaro e Salinas.

Matias desceu as escadas de alvenaria de Bom Jesus, com o amigo Calabar ao seu lado. Ambos foram aos cavalos. Montaram neles. Galoparam além dos portões. Durante este percurso, escutaram a oração do padre Manuel Moraes numa única voz com todas as cinco companhias de soldados que ali estavam. Ao fim, bradou;

– Preparar as armas. Formação de Batalha!

 

***

 

O exército da Resistência seguiu rumo à Ponta da Aseca. Matias escutava a marcha dos homens atrás do seu cavalo, ecoando por toda a várzea do Capibaribe. As aves levantavam vôo assustadas. Os primatas nas árvores observavam espantados. Até o som agudo dos ventos entre as árvores parecia emudecer frente a imponente passagem.

A marcha se deteve quando Matias ergueu a mão no local indicado por Calabar. No local, os três batalhões se uniram frente ao inimigo que tentava construir a fortificação de três baluartes. Era a posição perfeita. Nem perto demais para ser atingido pelos mosquetes inimigos, nem longe demais para não observar suas movimentações. Eram mil soldados holandeses que estavam ali, defendendo a construção do Forte Waerdenburch.

O clima se manteve tenso. Ambos os lados da batalha esperavam a primeira movimentação contrária. O confronto era iminente. Os exércitos holandeses quem primeiro partiram na direção às forças pernambucanas com mosquetes e espadas no punho.

Matias ergueu a mão, o que fez Calabar gritar aos soldados.

– Atirar ao sinal!

O grito foi repetido em cada unidade do exército. O som metálico das armas sendo engatilhadas na linha de frente se seguiu. Todos os dezoito capitães esperavam novas ordens.

– Um – Matias falou baixo só para Calabar ouvir. Observou a aproximação dos soldados holandeses através do campo desmatado. Tudo parecia correr lentamente.

– Dois – Matias contou, junto aos passos inimigos, que lhe pareceram mais certeiros e velozes. Levou a mão à cintura envolvendo o cabo da sua espada com os dedos.

– Três – Apenas o avanço dos exércitos holandeses estava em seu campo de visão. Fixou na posição exata onde as armas eram capazes de os alcançar. Apertou o cabo da espada mais forte.

– Atirar!

A ordem deixou sua garganta como um grande grito que ecoou por toda a Barra. A lâmina da espada se elevou acima de sua cabeça.

As explosões dos mosquetes vieram em seguida. Fez doer os ouvidos. Derrubou a linha de frente dos exércitos inimigos. As explosões eram indistinguíveis entre si, tanto de um lado quanto do outro. Sobre sua cabeça, flechas lançadas pelos guerreiros potiguares, subiam aos céus e caíam num arco mortal. Ceifaram a vida dos soldados holandeses ao fim do seu trajeto.

Matias virou seu olhar aos próprios exércitos. Muitos já estavam sangrando no chão, inertes sem vida ou gemendo em sofrimento por feridas abertas pelos disparos que vinham dos holandeses. A linha de frente recarregava de joelhos os mosquetes enquanto os soldados logo atrás, em pé, disparavam explosivamente. Era uma ação alternada entre os atiradores para manter os disparos ininterruptos.

Em certo momento, quando o inimigo estava próximo o bastante, novas ordens foram proferidas.

– Pela restauração de Pernambuco, Avançar!

Os soldados da Resistência avançaram sobre o exército inimigo com chuços, facas e espadas. Os soldados pernambucanos colidiram contra o exército invasor, como uma onda de cristas brancas atinge os negros arrecifes na beira-mar. Sobre essa colisão, não era a espuma branca das águas salgadas do mar que se elevou ao alto.

Era o sangue rubro dos combatentes de ambos os lados.

 

***

 

Uma hora. Duas horas. Três horas. Quatro horas. Cinco horas. A carnificina da batalha continuou. Os soldados de ambos os lados caíam no solo com terríveis ferimentos. A grama se tingiu de vermelho. Os céus nublados estavam melancólicos com tantas perdas num único dia. Por momentos, avançaram. Noutros, recuaram. Na quinta hora, lançavam a terceira investida contra os inimigos. Era como um balé entre os soldados pernambucanos e os guerreiros potiguares. Misturava lanças, espadas, punhais, arcos e mosquetes. Avançaram em passos lentos, minuto a minuto, da batalha.

Veio o momento em que não havia mais inimigos. Quando se extinguiu a vida do último soldado que continuava a atacar os seus exércitos, Matias pôde ver as centenas de holandeses fugindo assustados. A ordem de retirada foi dada pelos líderes holandeses!, Matias escutou, mas não desejava terminar a batalha. Havia o plano do espião Verdonck. O seu desejo não era apenas conquistar aquela região no Capibaribe. Era também matar todos holandeses que ali estavam. Era destruir a maldita Nova Holanda!

– Continuar a investida!

Outra vez, Matias empunhou sua espada aos céus. Observou os soldados holandeses fugirem em busca da proteção do Forte Waerdenburch, mesmo que ainda estivesse em construção. Relembrou que neste momento o coronel Waerdenburch deveria estar morto em algum lugar de Nova Holanda e a pólvora inimiga já devia estar prestes a explodir graças ao seu espião.

– Expulsemos os inimigos de nossas terras! Avante, Soldados!

 

***

 

O ódio e desejo de vingança dominaram o capitão-mor, mas foi incrível como tais sentimentos foram esquecidos quando ouviu uma melodiosa voz feminina chegar aos seus ouvidos.

– Dom Matias!

Era Ana Paes, contrastando a visão do campo de batalha. Vinha escoltada por dois dos seus melhores escravos.

– Mande seus homens recuarem agora!

Apesar de estar vestindo roupas mais leves, apropriadas para o manejo do cavalo, Ana Paes brilhava um esplendor tão intenso quanto o sol poente que avermelhava os céus neste momento.

– Por que me pede isso, Ana?

– É algo que precisa ser visto com os próprios olhos!

Os olhos esmeraldas de Ana Paes atravessaram profundamente os negros olhos de Matias até atingir o íntimo da sua alma. Matias balbuciou por alguns segundos. Puxou as rédeas do cavalo rumo ao fronte de batalha. Era a direção que desejava tomar.

Ana estendeu a palma da mão.

– Precisa acreditar em mim!

A hesitação controlou o coração de Matias. Maior que o desejo de expulsar os holandeses, era a vontade de agradar a bela mulher. Foram as palavras cantadas por esta voz, durante todo esse ano de combate, que deram força a Matias para continuar a luta e forneceram importantes informações que trouxeram à vitória neste dia.

Ele não resistiu a terceira solicitação, tendo seu nome soprado com tamanha ternura ao fim da frase.

– Confia em mim, Matias!

– Tudo Bem, Ana – o capitão-mor respondeu. – Vamos velozes pois os meus homens ainda precisam de mim na conquista do Forte Waerdenburch.

Em seguida, Matias olhou para Calabar.

– Comande nossos exércitos até o Forte inimigo, logo retomarei a minha posição!

Calabar moveu a cabeça positivamente. Matias balançou as rédeas de seu cavalo. O que poderia ser tão importante para ela vir ao campo de batalha na Ponta da Aseca? E ainda solicitá-lo a deixar tão importante confronto na mão de terceiros? As perguntas ecoavam mentalmente durante todo percurso.

Ambos atravessaram a região e subiram uma elevada serra que permitia visualizar toda a região costeira de Pernambuco, incluindo a foz do rio Capibaribe e o Porto do Recife.

O pavor tomou a face do capitão-mor com a visão. Era uma sensação tão terrível quanto do dia que perdera sua querida vila de Olinda. Um calafrio lhe subiu o corpo. As mãos começaram a tremer. Sua alma foi tomada pelo pavor. As palavras de Ana resumiam a situação, mas não englobavam as vis conseqüências do seu real significado.

– O recuo dos soldados holandeses é uma farsa. Eles, não apenas já equiparam a fortificação em construção com canhões, como também o próprio coronel Waerdenburch atravessa o Rio Beberibe, com outros três mil soldados de socorro, nesse momento. Eu vim assim que soube do plano inimigo!

– Meu Deus – o capitão-mor exclamou. – Estou enviando os meus soldados direto numa armadilha holandesa!

 

***

 

O coronel Waerdenburch estava vivo. Nenhuma explosão foi ouvida no Porto do Recife. Nem havia qualquer sinal de Adriaen Verdonck. Um contra-ataque surpresa fora muito bem planejado pelos inimigos. A situação era terrível. O medo já percorria seu corpo trêmulo. O capitão-mor já tomava as rédeas do cavalo, direcionando o cabresto na direção a barra do Capibaribe, quando Ana Paes fez o mesmo.

Ambos bateram nos flancos de suas montarias.

– Temos que partir imediatamente!

O capitão-mor se martirizava pelo seu erro. A prontidão do inimigo era inesperada. Eram três mil homens e uma pesada artilharia, juntos, na Ponta da Aseca, para marchar contra seus, agora tão parcos, quinhentos soldados.

Com Ana Paes, ele desceu a serra descampada. Mirava o campo de batalha, com os exércitos pernambucanos e potiguares guiados pelos heróicos dezoito capitães da Resistência. Domingos Calabar, que vinha na retaguarda destes exércitos, veio a galope na direção de Matias, ao ouvi-lo gritar.

– Temos que Recuar!

O capitão-mor o explicou a situação.

– Adriaen Verdonck não cumpriu o prometido. Leve Ana em segurança para Bom Jesus. Ela lhe contará o que houve no caminho!

Matias partiu para o fronte de batalha, precisava salvar a vida de seus soldados. Lá chegou, desceu de seu cavalo. Atravessou os batalhões pernambucanos. Gritou sem parar a ordem de recuar, deixando soldados confusos pelo caminho. Enfim, quando atingiu a linha de frente dos exércitos, Rebelinho se aproximou, tão confuso quanto os outros, com suas ordens.

– Recuar? Nós estamos vencendo…

Infelizmente, Rebelinho foi incapaz de completar suas palavras. Os canhonaços holandeses, vindos do forte em construção, caíram sobre o exército pernambucano e os tambores de guerra do exército holandês revelaram sua presença. Atravessaram às águas rasas do Beberibe nesta baixa maré.

Logo surgiu o forte e grandalhão corpo do coronel Waerdenburch, sobre seu cavalo, no comando do inesperado exército inimigo. O capitão-mor tinha a vida de seus soldados em mente. Nesse momento, desesperados, num recuo apressado, todos se jogaram, uns contra os outros, desordenadamente.

O capitão-mor foi empurrado pela massa de homens que se chocavam entre si. Caiu sobre a lama ao chão. Observou incrédulo o massacre aos seus soldados. Ele viu quando uma espada inimiga rasgou o flanco de Rebelinho, derrubando-o inerte no chão. Assistiu, impotente, Luís Barbalho cair no chão atingido na coxa por um mosquete. Olhou, incrédulo, o sangue jorrar do pescoço de Antônio Viana, o líder de cinco bravos irmãos de mesmo sobrenome. Ouviu os gritos de Domingos Corrêa, carregado como prisioneiro pelos inimigos.

Contemplou impotente tantos outros companheiros que caíram mortos ou feridos. Todos entendiam agora a razão da ordem do capitão-mor e não mais hesitavam. Infelizmente, ela veio tarde demais. A culpa acresceu no capitão-mor. Ele falhou em sua missão, enganado pelo ardil holandês. A lama que o cobria, não sujava seu corpo tanto quanto o sangue dos seus soldados sujava sua honra.

Ele não desejou fugir. Pouco importava a morte. Em meio a carnificina dos que confiaram nele suas vidas, sentiu a mão de Calabar e de Felipe Camarão o segurar pelos braços. Carregaram-no para as trincheiras de Afogados. Ele chegou em meio a balbúrdia e desespero dos que atravessavam sua entrada. Pareciam tão estreitas agora. Sobre as trincheiras da fortificação, ele pôde ver a triste cena. A cena que deixava todos em seu interior sem qualquer esperança. Os holandeses conquistaram a Ponta da Aseca. Atravessaram o Rio Capibaribe. E já levantavam suas trincheiras neste lado do rio.

Os holandeses, antes confinados atrás das águas dos rios Beberibe e Capibaribe, agora levavam a guerra além.

 

 

Parte III

 

 

Dom João IV de Portugal por Autor Desconhecido

 

O Futuro Incerto

Nobreza

5

5 de Maio de 1631

O jovem Dom João, futuro Duque de Bragança, estava estupefato com o que acabara de escutar do seu moribundo pai. O velho Teodósio acabara de contar sobre a herança que deveria ser sua por direito. Contara que décadas atrás o trono de toda a Portugal deveria ter passado para sua família. Dona Catarina, sua avó, era a legítima Rainha de Portugal. Era um direito herdado pelo velho Teodósio, que nunca o utilizou. E agora passava esse legado às mãos do filho.

Embora o herdeiro de Bragança conhecesse sua linhagem, soubesse que sua ascendência era a mesma do atual Rei Filipe da Espanha, ambos trinetos do antigo Rei Manuel, o jovem nunca soube do jogo sujo que fez sua avó desistir da herança real. Nunca imaginou que ela fora chantageada, que utilizaram seu próprio filho como refém para fazê-la desitir de tudo.

Era inacreditável. No entanto, as palavras paternas, após contar essa histórias em seu leito de morte, eram ainda mais avalassadoras.

– Prometa-me, João, que lutará contra a tirania da Espanha que hoje domina o Reino de Portugal.

O morimbundo Dom Teodósio expôs sua face mais desesperada. Por décadas compactuou com o acerto feito entre Dona Catarina e o antigo Rei da Espanha, por mais injusto que fosse. João nunca imaginou essa situação. O peso da solicitação fez seu corpo fraquejar.

– O que me pede é demais, meu pai – disse em voz tremulante.

– Por isso, desejei lhe casar com uma Casa Ducal da Itália. São mais principescas, mais independentes e longe do ninho de cobras que é a Espanha. Eu esperava assim engrandecer nossa Casa para continuar com o plano de restaurar aquilo que foi perdido na cidade de Tomar.

João, estarrecido, escondendo o rosto cabisbaixo, desejava ignorar tudo o que escutava, mas Dom Teodósio mantinha o pedido sem hesitar.

– É uma vergonha a um pai, em seu leito de morte, pedir ao filho que conserte os erros que ele deixou em vida, mas é a necessidade que me compele. Como meu herdeiro e sucessor, se mantenha unido aos seus irmãos. É melhor estarem uns com os outros que apartados. O ducado com mais autoridade é nossa Casa e maior grandeza.

A mão do velho Teodósio tocou o ombro do filho antes de continuar.

– Não deixe a covardia lhe dominar como me dominou, meu filho. Parece não ter sobrado nada em mim daquela criança que teve a coragem de enfrentar os mouros marroquinos por seu Rei, mas eu consigo enxergar esta chama em seus olhos.

As palavras de orgulho paterno, que tanto João esperava um dia ouvir, o fizeram levantar a cabeça. No entanto, mesmo com um bom sentimento alegrando seu coração, o desespero estampou sua face.

– Eu sei que as serpentes de Madrid tentarão lhe afastar de tal legado, mas lhe deposito toda minha confiança e esperança!

As mãos do pai e do filho voltavam a se tocar.

– Prometa-me, meu filho, que fará isso por mim.

João pensou e repensou, incontáveis e repetidas vezes, as ramificações do pedido paterno. Era um pedido para cometer traição. Fazer algo que nem o próprio Dom Teodósio conseguiu fazer.

Enfim, após longos introspectivos segundos, uma resposta enfim deixou sua garganta de forma árida e dolorosa.

– Eu sinto muito, meu pai.

Ao fim da frase, João guardou de volta seus pertences que estavam na bancada e se levantou. Não conseguiu fitar os olhos paternos. Caminhou para fora do quarto ouvindo um sofrido choro. Atravessou as portas. Passou as pessoas do lado de fora. Ignorou todos que lhe dirigiam a palavra. Mais do que nunca, sentia a reprovação de todos. Outra vez, estava fugindo de suas responsabilidades.

Mal deixou o palácio, calçou as luvas novamente.

 

***

 

Nem as mais densas florestas européias eram tão ricas em madeira quanto as centenas de mastros dos navios emparelhados no porto do de Lisboa. Em especial, no trecho destinado às armadas militares de El Rey. Lá se encontravam os dezessete galeões da Armada del Mar Oceano junto com outras dez naus para o transporte de infantaria. Era o grande socorro a ser enviado ao Novo Mundo para se livrar da praga holandesa que corrompeu a capitania de Pernambuco.

Além destas, haviam trinta outras embarcações de transporte destinadas ao carregamento das riquezas do Novo Mundo. Afinal, com as embarcações holandesas permeando seus mares costeiros, muita carga já se amontoava nos portos de São Salvador e do Maranhão do outro lado do Oceano. Tal era importância deste socorro, que sua partida era fiscalizada pessoalmente pelo Conde-Duque de Olivares.

– Excelência. Já está tudo pronto para partir.

As palavras eram proferidas por Duarte de Albuquerque Coelho, o Senhor de Pernambuco, o herdeiro da capitania conquistada pelos holandeses. Ele tinha quarenta anos de idade, com uma saliente barriga que chamava a atenção. Era um ousado glutão e assíduo freqüentador da corte de El Rey, com toda inconseqüência que a riqueza proveniente do açúcar em suas terras poderia proporcionar.

– Dom Duarte – o Conde-Duque retornou o cumprimento. – Vossa Senhoria está se mostrando tão bravo quanto seu irmão Matias ao se aventurar em meio à selvagem guerra que ocorre em Pernambuco.

– Quero ajudar meu irmão a expulsar os malditos holandeses de lá, Excelência – o Senhor de Pernambuco respondeu. – Terminar essa guerra de uma vez por todas!

O Conde-Duque continuou.

– Devo admitir que seu irmão tem feito um surpreendente trabalho em manter os holandeses longe dos engenhos de açúcar. Seis meses atrás lhe enviei uma carta dizendo que ele faz parte agora do Conselho de Guerra. É uma honraria dada a poucos homens que incluem o finado general Spinola o Duque Victor Amadeus de Sabóia.

– Meu irmão me contou da carta. Ficou muito honrado. Vossa Excelência pode confiar nele. Está governando minhas terras há mais dez anos. Mas eu preciso ir lá. Estou preocupado com o muito tempo que já dura essa situação.

Um pesado suspiro deixava bem clara a preocupação do Senhor de Pernambuco. Ele continuou.

– Amarguei meu primeiro ano sem os rendimentos do açúcar e estamos chegando na metade do segundo ano. Posso apenas dizer que minha situação financeira está se tornando um tanto delicada.

– Tenho certeza que sim. – O Conde-Duque tocou seu ombro. – Felizmente, El Rey está disposto a lhe presentear com uma compensação.

Os olhos de Duarte cerraram no Valido.

– Uma compensação?

– Sim. No momento que Vossa Senhoria revelou seu desejo em navegar ao Novo Mundo, enviei a El Rey um relatório contando à Sua Majestade de sua coragem e deixando claro seu valor. Eu disse que em caso de sucesso seria muito bem merecido lhe fazer conde: O Conde de Pernambuco.

– Fico muito agradecido, Excelência.

– Apenas faça por merecer, Dom Duarte – disse o Conde-Duque com um sorriso no rosto. – Agora venha comigo. Deixe-me apresentar outros dois membros do mesmo Conselho de Guerra que seu irmão faz parte e que vão lhe acompanhar nesta jornada.

Os dois caminharam pelas docas do porto, se aproximando mais da frota naval que seria enviada ao socorro de Pernambuco. Logo se encontraram com os homens mencionados pelo Valido de El Rey.

– Estes são os dois generais de quem já lhe falei. O primeiro é o Antônio de Oquendo, o novo comandante da Armada del Mar Oceano, e este é o Dom Vicenzo di Sanfelice, senhor da Casa de Bagnulo, que trouxe trezentos homens de seu condado em Nápoles, e também liderará os outros de mil e seiscentos homens que El Rey envia a Pernambuco.

O Senhor de Pernambuco olhou bem este homem de feições fortes, queixo quadrado e nariz proeminente. A barba grisalha revelava muito da sua experiência em combate. Era alguém que conhecia bem o Novo Mundo, em especial, a capitania de Pernambuco.

– Estive na mesma armada que Dom Vicenzo quando reconquistamos a cidade de Salvador há cinco anos atrás – o Senhor de Pernambuco respondeu.

O Conde de Bagnuolo restrucou com forte sotaque italiano.

– Eram tantos nobres naquela jornada, que fico feliz em enfim conhece-lo pessoalmente, Dom Duarte, mas estive à época com seu irmão em Pernambuco e só tenho boas coisas a falar dele. Não há dúvidas de seu grande valor.

Neste momento, tendo terminado as apresentações, o Conde-Duque tomou novamente a palavra.

– Escolhi Dom Vicenzo exatamente por esta não ser sua primeira viagem à Pernambuco – disse com firmeza na voz.

Logo foi secundado pelo Senhor de Pernambuco.

– Tenho toda confiança que é o homem certo para a missão.

 

***

 

Ambos o general Oquendo e Dom Duarte partiram pelo cais do porto de Lisboa até suas embarcações. Dom Vicenzo que deveria os acompanhar, no entanto, não se moveu. Desejava falar algo com o Valido de El Rey. Algo que, quando os outros dois homens estavam longe o bastante, logo externou.

– Essa é mesmo a coisa certa a fazer, Olivares? Não seria melhor manter meus homens em Mantova?

– Não precisa se preocupar com a situação de Mantova, Dom Vicenzo. Os franceses entregaram o forte de Pinerolo a Victor Amadeus, como prometido. A questão de Pernambuco é prioridade agora.

– Eu sei – o nobre italiano cofiou a barba. – Mas os exércitos franceses continuam na fronteiras de Sabóia. Não se retiraram do local. Ainda mais agora que nosso principal aliado, o Império Romano-Germânico, sofreu um ataque do Reino da Suécia pelas costas.

O conteúdo das palavras de Vicenzo já assombravam o Conde-Duque há algum tempo. Era uma das suas muitas preocupações que não desejava externar. As notícias sobre o ataque do maluco Rei Gustav Adolph da Suécia contra o Império Romano-Germânico já era bem conhecido. Era uma ação inesperada, mas não preocupava o Conde-Duque o bastante para que este perdesse o sono. Afinal, o pequeno Reino da Suécia desembarcou treze mil soldados no norte alemão. Felizmente, era muito pouco para causar problemas ao Imperador.

A única pessoa realmente capaz de tirar o sono do Valido era o primeiro-ministro francês, o Cardeal de Richelieu. Havia um pressentimento no Conde-Duque que algo grande estava para acontecer. Era quase capaz de sentir o punhal francês em suas costas. Por isso, a pergunta do general fez reavivar desconfianças em sua mente.

– Não acha isso estranho, Olivares?

– Não é nada fora do ordinário – o Conde-Duque desconversou. – É natural que os franceses defendam suas fronteiras. Ele confiam tão pouco em nós quanto nós neles. Não há nada do que se preocupar.

Contradizendo suas palavras, a pesada respiração do Conde-Duque pareceu ter adicionado uma tonelada sobre seu peito. Percebendo esta preocupação, Dom Vicenzo tentou contra-argumentar. No entanto, foi logo interrompido pelo obeso ministro que repetiu suas últimas palavras.

– Não há nada do que se preocupar – parecia mais tentar convencer a si mesmo que ao italiano.

 

***

 

Enquanto isso, em Portugal, o jovem herdeiro de Bragança desejando se esconder de tudo e de todos foi ao seu reduto português de Barcelos. Eram as terras que lhe foram presenteadas pelo pai desde o nascimento. As propriedades que financiavam sua boa vida nas cortes portuguesas e espanholas. No entanto, sempre soube que era impossível fugir de suas obrigações. Dias depois, as notícias da corte de Bragança chegaram à sua porta na cidade. O estribeiro-mor do Paço Ducal o convocou, dizendo:

– Dom João, em razão da morte de Dom Teodósio, seu retorno à Vila Viçosa é solicitado de imediato. É agora o novo Duque de Bragança.

 

 

Mapa de Olinda por autor alemão desconhecido 1650

 

O Troco na Mesma Moeda

Holandeses

7

1o de Fevereiro de 1631

Este era o dia do ataque inimigo revelado por Adriaen Verdonck, o dia da construção da primeira fortificação holandesa na outra margem do rio Beberibe. Era uma região, até então, dominada pelo inimigo espanhol no denso matagal que significava morte para os soldados holandeses. Era o início da fortaleza de três baluartes que receberia o nome do grande coronel supremo das forças holandesas: o Forte Waerdenburch.

Enganaram-se os que pensavam que o coronel adiaria sua construção por causa do plano do espião. Ele enxergou a oportunidade perfeita para revidar os ataques inimigos. Vingar os milhares de soldados assassinados no decurso de onze meses de guerra. Destruir o brio do governador Albuquerque com a mesma estratégia que este utilizava contra o exército holandês.

Os soldados foram postos em prontidão como parte de um exercício de rotina. Os construtores não faziam idéia do que estava para acontecer. Começou assim o transporte em grande número de cestões, vigas, pranchões e paliçadas de madeira a um pequeno braço de terra bem de frente à barra dos rios pernambucanos. Estava eqüidistante de poucos metros do porto do Recife e da ilha de Antônio Vaz, onde os homens poderiam atravessar na baixa maré.

Os oficiais esperaram ansiosos, cada minuto os deixava mais apreensivos quanto a chegada do inimigo. Era a batalha que tanto esperavam. Até que, enfim, o inimigo surgiu no início da tarde. Uma companhia foi enviada para lhes chamar a atenção. Trazê-los ao alcance dos soldados de prontidão. Eles morderam a isca.

– Soldaten, aanval!

Com o bastão de comando ao alto, a ordem de ataque foi proferida. Quatro mil soldados atravessaram as águas de ambos os rios em chalupas de transportes ou mesmo com a água na cintura, contra pelo menos quinhentos soldados espanhóis.

– Atirar! Atirar!

O major Berstedt repassou a ordem à toda a companhia de mercenários. Mais uma vez, lá estavam Spiessen, Haus e Richshoffer na linha de frente.

Foi um massacre aos espanhóis! Os inimigos, que pretendiam expulsar as forças holandesas dali, foram destruídos e obrigados a se retirar com perda de muita gente e sem nada haverem conseguido. Recuaram silenciosamente sem rufos de tambores nem exclamações de júbilo. Perderam vinte cinco espanhóis brancos, uma centena de selvagens e um número ainda maior de feridos. O efeito moral foi devastador. Era a maior perda inimiga desde que as hostilidades começaram. Marcava um novo capítulo desta guerra.

Os holandeses, antes confinados atrás das águas dos rios Beberibe e Capibaribe, agora levavam a guerra além.

 

***

 

Triunfante, incapaz de esconder o sorriso no rosto, o coronel caminhou pelo campo de batalha, calcando suas botas por entre os crânios de seus adversários. Respirou profundamente o cheiro de sangue e morte que recendia do lugar. O sentimento de vingança era doce também nas mentes dos soldados.

A simples vitória era pouca, todos desejavam mais. Com um vil sentimento de desforra, o major Berstedt se ajoelhou sobre um cadáver espanhol ao som da exclamação do soldado Richshoffer

– O que está fazendo, senhor?

O soldado estava pávido, descrente, com visão que tinha à sua frente. O major desembainhara sua espada. Passar o fio sobre a face de um morto. Arrancou seu nariz. Depois, suas orelhas.

– Nada pior do que esses monstros já fizeram aos nossos – o major justificou a profanação dos corpos inimigos.

Um mau sentimento propeliu Richshoffer a perguntar.

– O coronel aceitará isto?

O major Berstedt interrompeu Richshoffer apenas com o levantar de sua mão. Expôs uma frase que o soldado nunca se esqueceria.

– Garoto, não há inverno tão frio em que os lobos não se devorem! Hei de presentear o coronel com estes narizes e orelhas!

A ordem para todos os soldados fazerem o mesmo foi proferida

– O que estão esperando, homens? Quero todos preparando as mesmas oferendas ao nosso bom coronel!

Muitos acometeram felizes a ordem no major. O general Lonke, meses atrás, temia se entregar à barbárie que contaminava o ar do Novo Mundo. A regra para a grande maioria dos soldados era remover os narizes e orelhas com grande entusiasmo e satisfação.

– São pessoas, Major – Richshoffer balbuciou.

Berstedt só levantou o dedo indicador ao corpo de um selvagem de extraordinária corpulência e força. Tinha uma fortíssima dentadura com duas ordens de dentes em cima e em baixo. A sua barriga era tão grande que estendia-se mais de um palmo além da cintura e tão larga quanto dois homens.

A ordem veio em seguida.

– Tire o couro do selvagem então, arranca toda gordura. Estamos precisando de velas para iluminar nosso quartel – então veio o sorriso. – Agora, não faltará sebo para fazê-las.

Spiessen, ao seu lado, sentiu náuseas. Deixou o local, se sentindo sujo e corrompido. A cena era grotesca. Richshoffer sentiu o mesmo, mas não contrariou o major. Retirou assim muitas tiras de sebo do largo indígena. Mais tarde, ainda no mesmo dia, o coronel Waerdenburch recebeu deste major sua espada cheia de narizes e orelhas até a metade da lâmina. E muitos outros lhe fizeram igual presente. E, aos que estão se perguntando, a resposta é: Sim!

O coronel Waerdenburch adorou os seus presentes!

 

***

 

O coronel ainda manteve os cadáveres inimigos sob vigilância, deixando-os apodrecer ao relento, nestas terras que tantos holandeses pereceram pelos seus ardis. Quem não apreciou nem um pouco este ato foi o governador Albuquerque. Ele caiu em si. Foi ele quem começara toda a barbárie. Logo, prontificou um mensageiro, cujo tambor ecoou com o pedido de que os mortos de ambos os lados fossem enterrados segundo o costume de guerra, sem sofrerem mutilações. O acordo foi realizado, porém, com a condição, de que o governador espanhol controlasse os seus selvagens para que, estes, também fossem obrigados a isso.

As semanas seguintes foram de celebração. Primeiro se celebrou a vitória dessa grande batalha que possibilitou os holandeses chegarem do outro lado dos rios pernambucanos em segurança. Depois, foi a vez do dia 16 de fevereiro de 1631. Todos vislumbraram as fogueiras, as salvas de tiros, o grande banquete e a muita bebida oferecida por seus superiores. Era a comemoração por ter decorrido um ano que, com o auxílio de Deus, os holandeses conquistaram Zuikerland.

Bem ao alto das muralhas do Forte Bruyne, sobre um alto poste no hornaveque, estava a cabeça degolada do traidor Adriaen Verdonck. Colocada ali pelo coronel Waerdenburch para servir de exemplos aos demais. A forca, por onde tantos já passaram, era pouca para os malignos feitos deste homem. Além da cabeça degolada, um dos seus quartos foi exposto no Forte Cinco Pontas, outro no Forte Waerdenburch. E as outras duas partes em diferentes pontos da vila de Olinda.

Infelizmente, para o grupo de amigos alemães, as celebrações duraram muito menos que o esperado. Certa noite, na madrugada, todos acordaram com os gritos do soldado Haus.

– Richie, me ajude!

Poucos dias antes, chegou a armada do general Pater, que partira de Texel no dia 9 de janeiro, com os navios Prins Willem, Provintie van Uytrecht, Windt-Hondt, Ouwerkerck e Rave. Trouxeram grande parte das nove companhias mandadas em reforço às tropas anteriores, por isso, se recomendou um ataque à ilha de Itamaracá, a fim de estender as fronteira ao norte.

A companhia do Major Berstedt não fora escolhida para participar do desembarque, exceto pelo soldado Haus que foi especialmente escalado para embarcar no navio do general com o capitão d’Artischau.

– Avise a estes homens que eu enviei a requisição de não embarcar à Itamaracá – Haus gritou ao amigo.

Richshoffer lembrou das palavras do tenente-coronel Steyn-Callenfels sobre a convocação de Haus para a empresa de Itamaracá. O Strasburguês não soube o que fazer, continuou observando o amigo tentar se mover na sua direção. Um dos marinheiros imobilizou seu braço enquanto os outros o seguravam.

Haus tentou se soltar. Não conseguiu.

– Diga a eles, por favor! – enfim suplicou.

Outro marinheiro lhe socou o estômago.

– Sabemos que não quer embarcar! – o homem esputou saliva contra o soldado. – Por isso, nos enviaram aqui!

Haus caiu de joelhos em imensa dor. Os dois outros homens o carregaram em direção ao porto.

– Soltem ele! – Richshoffer protestou.

O soldado correu na direção do amigo. Não deu nem o segundo passo, Richshoffer foi derrubado pelo mesmo marinheiro. Sentiu dois chutes na costela. Gemeu de dor. Ouviu o novo grito ainda no chão.

– Este soldado pertence à tripulação do general Pater agora!

Quando abriu os olhos, o Strasburugês enxergou o amigo Haus carregado à força ao galeão Prins Willem.

 

***

 

O soldado Spiessen não estava no local. Caso estivesse, como homem forte e musculoso que era, talvez pudesse evitar o rapto do amigo. Infelizmente, estava longe, na vila de Olinda. Precisava se confortar dos duros confrontos dos últimos dias. Tomou o passo em direção às prisões da indígena Taciatã.

Mal o soldado adentrou o convento-prisão, os gritos da indígena ecoaram com grande furor.

– O que foi isso?

Spiessen se perguntou, percebendo o pavor emanar do clamor feminino. Ele não conteve o passo. Pôs-se a correr. Chegou a cela da selvagem. Logo descobriria que o soldado da sentinela desta noite não conteve o libido sobre a bela visão da selvagem. Desejou tomá-la para si, mesmo que a força.

Na cela escura de pedras negras, cuja única iluminação atravessava a abertura gradeada da porta, o mercenário germânico viu o sentinela gordo e imundo. Estava com as calças arriadas, tentando segurar a arisca selvagem pelo braço, que se debatia com forte ímpeto. Taciatã se esgueirava de um canto da sua cela para outro. Encarava de frente o maldito estuprador. Este gargalhava perversamente, zombando da incapacidade de tão pequena mulher em enfrentar seu grande corpo.

Já abrindo a porta, Spiessen gritou.

– Afaste-se dela!

O homem de calças arriadas não pareceu abalado por sua chegada.

– Está na hora de mais alguém se aproveitar dessa belezinha – ele sorriu maldosamente. – Não seja egoísta, Spiessen!

– O coronel Waerdenburch proibiu qualquer relacionamento com selvagens.

– Relacionamento? – o gordo imundo riu largamente. – Quero só dar uma aliviada! Estamos todos precisando, não é verdade?

A jovem indígena, vendo a discussão dos dois homens, se apertou mais às sombras do canto da cela. As paredes a impediam de se mover além.

– Sai já desta cela! – Spiessen voltou gritar.

– Quem pensa que é para me dizer o que fazer? – O homem se enervou.

A resposta de Spiessen, com seu musculoso corpo e forte braço, foi adentrar mais ao interior da aposento. Partiu para cima do sentinela. Empurrou-o contra parede. As costas do homem bateram contra as rochas negras.

Ele não era capaz de enfrentar alguém tão forte e musculoso quanto o mercenário germânico.

– Tudo bem – por fim, falou. – Ela é toda sua, Idioot!

Spiessen soltou o braço que o prendia. Abriu espaço para sua passagem. Ouviu-o praguejar da situação e ameaçar sua pessoa.

– Isso não ficará assim. Contarei ao Conselho de Guerra, sobre o que anda fazendo nesta cela!

No entanto, antes que pudesse continua, sua voz foi interrompida. Emitiu um urro de dor. Seu corpo caiu ao chão. Atrás, estava a pequena indígena com um punhal na mão, que escorria o sangue do agressor. Sem se conter, a mulher continuou a esfaqueá-lo seguidamente nas cabeça e no pescoço.

Spiessen reconheceu o punhal. Era o seu próprio. Colocou a mão no boldrié apenas para perceber que estava vazio. Durante a confusão, a selvagem o retirou sem que nenhum dos dois homens percebessem.

Ele tentou impedir sua tão inocente Taciatã de continuar as punhaladas, mas o sangue do sentinela já derramava abundante. Esparramava-se por toda cela numa grande poça. Ao se aproximar da selvagem, tentando impedir a carnificina, um golpe de punhal lhe atingiu o braço. O sangue escorreu. O soldado recuou. Os prantos da mulher desnuda contrastavam sua face ensangüentada e sanguinária.

Olhos avermelhados de Taciatã estavam cheios de fúria, raivosos e desejosos de vingança, cerrados contra o soldado.

 

Batalha Naval de Pernambuco ou de Abrolhos – CENA 1 – por Juan de la Corte (1597–1660)

 

A Renovação de Esperanças

Brasilianos

6

11 de Abril de 1631

Semanas depois do fracasso completo no Forte Waerdenburch, a cabeça degolada de Adriaen Verdonck foi exibida num alto posto do Forte Bruyne. Outras partes do seu corpo esquartejado foram distribuídas por todo o território holandês. O capitão-mor soube depois que Verdonck foi tão severamente torturado que tentou o suicídio para acabar com o sofrimento. Impedido pelos guardas, foi arrastado até seu julgamento e sentenciado a morte por estrangulamento, com posterior esquartejamento. O espião Adriaen Verdonck não traiu a Resistência, na verdade, falhou em seu plano, sendo capturado antes mesmo de atentar contra a vida do coronel Waerdenburch.

No entanto, o assunto que mais causou furor entre as forças de Bom Jesus foi a forma desonrosa com que os holandeses trataram os mortos da batalha. Não apenas mutilaram os cadáveres, arrancando narizes e olhos, como também proibiram o recolhimento destes para o devido funeral. Deixou-os a mercê dos abutres e dos cães carniceiros.

Calabar relembrava destes eventos quando entrou num pequeno sobrado nas fortificações de Afogados. Ele chegava das linhas inimigas onde foi negociar o fim deste revoltante ato dos holandeses.

O capitão-mor, ao perceber a chegada do amigo, jogou, inconformado, os mapas que revisava de volta na mesa.

– Como foram as negociações com os holandeses?

– Eles argumentaram que não fizeram nada pior do que os indígenas fazem aos corpos holandeses – Calabar respondeu. – Disse que estão apenas devolvendo a selvageria na mesma moeda. Mas que ficariam felizes em permitir o recolhimento e funeral digno de nossos mortos, se nós mostrássemos o mesmo respeito com os deles e controlássemos os nossos indígenas.

– Os mortos ainda estão lá?

– Sim, é uma cena deplorável.

Matias tomou um pesado fôlego.

– Hereges! Apenas os indígenas mais incultos e incivilizados tomam essas ações e desrespeitam os mortos. Nunca imaginei que os malditos holandeses estivessem no mesmo nível.

– De qualquer forma, já pactuei com eles, dando nossa palavra.

O capitão-mor assentiu com a cabeça, depois perguntou sobre a situação dos feridos na batalha. Foram muitos, incluindo outros cinco capitães: Domingos Dias Bezerra, Estevão de Távora, Miguel de Abreu, Martim Aires Tenreiro, Luís Barbalho e Francisco Monteiro.

Um desses capitães, em especial, ainda estava em recuperação.

– E como está Rebelinho?

– Graças a Deus, a febre está baixando e o ferimento está cicatrizando. Os médicos acreditam que ele sobreviverá.

– E quanto aos irmãos Viana? – Matias baixou a cabeça, só levantou os olhos ao amigo.

A apreensão do capitão-mor com a pergunta era decorrente do vil destino sobre dois dos cinco irmãos Viana nesta campanha. O capitão Antônio não conseguiu sequer chegar com vida em Bom Jesus. E Manuel foi assassinado há poucos dias no resgate do capitão Domingos Corrêa.

A resposta de Calabar não podia se outra.

– Estão inconformados, os outros três irmãos não desejam outra coisa agora além de vingança!

 

***

 

Após deixar seus aposentos, o capitão-mor foi direto aos depósitos de mantimentos que tinham ali na trincheira mais interna de Afogados. Lá, estava Ana Paes, com seus escravos, descarregando uma carroça. Mesmo neste local, tão desamparado, em meio a tanta desesperança, Ana Paes mantinha o esplendor de sua beleza impar. Os seus olhos nunca deixaram de brilhar o verde reluzente. A sua pele alva não deixou de ser menos suave. E sua determinação não era menos surpreendente. Era sempre assim na visão do capitão-mor.

Matias a observou na organização dos estoques de mantimentos enquanto a brisa pernambucana ondulava seus ricos cabelos e o verde da mata se inibia frente aos seus olhos. Ele então se aproximou, fitando seus lábios sedutores, pois era incapaz de olhar diretamente seu belo rosto.

– Boa tarde, Ana – Matias falou àquela bela mulher. – Ainda não tive a oportunidade de lhe agradecer por nos ter salvado na batalha contra o Forte Waerdenburch. Nem gosto de pensar o quanto pior seria a nossa situação se não fosse por seu aviso.

Ana Paes abriu um sorriso.

– Não precisa agradecer, só lamento não ter chegado mais cedo.

– Mesmo assim foi muito arriscado. Se algo tivesse acontecido contigo, eu nunca me perdoaria – o capitão-mor falou com toda a preocupação de seus semi-cerrados olhos.

Ana Paes o respondeu com sua inerente ternura.

– Não precisa se preocupar comigo, Dom Matias.

– Mas eu me preocupo, sempre me preocuparei. Por isso venho aqui pedir que retorne ao seu engenho. Nossos batedores informaram que um grande exército inimigo pode atacar esta praça a qualquer momento.

– Sim, eu sei – ela suspirou. – Por isso, vim aqui deixar alguns mantimentos, serão necessários.

Para Matias era inacreditável contemplar a coragem da jovem mulher. Era um mistério para ele. Logo tratou de desvendar seus motivos.

– Porque faz isto, Ana? Porque se arriscar tanto?

– Ora, Dom Matias – ela voltou a sorrir. – Estou aqui porque sempre acreditei em sua pessoa e ainda acredito. Estou certa que ainda vencerá o inimigo holandês. Não sou apenas eu quem deposito esta confiança, mas todos os seus soldados também.

Matias baixou a cabeça. Pareceu envergonhado ao ouvir estas palavras. Com a confiança por completo abalada pela batalha do Forte Waerdenburch, o capitão-mor respondeu inconformado.

– Eu liderei meus homens à derrota. Não sei se confiam em mim. Deus! Nem mesmo sei como ainda tenho sua confiança, Ana.

A resposta da jovem senhora de engenho veio inesperada. Ela estava prestes a revelar um tão grande segredo sobre seus sentimentos mais íntimos e profundos. Sobre o grande amor que carregava no peito.

– Não é obvio, Dom Matias? Não consegue ver o sentimento que tenho em meu coração? Não percebeu que luto por algo além da restauração de Pernambuco. Por trás de minha ações, há um grande amor…

Matias sentiu o toque suave das mãos de Ana Paes, fazendo seu coração palpitar. Ele tremeu ao ouvir essas revelações sobre sentimentos íntimos. Uma sensação nervosa fez tremer seu estômago. Sua mente trouxe a lembrança sobre tudo aquilo que conversou com Domingos Calabar, meses atrás.

– Não sei quando começou a surgir este sentimento mas sei que cresce a cada dia. Mais forte do que eu. Acordo e durmo pensando nele. É incrível como algumas coisas são capazes de controlar os nossos desejos e nossas vontades. O amor ocorre, realmente, nas situações mais estranhas…

Ana olhou bem nos olhos de Matias quando proferiu.

– Mais do que tudo neste mundo, eu amo o meu Engenho Casa Forte!

Ao fim da frase, Matias se sentiu estranhamente confuso e decepcionado. Era uma mistura de sensações que nem ele conseguiria explicar. Mal teve tempo para revolver suas palavras, Ana continuou a explicá-las.

– Por isso luto com tanto afinco, Dom Matias. Pois dediquei toda a minha vida para fazê-lo crescer. O Engenho Casa Forte é minha vida agora. E não desejo vê-lo em mãos holandesas. Essa é a razão pela qual me arrisco tanto. Por isso desejo que, da mesma forma que luto pelo meu engenho, com sua bravura, quero que lute pela restauração de Pernambuco. Esta, na verdade, é uma única luta.

O turbilhão de sensações era demais para Matias. Uma coisa é certa. Não eram essas palavras que, dentro do seu âmago, desejava escutar. Num impulso inexplicável, esqueceu o que as pessoas do Reino falariam dele por casar abaixo de sua posição e tomasse como esposa com alguém das terras nativas do selvagem continente.

As seguintes palavras simplesmente deixaram sua boca.

– Case-se comigo, Ana!

 

***

 

O silêncio perdurou mais tempo que o suportável. Ana Paes se manteve cabisbaixa olhando para o vazio. Matias fixou o olhar na jovem mulher, quinze anos mais jovem do que ele. O âmago do capitão-mor sempre soube que aquela era a decisão certa a tomar.

– Quero que seja minha esposa – Matias continuou. – Quero dar aos nossos filhos a melhor educação do Reino! Eu a quero para sempre ao meu lado!

Ele estava certo quanto à essa decisão. Ela não tinha sangue nobre, mas era a mulher mais respeitada de Pernambuco. Ela nasceu no continente selvagem, mas era culta tendo aprendido o Português, o Espanhol e o Latim. Não detinha títulos de fidalguia, mas era dona do terceiro maior engenho de açúcar de Pernambuco.

No entanto, seu semblante feliz esmoreceu quando a percebeu a moça desviar o olhar. Cabisbaixa, a dona do engenho suspirou pesadamente. Prenunciava que más notícias deixariam seus grossos lábios.

– Eu sinto muito, Dom Matias!

A resposta foi como um balde de água fria na cabeça do capitão-mor. Os argumentos em sua mente quanto à falta de fidalguia e nascimento fora do Reino da desejada pretendente já não importavam mais.

– Não posso aceitar – ela completou.

– Mas Ana – Matias pausou para organizar os pensamentos, nem acreditava na resposta negativa, tentou racionalizar. – Casar-se comigo é elevar o sangue de sua família. Posso lhe dar um filho nobre. Posso dar a ele a melhor educação que o Reino pode prover.

– Eu sei – Ana Paes murmurou, se mantendo cabisbaixa.

– Como pode negar o que estou lhe oferecendo?

– Essa decisão não veio sem uma profunda reflexão, Dom Matias. – Ana respondeu, ainda sem mover um músculo. – Na verdade, há muito tempo que venho pensando sobre o assunto.

Ela moveu o rosto na direção do capitão-mor. Mirou os seus olhos. E respondeu.

– Embora o Sim seja a resposta mais lógica, existe algo a ser levado em consideração. É algo que gerou grande discussão com o meu finado esposo, antes de sua morte prematura pelas armas holandesas. É um pensamento incapaz de ser entendido por fidalgos nascidos na Europa e detentores de título nobiliárquicos, como vossa mercê e ele.

– Que consideração é essa, Ana?

O olhar de Matias megulhou nas profundezas da pupila esmeralda.

– Estaria disposto viver o resto de sua vida aqui em Pernambuco?  Abandonar suas origens no Reino? Criar seus filhos aqui no Novo Mundo?

A pergunta entrou nos ouvidos do capitão-mor, mas a boca proferiu uma resposta pronta.

– A melhor educação do mundo está em Lisboa e Madri.

O dedo de Ana posou sobre os lábios de Matias.

– Eu sabia que essa era sua resposta. – Ana deglutiu seco, quase sem saliva para amenizar suas palavras. – Infelizmente, parece que não escutou minhas palavras de amor sobre este continente, sobre meu engenho, sobre Pernambuco. Não entende que nasci, cresci e fui educada aqui. É uma educação da qual me orgulho. Tente entender que viverei e morrerei aqui também, assim como os meus filhos e os filhos dos meus filhos.

– Não como convencê-la de uma vida no Reino? – Matias interrompeu.

– Há como convencê-lo de um futuro aqui? – Ana contra-argumentou.

Ambos se calaram. O silêncio foi ensurdecedor.

– Foi o que pensei. – Ana desviou o seu olhar.

O mesmo silêncio se tornou constrangedor com a constatação dos divergentes planos de ambos Matias de Albuquerque e Ana Paes. Eram planos que nunca se encontrariam como os rios Beberibe e Capiberibe em seu percurso ao mar pernambucano.

Não havia mais nada para se falar, o capitão-mor deixou o ambiente, ainda em silêncio.

 

***

 

– Exército inimigo à vista, aproximando-se de nossas muralhas! – O brado de Calabar clamou a atenção do capitão-mor para uma matéria mais imediata. A urgência tomou por completo sua atenção. Este se lembrou dos exércitos holandeses que avançavam sobre as fortificações de Afogados. O número reduzido de seus homens. O número infinitamente maior de inimigos sobre sua posição. A necessidade dos mantimentos para um cerco. Os seus capitães feridos. E todos aqueles ao seu redor na busca de esperança para lutar. Qualquer plano traçado para o futuro se chocava com o iminente fim.

O capitão-mor partiu ao lado de Calabar, já lhe perguntando sobre a situação de guerra.

– Quão próximo os holandeses estão de Afogados?

A resposta de Calabar fez o frio subir a espinha do capitão-mor. Era algo que nunca poderia esperar.

– Eles não estão em Afogados – disse este amigo. – Eles surgiram de frente a nossas muralhas, aqui mesmo em Bom Jesus!

– Isso é impossível! – O capitão-mor exclamou. – Como fizeram isso sem que Gomes de Melo em Afogados ou Luís Barbalho nas Salinas nos dessem aviso antes?

Antes que Calabar pudesse responder, o capitão-mor enxergou os exércitos contrários surgindo no horizonte. Não deixavam dúvidas da tal ameaça. Eram centenas de soldados que marchavam na direção de Bom Jesus, já bem próximos da fortaleza. Teriam os holandeses encontrado alguma passagem pela mata? Teriam levado seus soldados por embarcações através do Rio Capibaribe? Teriam contornado a região de Bom Jesus? Se o fizeram, como o conseguiram sem serem descobertos e com tanta gente?

Os questionamentos do capitão-mor só levaram à mesma conclusão proferida por Calabar.

– Eu não sei, Matias, não faço a menor idéia.

Matias subiu mais alto na plataforma da muralha. Cerrou seus olhos intensamente para alcançar mais ao longe. Observou com maior detalhe o exército inimigo poucas milhas a frente no horizonte, reconhecendo as bandeiras levantadas nos estandartes que carregavam.

Inesperadamente, o semblante taciturno, cheio de pavor, que antes tomou sua face, se tornou um feliz sorriso.

– Estes não são exércitos holandeses, Calabar. – O mesmo cenho aliviado também surgiu no companheiro ao lado.

Neste momento, conseguiram enxergar um cavaleiro se desgarrando das primeiras fileiras de soldados que, tendo já atravessado toda esta planície, chegou às muralhas de Bom Jesus e a adentrou. Este cavaleiro era aclamado por toda a guarda de Bom Jesus, que abria espaço para sua passagem. Matias não conseguia acreditar. Era o seu bom capitão Pedro de Albuquerque Melo.

– Primo, eu consegui – ele falou. – O capitão-mor Martim Soares Moreno está aqui com os exércitos do Ceará e também o líder Bento Maciel Parente de São Luís do Maranhão. Soube do aperto nos últimos meses. Graças a Deus chegamos a tempo!

Ao lado do seu capitão, Matias observou um semblante inconfundível se aproximar. Era um homem de corpo musculoso e forte, contrastante com seus quase cinqüenta anos de idade. Possuía uma barba negra e cheia que não conseguia esconder as marcas de ferimentos pregressos em seu rosto.

Uma larga cicatriz tomava toda sua face esquerda, desde a fronte até a maxila, atravessando-lhe o olho. E uma peça metálica fora colocada no lugar de sua mão, que fora amputada durante um combate anterior, em outros tempos, contra outro invasor. Todos estes ferimentos mostravam a experiência de guerra deste grande veterano nas décadas de combate no Novo Mundo.

Era o capitão-mor do Ceará: Martim Soares Moreno.

– Também viemos informar que o socorro do Reino chegou! – Ele falou com sua voz barítona e imponente.

– Está na Bahia agora, a caminho de Pernambuco enquanto falamos!

 

 

Batalha Naval de Pernambuco ou de Abrolhos – CENA 2 – por Juan de la Corte (1597–1660)

 

A Selvagem Fugitiva

Holandeses

8

27 de Junho de 1631

Com um mortal punhal na mão e a nudez coberta com o sangue recente, a indígena Taciatã mais parecia uma onça faminta com dentes a mostra e garras afiadas, prontas para apresar sua caça. Ela avançava, agachada em movimentos sibilantes. O sangue escorria ainda vívido por sua lâmina, escoando através do punho e respigando pérolas vermelhas no negro chão.

– Pare, por favor – o soldado Spiesse implorou.

A selvagem deu um veloz passo a frente, como um bote interrompido. Começou a rosnar raivosa.

Spiessen elevou as mãos, mostrando não desejar o confronto.

– Taciatã? Tenha calma, eu lhe ajudo a fugir. – Spiessen tentou dialogar, mas o elevar do rosnado o intimidou.

– Schit!

O feroz avançar da indígena arregalaram os olhos do soldados. Ficou em sua mente a imagem dos alvos dentes da indígena, bem abertos, e o corpo selvagem caindo sobre o seu. Empurrou-o para trás. Ele sentiu suas costas baterem no chão. O punhal ensangüentado encostou abaixo do seu queixo. Pressionou a região pulsante do pescoço. Rasgou sutilmente a alva tez bem ali.

Por um instinto guerreiro, que sempre possuiu, Spiessen estendeu sua mão até a cintura. Tocou sua arma. Se fosse rápido o bastante, poderia desengatilhá-la do boldrié. Atirar no seu inimigo. Matar a selvagem. Matar Taciatã.

Não! Ele nunca poderia matar Taciatã. Assim, soltou a arma. Deixou-a ali no cinturão. Fechou os olhos. Esperou a morte chegar. Quando a respiração da indígena sobre sua face cessou e o rosnado se silenciou, Spiessen abriu seus olhos. Taciatã não estava mais lá. Seu corpo se avultou, desaparecendo nos corredores sombrios da masmorra. Um alívio deixou o peito do soldado ao perceber que fora poupado.

Ele não hesitou por um segundo em percorrer os corredores atrás dela. Atravessou os corredores da masmorra em busca da selvagem fugitiva. Subiu os corredores que levavam ao seu exterior. O alarme já soava alto e claro. Spiessen enxergou os dois guardas, que defendiam a porta do local, mortos por golpes de punhal.

– O que diabos aconteceu aqui? – A cena fez o soldado exclamar.

Do lado de fora, mais a frente, o mercenário germânico enxergou a bela indígena destroçando a carne de outro soldado com seu punhal. O soldado Spiessen chegou por trás. Aproximou-se silenciosamente. Segurou o braço armado de Taciatã, impedindo-a de continuar.

– Temos que sair daqui. Logo estará cheio de soldados.

Ela rosnou contra ele.

– Vem comigo. Eu mostro como sair daqui – ele continuou a persuadí-la, mas foi em vão.

Taciatã cravou os dentes em Spiessen. Mordeu o braço que imobilizava o punhal. Conseguiu se libertar. Ele primeiro urrou de dor, depois sentiu a lâmina lhe rasgar o abdômen. Aprofundou, pelo menos, um centímetro ao fundo de sua carne.

A indígena tentou fugir, mas, para sua infelicidade, um grupamento de soldados chegou a cercando. Era uma dezena de holandeses com armas apontadas contra a fugitiva.

– Pára agora mesmo, selvagem! – Gritou um dos soldados.

Não havia mais para onde ir. Não havia mais como fugir. Ela percebeu que seria aprisionada novamente. No entanto, antes de dizer o que a selvagem fez em seguida, é importante explicar sobre o modo de pensar do seu povo e como agiu em situações semelhantes quando tiveram suas terras invadidas e sua liberdade negada.

Em Pernambuco, após muita guerra, a paz só foi fundamentada quando Jerônimo de Albuquerque foi atingido no olho e capturado pelo líder Tabira. Em seu cativeiro, viveu um romance com Muirá Ubi, filha do inimigo. Essa união dos dois selou a paz entre suas nações.

Na Paraíba, os indígenas também resistiram bravamente derrotando os colonizadores Ibéricos. A paz veio no pacto entre o capitão-mor João Tavares e o líder Tabajara chamado Pirajibe.

Também no Rio Grande, a colonização só foi possível quando o filho da indígena pernambucana Muirá Ubi, detentor do mesmo nome de seu pai europeu, Jerônimo de Albuquerque, firmou a paz com o líder Potiguaçu da tribo Potiguar.

E, no Ceará, a situação foi ainda mais dramática, pois o primeiro colonizador da região, necessitando de ganho rápido para continuar sua empreitada, escravizou e vendeu todos índios que encontrou, até mesmo os aliados. Como resultado, sua colônia foi arrasada e na fuga teve muitos de seus filhos mortos. A paz só veio quando o renomado Martim Soares Moreno conseguiu a amizade com o senhor de quatro tribos chamado Jacaúna.

Quando hostilizados, os indígenas nunca deixaram de lutar por aquilo que mais prezavam. A defesa de seu território, de seu povo, de sua família e, acima de tudo, da sua liberdade. Os espanhóis só foram bem sucedidos nas suas colonizações através da paz, nunca da guerra. Por esta razão, a indígena Taciatã, mesmo em desvantagem e cercada por tantos inimigos hostis com armas de fogo e espadas metálicas na mão, fez o mesmo que qualquer outro indígena. Partiu para cima dos inimigos apenas com o punhal que tinha nas mãos .

– Taciatã! Não! – Spiessen gritou em desespero.

Os mosquetes estouraram. As balas vararam o corpo nu da indígena. O pranto de Spiessen ecoou pelas ruas da cidade.

– Não!

Ele balbuciava em meio as lágrimas que desciam em sua face. Depois gritou em imensa dor até sua garganta arder e sua voz perder toda força.

– Chegamos bem a tempo, soldado – o coronel Waerdenburch se aproximou. – A selvagem matou quatro homens, por isso, gradeça a Deus por seus ferimentos terem sido leves!

Spiessen não ouviu mais nada. A sua forte voz se tornara um murmúrio rouco. Dois homens o carregaram para as enfermarias, para cuidar dos ferimentos, para longe de Taciatã, agora sem vida. Ele tentou resistir no início. O seu coração queria matar todos ao seu redor, mas sua mente sabia que a culpa não era deles. Nem sequer descobriram sua participação na fuga.

O corpo sem vida da mulher foi carregado pelos companheiros de guerra. A imagem de Taciatã ficou cada vez mais longe do seu campo de visão. O soldado alemão esticou as mãos. Tentou colocar os dedos em perspectiva como que tocando a face indígena pela última vez. A visão do corpo dela se distanciando trouxe ainda mais tristeza e lágrimas. Enfim, estava tão longe que desapareceu por completo de seus olhos.

Esta foi a última vez que Spiessen viu a bela face selvagem de Taciatã.

 

***

 

Semanas depois, foram escalados quinze dos melhores homens de cada companhia, para o qual Richshoffer foi escolhido pelo major Berstedt, dizendo-lhe que seria uma boa presa. Chegando lá com sua arma, bem provido de pólvora e munição, percebeu que o major esquecera de lhe avisar ser uma viagem marítima. O objetivo era comprovar o rumor de uma armada espanhola de socorro que estava a caminho de Pernambuco.

Por sete semanas, não mudou de roupa e dormiu sobre o duro convés entre os canhões. Seu chapéu cinzento de Breda lhe prestou bons serviços como travesseiro. Conforme o costume de bordo, foram pessimamente alimentados, pelo que Richshoffer deu graças ao bom Deus por voltar com saúde à terra. Os navios bordejaram a costa do continente, vasculharam a ilha de Fernando de Noronha e até mesmo cruzaram o grande mar Oceano chegando à África, na costa de Guiné e Serra Leoa. Nenhum sinal da Armada espanhola foi avistado. Muitas vezes os observadores gritaram: – Velas! Velas! – Mas quando adiantavam, verificava-se terem sido enganados por alguma nuvem branca.

Ainda capturaram duas carracas mercantes espanholas com muita gente e uma boa pilhagem, mas Richshoffer não pôde usufruir do butim. No retorno ao Porto do Recife, o major Berstedt, o recebeu muito amavelmente. Perguntou gracejando se queria dividir com ele sua parte. Richshoffer respondeu estar pronto para lhe dar não só uma centésima parte do butim mas toda a soma.

Ao indagar uns e outros conhecidos, especialmente dos meus camaradas, o que de notável ocorreu durante sua ausência, lhe foi referido que os holandeses atacaram uma das fortificações do inimigo em Afogados, expulsando-os dela com perda de vinte mortos, seis prisioneiros e muitos feridos.

Richshoffer também tomou conhecimento do que ocorrera com a indígena que Spiessen nomeu Taciatã. Soube também que depois do ocorrido ele tem se metido com bebidas e confusão nas tavernas do porto do Recife, quase diariamente. Assim, decidiu partir ao seu encontro imediatamente.

Quando próximo da taverna, se apressou por ver o amigo Spiessen envolvido numa discussão.

– Retire o que disse, klootzak – um soldado gritou.

– Venha aqui retirar de mim – Spiessen respondeu.

O amigo estava diferente, mais nervoso e revoltado. Já estava profundamente enojado com todos os oficiais do exército depois que o major Berstedt lhe ordenou mutilar os cadáveres na vitória do Fore Waerdenburch. Com a morte de Taciatã, o sentimento passou ao ódio.

Com estas lembranças em mente, Richshoffer se aproximou do alarido, cada vez mais intenso aos seus ouvidos.

– O idiota do Spiessen está insultando o coronel Waerdenburch – A voz contrária à Spiessen explicou. – Chamou-o de carniceiro e imbecil!

– O quê? – Richshoffer se surpreendeu com a audácia.

Mais surpreso ficou quando Spiessen confirmou as palavras, sem qualquer medo ou respeito.

– São todos carniceiros, o coronel e todos os oficiais!

– Calma, Garstman – Richshoffer praguejou tocando no peito do soldado contrário, – Spiessen teve uns meses difíceis, deixe que eu cuido dele.

O tal Garstman encarou raivosamente o insolente mercenário, no entanto, aceitou o pedido de Richshoffer, mesmo a contra-gosto.

Richshoffer passou a confrontar o amigo.

– Está louco? Quer acabar na forca?

– Não mais baixarei minha cabeça aos imbecis que nos gritam suas ordens idiotas!

– Controle-se, Spiessen – Strasburguês foi mais assertivo. – Onde está sua honra?

Neste momento, Spiessen se levantou e jogou seu copo de cerveja no chão. Estilhaçando-o em milhares de pedaços. A raiva e indignação saltaram de seus olhos. Richshoffer nunca o tinha visto assim. Nem mesmo imaginava quanta mágoa e ressentimento estava guardada no seu peito.

Pelo menos, não antes dele começar a falar.

– Honra? – Spiessen perguntou em tom de deboche. – Não vi honra alguma desde que coloquei meus pés neste continente!

Mesmo intimidado pela aproximação do forte amigo, o Strasburguês tentou acalmá-lo, mas Spiessen colocou palavras incontestáveis em seu ouvido, mais incontestáveis do que poderia desejar.

– Por acaso Spiessen ficou mais honrado ao roubar o vinho do coronel? Ou o soldado faminto que invadiu os armazéns em busca de comida? E onde está a honra na forma como nós, os cães, fomos tratados aqui? Ou como Toulon e os franceses são excluídos de forma ainda pior?

– Não diga o que não sabe! – Richshoffer tentou interrompê-lo.

Não conseguiu.

– Quem sabe esta honra está com o general Lonke que nunca mais terá uma noite tranqüila de sono? Ou mesmo com Haus a quem foi negada a mulher amada, certamente pelo próprio sogro? Ou com Hans Linckhosz que foi transformado em comida de peixe antes mesmo de chegar aqui? Diga-me onde está essa honra que tanto fala?

A face de Richshoffer esmoreceu

– Está vendo tudo de forma errada, Spiessen.

– É um hipócrita, Richie! – A raiva atingiu seu ápice. – Tenho certeza que seu avô, dentro do túmulo, deu saltos de orgulho quando lhe viu roubar as calças de um defunto e cortar o sebo de um indígena para fazer velas!

– Cala a boca, Spiessen – o mesmo sentimento de ódio alcançou o Strasburguês. – Não preciso escutar isso!

– É a verdade!

O punho de Richshoffer atravessou o ar. Acertou a face de Spiessen.

– Para o inferno com a sua verdade!

Spiessen caiu no chão. Bateu o dorso nas areias do Recife. Não revidou. Sentado, limpou o sangue que o golpe lhe retirara dos lábios. Levantou, mantendo o olhar no Strasburguês.

Aguardou passivamente um novo golpe.

Richshoffer percebeu o não revidar do amigo Spiessen. Enervado em seu âmago, deixou o local. Não disse mais nada.

Só escutou gritos acalorados do amigo enquanto se afastava.

– É tudo culpa dos nossos líderes. Eles também tiraram tudo de mim!

Richshoffer não pôde deixar de concordar. Nem pôde deixar de se confortar com a palavras finais de Spiessen.

– Faltam apenas alguns meses para acabar o tempo de serviço pela qual nos comprometemos. Terminando, deixo esse inferno no mesmo dia. E lhe aconselho a fazer o mesmo! – Spiessen gritou enquanto o Strasburguês continuou a ignorá-lo.

Até enfim sua voz se extinguir nos ventos do litoral.

 

***

 

Richshoffer caminhou direção ao alojamento, sabendo que nenhum dos seus amigos estaria no local. A lembrança do amigo de infância, em especial, lhe causou grande tristeza. Soube por seu comandante que Haus estava na ilha Itamaracá. Ele desembarcou sob a liderança do capitão d’Artischau, para bater no forte espanhol numa elevação redonda da ilha, cercado por defesas e defendido por cem soldados.

Os holandeses ganharam a terra pelo rio que cerca toda a ilha, a uma légua acima do forte espanhol. Marcharam e plantaram uma bateria, que chamaram de Orange. Começaram a disparar suas peças de artilharia, resultando em poucos dias, na sua rendição.

Infelizmente, a vitória em Itamaracá não trouxe alívio a Richshoffer. Ainda não havia previsão para a volta do amigo, que se mantinha no galeão Prins Willen, sob os auspícios do grande general Pater. Trouxe apenas preocupação, que só piorou nas semanas seguintes quando os alarmes do Porto do Recife começaram um toque frenético. Era um tropel como nunca antes Richshoffer ouvira vindo dali.

O soldado correu ao local para saber o que estava ocorrendo. Ali, viu a armada do general Pater no porto do Recife. No entanto, antes que pudesse se alegrar com o amigo tão próximo, percebeu que a constante movimentação era na direção dos navios, não ao contrário. Os serventes carregavam pólvora e munição para dentro de todos os navios da Armada. As bandeiras de sangue estavam hasteadas no Prins Willen.

Um dos marinheiros que embarcavam apressadamente nos galeões de guerra, o explicou.

– É a Armada espanhola de socorro ao governador Matias. Ela foi avistada há poucas léguas da costa. Está vindo bem na nossa direção!

Não obstante, o marinheiro continuou.

– A armada do general Pater está caminho para confrontá-la.

O terror medrou no soldado Richshoffer, mas este sentimento não não era pela chegada do inimigo.

Era por saber que Haus estaria na linha de frente da batalha.

 

 

Batalha Naval de Pernambuco ou de Abrolhos – CENA 4 – por Juan de la Corte (1597–1660)

 

O Pressentimento Ruim

Brasilianos

7

21 de Setembro de 1631

Neste dia, entrou uma caravela no Rio Formoso. Este rio está localizado há dezesseis léguas ao sul da capitania de Pernambuco, próximo do Cabo de Santo Agostinho, já na fronteira com a comarca de Alagoas. Era o principal porto navegável para grandes embarcações de toda capitania depois do Porto de Recife. Há dezoito meses, nos primórdios do Forte Real do Bom Jesus, o sargento-mor Correia da Gama fora enviado para defendê-lo e assim o fez em algumas ocasiões quando os holandeses conseguiram sair de seu confinamento na cidade de Olinda. No entanto, o aviso desta embarcação foi a melhor notícia que enviou a Matias durante todo esse tempo.

– Ela chegou – o sargento-mor exclamou. – Está na Barra Grande!

Correia da Gama não mal conseguiu conter o entusiasmo. Muito menos Matias de Albuquerque, que estava acompanhado de todos seus principais capitães de emboscada.

Juntos, eles puderam observar na costa alagoana, sobre as fortes ondas dos oceanos pernambucanos, aquilo que tanto esperavam. Era uma armada de navios de guerra surgindo nos horizontes marinhos.

As velas destas embarcações, hasteadas pelos fortes ventos, mostravam a Cruz de Malta desenhada em seus tecidos.

Era o símbolo da monarquia do Rei Filipe.

 

***

 

Para chegar em Pernambuco, mais especificamente na Barra Grande de Alagoas, muita coisa aconteceu ao socorro vindo do Reino. A armada teve que confrontar as forças holandesas na batalha naval que ocorrera mais ao sul, no arquipélago de Abrolhos, nos mares da Baía de Todos os Santos. Os holandeses causaram mais dano do que as forças aliadas. Foram três naus da Armada de El Rey perdidas contra duas da Armada inimiga. Mais de mil mortos entre os aliados contra menos de quinhentos holandeses. Eram números frios que não faziam jus ao calor da batalha, muito menos à dor da perda dos companheiros mortos em ação.

As embarcações de transporte, que vinham escoltadas pela Armada, eram doze caravelas no total, incluindo a que entrou no Rio Formoso para dar aviso do desembarque. Outras onze caravelas chegaram a dar fundo, a 20 de setembro de 1631, às cinco da tarde, junto ao rio grande de Santo Antônio, na comarca de Alagoas, já na costa de Pernambuco. No dia seguinte, pela manhã, se deu vela, navegando junto da terra até a Barra Grande da praia de Maragogi, ficando ainda a trinta léguas do Forte Real de Bom Jesus.

Matias de Albuquerque chegou ao local do desembarque, onde o socorro doi descarregado, fazendo frente de bandeiras e fortificando o quartel e o posto. O capitão-mor logo percebeu que à frente do socorro estava um velho e conhecido italiano: Giovanni Vicenzo di Sanfelice.

– Dom Matias! Já se passaram tantos anos, non é vero?

O forte sotaque italiano de Vicenzo era notório. Matias o respondeu com a felicidade que sempre existe ao rever velhos amigos. Ambos se conheceram durante a primeira invasão holandesa.

Dom Vicenzo nasceu em Nápoles, onde o império do Rei Filipe alcançava, nas terras italianas, algo perceptível pelos cabelos negros agrisalhados, faces brancas, nariz proeminente e queixo quadrado com uma barba bem cuidada e rente. Possuía o nobre título de Conde de Bagnuolo, sendo um dos grandes líderes do exército ibérico.

– Seja bem vindo, bom amigo, é sempre uma alegria reencontrar Vossa Excelência. Pudemos observar sua chegada aqui na costa. Foi uma verdadeira inspiração para nossos homens.

– Sim, vencemos a batalha – Vicenzo respondeu, ainda empolgado com a vitória, mas relatando as suas perdas. – Os holandeses fugiram para seus portos, mas não foi possível atacar e prender a cidade holandesa. Sofremos muitas perdas, por isso tomei a decisão de ancorar para reparar os danos aos navios.

Matias retomou.

– Há muito tempo esperávamos este socorro do Reino. Da mesma forma como na primeira invasão holandesas anos atrás, quando El Rey enviou quatorze mil homens para libertar a Baía de Todos os Santos.

– Desta vez, El Rey Filipe enviou um reforço muito menor.

– O Conde-Duque me avisara do número reduzido, mas dois mil novos soldados aqui, na Guerra de Pernambuco é tudo que preciso para expulsar a escória holandesa.

As faces de Vicenzo ficaram ainda mais desconcertadas.

– Não está compreendendo, Matias. Vieram dois mil soldados para todo o continente. A metade ficará em São Salvador. Apenas a outra metade veio a Pernambuco.

A decepção de Matias foi notória.

– Então, depois de toda nossa luta aqui, El Rey dá mais prioridade a São Salvador que a Pernambuco. Deus! Quase dois anos de espera pelo socorro de El Rey, tudo que eu recebo são mil homens?

Essa decepção só aumentaria com as palavras do Conde de Bagnuolo.

– Na verdade, com nossas perdas na batalha, o almirante da esquadra solicitou soldados para completar sua tripulação. Além disso, mais homens serão enviados para a capitania da Paraíba.

– Então diga-me, finalmente, qual o tamanho do socorro enviado a Pernambuco, meu amigo?

– Setecentos soldados – o conde italiano respondeu seco e num único fôlego como toda má notícia deve ser proferida.

Matias manteve cabisbaixo por um momento, até enfim levantar a cabeça mostrando um bom semblante. Afinal, Dom Vicenzo era tão responsável pela defesa desta capitania quanto ele.

– Não deixarei que isto me desanime – então, proferiu. – Pelo menos, será a primeira vez que ultrapassamos o número de mil soldados em nossas forças. Lutamos até agora sem qualquer auxílio e poderemos fazer muito mais com esta pequena adição.

O capitão tentou abrir um sorrisso.

– Vamos, Dom Vicenzo! Tenho um ótimo lugar para Vossa Excelência e seus homens descansarem em nosso humilde lar chamado Bom Jesus!

 

***

 

Felizmente, se o socorro do Reino não animou Matias, outra pessoa que também chegara nesta Armada conseguiu tal feito. Uma voz conhecida alegrou seu coração, o fez retornar aos tempos de criança, quando brincava nas ruas do Reino e escutava as heróicas histórias de seu pai. O capitão-mor não conseguiu acreditar na visão do homem de cabelos negros e feições tão semelhantes às suas. Perguntou como se estivesse frente a uma miragem ou alucinação.

– Duarte? É sua imagem que vejo?

– Claro que sim! Nem mais reconhece o próprio irmão?

Era Duarte de Albuquerque Coelho, o primogênito da família Albuquerque e real herdeiro da capitania fundada por seu avô.

Era o Senhor de Pernambuco.

– Dois anos já se passaram, Duarte! Nem acredito que está aqui.

– Nem eu – o irmão sorriu. – Enfim chegou a hora de eu conhecer minhas terras, não é verdade, Paulo?

Como já era costume, quase uma tradição entre os irmãos, Duarte chamava o capitão-mor por seu nome de batismo. Era um nome que o capitão-mor não mais usava desde que assumiu o nome de seu tio Matias de Albuquerque, 15o Vice-Rei da Índia, quem lhe adotou quando ficou órfão aos oito anos de idade e lhe deixou uma rica herança anos depois.

– Desde meus quatorze anos de idade ninguém me chama de Paulo.

– Valeu a pena o equívoco apenas para ver sua face irritada novamente – Duarte alargou o sorriso.

Um abraço fraterno, intimo e sincero entre os dois irmãos se seguiu. Ao se separarem, Duarte retomou a palavra, ainda tocando os ombros de Matias e olhando seu corpo calejado pelos últimos dois anos de guerra.

– Está tão magro, Matias!

– O mesmo não posso lhe dizer, meu irmão. Vejo que a vida na corte do Rei Filipe foi generosa. Nunca o vi tão gordo.

Duarte gargalhou com o comentário.

– Sabe como é a corte, é difícil resistir as tantas festas, banquetes e vinhos, ainda assim nunca gastei tanto de minha herança com tem feito com a sua aqui em Pernambuco.

Embora estes gastos de sua herança, que herdou do tio, junto com o nome, fossem uma grande preocupação para Matias, este abriu um sorriso antes de responder ao irmão. Proferiu palavras, cujos horizontes semânticos o bom Duarte não poderia imaginar a extensão.

– Perceberá, irmão, que a forma como gastamos os nossos cofres aqui em Pernambuco é um tanto diferente da corte!

 

***

 

Como o posto da Barra Grande ficava tão distante do Real e com muitos rios a passar, assim como outras grandes e intoleráveis descomodidades, o caminho à Bom Jesus não foi tão simples. Não menos complicado era ter que levar dezesseis peças de artilharia de bronze, sendo doze para o Real e quatro para a Paraíba. O Conde Bagnuolo e Matias Albuquerque não se descuidaram um só ponto. Também ajudou a presença de Duarte de Albuquerque, sendo este o Senhor de Pernambuco, a quem seus vassalos nunca haviam visto. Todos se estimularam e se obrigaram por ver que vinha ser companheiro naqueles grandes trabalhos. Acudiram com muitas demonstrações de sua estima, com tudo o que puderam.

As fazendas, que vieram em socorro, se entregaram logo na Barra Grande aos oficiais reais dela. Ana Paes enviou carros de bois para levar parte da artilharia e muitos escravos para ajudar com os equipamentos. Assim o fizeram grande parte dos Senhores de Engenho e Fazendeiros da capitania. Tinham carros, negros e cavalos, para ajudar a conduzir aquele socorro ao Forte Bom Jesus. Resultou disto o se efetuar mais rápido a condução do que se poderia pensar, devendo-se também muito ao cuidado de André Marim, que chegou no socorro para ser o novo capitão de Artilharia do Forte Bom Jesus.

– Está na hora de retomar nossas casas!

O capitão-mor exclamou a ordem tão desejada aos seus capitães, tao esperado por todos aqueles que tanto lutaram nesses dezoito meses de guerra. Ao seu lado, estavam os comandantes de seus exércitos.

Todos observavam a Vila de Olinda, prontos para marchar seus exércitos ao local.

Os guerreiros indígenas do Ceará, trazidos pelo lendário líder Martim Soares Moreno, desciam aquela várzea. Investiam com a maior bizarria contra os inimigos, prontos para lhes causar um grande terror. Afinal, estes povos do Ceará, menos domésticos e cultivados, mais serviam para este efeito do que qualquer outro. Juntavam as suas forças indígenas com as de Felipe e Clara Camarão, estes já experimentados nas guerras pernambucanas.

Também vinham as forças das capitanias do norte, do Maranhão e do Grão Pará, cujo líder Bento Parente, detentor de mais fios brancos de experiência na cabeça do que o próprio Martim Soares Moreno, trazia uma quantidade semelhante de soldados armados com mosquetes e espadas, e protegidos por placas metálicas. Eram soldados do Rei Filipe preparados para combater esta ameaça invasora que desembarcou em Pernambuco.

O socorro do Reino também estava lá, com as divisões espanholas a cargo dos capitães Dom Juan de Xereda; as portuguesas a cargo Antônio Ortiz Mendonça; e as napolitanas a cargo do Conde de Bagnuolo, que vinha por comandante geral de todo o exército.

Todas se preparavam para o combate. Todos esperavam marchar contra o inimigo na Vila de Olinda. Desejavam retomar a capital daquelas terras.

– Lá está, Olinda!

O aceno foi dado pelo Senhor de Pernambuco, Duarte de Albuquerque, ao irmão Matias, com um largo sorriso. O Senhor de Pernambuco esperava acabar com essa guerra que lhe causara tantos prejuízos.

Além das forças recém-chegadas, haviam os experimentados e práticos capitães do exército pernambucano: Pedro de Albuquerque, Domingos Calabar, Luís Barbalho, Francisco Rebelo, Antônio André, Ribeiro Corrêa, Aires Tenreiro, Araújo Carvalho, Nuno de Melo Albuquerque, Francisco de Figueroa, Magalhães Barreto, Francisco Duarte… e tantos outros.

Infelizmente, apesar dos ares de otimismo, o capitão-mor deu ao Senhor de Pernambuco uma resposta que tirou o sorriso de seu rosto.

– Algo está errado!

Dom Duarte apertou os olhos. Questionou suas palavras. O capitão-mor expôs a razão de seus ares de preocupação.

– Os sentinelas não estão posicionados nas entradas da vila, nem osguardas de vigia nos pontos altos dela. Eles sabem que estamos fortes. Deveriam estar preparados para o confronto direto. E não escondido em seus quartéis. Algo de muito estranho está ocorrendo na vila, meu irmão!

Respirou profundamente. Depois, continuou.

– Estou com um péssimo pressentimento!

 

Batalha naval entre holandeses e espanhóis por Jan Abrahamsz Beerstraaten (1622 – 1666)

 

As Decisões de Guerra

Holandeses

9

22 de Setembro de 1631

Vinte e dois dias depois, desde a partida da Armada do general Pater para enfrentar a Armada espanhola, todos os soldados aguardavam ansiosos no Porto do Recife seu retorno. Todos desejavam saber o resultado da renhida porfia que se anunciava. No vigésimo terceiro dia de aguardo, a Armada holandesa surgiu nos horizontes marítimos com uma falta logo percebida. O galeão Prins Willen, a embarcação capitânia do general Pater não estava lá. Não retornou com as outras. E não foi apenas este galeão. Também era notada a falta do navio chamado Van Uytrecht.

As outras naus se mostravam tão varadas de tiros de canhão que surpreendia serem ainda capazes de velejar. Delas, saíram muitos homens mutilados e gravemente feridos. Richshoffer estava no porto, aos comandos do major Berstedt, sob ordem de retirar os feridos do convés e levá-los às enfermarias. Logo na primeira embarcação que adentrou, encontrou o companheiro que há oito meses não via. O seu velho amigo de infância, Philippe Van Haussen. Este estava em estado de choque. Apresentava tremores incontroláveis. Face pálida. Olhos transbordando lágrimas. A voz balbuciante só repetia continuamente as mesmas palavras.

– Por favor, me tirem daqui.

Era uma cena deplorável. Tal era seu estado, que nem sequer reconheceu o amigo Richshoffer. Este caminhou até o canto apertado da amurada do navio, onde Haus se aninhava em pavor. Analisou o estado da embarcação. Estava toda salpicada de carne humana, por dentro e por fora, com tantos miolos e sangue, que depois foi necessário raspá-los com vassouras.

Ignorando a terrível cena, Richshoffer levou o amigo Haus à terra firme enquanto os relatos da batalha naval percorriam todas as companhias de soldado. O general Pater, com sua Armada de dezesseis navios se encontrou com dezessete galeões espanhóis. Os resultados foram melhores para os holandeses. Três navios espanhóis destruídos e um capturado. Apenas os dois navios holandeses descritos anteriormente tiveram trágico fim. No entanto, os ares de derrota nas faces holandesas eram completos. Entre os mortos, estava o general Pater, o que obrigou os holandeses a recuar e possibilitar que as tropas espanholas de socorro desembarcassem em Zuikerland.

Apesar dos números, esta foi certamente uma derrota holandesa.

 

***

 

Apenas no dia seguinte, Richshoffer teve a possibilidade de visitar o amigo na enfermaria. A cena era tão triste quanto no dia anterior. Os tremores persistiam. As lágrimas não paravam de jorrar. Os balbucios continuavam a se repetir. Era impossível ver o estado do rapaz sem sentir pena.

– Haus! Sou eu, Richshoffer!

O amigo tentou chamar sua atenção. Balançou-lhe os ombros. Haus continuou preso à sua desorientação. Mesmo com a total falta de resposta, Richshoffer não estava disposto a desistir. Continuou a balançar Haus pelos ombros. Falou palavras para lhe chamar a atenção. Muito tentou, sem sucesso.

– Sou eu, Richshoffer! Seu amigo de infância. Vivemos farras juntos. Bebedeiras. Mulheres. Richshoffer! Estive contigo quando conheceu Amália. Quando nos alistamos na companhia. Sou eu, Richie.

Tentou muito mais. Até que, como num lampejo de luz, uma das palavras do amigo conseguiu atravessar seu precário estado mental.

Uma única palavra.

– Amália?

Haus mexeu os olhos. Fitou-os em Richshoffer. Mesmo sem mover um único músculo da face, pareceu reconhecer o velho amigo.

– Richie? onde estou?

– Está na enfermaria. Está de volta ao Porto do Recife. – Richshoffer tentava orientar o amigo.

– O que houve nas últimas semanas?

– Esteve sob o comando do general Pater na maior batalha naval que este continente já viu.

– Sim. O mar. O general Pater. A batalha. Eu lembro. Era tanto barulho. Mosquetes. Grossa artilharia. Deus! Parecia que o céu ia desabar!

Embora Haus já esboçasse reação às palavras de Richshoffer, os tremores continuavam e as palavras ainda deixavam sua boca em balbucios, mas este conseguiu coordenar algumas palavras para responder o amigo.

– O Prins Willen foi consumido pelas chamas. O general Pater ficou até o fim. Naufragou junto com seu navio.

Novos prantos surgiram de Haus. Ele chorou copiosamente.

Richshoffer o abraçou.

– Meu Deus, Richie! Eram tantos corpos boiando ao mar. Tantos mortos em nossa embarcação. Eu fiquei coberto de carne e sangue. Foi horrível!

– Calma, velho amigo. Está no Porto do Recife. Está seguro agora.

– Senti tanto a sua falta, Richie – as lágrimas desceram mais intensas.

– Está seguro agora – o amigo repetiu.

– Senti tanto a falta de Amália também.

A lembrança na mulher amada acendeu um turbilhão de memórias.

– E onde está Amália?

No entanto, diferente do amigo, o semblante de Richshoffer caiu em tristeza. Ele tentou desconversar.

– Falemos sobre isso depois, Haus. Tem que se recuperar primeiro.

– Onde está Amália? – Ele gritou com mais veemência.

Richshoffer se manteve em silêncio. Era notório que escondia algo. Haus se enervou-se, até explodir em ódio.

– Onde está Amália? – ele berrou.

Tamanha era a fúria exalada que Richshoffer não se conteve. Contou a verdade. Era tão danosa para o amigo, mas também era só questão de tempo para se revelar.

– Esteve separado dela por oito meses, Haus. Eu sinto muito. Ela está casada com o conselheiro. O casamento ocorreu durante as comemorações de um ano da conquista de Zuikerland. Houve uma grande festa.

Richshoffer baixou a cabeça.

– Eu sinto muito, Haus. Ela deve estar com seu marido agora.

O choro voltou a se expor no jovem de bochechas rechonchudas. Era uma fisionomia lastimável. O rapaz estava destruído em seu interior tanto quanto no exterior. Voltou a se deitar. Deixou de fazer contato com Richshoffer, por mais que este tentasse.

– Haus!

– Haus?

– Haus…

Não importou o quanto Richshoffer lhe chamou. Haus continuou ali, imóvel, sem responder ao chamado. Enfim desistiu.

Deixou o amigo em seu estado inanimado, este havia ficado para trás.

 

***

 

Muita coisa mudou depois do desembarque das tropas espanholas em Zuikerland. Era exatamente sobre isto que se discutia numa reunião geral com todos os conselheiros e oficiais de Nova Holanda. Como usual, os brados do coronel Waerdenburch ecoavam no local.

– A situação se deteriorou de forma terrível!

Quem primeiro o respondeu, foi o subcomandante Steyn-Callenfels.

– Mas nem tudo é má notícia, coronel. Graças ao grande valor e sacrifício do general Pater, a Armada espanhola ficou tão avariada que abandonou os mares de Zuikerland. Não suportariam outra batalha. Retornaram assim para a Europa

– Ainda desembarcaram suas forças – Honcx completou. – Só Deus sabe quantos milhares de homens trouxeram de reforço ao inimigo.

Um dos majores que ali estavam completou.

– Até hoje, nem um gato ou um cachorro pode atravessar a estrada do Porto do Recife a Vila de Olinda, sem sofrer a ininterrupta ação dos guerrilheiros de Albuquerque. Se estavam causando tamanho dano com os que tinham, imagine agora.

As vozes dos conselheiros políticos e econômicos começaram a ressonar na sala de reunião. Causavam ânsia ao coronel. Era inconcebível para ele que burocratas participassem de decisões militares.

– Deus! Apavoro-me só de pensar.

– Será este nosso fim? Teremos que deixar este continente?

– Não é uma má idéia. Até agora só amargamos prejuízos aqui.

– Abandonar tudo?

– Chegamos neste ponto?

Os comentários apavorados sobre abandonar Zuikerland subiram o ódio à cabeça do coronel. Ele não pôde deixar de pensar que os ratos são sempre os primeiros a deixar o navio.

– Não deixaremos Zuikerland – esse ódio atingiu o coronel de tal forma que o fez esmurrar a mesa de reunião. – Não sob o meu comando!

Todos se calaram frente à fúria do comandante maior das forças de Nova Holanda. Ninguém tinha coragem de questioná-lo.

Exceto, claro, o tenente-coronel Steyn-Callenfels.

– Como pretende contornar a situação, coronel?

– Proponho medidas drásticas! – O coronel respondeu sem hesitar.

Infelizmente, alimentando ainda mais a dor de cabeça em suas têmporas, os malditos burocratas recomeçaram o pernicioso palavreado que ressonava sem direção pela sala.

– Como se fosse possível este barco não afundar.

– O que o coronel pretende?

– Em dois anos só amargamos derrota, como mudar isso agora?

– Drásticas? Ainda podemos confiar neste homem?

Ignorando o choro assustado dos ratos covardes, o coronel apenas expôs sua proposta aos ouvidos que realmente lhe interessavam.

– Em primeiro lugar, proponho destruir Olinda. Queimar abaixo esta maldita cidade, que é impossível de se defender e concentrar toda nossa defesa no Porto do Recife.

Um dos conselheiros bradou do fundo da sala.

– Os Dezenove Diretores da Companhia são contra essa resolução!

Este apenas enfureceu mais o coronel, que perdeu o filtro de suas palavras. Todos arregalaram os olhos quando insultou seus superiores.

– Que se danem os Diretores!

Era o que bastava para o palavreado dos ratos recomeçar.

Ouvindo estes comentários, o major Crestofle d’Artischau, sentado em uma das cadeiras, logo tratou de defender a idéia do coronel.

– O coronel está certo! É possível citar dez razões para mostrar o caráter precário do Porto do Recife e nenhuma razão para justificar a vantagem nisso. A Vila de Olinda, por sua vez, não presta para absolutamente nada!

O ânimos se acenderam. Do outro lado da mesa, o major Laurentz Rembach argumentou contra a resolução em acordo com o pensamento dos conselheiros da mesa.

– Os Diretores já estão enfurecidos com os prejuízos, coronel. E ainda desobedecerá uma ordem direta deles? – Rembach bradou.

A resposta do coronel foi mais surpreendente do que podiam esperar.

– Então tentemos lucrar com isso. Perguntemos ao governador Albuquerque se ele deseja resgatar a maldita Vila. Isto deve resolver o problema do prejuízo e facilitará sua derrota pois, como eu disse, a cidade é de péssima defesa, por isso a conquistamos tão facilmente num único dia.

Outra vez os ratos recomeçaram.

– Definitivamente, louco!

– Ele não sabe o que está falando.

– Nunca vi tamanha insanidade.

– Com certeza, cabeças vão rolar!

Outro major interrompeu o burburinho. Era o major Sigismund Von Sckoppe que expunha seus argumentos.

– Tem um problema com seu plano, coronel. O Porto do Recife não tem alojamentos o bastante para todo nosso exército. Demorará semanas para construir todos os leitos que precisaríamos. Onde colocará nossos seis mil soldados?

Foi a vez do coronel Waerdenburch responder:

– Eu posso defender o Porto do Recife com metade dos homens, talvez menos. Basta deslocarmos a outra metade para a ilha de Itamaracá. Ou talvez possamos pensar em algo mais ousado.

A resposta fez o major Bijma questionar.

– Ousado como, coronel?

– Estava pensando na Paraíba. Um grande ataque a esta capitania. Depois, seria a vez do Rio Grande.

Ao fim da resposta, um rato murmurou, seguido pelos demais.

– Eu realmente ouvi isso?

– Estamos no pior momento da guerra… e vamos atacar?

– Louco! Louco! Louco!

O coronel calou todos com as seguintes palavras.

– Este é meu plano! Não vejo outra opção. É ousado, eu admito. Por isso, proponho colocá-lo em votação.

Todos os oficiais foram de acordo. Também a maioria dos conselheiros, mas ninguém esperava a frase seguinte do coronel.

– No entanto, esta é uma decisão militar. Não aceito os conselheiros e comissários se intrometendo. Apenas os oficiais militares!

 

***

 

É possível imaginar o tamanho da discussão que se seguiu. O burburinho nunca foi tão grande. Felizmente, para o coronel, com seu poder de intimidação e muitos de seus partidários que ali estavam, ele conseguiu seu intento.

A votação foi realizada. E obteve o seguinte resultado.

– Tenente-coronel Steyn-Callenfels… a favor do plano.

– Tenente-coronel Foucques Honcx… a favor.

Aos que se perguntarem sobre o terceiro tenente-coronel, Van Der Elst, cuja cadeira estava vazia, este já partira para Holanda há muitos meses. Considerou a empreitada de Zuikerland algo impossível.

– Major Lourentz Rembach… é contra.

– Major Bijma… é contra.

– Major Von Sckoppe… a favor.

– Major d’Artischau… a favor.

– Major Padburgh… é contra.

– Major Pierre Le Grand… a favor.

– Major Redinchoven… a favor.

– Major Berstedt… a favor.

O resultado foi proferido: a favor. Todos os oficiais se calaram. Só o burburinho dos ratos ao fundo continuou. O coronel Waerdenburch os silenciou por completo com suas novas palavras.

– Ainda hoje enviaremos o proposta do resgate de Olinda ao governador Albuquerque. Em caso negativo, a destruiremos. Neste tempo, todos todos os comandantes devem preparar suas companhias. Estejam prontos para o ataque à Paraíba.

Para o alívio das dores de cabeça do coronel, a reunião se encerrou. Os dias seguintes foram de preparação. O tenente-coronel Foucques Honcx foi o escolhido para levar muitas companhias para Itamaracá. O tenente-coronel Steyn-Callenfels foi escolhido para a conquista da Paraíba, levando consigo treze companhias no total. Entre estas companhias, estava aquela liderada pelo major Berstedt.

Os soldados Spiessen e Richshoffer começaram a preparar suas coisas.

 

***

 

Neste tempo, o soldado Haus se manteve no leito, nas enfermarias do Recife. A sua mente parecia não mostrar nenhum sinal de recuperação. Até que certo dia, ainda sofrendo os terríveis tremores e a voz entrecortada por soluços chorosos, seus olhos se abriram inesperadamente. Ele despertou de seu estado inanimado com um único pensamento em mente. Um pensamento que logo se externou em altos tons de voz.

– Amália, minha querida Amália. Eu preciso reencontrá-la!

 

 

Gustav Adolph na Batalha de Breitenfeld por Johann Walter (1632)

 

Um Jogo de Estratégia

Nobreza

6

17 de Setembro de 1631

O Conde-Duque de Olivares bufava de ódio em seu escritório. Caminhava em círculo. Os pensamentos se atropelavam. A razão de sua preocupação era a mais nova notícia do norte italiano. As forças do Império Romano-Gemânico que ocupavam a região de Mantova recuaram. Abandonaram o campo de batalha italiano. Decidiram focar em guerras mais ao norte contra o Reino da Suécia, que acabara de declarar guerra contra eles.

O Império Romano-Germânico decidiu que era impossível manter a guerra em dois frontes de batalha tão distantes entre si; tanto no sul, contra os franceses, quando no norte, contra os suecos. Por isso, assinaram um tratado com os franceses: a Paz de Ratisbona. Era um acordo extremamente danoso aos planos do Conde-Duque. O Império entregava Mantova de volta aos franceses, reconhecendo o Duque de Nevers como legítimo herdeiro da região. Em troca, os franceses não lançariam mais suas tropas contra o Império.

Quando soube da notícia, o Conde-Duque solicitou a presença do embaixador do Império Romano-Gemânico imediatamente em seu escritório.

– Olivares.

Quando a porta se abriu com a chegada deste homem, todo ódio no olhar do Valido recaiu sobre ele. O embaixador Khevenhüller não tinha resposta para as ações do imperador.

– Eu sinto muito – foi tudo o que pode dizer.

– É assim que o Império retribui décadas de nossa fidelidade – o Conde-Duque lançou a sua ira. – Como puderam aceitar o pacto como este! É o mesmo que uma rendição!

O embaixador se aproximou. Tirou o chapéu.

– Não tivemos escolha – começou a se explicar. – O Reino da Suécia desembarcou quarenta e três mil homens em nossas terras! 43 mil! Ficou impossível a guerra com a França e a Suécia ao mesmo tempo!

Era um número realmente impressionante. Era o equivalente a 8% da população masculina da Suécia na época. E estavam todos muito bem armados e preparados para o combate.

– Meu Deus! – O Conde-Duque exclamou. – Como eles conseguiram recrutar tantos homens tão rapidamente? Onde conseguiram os recursos para armar um exército desse tamanho?

O embaixador não tinha uma resposta. Esta só chegaria por outra pessoa. Era alguém que vinha diretamente do norte italiano, surpreendendo os dois homens no escritório. Essa pessoa era Margarida de Mantova.

–  É tudo culpa do Cardeal de Richelieu – ela falou.

 

***

 

Uma baba de ódio escorreu de forma mais proeminente pelo canto da boca do Conde-Duque. Era um sentimento que apenas se tornava mais intenso com cada nova palavra de Margarida de Mantova, que no fim seria a maior perdedora no campo de batalha italiano.

– Richelieu entregou um milhão de ducados de ouro ao Rei Gustav Adolph para atacar o Império Romano-Germânico.

O Conde-Duque de Olivares estava pasmado com a audácia do primeiro-ministro francês.

– Um milhão de ducados de ouro! Um milhão!

O Conde-Duque era incapaz de esconder a surpresa e a indignação.

– Sim – Margarida de Mantova continuou. – O Reino da França está financiando um exército protestante contra o Império Romano-Germânico!

O Conde-Duque ficou mudo. Percorreu seu escritório. Sentou na cadeira atrás da grande escrivaninha. A tensão no ambiente era insuportável. O silêncio era gritante. Ele olhou o mapa do norte italiano. Não podeia deixar que os franceses saíssem com tamanha vantagem. Lançou os novos planos para remediar a situação.

– Envie uma mensagem para seu irmão, Margarida – ele pausou por um segundo. – Diga a Victor Amadeus que mandaremos reforços ao Forte de Pinerolo. Nós certamente revidaremos esse acinte!

Infelizmente, se toda essa situação já era inimaginável ao Conde-Duque, ela ficaria ainda pior com a resposta da Duquesa de Mantova.

– Isso não será possível, Olivares – ela falou. – Sinto muito informar que meu irmão traiu a Espanha.

O Conde-Duque arregalou os olhos. Sentiu seuas pernas golpeadas. Quase caiu no chão. As palavras seguintes de Margaridas eram mais malignas do que o concebível. Ela falou.

– O Ducado de Sabóia acabou de jurar lealdade ao Reino da França.

Todos ficaram surpresos com a notícia. O silêncio no ambiente era semelhante ao de um funeral. Só se interrompeu por uma pergunta do embaiador em mórbido tom de voz.

– E o que faremos agora?

Ainda mais mórbido, o Conde-Duque respondeu.

– Só podemos rezar que o Imperador tenha sucesso em sua campanha contra o Rei da Suécia.

Sempre foi de consenso geral que o Reino Ibérico e o Império Romano-Germânico era duas nações irmãos. O destino de uma estava totalmente interligado com o da outra, este era um dos ditados na época

Agora, essa máxima nunca foi mais verdadeira!

 

***

 

Longe dali, no norte da Alemanha, o Império Romano-Germânico marchou 35 mil homens sob o comando de seu melhor general: o Conde de Tilly. Eles esperavam encontrar as audaciosas forças protestantes lideradas pelo Rei Gustav Adolph da Suécia nos arredores da cidade de Breitenfeld. O líder protestante liderava 23 mil soldados suecos e 18 mil aliados saxões.

Tudo foi inesperado nesta batalha. Ocorreu fora dos padrões da época. A Batalha de Breitefeld se tornou um marco na história militar. O suecos revolucionaram o modo de se guerrar. Usaram canhões leves na artilharias por serem mais rápidos de recarregar e fáceis de movimentar. As fileiras de infantaria eram menores para aumentar a agilidade do exército. A cavalaria era a força de ataque principal, não apenas o suporte.

Essas e muitas outras táticas foram adotadas pelo Rei Gustav Adolph para aumentar a velocidade e agressividade de suas tropas. Eram táticas muito mais ofensivas do que a Europa estava acostumada. Os lentos exércitos imperiais não tiveram a menor chance. Atacados na frente pela infantaria inimiga, e cercados na retaguarda pela rápida cavalaria, ficaram tão espremidos que mal conseguiam se mover, nem mesmo conseguiam empunhar as suas armas.

O general Tilly caiu de joelhos, impotente.

– Meu Deus! Estamos perdidos!

A última visão do líder imperial foi do próprio Rei Gustav Adolph, sobre sua negra montaria, liderando a cavalaria que lhe atacava por trás. Em seguida, destroços voaram de uma bala de canhão sueca. Atingiram Tilly no rosto. Fizeram tudo se apagar. Ele nem sequer viu o resultado final da batalha. Não viu o massacre de suas forças. A Suécia sofreu três mil baixas. O Império perdeu, entre mortos, feridos e capturados, mais de 24 mil homens.

O termo utilizado para esse tipo de vitória se chama: – Aniquilação!

 

***

 

Um jovem caminhava pelos corredores do Paço Ducal de Vila Viçosa. Ele recebera um chamado urgente para comparecer ao Ducado de Bragança. Os guardas do Paço assim o conduziram ao escritório do seu novo senhor, Dom João de Bragança, que estava cabisbaixo na mesa central do aposento.

O escritório já era conhecido por Mascarenhas. Muitos livros. Decoração. Quadros nas paredes. Entre outras coisas. No entanto, algo lhe chamou a atenção. Sobre uma estante, estava o pequeno porta-retrato com a figura paterna de Dom Teodósio virada de cabeça para baixo. Só em ver a peça, soube que o encontro do filho com o pai em leito de morte não ocorrera da forma pacífica.

As especulações de Mascarenhas sobre a foto virada se dispersaram quando o Duque de Bragança percebeu a chegada do convidado.

– Mascarenhas – ele lançou o cumprimento.

– Vossa Excelência – Mascarenhas respondeu com devido respeito ao título, mas logo relaxou. – Meu bom amigo João, como estão as coisas?

O novo Duque de Bragança se levantou da cadeira. Aproximou-se do amigo. Ambos se abraçaram.

– É muito trabalho – João apontou para a pilha de papéis amontoados na sua mesa. – Bragança possui mais de vinte alcaidarias-mor para cuidar. Vinte!

Essas alcaidarias-mor, a saber, eram oito no norte transmontano que incluem Bragança, onde tudo se iniciou, Miranda, Montalegre, Chaves, Portelo, Piconha, Castro, Melgaço e Vila do Conde. Mais duas próximas da costa, que eram Ourém e Porto de Mós. E outras oitos ao redor do atual paço de Vila Viçosa que eram Borba, Évora, Monforte, Alter do Chão, Monsaraz, Portel, Sousel e Arraiolos

– Isso sem contar das cidades menores e sete propriedades nos arredores de Lisboa, onde o ducado possui renda. Ainda mais no Ducado de Bragança em que as jurisdições não estão num mesmo território contíguo. Estão espalhadas por todo território Português.

– Calma, amigo – Mascarenhas respondeu, tocando de forma fraternal o ombro de João. – Tudo encontrará o seu caminho.

– Pensei que Dom Teodósio tinha um chanceler-mor esses assuntos.

– Tinha sim. O desembargador Godim – a voz do Duque era de reprovação. – Não queira ter ideia dos credores batendo à minha porta. E não é por falta de dinheiro! Olha a lista dos recebedores de mercês da Casa de Bragança e dos nossos devedores. Olha a quantidade de dívidas perdoadas! Jesus!

– Não me surpreende – Mascarenhas sorria. – O velho Teodósio era conhecido por sua generosidade.

– O desembargador diz que meu pai perdoava as dívidas e dava tantas mercês porque estes homens as mereceram – João retomou. – No entanto, essas pessoas terão que entender que: se elas um dia foram importantes a meu pai, agora devem provar os seus serviços a mim!

Mascarehas alargou o sorriso, contrariando a seriedade da discussão.

– Por que está sorrindo, Mascarenhas? – o Duque indagou.

– Nunca esperei tamanho compromisso da sua parte na administração do Ducado. Por esta razão, se precisar de qualquer auxílio meu neste quesito, ficarei feliz em ajudar. Até me pergunto, se esta foi a razão de me chamar aqui com tanta urgência?

– De forma alguma! Nunca! – João interrompeu de imediato.

Logo explicou a razão de tão forte negativa.

– A verdade é que há três meses, desde que assumi o Ducado, sequer tive o tempo de estar com uma mulher nua. Está na hora de voltar a me divertir. Desejo mesmo é relembrar nosso tempo na corte de El Rey Filipe

João cerrou o olhar no amigo.

– Lembra das belas atrizes em Madrid. Foi uma noitada inesquecível!

– João, meu bom amigo – O sorriso de Mascarenhas já se transformara numa gargalhada. – Lembro que houveram muitas atrizes na corte. E bem mais que uma noitada inesquecível em Madrid.

João gargalhou ainda mais intensamente.

– Pois bem – em seguida, tomou a saída do escritório em busca de algum planfeto. – Contratei uma companhia teatral feminina para se apresentar aqui. E, claro, para uma apresentação, bem especial, depois, só para nós dois.

O novo Duque então deixou o escritório. No entanto, antes de acompanhar o amigo, Mascarenhas se aproximou do porta-retrato virado com a pintura de Dom Teodósio. Colocou-o em pé novamente, visível a todos. Então falou baixínho, apenas para a imagem do antigo Duque de Bragança escutar.

– Não se preocupe, Dom Teodósio. Farei de tudo ao meu alcance para que seu filho faça a coisa certa!

 

 

Paraíba por Johannes Vingboons

 

A Parte de Cada um

Holandeses

10

28 de Novembro de 1631

Neste dia, treze companhias lideradas pelo tenente-coronel Steyn-Callenfels deixaram o Porto do Recife. Eram dois mil homens com um único objetivo: Conquistar a Paraíba. Não mais que três dias depois, o alvo já começava a surgir no horizonte com o Forte Cabedelo, sua principal fortificação, na margem sul do rio que nomeia a capitania.

A Paraíba possuía uma costa marinha vasta com muitos possíveis portos que permitiam a entrada de grandes navios. Para esta prevenção, diferente de Matias de Albuquerque que no dia do desembarque em Olinda centralizou suas forças na vila, o governador da Paraíba fez o contrário. Decidiu defender, com seus seiscentos homens, os vários portos para impedir o próprio desembarque.

No dia do desembarque em Zuikerland, o coronel Waerdenburch o fez num porto afastado, em Pau Amarelo, três léguas ao norte de Olinda. O tenente-coronel Steyn-Callenfels poderia ter realizado a mesma estratégia, mas percebendo os planos do governador da Paraíba, ele desembarcou seus homens no porto mais próximo. Desembarcou na margem sul do rio Paraíba, bem na sua foz, bem em frente ao principal forte espanhol. Cortou assim a defesa do governador paraibano.

Os holandeses pagaram um alto preço por essa estratégia. Estando o desembarque dentro do alcance dos canhões inimigos, as balas de canhão caíram sobre seus homens como uma pesada chuva. As chalupas de transporte eram estraçalhadas. As cabeças dos soldados eram esmagadas. Houveram muitos mortos holandeses. E os sobreviventes aprenderam a temer o nome Pedro de Menezes, capitão de artilharia paraibano, tão perito no ofício que seus artilheiros não erravam facilmente o que podiam alcançar.

– Homens, avançar! – Berstedt gritou. – Avançar!

Explosões de canhões. Disparos de mosquetes. Gritos de guerra. Gemidos de dor. Richshoffer se acostumara com todo o tropel da batalha. Já lhe era familiar. Quase acolhedor. A visão também não mais se limitava. Ele conseguia enxergar todo o campo de batalha com um lance de olhar. Percebeu as fileiras de seu exército se organizarem na praia. Tomou a frente de uma delas. Os tiros já não erravam com a mesma freqüência. Derrubou sua cota de espanhóis, mas os inimigos também não erravam facilmente. Ele viu um dos inimigos espanhóis ferir três de seus companheiros com um único tiro de mosquete, do que imediatamente recebeu a paga, com uma espada holandesa lhe cortando a retirada e decepando sua cabeça tão lisamente que nem mesmo um carrasco teria feito melhor.

Poucas fileiras ao lado percebeu seu amigo Spiessen também na batalha, mortal como sempre fora desde o começo da guerra. Do outro lado, viu o franco-holandês Charles de Toulon atacar com igual resolução. Os três já eram considerados veteranos. Com seus outros dois mil companheiros, fizeram os espanhóis fugirem e se retirarem para os redutos no Forte Cabedelo e outros entrincheiramentos.

Não mais do que três fileiras distante de Richshoffer, o maldito artilheiro espanhol enviou uma bala rasa que arrancou as carnes das coxas de dois holandeses. Não obstante, todos prosseguiram avançando, animados pelos superiores, até chegarem tão perto do inimigo que poderiam facilmente bem falar com ele. O tiroteio durou mais três disparos, pois os canos dos mosquetes estavam tão aquecidos pelo sol e pelo constante fogo que ficou impossível os recarregar.

Neste tempo, os homens das companhias que vinham atrás já transportavam a madeira a um entrincheiramento. Os cestões foram colocados na frente, sendo preenchidos com areia. Os pranchões foram posicionados sobre suas cabeças. As faxinas, nos espaços vazios das paliçadas. Perto da praia, se demarcou e formou um acampamento. A vanguarda tomou cobertura ali. Ao anoitecer, postaram sentinelas.

Era o fim do primeiro dia de batalha.

 

***

 

Durante quase toda a noite, tiveram alarmes. Mesmo escondidos pela penumbra de uma noite sem lua, os inimigos atacavam. Richshoffer estava ali, solitário, como já se acostumara nas últimas semanas. Limpava sua arma. Sabia que precisaria dela no dia seguinte. O cenário ao seu redor era do acampamento coberto por pranchões, que fazia um teto protetor contra o maldito artilheiro espanhol. Como o acampamento estava sob o alcance inimigo, se ouvia as balas arremeterem e quicarem logo acima.

Os soldados holandeses se sentavam ao redor de fogueiras. Preparavam-se para jantar. Cozinhavam os mantimentos e esquentavam uma sopa nos caldeirões. No entanto, dois homens, ao redor de um destes caldeirões, se exaltavam mais que os demais.

– Coloque os seus biscoitos na sopa também.

– Eu já coloquei, não viu?

– Não colocou!

– Coloquei sim!

Richshoffer escutava ambos soldados se exaltarem na discussão infrutífera. Os ânimos já sobrepujavam o som dos canhonaços nos pranchões. O Strasburguês os olhou com ares de reprovação, mas não os condenava. Por muito menos, se desentendeu com seus companheiros.

– Essa discussão lembra de algo, Richie?

Antes mesmo de se virar, já reconhecera a voz do amigo Spiessen.

– Lembra-me de mais coisas do que eu gostaria.

Spiessen sentou ao lado de Richshoffer. Este colocou a arma que limpava ao lado. Os dois se entreolharam, não sabiam o que dizer. As palavras lhes escapavam da ponta da língua, até Spiessen primeiro abordar.

– Eu sinto muito pelo que eu disse na praia.

– Eu quem tenho que me desculpar – Richshoffer respondeu. – Sabia o quanto já recebeu sua parte de sofrimento nesta guerra, deveria ter lhe apoiado.

– Eu estava num mau momento. A guerra tirou o que melhor havia em mim e substituiu pelo que eu tinha de pior.

– Ela fez isso com todos nós – Richshoffer respirou pesademente.

Os olhares dos dois amigos se cruzaram outra vez. Um novo silêncio prosseguiu. Este bem mais curto.

– Senti falta de sua amizade, Spiessen.

– Também senti falta da sua, Richie.

Cada um dos dois amigos colocou a mão no ombro do outro. Um aperto simultâneo na base do pescoço selou novos elos de respeito e companheirismo. Em seguida, foi a vez de Spiessen retomar a conversa.

– Eu vou mesmo retornar para Holanda assim que meu tempo de serviço acabar – continuou com voz firme. – Eu não agüento mais este lugar! Ficaremos melhor numa taverna de Amsterdã, bebendo uma boa cerveja e degustando um bom Arenque.

– Ah… – o Strasburguês sorriu. – Sinto muita falta de uma boa cerveja, bem diferente daquela lama que o general Pater nos trouxe. Logo fará três anos que não aprecio uma.

– Três anos é um longo tempo.

– É sim.

Os dois suspiraram com lembranças de um tempo passado.

– Não importa sua decisão, Richie. Ficando aqui em Zuikerland ou retornando comigo para a Holanda, sempre seremos amigos. Não quero parecer tão idiota quantos estes dois aí.

O jovem Spiessen apontou para os dois soldados que ainda discutiam sobre quem colocou, ou não colocou, os biscoitos no caldeirão de sopa. Tanto Richshoffer quanto Spiessen gargalharam juntos da cena patética. Ambos sabiam estar rindo deles mesmos.

– Obrigado por ter me procurado, Spiessen.

– Algum de nós eventualmente acabaria cedendo.

– Estou com a sensação de que tudo vai melhorar a partir de agora.

– Interessante, também estou com a mesma boa sensação.

Como que contrariando a previsão dos dois amigos, o maldito artilheiro paraibano enviou uma bala rasa que trespassou, intocada, as defesas do acampamento. Voou entre os soldados que ali estavam. E atingiu em cheio um dos homens da discussão sobre os biscoitos. Bem na sua cabeça. O impacto foi tamanho que arrancou sua cabeça fora, a separando do pescoço. Esta, por fim, caiu dentro do caldeirão de sopa.

Todos se levantaram de seus lugares em sobressalto. Nem conseguiam acreditar no bem acertado ataque inimigo. Em seguida, quem se aproximou do caldeirão foi o outro soldado. O mesmo que discutia sobre os biscoitos. Ele contemplou a imagem da cabeça decepada boiando no caldeirão de sopa. Então falou:

– Pode tomar a sopa toda. Não quero mais

 

***

 

A bala era um aviso sobre o dia seguinte. Tendo os paraibanos reunido seus homens durante a noite, ao amanhecer, lançaram o contra-ataque. Os holandeses logo aprenderam a temer outros nomes. Em especial, o sobrenome Albuquerque Maranhão do governador paraibano e de seus dois bravos irmãos que lideravam os espanhóis nesta batalha: Antônio, Jerônimo e Matias. Levando suas forças, esses três irmãos fizeram os holandeses abandonarem o acampamento. Tiveram que fortificar fora do alcance dos canhões do Forte Cabedelo.

Não deixando de surpreender os invasores, o maldito artilheiro conseguiu acertar as duas peças de artilharia holandesas. Na primeira peça, demoliu o reparo que a sustentava. Na outra, acertou uma bala bem dentro da boca deste canhão, o explodindo. Ainda que a vitória tenha sido paraibana neste segundo dia de batalha, estes não deixaram de amargar uma dura perda. A morte do seu líder: Jerônimo de Albuquerque Maranhão, o irmão do governador.

– Preparem-se, soldados! – Steyn-Callenfels levantou seu bastão de comando. – Amanhã, no terceiro dia de batalha, será nossa vez de atacar.

 

***

 

Longe dali, no porto do Recife, um jovem rapaz com vestimentas surradas e sujas percorria suas ruas. Era Phillip Van Haussen. Ele vasculhava a cidade em busca da nova morada da sua amada Amália. Já atravessava uma área aberta entre os armazéns, local onde foi colocada a forca pela qual tantos já passaram. Ali, estavam quatro mortos pendurados pelo pescoço. Eram quatro capitães da Armada do general Pater que, covardemente, se negaram a entrar em batalha com seus galeões. Julgados pelo Conselho de Guerra, foram executados para que todos soubessem que é melhor morrer nas mãos do inimigo do que nas de um carrasco.

Não demorou para Haus descobrir, perguntando aos outros soldados, onde era a casa do conselheiro com quem Amália havia se casado. Não era uma casa tão luxuosa quanto as mansões de Olinda, mas era a maior naquela parte do porto do Recife. Era construída em alvenaria com portas de madeira, largas janelas e telhados típicos do período. Mostrava-se ostentosa o bastante para a casa de um conselheiro. Haus fez questão de olhar furtivamente sobre as janelas para ver quem estava no local. E lá estava Amália, sozinha, sentada à mesa de jantar.

Haus logo surgiu à porta de sua amada.

– Amália! Eu a encontrei. Sonhei tanto com este dia.

A senhorita Strausskicher, agora senhora Serooskerken, se levantou assustada. Pareceu estar vendo um fantasma.

– Meu Deus! Haus? Como é possível?

– Oh, Amália, minha Amália. – o soldado balbuciava.

Suas palavras estavam quebradas. Os tremores estavam mais fortes do que nunca com a excitação de ver sua amada. Os olhos avermelhados não paravam de chorar enquanto olhavam para os lados com um nervosismo assustador. Uma sombra maligna pareceu escurecer sua face do jovem soldado.

– Está doente? Isso é sangue em sua camisa?

O péssimo estado do soldado era notório há milhas de distância. Era preocupante para Amália ou qualquer outra pessoa ver Haus desta maneira. Era impossível explicar sua condição ou pelo que passou. Nunca conseguiria fazê-la acreditar. Nem tentou. Antes, percebeu algo estranho no corpo da amada.

– Sua barriga? Está maior?

– Sim, Haus. Estou grávida!

A grande barriga de Amália era facilmente visível sob seu largo vestido. Não deixando dúvidas de suas palavras.

– É meu? – O soldado gaguejou como nunca.

– Não, Haus. É do meu marido!

As lágrimas jorraram. O soldado ficou pálido como a parede da casa.

– Como pôde fazer isso comigo?

O soldado gritou descontrolado. Qualquer tentativa de acalmá-lo era em vão. Ele gritou mais alto.

Amalia então explicou:

– Meu pai me falou que estava morto, tinha se afogado no mar.

– O seu pai mentiu. Oh, ele mentiu, me enviou para a ilha. Itamaracá. Estive lá todo esse tempo. Pensando em ti, Amália. Em ti!

A bela jovem baixou a cabeça. Uma lágrima caiu de seus olhos.

– Eu não sabia.

– Não importa! – Pela primeira vez, o soldado mostrava firmeza na voz. Não durou muito. – Vamos fugir comigo. Temos que ficar juntos. Podemos ir para a mata. Pedir acolhida ao governador Albuquerque.

– Para a mata? Está louco?

– Pelo menos, estaremos juntos. É tudo o que importa.

Amália não conseguiu olhar o jovem rapaz. Fitou o chão.

– Meu lugar é aqui, Haus, com meu filho e com meu marido.

– E quanto a nós? – ele suplicou.

– Seremos sempre um sonho adolescente – ela fungou suas lágrimas. – Não posso cuidar do meu filho na mata junto aos selvagens.

– E quanto a nós? – Haus repetiu aos prantos, em tom de insanidade.

– Eu sinto muito.

Haus estendeu a mão, mas Amália só se afastou. Não desejava sequer o toque do rapaz.

Haus continuou a chorar. Tentou se aproximar novamente. Ela se afastou mais. Fechou a porta da sua morada. Fez o triste soldado deixar o local. Fez com que caminhasse a esmo pelas ruas do Recife. As horas se passaram. Enfim encontrou um beco escuro e sujo. Ali se deitou, ficou imóvel.

Esta foi a parte que Haus recebeu nesta guerra.

 

***

 

Era o terceiro na batalha da Paraíba. Sobre as muralhas do Forte Cabedelo, um dos capitães espanhóis chamado Manuel Godim, realizava bravatas contra o exército holandês. Todos seus companheiros lhe solicitavam que descesse da muralha, mas ele, em meio a risadas, continuava a ironizar os adversários utilizando sua pequena estatura.

– Ainda que me façam boa pontaria, não poderão me acertar!

Ele assim o fazia por ser o mais baixo que um homem podia ser, sem ser anão. Foi quando, sem embargo de seu tamanho, uma bala de canhão holandesa lhe acertou, o fazendo em pedaços. Assim, começou o novo avanço dos holandeses sobre Forte Cabedelo. Os holandeses voltaram a ficar dentro do alcance da artilharia espanhola. Conseguiram reocupar o acampamento entrincheirado que no dia anterior deixaram para trás.

No dia seguinte, quarto dia de batalha, chegou um socorro enviado do Forte Bom Jesus ao governador da Paraíba. Os espanhóis atacaram tão resolutos que obrigaram os holandeses a recuar outra vez para fora do alcance da artilharia espanhola. A guerra mais parecia um jogo de Cabo de Guerra. Quando dentro dos alcance da artilharia inimiga, os holandeses se viam obrigados a recuar, mas quando fora do alcance, podiam reconquistar a posição.

Enfim no quinto dia de batalha, a companhia do major Berstedt foi enviada pelo mato para atacar o inimigo. Os espanhóis se apresentaram num pequeno prado do outro lado do rio.

– Alto! O inimigo está em frente!

Era Richshoffer quem proferia as ordens. Tomava a frente de um pequeno grupo de sua companhia. Mal terminara suas palavras, o tiroteio começou. Todos os outros tomaram cobertura atrás das árvores e arbustos enquanto outro soldado praguejou assustado.

– Schit! Estes espanhóis estão em todos os lugares.

O grupo era na maioria de soldados novatos recém-chegados. Assim, o praguejar foi logo retrucado pelo veterano Richshoffer.

– O inimigo não é idiota! Nós é que temos que abrir nossa passagem!

A repreenda do soldado de Strasburgo calou o novato.

– Deixa eu mostrar como se faz – o veterano retomou ao perceber o medo dos inexperientes soldados.

Começou a explicar.

– Primeiro, espera os inimigos atirarem.

Atrás da cobertura das árvores, Richshoffer esperou os disparos espanhóis minguarem. Quando estes já estavam bem espaçados, voltou a falar.

– Depois apóiem seus mosquetes nos ramos dos arbustos a fim de poderem fazer melhor pontaria.

O Strasburguês continuou com ar professoral.

– No momento certo, basta atirar!

Richshoffer ergueu a cabeça para fora dos arbusto. Procurou um alvo. No entanto, algo o interrompeu. Pareceu que lhe acertaram a cabeça com um grande tijolo. Caiu de costas com seu mosquete.

A dor veio depois. Compreendeu no mesmo momento que o inimigo lhe acertara um belo de um mosquetaço. No chão, ficou um bom tempo com uma dor lancinante na fronte esquerda. Tudo escureceu. A mente se esvaiu. Ficou apenas a última memória antes de tudo se apagar. Era a visão do franco-holandês Charles de Toulon em pé sobre seu corpo caído. Olhando-o de cima para baixo. E dizendo-lhe:

– Deus te console, Strasburguês! Apanhaste tua parte nesta guerra!

 

Cidade de Olinda por autor desconhecido.

A Proposta Holandesa

Brasilianos

8

23 de Novembro de 1631

Não vendo qualquer movimentação de soldados na Vila de Olinda, resolveu o capitão-mor enviar um socorro à Paraíba. Julgando cada vez menos postos de vigia na vila, era provável que os holandeses tentassem uma facção em outra localidade. E como a Paraíba era o que mais se podia temer, não só ordenou que as forças paraibanas que estava em Pernambuco regressassem, como também ordenou que fossem com eles o capitão Aleixo de Aza, como soldado experiente; o capitão Diogo Paes, que também era engenheiro de fortificações; e o capitão Manuel Godim, com sua companhia.

As suspeitas do capitão-mor quanto a um ataque à Paraíba foram aos poucos se tornando reais. As notícias que ia tendo, pelos rendidos e prisioneiros, davam cuidado de que o inimigo embarcava munições e todo necessário para alguma impugnação. Receando que seria a Paraíba, despachou todos os dias aviso disso ao seu governador. Quando o ataque foi confirmado, mandou que marchassem, as quatro companhias castelhana do socorro que não chegariam a duzentos homens, governadas pelo capitão mais antigo, D. João de Xereda, e também preparou o conde de Bagnuolo, caso fosse necessário.

Quanto à Vila de Olinda, os holandeses não despacharam suas forças aos pontos necessários para defendê-la. Pareciam mais preocupados com as fortificações no Porto do Recife. Era algo que intrigava os irmãos Albuquerque.

– É uma armadilha – concluiu Duarte.

– Não podemos mais esperar – respondeu Matias.

Este asseverava o olhar na vila que um dia governou.

– Ordenarei que todos preparem suas forças – continuou. – Tomaremos a cidade ainda hoje.

Poucas coisas deixavam o capitão-mor mais inquieto que não conseguir predizer o que estava acontecendo. Era um homem metódico e introspectivo. Analisava todas as possibilidades. Esperava sempre o melhor, mas também estava preparado para o pior.

No entanto, este pior era mais terrível do que era capaz de conceber. Ele não pôde acreditar. Estava em sua morada no Forte Bom Jesus, num grande salão, onde os líderes dos exércitos aliados se debruçavam sobre um grande mapa da Vila de Olinda, com pequenas pedras representando as forças de ambos os lados do conflito. Juntos, organizavam os planos de ataque para a reconquista dela, revendo possíveis escaramuças, prováveis armadilha e planos de retaliação aos piores cenários. Este foi o momento em que a bela Ana Paes e o amigo Domingos Calabar adentraram o local.

A jovem mulher de olhos verdes mal conseguiu proferir tímidas palavras quando lhe entregou documentos com o selo da Companhia das Índias Ocidentais.

–  Eu sinto, Dom Matias.

O capitão-mor tomou estes documentos em suas mãos. Pôs-se a ler em silêncio. As emoções em sua face foram rapidamente mudando. Era facilmente lidas pelos líderes ao seu redor.

Primeiro, veio a surpresa.

Depois, o desespero.

Enfim, o ódio!

Suas mãos se contraíram quase involuntariamente, crepitando o documento. Ele nada falou. Deixou o salão, calado. Caminhou aos aposentos mais internos de sua morada.

A explicação do que acontecia ali veio na voz de Domingos Calabar.

– O coronel Van Waerdenburch nos contatou através de uma antiga linha de comunicação com a senhora Ana Paes. Disse que vai abandonar totalmente a Vila de Olinda. Não deseja mais defendê-la. Disse que todos os seus prédios estão tomados com archotes alcatroados e outros meios incendiários. Está ameaçando destruí-la.

A garganta de Calabar engoliu seco antes de continuar, com suas mãos tentando folgar o colarinho do casaco que pareceria lhe suforcar.

– O coronel holandês disse que se nossas forças se aproximarem da vila ou se não pagarmos algumas mil caixas de açúcar até amanhã, mandará atear fogo às casas, para que tudo seja devorado pelas chamas!

 

***

 

Matias estava sentado nos aposentos de sua morada, debruçado sobre uma escrivaninha improvisada. Ele ponderava sobre a proposta holandesa que lhe foi apresentada, alguns dias atrás, no cerco aliado. Era uma proposta detentora de tamanha audácia e total falta de escrúpulos que Matias não conseguiu acreditar em seu conteúdo quando a leu pela primeira vez. Os vis holandeses, incapazes de deter o avanço das forças aliadas, tanto por terra quanto por mar, e incapazes de defender o percurso ao Porto do Recife, constantemente emboscado pela Resistência, solicitaram um resgate exorbitante para lhe entregar a vila de Olinda. Eles decidiram abandoná-la. Ameaçaram incendiá-la por completo caso o valor solicitado não fosse lhes entregue.

Loucos!, Matias não conseguia acreditar. Os holandeses ainda queriam lucrar nesta situação, tomando como refém a própria vila. Ele se debruçava sobre a escrivaninha para escrever uma resposta. Já terminara há algum tempo, mas estava ali, sentado, ainda imaginando as conseqüências das suas palavras na carta. Foi quando Ana Paes entrou na tenda.

– Então, Dom Matias? O que decidiu quanto a proposta holandesa?

Matias manteve o silêncio, hesitante por um segundo. Ana notou a amargura que acometia sua alma. Ela se aproximou. Tocou-lhe gentilmente o ombro. Um calor irradiou do peito de Matias por todo seu corpo ao sentir o toque macio de sua pele. Era tudo o que precisava neste momento.

Ela repetiu a pergunta. Enfim ele respondeu:

– O que espera que eu responda?

– Então fale-me que resposta é essa, Matias, pois não estou certa da sua decisão. Afinal, Olinda foi fundada por seu avô. Foi passada através das gerações pela sua família. Foi o seu lar. Negar o preço holandês é selar sua total destruição.

Matias fitou os olhos em Ana. Nada falou. Manteve o silêncio por mais algum tempo. Pressionou os olhos para lhes retirar o cansaço. Procurou palavras para descrever o que estava sentindo. Nada veio em sua boca. Apenas estendeu a mão ao dizer:

– Esta é a carta que enviarei aos holandeses. Tudo que permeia minha mente está escrito aqui.

Matias entregou esta carta a Ana Paes, que realizou uma silenciosa leitura. Ao fim, foi a vez dela manter o silêncio. Longos instantes mudos persistiram enquanto ela procurava palavras para expressar sua opinião.

– Eu realmente não gostaria de estar em seu lugar agora – por fim, falou.

– Sinto doer meu peito ao reler estas palavras – Matias respondeu. –  Embora tal decisão seja penosa para mim, ela é a única aceitável!

Matias recebeu a carta das mãos de Ana e a reabriu para realizar sua leitura em voz alta. Lá estava escrito.

– Os pernambucanos com armas na mão. Não compram. Eles conquistam. Eles sabem dar cargas de balas de mosquete. E não caixas de açúcar. Com inimigos a quem falta fé são instáveis os contratos que firma o sangue e de nenhuma firmeza os que afiança a palavra. Queimai Olinda, se não podeis guardar, que nós saberemos edificar outra melhor!

 

***

 

No dia seguinte, as botas de couro do capitão-mor Matias de Albuquerque enfim pisaram no solo gramado da Vila de Olinda depois de vinte meses, desde que os holandeses a conquistaram. No entanto, a grama perdeu todo o seu verdejante, se tornou negro-amarelada depois que os holandeses colocaram fogo em toda cidade. Os edifícios coloniais, multicoloridos, agora eram cinzas e mais pareciam as brasas de uma fogueira. A cena de destruição era horrível. O cheiro de fumaça era irritante para a garganta e o nariz.

Era 25 de novembro de 1631 quando os holandeses deixaram em chamas toda a vila de Olinda, que tinha mais de 2,500 habitantes, com quatro conventos religiosos: de São Bento, de São Francisco, do Carmo e um colégio de jesuítas. Havia mais duas paróquias, uma Casa de Misericórdia e a da Casa de Conceição de mulheres recolhidas, sem contar as ermidas. O que se pode dizer sem grande e devido sentimento, é que também deixaram nas chamas todas estas igrejas e conventos, com as santas imagens desfeitas.

No dia seguinte, acudiram ali muitos moradodres, com aquele carinho de quem havia vivido e se criado ali. Tinham o desejo de remediar o incêncio e ruína de suas casas. Foi um miserável espetáculo. Assim ardeu a infeliz vila de Olinda tão afamada por suas riquezas, nobres edifícios e famosos templos. Era por esse triste cenário que Matias caminhava. Passou pelo que sobrou da praça principal da vila, onde ficava sua antiga morada e onde a feira era realizada todo domingo. Lembrou que antes era tão florida, agora, só restaram cinzas.

– Tentamos de tudo, Dom Matias. Não sobrou nada para reconstruir!

A voz de Ana Paes lembrou a Matias que ele não era o único no cenário. Muitos dos antigos moradores ainda traziam baldes de água, para apagar os focos de incêncio que teimavam em persistir. Ana Paes estava entre eles, com seus escravos e carros de boi, que tanto trabalharam nos últimos meses. Infelizmente, para Matias, se a voz da jovem moça era melodiosa e reconfortante, agora mais parecia lhe doer os ouvidos. Ele não desejava ouvir a voz de ninguém naquele momento, muito menos da mulher que o rejeitou dias atrás.

Ele mal parou para respondê-la. Suas palavras eram propelidas mais pelo cargo capitão-mor que pela pessoa de Matias.

– Pelo menos, conseguiremos a vitória na Paraíba – falou sem entusiasmo. – Enviei meu irmão com as companhias do Conde de Bagnuolo para defender. Ganharemos lá, para depois ganharmos aqui.

De fato, as notícias que chegariam nos dias seguintes seria de vitória na Paraíba. Os holandeses foram derrotados. Tiveram que deixar aquelas terras e retornar para seu último reduto do Porto do Recife. Nem isso confortou o capitão-mor. Este deixou Ana Paes para trás em seu contínuo caminhar. Era acometido pelas lembranças do antigo irmão bastardo, que tinha seu mesmo nome de batismo. O nome realmente lhe pareceu agora tão fadado ao fracasso.

O caminhar terminou na parte mais alta da vila de Olinda. O olhar pousou sobre o Porto do Recife, onde os holandeses concentraram suas forças. Era um local bem mais defensável.

A visão dos exércitos holandeses fez Matias fechar os punhos. Os olhos se cerraram ainda mais. A guerra não havia acabado. Mesmo ao longe, Ana Paes observou a figura solitária do capitão-mor, em pé, com os punhos fechados, o corpo trêmulo e os olhos vermelhos. Percebeu algo diferente nele. Percebeu que não havia mais a mesma esperança, determinação ou vontade de lutar que antes tanto causava nela admiração.

Percebeu que o sentimento que lhe moveria nesta guerra contra os holandeses agora não era outro senão o ódio!

 

 

 

Continua em …

Traição em Alagoas

 

 

Gravura de esquadra holandesa no livro de Caspar Barleaus

 

 

Epilogo

Nobreza

25 de Novembro de 1631

O Conde-Duque de Olivares estava em pé em seu escritório na torre dourada. Estava com ambas as mãos sobre a escrivaninha, apoiando seu pesado corpo sobre ela. Observava os vários homens do outro lado da mesa. Estavam todos vestidos com elegantes roupa e mantinham uma imponente postura. Mais pareciam donos de todo o castelo de El Alcázar. E, embora não fossem, bem poderiam ser. Afinal, eles eram ao representantes dos mais poderosos bancos do mundo. Veneza. Gênova. Portugal. Estavam a serviço dos homens mais ricos do mundo ao ponto de causarem inveja em monarcas e imperadores.

A reunião chegava ao seu fim. Os banqueiros acabaram de escutar as palavras do Conde-Duque. As solicitações que este julgava mais urgente. E tudo se resumia a um único número.

– Trinta milhões de ducados de ouro? – disse um deles.

O Conde-Duque acenou a cabeça positivamente. Ele, que acabara de solicitar no valor em questão, se assustou ao escutá-lo em voz alta. Era uma quantidade de dinheiro imensa. Para se ter uma idéia, o Reino Ibérico arrecadava dez milhões de ducados de ouro anualmente de impostos aos seus súditos. Era possível combater três vezes a dispendiosíssima guerra de Mantova. Era capaz de financiar cinco anos de guerra contra a Holanda.

O cálculo da taxa de juros era ainda mais assustadora.

– Entende que isso significa sete milhões de ducados anuais até que se consiga pagar tudo ao fim da década?

O Conde-Duque desabou em sua cadeira. Sentiu-se derrotado.

– Entendo perfeitamente –  falou como um lamento. – Estou ciente que o Reino está sendo extorquido por banqueiros e que estamos a mercê das chantagem de suas Casas Reais. Entendo tudo isso!

O ranger de dentes foi escutado por todos os presentes. Por fim, proferiu amargamente.

– Infelizmente, também não temos outra opção.

A cabeça do Conde-Duque pareceu explodir com a lembrança dos fracassos nesses últimos três anos. A guerra em Flandres só trouxe prejuízo. A Frota da Prata foi saqueada. A capitania de Pernambuco estava tomada. O Império Romano-Germânico foi neutralizado. O Ducado de Sabóia mudou de lado. O Ducado de Mantova estava perdido. Até o Forte Pinerolo continuava em mãos inimigas. Eram gigantescas derrotas em cada campo de batalha.

Estes certamente foram os piores anos da vida do Conde-Duque de Olivares embora a perspectiva para os anos seguintes eram ainda piores.

Ele se via obrigado a assinar um documento que destruiria toda a economia ibérica pelos anos vindouros, com emprestímos altíssimos e juros obscenos. No entanto, a reputação perdida no norte italiano era ainda mais dolorosa, pois buscar a revanche contra os franceses era uma loucura. Os custos de uma nova guerra destruiriam toda possibilidade de recuperação financeira. Era necessário bucar a paz com seu maior inimigo. Aceitar a derrota. Assumir que o Reino da França se tornava agora a maior potência militar e econômica de toda a Europa.

O Conde-Duque já conseguia escutar, claramente em sua mente, a voz esganiçada do cardeal Richelieu dizendo: – Xeque-Mate!

 

 

Epilogo

Holandeses

 

5 de Dezembro de 1631

A dor lancinante na fronte era impossível de suportar. O sangue em abundância cobria todo rosto de Richshoffer. Embaçava seus olhos com tons rubros e escorria por seu corpo. Os sons de tiros de mosquete, estrondos de canhões e gritos do campo de batalha retornavam ao seu ouvido, sobrepujando o zumbido que antes silenciava tudo. Sentia-se tão fraco que o pescoço mal conseguia segurar a própria cabeça.

O soldado não soube quanto tempo esteve desacordado. Apenas se lembrava de ouvir, primeiramente, a voz do amigo Spiessen. Este, que estava mais à frente do campo de batalha, retornou à posição do amigo quando soube que fora atingido.

– Meus Deus! Como está Richshoffer? – ele perguntou.

A voz de Charles de Toulon veio em seguida.

– Pensei que estivesse morto, mas, por algum milagre, ainda está respirando.

– Graças a Deus!

– Não agradeça ainda – Toulon retomava. – Eu consegui extrair a bala com um pedaço de pau. Mas ainda está sangrando muito. Não sei quão fundo penetrou no crânio dele.

– Schit! Acertaram bem em cheio na cabeça!

– Bem na cabeça! – A voz do soldado franco-holandês se elevou. – Temos que carregá-lo agora para fora daqui!

Richshoffer escutava Spiessen e Toulon discutindo sobre sua vida. E, embora buscasse todas as forças para falar que estava os escutando, nada conseguia deixar seus lábios. Algo parecia lhe impedir. Pensou, por um momento, que poderia mesmo estar morto. Afinal, os mortos não falam.

Felizmente, ao latejar da cabeça, um murmúrio lhe saltou da garganta.

– Onde estou?

Foram as únicas palavras que Richshoffer conseguiu proferir. Foi o soldado Charles de Toulon foi quem respondeu de forma mais verdadeira e cheia de sentidos que sua mente era capaz de processar neste momento.

– Certamente não está no paraíso, Strasburguês!

As palavras de Spiessen vieram em seguida. Tão cheias de felicidade que era incapaz de se segurar. Estava admirado por ver o amigo voltando a si, ainda mais se pondo novamente de pé.

– Graças a Deus, está vivo, Richie – então, sorriu. – Parece que sua cabeça é mais dura do que pensávamos.

 

 

Epilogo

Brasilianos

1º de Janeiro de 1632

Um soldado pernambucano trouxe um prisioneiro holandês ao seu capitão, dizendo que este se deixou capturar. Não obstante, o capitão pernambucano levantou seu mosquete com ambas as mãos. Encostou o cano contra a cabeça deste holandês, que tinha suor escorrendo por sua careca e o medo se espalhando pelos olhos azuis. A proeminente barriga dificultava que se mantivesse ajoelhado, mas este proferiu palavras em sua defesa.

– Meu nome é Joers.

O holandês começou a argumentar por sua vida.

–  Sou católico e venho em nome do coronel Waerdenburch. Tenho a missão de lhe contar as vantagens de passar para o lado holandês e dos benefícios de nossa governança. Meu avô sempre me disse que tudo pode ser conversado desde que nenhuma das partes possa sair com prejuízo

O capitão pernambucano pressionou a arma com mais força contra a cabeça do holandês.

– Algumas semanas atrás, outro holandês me ofereceu uma pequena fortuna de dez mil florins com esse fim. Quando recusei, ele dobrou a oferta – os olhos desse capitão se acirraram. – Sabe o que eu fiz?

A garganta do mensageiro Joers secou.

– Sei sim, senhor. O corpo do meu antecessor chegou à Nova Holanda com uma carta amarrada sobre o buraco de bala em sua testa. A mensagem que o senhor enviou foi muito bem entendida.

Um sorriso irônico se desenhou na face do capitão pernambucano.

– Presumo que não veio dobrar a oferta outra vez.

– Sei bem que nenhum ouro no mundo mudará sua opinião

– Então, percebe que seus líderes o enviaram numa missão suicida?

– Não foram eles que me enviaram – o holandês respondeu. – Eu mesmo quem os solicitei a oportunidade de falar com o senhor. Sei dos seus problemas com o provedor-mor das finanças desta capitania antes da invasão por causa dos impostos abusivos da Espanha e de sua atual revolta com a entrega dos cargos de liderança pernambucanos ao Conde de Bagnuolo.

A face do capitão pernambucano se avermelhou furiosamente.

– Sabe demais, holandês – a voz demonstrou escárnio. – E está me irritando muito!

A mecha de fogo do mosquete foi posicionada na posição de tiro.

– Espere – Joers levantou de imediato uma carta que possuía em suas mão. – Como último desejo de um colega católico, meu senhor, imploro que pelo menos leia este documento que lhe trago. São os planos dos nossos Diretores Holandeses para estas terras, com as vantagens aos seus moradores caso se afastem do jugo de uma monarquia tirânica para se integrar à uma república liberal como as Sete Províncias da Holanda.

As palavras seguintes do capitão pernambucano foram inflexíveis.

– Nunca trairei minha amada terra ou meu povo.

A mão de Joers se manteve levantada com a carta na mão.

– Vim convencê-lo de que só poderá se manter fiel ao que acredita através o governo holandês – um novo aljôfar de suor desceu da larga testa. – Minha pátria não é de demônios como seus padres e governadores fazem parecer.

O gatilho da arma roçou no guarda-mato enferrujado.

– Nem tudo é certo ou errado, bem ou mal, há muitos tons de cinza entre os preto e o branco – o prisioneiro fechou os olhos ao proferir.

Já esperava a morte chegar.

O capitão pernambucano cerrou os olhos mais fortemente no holandês. Tensionou o dedo no gatilho com mais ferocidade. Era um momento que definiria, não apenas o futuro do mensageiro holandês, mas de toda a Resistência organizada por Matias de Albuquerque. A arma então retornou ao coldre. A carta foi abraçada pelos dedos e aberta aos olhos do capitão.

– Tudo bem – este falou. – Vejamos o que está escrito aqui.

Um sorriso surgiu na face de Joers, era tudo o que desejava ouvir.